Antídoto

Antídoto

Acordou.

Levantou.

Foi ao banheiro.

Ainda sem proferir uma palavra sequer, lembrou de sua própria voz.

E foi inundada pelo medo: “E se minha voz não sair mais da minha boca? E se eu nunca mais puder falar?”.

O primeiro lamento que veio em sua mente foi: “Imagina não poder mais xingar em alto e bom tom??!?!”.

Mais do que depressa, lascou um sonoro “PUTA MERDA!”.

Gilze Bara

Armário de troféus

Armário de troféus

A primeira atividade da faxineira, quando chegasse na casa em que trabalhava, era limpar os troféus. E os vidros do armário em que estavam. A última função era repetir a limpeza dos vidros, do lado de fora, porque sempre subia o pó que ela levantava com vassoura e pano na faxina.

Foi assim por anos, três vezes por semana, até que a recomendação era que ficasse em casa até a pandemia acabar, recebendo semanalmente como se tivesse feito faxina.

Na casa, vassoura e panos funcionavam no ritmo dos patrões, mas ninguém ousava tocar nos troféus ou no vidro. Que embaçou. E embaçou mais. E mais um pouco até ficar pálido. O museu abandonado foi perdendo destaque, prioridade e as pessoas que tinham nomes naqueles troféus passaram a se preocupar mais com o presente.

Gustavo Burla

32 dentes

32 dentes

Passo a língua devagar pelos dentes e… ah, merda, um bráquete do meu aparelho se soltou. Parece quieto no canto dele, que é sobre o quarto dente superior de trás para a frente do lado esquerdo da minha boca (sim, específico nesse tanto), com a diferença de que não está exatamente quieto, mas se move ligeiramente ao contato da minha língua. Ou da ponta do indicador que levo até lá para confirmar o desastre. 

Não é grande coisa. Tudo bem que estive no consultório da dentista há menos de duas semanas e não pretendia voltar até o meio do próximo mês, mas é só um bráquete. E é no quarto dente superior de trás para a frente etc., o que não compromete as correções que mais precisam ser feitas, bem no meio do sorriso, onde os dentes parecem não se mover para o lugar certo de jeito nenhum. Mas… ah, merda! A língua sente outros dois bráquetes balançarem, dessa vez na arcada inferior, como se fizessem uma pequena dança de provocação. Levo o dedo até lá e, plaft, uma pequena coisinha branca pula e cai bem no meio da minha mão.

Ah… merda, merda, merda! A coisinha branca não é um bráquete de safira ultracaro do meu aparelho estético, mas um dente. Um dente que desde antes de eu completar dez anos chama-se permanente e que, portanto, deveria respeitar essa premissa e permanecer intacto no lugar do outro menorzinho que caiu na infância e que ele ocupou. Olho para o dente na palma da mão e busco pelo potinho de guardar dentes, o potinho curioso e bizarro em que minha mãe guardava meus dentes de leite e que agora se materializa ali, sobre a pia, de frente para o espelho no qual eu avalio o estrago e assisto mais dentes pularem da boca para a mão e da mão para o pote. “Estou sonhando”, sonho no sonho, e sei que estou sonhando mesmo, porque potes de dentes não se materializam feito mágica em pias reais e porque vira e mexe sonho com meus dentes cometendo suicídio. Minha mãe sempre diz que sonhar que se está perdendo os dentes é mau presságio e significa morte, mas tanta gente já está morrendo — já são quase 115 mil mortos! — e estou longe de ter tantos dentes assim, então não podem me culpar por isso, não é? “Ei, a culpa continua sendo do desgoverno que vocês elegeram e não dos meus dentes de sonho, tá?!”. Mas cada vez mais dentes caídos estão lá, e cada vez mais sangue está lá, e cada vez mais culpa está lá, e eu sacolejo a primeira pessoa que encontro no sonho, implorando, com a boca cheia de gaze e sangue e lágrima e ranho e nenhum dente: “me acorda, me acorda, me acorda, pelamordedeus, me acorda!”. 

Antes que o tapa da pessoa estale no meu rosto para me tirar do surto, eu acordo. Acordo e arfo. Acordo e vejo que não há pessoa nenhuma, porque quem quer que estivesse ali provavelmente já está acordado faz tempo. Acordo e suspiro de alívio. Acordo e passo a língua devagar pelos dentes, conferindo se estão mesmo todos na boca, e… ah, merda!

Um bráquete do meu aparelho se soltou.

Táscia Souza