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Entre tantas manias, a da escrita prevalece.

“Sob o lodo há mais gente que suspira”

“Sob o lodo há mais gente que suspira”

Nas bordas do buraco escuro que é a minha garganta, acumula-se a lama que meu fígado expeliu. Viscosa, ela engrossa minha saliva. Minha língua se contraí em uma tentativa inútil de engolir a mistura pastosa e escura que, grudada nas amídalas, aos poucos me sufoca. Bebo um gole d’água. A lama raleia, se espalha pelo restante da boca, gruda nos dentes e volta a engrossar. Tento cuspi-la, mas minha língua prega-se ao céu da boca e é só com grande esforço que eu separo meus lábios quase colados.

Sorte, quase sorte. Se conseguisse cuspir, todos finalmente veriam as substâncias repulsivas que produzo por dentro. Se conseguisse ingerir, aos poucos a lama entupiria minha faringe, esôfago, estômago e intestinos. Eu me tornaria pesada e meus pés afundariam, não no barro, não em um pântano, mas no asfalto duro da cidade que começa a me devorar.

Fico, portanto, com a lama a meio caminho, nem fora, nem dentro. Na boca. De início o gosto é amargo, repulsivo. Com o contato prolongado, porém, as papilas gustativas se acostumam ao gosto acre e, arrisco a dizer, chegam até mesmo a saboreá-lo. Amargo e amado o gosto da derrota.

Raíssa Varandas

Fardo

Fardo

O sinal estava fechado quando, através da janela do carro, percebi a pequena figura em uniforme escolar que vinha cambaleando pela calçada. Passo após passo, as pernas da menininha oscilavam sob o peso de uma sacola de tecido desproporcional ao seu tamanho. Pendurada no ombro esquerdo, a bolsa dava ao andar da pequena um aspecto desengonçado que apenas a pouca idade era capaz de tornar adorável. Logo atrás a mãe vinha carregando a mochila e a lancheira, atenta a cada movimento da filha.

A insistência em carregar a sacola que se arrastava pelo chão, em contraponto com o aparente desapego que a criança destinava ao restante do material escolar, demonstrava que ali dentro guardava-se algo especial. Um segredo ou um pequeno tesouro. Curiosa, apertei os olhos e tentei desvendar as palavras bordadas no tecido azul: “Sacola literária”.

Livros, era esse o tesouro que tombava o corpo da menina. Com um movimento involuntário, virei o pescoço e encarei o meu próprio ombro, constantemente dolorido. Percebi no andar da pequena o mesmo andar coxo que eu mesma traçava pela vida. Ora a perna esquerda, ora a direita, sempre se torcendo sob a carga de palavras que eu colhia pelo caminho. Séculos de literatura pesando o corpo.

Mas como aquela criança de andar torto e ainda assim determinado, eu me agarrava à bagagem, cada dia mais pesada, com desejo insaciável. Nos passos vacilantes o prazer de uma nova letra adquirida.

Raíssa Varandas

Gestação

Gestação

Os enjoos matinais foram o primeiro sinal. A náusea repentina que lhe contraía a garganta em repulsa ao cheiro do café. Pouco depois vieram os desejos. Sua fome ansiava por misturas de gostos que antes pareciam peculiares ao metódico paladar. Em um mesmo prato degustava Rimbaud, bulas de remédio, pichações nos muros da cidade e poemas impressos em papel de pão. Mário e Oswald de Andrade acompanhados de um livro de receitas de carnes exóticas. Generosas porções de Shakespeare refogado com as notícias de jornal e os filmes em cartaz. Os sinais, diante de olhos bem treinados, já anunciavam a nova chegada, mas para ela a certeza só veio mesmo quando sentiu que algo crescia dentro de si.

No começo era apenas uma ideia, minúscula, do tamanho de uma letra isolada em líquido amniótico. Em poucas semanas, porém, da ideia que era quase letra formou-se uma palavra completa. Era curta ainda, mas já carregava as potências da linguagem. O apetite lascivo aumentava diariamente e ela se fartava com os grandes autores, com os autores nem tão grandes assim, com a voz do piano e da guitarra, com as piadas online e os anúncios nas revistas. Tudo que era texto, tudo que era língua, som ou cor ela tragava para dentro de si. Depois vomitava, porque a gula fora intensa.

Entre o comer e o vomitar, a palavra dentro dela, que antes era só ideia, deu origem a outra. E das duas palavras unidas, alinhavadas com fio bambo, outras tantas brotaram costurando-se em possibilidades. A ideia embrionária multiplicou-se em tecido de letras preparando-se para o parto: surgiu a escrita no papel. Mas a gestação de um texto é sempre infinita, ainda que dure um dia ou nove meses, ela se perpetua pela vida.

Raíssa Varandas