Doce

Doce

— Você demorou demais pra voltar aqui.

— Doutor, foi essa pandemia, sair de casa…

— A situação está no limite: se você tiver qualquer contato com doce, acabou. Sua diabetes está em um nível que algumas literaturas consideram insustentável.

— Mas, doutor.

— Sem mas. O fato é este. Se cuide e mantenha contato comigo para qualquer dúvida.

Apertou o botão do elevador com o desespero de quem não tinha escrito o testamento e a esperança de ter netos e bisnetos. Entrou quando a porta abriu para aquele lugar estranho e apertou o botão do térreo antes de perceber a estranheza. Espaço vazio, ocupável pela lotação de até 6 pessoas, mas com apenas uma, nada de estranho depois de tanto tempo de isolamento social. Nos últimos centímetros da porta que se fechava percebeu: o cheiro. Que perfume horrível, enjoativo, exagerado, desnecessário, incômodo, enjoativo (já tinha pensado nisso) e doce! Muito doce! Horrivelmente doce. Enjoativamente doce! Exageradamente doce! Desnecessariamente doce! Incomodamente

O corpo ainda estava quente quando a porta do elevador abriu. Foram somente três andares.

Gustavo Burla

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