Adoção

Adoção

Essa é minha filha.

Que linda! Um amor. E que sorriso simpático, parece muito com

Ninguém, é adotada. É nosso amorzinho, nossa filha de coração, mas vai saber que é adotada no momento que perguntar.

Acha que

Tenho certeza, precisamos ser honestos com ela.

E como vocês…?

Ficamos três anos na fila até que ela apareceu.

Viram num orfanato?

Mãe deu entrada na maternidade e fomos chamados. Ela queria deixar pra adoção, queria que a história fosse contada e aceitamos.

Que lindo, pegaram recém-nascida.

Menina foi estuprada aos 15 anos quando a mãe saiu pra trabalhar. Pediu pra ninguém da família saber que ela daria pra adoção, não queria que ninguém assumisse o bebê. Único pedido foi saber que a criança estaria em boas mãos.

Não perguntou quem?

Só queria o bem da filha, nem quis ver a criança.

E por que ficou com ela nove meses na barriga?

Nem o governo deixou que ela se perguntasse.

Gustavo Burla

Conspiração Quantum

Conspiração Quantum

A situação preocupava a comunidade científica. Era velada, sussurrada pelos corredores dos centros de pesquisa, cochichada nos intervalos das conferências, e assim mesmo interdita, o que só tornava os acontecimentos ainda mais inquietantes. Embora as conclusões não fossem fruto de fundamentos teóricos e metodológicos de investigação, tampouco de estratégias de processamento de análise de dados, eram enigmaticamente — e talvez exatamente por isso — perturbadoras.

Alguém — ou alguma organização — pelo globo assassinava físicos.

O primeiro a morrer fora um pesquisador de epitaxia por feixe molecular, que se dedicava ao aprimoramento tecnológico de dispositivos optoeletrônicos. Fora encontrado já frio em seu laboratório, olhos arregalados de pavor, mas a perda de um professor seminanônimo de uma universidade obscura da América Latina, a princípio, não importou. A partir dele, contudo, teve início uma sequência: astrofísicos, doutores em mecânica relativística, teóricos do caos. Norte-americanos, asiáticos, europeus. Professores de ensino médio. Ganhadores do Nobel. 

Uma conspiração.

Serviços de inteligência do mundo inteiro foram acionados, sigilosamente, para não alarmar a mídia nem a população. Suspeitava-se de alguma organização terrorista, conjecturava-se sobre uma possível contaminação nanonuclear, temia-se a possibilidade de que aquilo fosse o princípio de uma guerra subatômica. Não passavam de hipóteses sem chance de verificação, sem prova ou contraprova. Polícias secretas não resolveram. Governos nacionais não resolveram. Os maiores cérebros da ciência do planeta não resolveram. 

À beira de um colapso e a despeito do temor de um atentado, a Iupap (sigla para International Union of Pure and Applied Physics) convocou seus membros para um congresso clandestino e emergencial, no qual lançaram mão da expertise do único especialista em problemas aparentemente insolucionáveis que ainda não havia sido consultado: um coach. Renomado internacionalmente, sua proposta era submeter a plateia de cientistas a um alinhamento quântico, liberando, segundo ele, crenças limitantes, através da plasticidade mental e hipnose quântica conversacional. A cada vez que as palavras quântico ou quântica eram pronunciadas pelo guru contemporâneo, no entanto, mais um prodígio da ciência presente no plenário caía morto.  

Uma chacina. De proporções quânticas. 

Táscia Souza

Telemarketing

Telemarketing

Oi…

Quem fala?

É a Bruna…

É da Editora Abril?

Aqui é uma central de telemarketing e… é, tô trabalhando em nome da editora. Mas meu telefone não recebe chamada.

Raqueei.

Mas como…?

Aplicativo e um pouco de Google. Facinho. Você deve ter me ligado esta semana, uma Bruna me ligou.

Sobre renovação de assinatura?

Isso. Falei que não queria, depois que tava viajando, depois que tinha morrido e mesmo assim continuaram me ligando. Ontem, só de manhã, atendi quatro ligações com a mesma oferta que já recusei.

Mas é uma oferta…

Sei, irrecusável e feita exclusivamente pra mim e por isso tanta gente tá indignada com minha rejeição-viagem-morte que não para de me ligar.

A gente é paga pra isso.

Bruna, tô te ligando pra fazer uma contra-proposta. Pra você e seus superiores, gostaria que comunicasse a eles. Só pra registro: esta ligação está sendo gravada e não tenho número de protocolo, mas assim que abrir o processo ligo de novo pra informar. Trabalho em casa e dependo de cumprir algumas metas com meus clientes. Deixei de assinar a revista porque, além do conteúdo tendencioso não me agradar e não corresponder ao que entendo por informação de qualidade, estava sem tempo pra ler, justamente por conta do trabalho ter aumentando e o pagamento diminuído. Deve ter lido sobre isso na revista da outra editora. Se o tempo que eu gastava lendo a revista eu gasto hoje conversando com telefonistas, acho justo que a revista me pague o valor da assinatura, e não estou propondo 65% de desconto, porque não tenho condições de oferecer isso. Por outro lado, posso disponibilizar desculpas esfarrapadas muito originais pra cada ligação que for feita pra mim, o que por si só já é uma pechincha, porque trabalho com redação publicitária. O que me diz?

Gustavo Burla