Translação

Translação

Pensei: tudo bem. Pensei: um ano não é muita coisa. Pensei: um ano são só 365 dias e seis horas em torno do sol. E são só 12,36 ciclos lunares. E são só 12 centímetros de crescimento capilar absoluto, sendo que uma parte disso é de pontas duplas e ressecadas e que precisam ser cortadas, de modo que, em termos relativos, o cabelo nem cresce tanto assim. Pensei: um ano pode até ser muito de um parto a um passo, mas é um grandíssimo nada do septuagésimo nono inverno até o octogésimo verão — a não ser, é claro, pela perspectiva de ser vacinado mais rápido. Pensei que então eu poderia conviver com a ideia de adiar nosso primeiro encontro por um ano, esse grande piscar de olhos de um ano inteiro. Que poderia trancar-me por dentro da porta fechada da minha casa numa segunda-feira do meio de março e abri-la na terça-feira em que esse gesto completasse seu primeiro aniversário e só aí, um ano depois, finalmente esbarrar em você. Pensei que você sorriria e diria que tinha esperado esse ano inteiro para me conhecer, mas que tudo bem assim porque um ano não é muita coisa e são só 365 dias e seis horas em volta do sol e só 12,36 ciclos lunares, o que é bem pouco pelo tanto de arrebóis e luas cheias que ainda iríamos ver juntos. Mas agora penso que é de novo uma segunda-feira do meio de março. E penso que estou novamente trancada porta de casa adentro. E penso que, se eu abrir a porta na terça — se, apesar de todas as recomendações contrárias, eu abrir a porta na terça —, a gente talvez, de qualquer jeito, não se esbarre mesmo por aí, enfim. Porque, penso, um ano são também quase 280 mil mortos e nunca saberei se algum deles era você. 

Táscia Souza

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