A mulher estranha

A mulher estranha

Tem uma mulher estranha na minha casa. Às vezes a vejo do lado de fora, sobretudo à noite. Acendo a luz — da cozinha, do quarto, da sala — e lá está ela me encarando pelos vidros das portas das sacadas e da janela. Noutras vezes, porém, ela não se limita ao exterior e me segue pelos cantos. Dou de cara com ela no banheiro, quando acordo, e levo um susto porque não estava esperando encontrar com alguém ainda de olhos inchados, antes mesmo de escovar os dentes. Ela me segue no chuveiro, e me observa nua do outro lado do box. E é perplexa que a vejo também nua e me constranjo, como se eu é que tivesse invadido sua privacidade, sem licença. Ela fiscaliza das torneiras minhas mãos ensaboadas e das colheres me segreda confissões e censuras. Atravesso o pequeno corredor, observando seus pés tropeçarem pelos quadros apoiados no chão, e fico aflita com a possibilidade de que ela quebre os vidros das molduras com um chute e que se corte. Se me sento ao computador, sua silhueta de sombra me encara de frente, pouco nítida mas vigilante, como numa videoconferência com sinal ruim. E mesmo se pego o celular simplesmente para olhar as horas, é quase como se adivinhasse seus olhos verdes por trás do verde-mar da minha proteção de tela, a única coisa que parece ainda ter proteção aqui.

Táscia Souza

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