De papel passado

De papel passado

Tudo escrito como manda a jurisdição: nome, endereço, CPF, RG, data e local de nascimento e até cor da pele, que era indispensável, mas ele fazia questão. Grafia inconfundível, documento de próprio punho com firma reconhecida anos antes. Mesmo assim, o juiz não queria aceitar.

– Isso não tem precedentes!

– Abra um!

– É inaceitável! Mais que isso: é insano!

– Está documentado e registrado, é o desejo do morto, escrito em momento de consagrada sanidade!

– Minha senhora, consegue entender o teor do que está me pedindo?

– Perfeitamente. E que seja rápido, antes que comece a se decompor.

– A senhora quer que eu tire a orelha o morto e entregue pra senhora!

– É o que consta neste testamento, não é?

– Ele está morto, não fazer diferença agora, deixe a orelha onde está.

– É o pedido dele, registrado, que precisa ser cumprido.

– E onde a senhora vai guardar a orelha?

– Deixar em cima do travesseiro, pra fazer carinho no lóbulo toda noite, até dormir, como combinei com ele.

Gustavo Burla

Com defeito

Com defeito

Jackson. Era esse o nome de seu personal entertainer, estrangeirismo cuja tradução podia ser resumida como “um dos camelôs que vendia, diariamente, filmes piratas na Rua Augusta”. Jackson era refinado. Jackson não comercializava só o acervo de indicados ao Oscar, mas conhecia os exibidos pelo festival Varilux e tinha metade deles entre seus produtos. Sem falar que fora Jackson quem lhe recomendara, num dia em que ela levara de presente para ele uma dezena de cópias já assistidas que não fazia questão de guardar, um documentário nacional sobre Cora Coralina. 

Não foi sem razão, portanto, que ela ficou estupefata quando notou que o DVD de Bohemian Rhapsody que recém-adquirira de Jackson tinha legendas em russo e coreano. Mesmo que ela soubesse alguma das duas línguas, as subscrições se sobrepunham, até se tornarem uma massa indistinta de cirílico e hangul. Confiava em Jackson e na qualidade de seu trabalho. Acreditava, sobretudo, em sua honestidade. Como podia, logo ele, ter-lhe vendido uma cópia tão incompreensível?, perguntou-se, sem nem perceber que a dublagem era em português. 

Táscia Souza

Pés trocáveis

Pés trocáveis

Cansado de sentir dores nos pés? Bolhas, calos, torções constantes? Mancando o dia todo e trazendo problemas pra coluna? Está assim porque quer… ou porque não conhece a Footchange! Aqui na Footchange você traz os seus pés e troca por novos! Sim, um novo par de pés novinhos em folha ou, o que é melhor ainda, já usados e experimentados para o seu tipo de trabalho. Temos pés de corredores, carteiros, passadeiras de roupa, playboys e bailarinas. Isso pra não falar da novidade: pés de propaganda de chinelo. Se sua preocupação é ter o pé bonito, pode chegar logo e trocar os seus pés feios pelos lindos pés que participam de propagandas de chinelo! Sabe seu dedinho torto? Sua unha encravada? Tem pé pronto pra te dar um sossego, é só escolher. E se você quer parecer  trabalhador, ficar de pernas pro ar por um motivo justo, também temos pés de trabalhador, é só escolher. Aqui você paga pelo tempo que usar! Venha logo, nosso estoque é limitado, nossos pés são de verdade!

Gustavo Burla