Feito bala soft

Feito bala soft

Ela é quietinha, diziam. Calada e mansinha assim mesmo, diziam. Diziam: diga alguma coisa dura, menina, palavras não são de morder. Testou o desafio uma vez no ônibus, a caminho da escola. Em vez de triturar letras com os dentes e simplesmente engolir, experimentou chupar uma frase inteirinha, sem mastigar, saboreando sua doçura ácida devarinho. Não se lembra bem se foi um solavanco do ônibus ou não, mas de repente um predicado entalou-se em sua garganta. Não consigo respirar, não disse. Acho que vou morrer, não disse. Não disse: agora mesmo que não consigo dizer mais nada. Só ficou roxa, roxa, chiando de um jeito assustador. A mãe se apavorou. Os outros passageiros também se apavoraram. A mãe desceu do ônibus puxando-a pela mão. Os outros passageiros colaram suas testas no vidro da janela para ver a mãe sacudindo-a e apertando-a e desesperando-se até que fossem um borrão sem ar a distância. Não viram quando o naco de oração desagarrou-se da glote e desceu arranhando, impulsionado por instinto de sobrevivência e saliva. Não ouviram quando o que sobrou na língua foi gosto de suspiro aliviado e silêncio. O roxo aos poucos deixou o rosto e os verbos imperativos demais deixaram de ser sobremesa. Se fosse para ser obrigada a falar a partir de então, que fossem apenas coisinhas macias. 

Táscia Souza

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