Nuvem

Nuvem

Coloque na nuvem, disseram; para não perder. Foi o que fez. Primeiro as fotos: as que estavam consumindo quase toda a capacidade de armazenamento do celular e depois as outras, mais antigas, esquecidas numa pasta na área de trabalho do computador. Mandou para a nuvem velhos textos em Times New Roman 12, os publicados e os que nunca viram a luz de um leitor. Enevoaram-se os comprovantes escaneados do Lattes há muito desatualizado, os artigos dos tempos de pós-graduação, as provas desastrosas da época da faculdade. Arquivos em mp3 de meia dúzia de músicas compostas para ninguém ouvir, juntamente com poemas escritos e jamais enviados para o grande amor da adolescência, viraram névoa.

Com computador, celular e mente vazios, quando a memória restou nebulosa e cada lembrança se fez uma micropartícula em suspensão num servidor qualquer, suspirou e deixou-se ir para as nuvens também. 

Táscia Souza

Bizarro

Bizarro

Veja só, em uma certa-feira, nos idos da minha adulta-juventude, voltava eu do trabalho à casa, levado pelos meus pés espremidos nesses sapatos desnecessários e desconfortáveis, inaptos para médias e longas distâncias — por tanto, eu era levado pelos meus pés e pela minha teimosia contumaz; o ponto de ônibus era justamente em frente ao escritório. 

Já quando eu alcançava a Rua Paracambi, desaguou uma óbvia chuva de verão (não notada pela improdutividade no ato de contemplar o firmamento). De impulso, recorri em um salto a um bar que se abrigou ao meu lado. As nuvens não indicavam tanta pressa. 

Observado, porque a camisa azul-gelo destaca o corpo sob as gotas e sob o pano, me sentei com projetada confiança e solicitei a cerveja mais em conta, dentre às maltadas; falei ao telefone como se esperasse alguém, a segunda pseudoligação foi interrompida pela voz e violão, que por sua vez sugeriu a segunda cerveja. A segunda música eu não conhecia, mas, se não estou enganado, o cantor a antecedeu dizendo que era uma releitura de Seja Você, gravada por Pitty.

Heitor Luique

Texto elaborado na oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.

 

Não acaba

Não acaba

Nas noites de encontros dos amigos eu me remoía antes de começar o ritual. Criei o ritual pra automatizar tudo, pra lidar com a falta de prazer em ter que sair de casa, em ter que sair com eles.

Banho, roupa, sorriso e bar. Com música, pessoas falando, violão tocando. Pra quê!? Também conversei, cantei, me diverti como tinha que ser. Se fosse diferente, fariam perguntas que eu não queria responder.

Gustavo Burla

Texto elaborado juntamente com os participantes da oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.