A cor da virada

A cor da virada

Foi a calcinha, tenho certeza. Eu escolhi cada detalhe. Da roupa. Dos acessórios. Da maquiagem. O vestido branco para a paz, mas com leves fios dourados na trama do tecido, para a prosperidade. O batom vermelho para a paixão. O blush rosado para o amor. A sombra verde para a saúde e o equilíbrio. O anel de turquesa que foi da minha avó, porque dizem que o azul representa a tranquilidade e a abertura para o novo. 

Mas aí teve a calcinha. Tentei todas as cores, mas estavam marcando, entende? Fui sem. Deu no que deu. 

Táscia Souza

Meninos e meninas

Meninos e meninas

para Valéria

O que diferencia meninos de meninas? Fácil: um laço na cabeça.

Da tenra infância aos primeiros passos da juventude, quando ímpetos pessoais começam a se sobrepor, minha mãe usou um laço na cabeça. Imposição da minha vó.

Depois, nunca, exceto por um leve chapéu ou delicado lenço, aceitou qualquer adereço na cabeça.

Na tensão entre viagens para aulas e pesquisas de doutorado, foi ao acupunturista. Explicou o contexto e deixou claro: na minha cabeça você não põe agulha!

— Mas aqui é um ponto que

Foi colocar a agulha na testa, no que alguns chamam de olho da mente, e a cabeça cuspiu longe o metal.

— Por que aconteceu isso!?

— Porque sou menina.

Gustavo Burla

Um dia lá fora

Um dia lá fora

Eu postei “Tem um dia lá fora” e logo em seguida o céu desabou. Não foi exatamente um logo em seguida literalmente logo em seguida, como se apenas um clique na opção publicar acionasse outros sistemas — meteorológicos, límbicos, metafísicos, místicos ou o que seja — que fizessem automaticamente as nuvens trocarem descargas elétricas entre si e se dissolverem feito algodão doce na língua e se precipitarem atmosfera abaixo e virarem, misturadas ao chão, aquela palavra que eu amo e que penetra o cérebro pelas narinas ávidas de chuva. Petricor. Aquelas nuvens, aquelas mesmo, que uma fração de segundo antes, visíveis pela janela, enfeitavam de branco um céu bem azul.

Mas eu postei “Tem um dia lá fora” e logo em seguida de algumas horas depois o céu desabou. E há de se pensar que de súbito não havia mais um dia lá fora, e sim uma profusão de cúmulos-nimbus e raios e névoa e branco e cortina d’água e fim de mundo e nem um palmo à frente do nariz e nada de azul ou de sol. Só que não. Houve tudo isso, é verdade, e um céu inteiramente desfeito terra adentro. Um céu tornado água corrente a tentar apagar o fogo de magma bem no ventre da terra. Mesmo nessa conjunção dos quatro elementos, porém, seguiu-se havendo dia lá fora. E cá dentro também.

Táscia Souza