De volta ao trabalho

De volta ao trabalho

Nome, por favor.

Maria. Olha, moço, eu vim aqui porque…

…te chamaram para voltar ao trabalho e todo mundo na fila tá na mesma situação. Seu nome, por favor.

Maria. Mas olha só que absurdo desaposentar as pessoas. Eu trabalhei a vida toda e agora…

Sei bem, senhora, mas não sou o presidente, não faço as leis. Estou tão puto quanto a senhora de estar fazendo isso, mas são as regras.

Como é que podem fazer isso, desaposentar as pessoas? Tá parecendo Jesus com Lázaro.

Assim é demais, minha senhora, comparar esse chamamento de volta ao trabalho com o milagre de volta à vida.

O Lázaro só sofria e morreu, descansou. Jesus foi lá e… Essa história me deixa puta.

Vamos deixar de heresia, senhora. Qual era o seu emprego?

Tive muitos.

Um deles.

Alvo.

De facas, atirador de facas, no circo?

Pedras.

Como!?

Esquece. Também era ex-viúva.

O que é uma ex-viúva? Casou de novo e virou dona de casa, é isso? Ou carpideira? Viúva profissional, assim?

Fui carpideira também, mas foi pouco.

Escolhe uma coisa, mulher. O que mais foi durante a vida?

Puta.

Mas… Senhora… Na sua idade…

Você não é o presidente, não faz as leis, então assina logo essa papelada.

Nome completo, por favor.

Maria Madalena.

Completo, por favor.

de Cristo…?

Gustavo Burla

 

Noites de Natal

Noites de Natal

Seu nome verdadeiro (mas isso só descobrimos bem depois) era Natanael. Todos, sem exceção, até então o chamavam de Natal. Passava sempre no mesmo horário, perto da meia-noite, carregando um saco de polipropileno cheio que parecia desproporcionalmente grande para o corpo magro. Não era um saco vermelho. Era um saco de ráfia branca encardido, quase tanto quanto o rosto encovado, um pouco menos que os dentes que tinham sobrado na boca. Às vezes oferecia rosas que alguma floricultura descartara ao fechar as portas no entardecer; alguns clientes compravam, a maioria não. Noutras trocava um pedido de desculpas e um muito obrigado por uma moeda ou um resto de petisco, e saía no prejuízo pelo tanto que valia, sem ser devidamente recompensada, aquela boa educação. Na maior parte das noites, porém, limitava-se a recolher das mesas postas na calçada — e a fazer tilintar no fundo do saco — as latas vazias deixadas para trás. Não era para vender para a reciclagem, contou-nos um dia, enquanto nos dividíamos entre a pouca atenção e a muita cerveja. Era para construir o robô gigante que o filho tinha pedido havia mais de um ano e que ele prometera, com olhos molhados e um sorriso de todos os dentes restantes, conseguir.

Ali, naqueles bares do Centro, toda noite era de Natal.

Táscia Souza

Verde que não quero ver-te

Verde que não quero ver-te

Ele sabia.

Não importava o diagnóstico que os pacientes tivessem. Quando completavam 96 horas no CTI, ele sabia os que viveriam e os que morreriam – os que resistiriam e os que partiriam. Era um misto de sinais, mas tudo guiado pela cor do paciente. Quando, após 96 horas, eles ficavam com aquela cor esverdeada, já era. Os médicos podiam tentar de tudo, que nada adiantava. O esverdeado parecia entranhar e nada mais cedia.

Um dia, quando lá chegou uma tia queridíssima, ele tramou um plano para se a cor aparecesse.

Apareceu.

Ele então sacou o estojo de maquiagem que havia surrupiado da irmã, seguiu o tutorial com mais likes que havia achado na web e fez a base facial mais perfeita que conseguiu. Até rosadas as bochechas quase não mais perceptíveis da tia ficaram.

Mas esverdeou.

Gilze Bara
(da série Minicontos e minicrônicas de CTI – ficcionais, reais e confessionais)