O portal

O portal

Fazia tempo que desconfiava que em sua casa habitava também um portal dimensional. A princípio suspeitara que sua localização fosse um dos pisos quadriculados do banheiro, porque era lá que grampos costumavam desaparecer assim que os soltava do cabelo. E não adiantava ajoelhar-se no chão e vasculhar cada centímetro, às vezes munida de uma lanterna. O grampo que ora existira de repente não existia mais, ao menos não ali, como que sorvido para outro lugar.

Aos poucos, porém, percebeu que o portal migrava pelos cômodos. Às vezes se abria no tampo da mesa de estudos, de onde tragava tampas de caneta bic e clipes de papel. Em outras, escancarava-se dentro da máquina de lavar ou da gaveta de roupas íntimas, nas quais pés de meia despareados desesperavam-se solitários sem seus iguais. E havia ainda as ocasiões em que o portal se transformava em buracos de minhoca, quando um elástico de cabelo ou uma nota de dinheiro desaparecidos do fundo da bolsa ressurgiam meses depois, misteriosamente, no bolso da calça jeans. 

Só ainda não soubera explicar — e isso estava em investigação — em que momento, em vez de sugá-la, o portal é que fora parar dentro de sua cabeça, levando embora suas memórias. 

Táscia Souza

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