No radinho

No radinho

Galera reunida na rua pra ouvir jogo no radinho de pilha, cerveja na calçada, grito de gol coreografado.

Turma reunida no bar pra ver o jogo na telona, cerveja na mesa e um grito de gol isolado de algum lugar antes do gol na tela e o bar coreografado.

Família em casa vendo jogo em HD, cervejas pelos copos, vizinhos comemorando e jogador arranjando a bola pra cobrar.

Amigos íntimos vendo streaming na sala, cerveja gelando na geladeira, todo mundo comemorando gol pelo mundo e eles esperando apito inicial do juiz.

Gustavo Burla

Rosário

Rosário

Cada Ave Maria é uma rosa ofertada, com devoção, à Nossa Senhora, dizia o padre, todos os anos. Se assim era, Domingos perdera a noção de quantos buquês oferecera à Virgem Mãe. Não que o artesão soubesse rezar. Algumas palavras da oração tinham pronúncia difícil e, por qualquer razão que ele não compreendia, os cabelos cada vez mais brancos em contraste com os sulcos cada vez mais fundos no rosto negro tornavam o esforço de lembrar um pouco mais duro. Mas era de seu capinzal-rosário que havia saído cada conta-de-lágrima única que, presa à linha que ele cuidadosamente tecia, servia para que os fiéis que chegavam todo mês de maio, em romaria, repetissem suas rezas. 

Fora assim até o fogo destruir o capinzal. Desde então, sem perder a fé, Domingos colhe do rosto, com uma pinça diante do espelho, as contas molhadas dos futuros terços.

Táscia Souza

Coelho branco

Coelho branco

Criança quer ganhar ovo de coelho na Páscoa desde o século XVI, e o coelho junto. Minha Alice ganhou o dela e tratava como filho ou melhor amigo, não sei explicar. Brincava o dia todo e só não dormia com ele porque mostrei a quantidade de cocô que ficava na casinha de manhã. Despedia quando ia pra aula e voltava correndo pra parceria.

O tempo passou e a amizade cresceu, assim como o coelho, branco como um alvejante. Foi numa tarde de verão, com chuva torrencial, que esqueci o bicho no quintal. Quando olhei pela janela, parecia coelho de aula de genética. Quando corri atrás dele, estava todo escuro. Passei pano, escova, mão e nada: encardido.

Quando Alice chegou da escola e jogou a mochila no sofá perguntando pelo coelho, disse que a máquina estava acabando de bater.

Gustavo Burla