Reboot no sistema

Reboot no sistema

A paralise é azul. Ele a sente em cada músculo sob o traje espacial, incomunicável em órbita, flutuando. 

A paralise é laranja. Ela cobre seus olhos em duas cortinas de cabelo, escondendo a jovem de seus contemporâneos que celebram o aniversário. 

Música. A estática indistinguível da central de comando e da sala de estar é pop. Ruge nos vácuos que se formam nos dois pares de ouvidos, laranja e azul. 

“Can you hear me?” 

“Can you-“ 

“Can you-”

“Can-”

Nos documentários da TV, os icebergs derretem. Um grande ruído e blocos de gelo se soltam da paralise, em queda livre para o grande abismo. Quando ele diz tudo que tem a dizer a quem já sabe, a estática paralisada se solta e ele cai. Quando ela desiste de dizer sequer mais uma palavra a quem não ouve, a estática paralisada se solta e ela flutua. 

A ponte é estreita, laranja e azul neon. Começa no parapeito da varanda do décimo sexto andar, se estendendo para o céu azul em degraus laranjas. Ela os sobe ansiosamente, os sobe em fuga da paralise, mas seus pés se enroscam em si mesmos. Debaixo da grossa luva azul, ele para de cair. Oito dedos enganchados são o que ambos precisam para não escorregarem daquela ponte e não caírem novamente em paralise. 

Aquele tal fio do qual falavam. Aquele It. 

“Can you hear me?” 

Sim. 

Adriana Miranda

A tatuagem é minha!

A tatuagem é minha!

Tudo começou com um comentário alto demais na rua: que tatuagem feia… Tom de quem não quer nada, mas a perna da tatuagem tava sem fone de ouvido e parou e respondeu sem cuidar do volume também. Tava dito mesmo, não tinha volta, reafirmou, sem pedir desculpa ou acusar, só dizendo mesmo, mas cuspe (saliva voando do esporro, não cuspe cuspe mesmo) já pedia guarda-chuva nos óculos que nem tirou pra limpar quando esfregou a manga e devolveu que podia fazer o que quisesse e veio que podia mesmo que meu corpo minhas regras e poluição visual e a rua é pública e gente em volta que não parava de chegar e vai se foder pro seu gosto de merda e que tatuagem cada um faz a que quer e tem calça mais comprida e lugar tem que escolher com celular ligado filmando tudo e mostra quem pode quem quer e se tirar a roupa não pode é diferente mesma coisa e cuspe cuspe mesmo e segura no cabelo pede pra pedir desculpa barulho em volta e olho no olho e desculpa e beijo e que beijo putaquepariu que beijo e aplausos e mãos dadas e faz de novo amanhã?

Gustavo Burla

Em bloco

Em bloco

Hot pant: ok. Meia arrastão: ok. Sombra neon: ok. Sete potes de glitter (nas cores do arco-íris): ok. Garrafa de Catuaba Selvagem: ok. Lenço umedecido no caso de uma emergência urinária: ok. Resposta afiada para babacas de plantão: ok. O resto da letra chiclete que, para o próprio desespero, teimava em brotar na cabeça a cada minuto: ok também.

Faltava só a pochete. Não a do dinheiro trocado para a cerveja, já muito bem guardado (ok ok ok), mas uma que se camuflasse sob os olhos, por dentro das pálpebras, deixando bem guardadas as lágrimas que teimavam em lhe estragar a fantasia.

Táscia Souza