Sabiá

Sabiá

O sol ainda não havia raiado quando o canto começava. Ela, menina da cidade, não reconhecia qualquer espécie de pássaro e não saberia apontar um sabiá-laranjeira se visse um. Mas, despertada fora de hora toda madrugada pela cantoria, identificava aquele sem vê-lo, só pelo ouvido, porque sua música era igualzinha à melodia triste que de vez em quando soava pelas caixas de som do velho toca-discos do avô, uma cuja letra falava de alguém com saudade de casa.

Quando finalmente amanhecia, porém, e o trinado dava lugar ao batucar do bico na vidraça da janela, ele não entrava, mesmo depois que ela a abria num ato de desespero para que ele a deixasse dormir. Custou-lhe entender que a casa da qual o sabiá sentia falta não era a sua. Que o que ele procurava bicando o vidro era outro, semelhante a ele. Na solidão do quarto que ia sendo iluminado pelos primeiros vislumbres do alvorecer, ela tinha pena, porque sabia que esse tipo de lar era bem mais difícil de encontrar.

Táscia Souza

 

Pássaro sem pouso

Pássaro sem pouso

O repórter deixou a redação com a incumbência de trazer para o jornal uma reportagem sobre moradores de rua.  O editor havia recebido uma denúncia. Na rua tal, num bairro de classe média, os residentes não sabiam mais o que fazer para afastar aqueles novos vizinhos tão indigestos. 

Pardos, maltrapilhos, mal cheirosos, às vezes desbocados, eles emporcalhavam a via pública. Maculavam o endereço nobre. Uma mulher, que não suportava mais abrir a janela e se deparar com barracas de papelão, vasilhames espalhados e cobertores pendurados em muros alheios, já havia batido de porta em porta, reivindicando a cada morador da rua (estes sim eram de verdade os donos do lugar e não os outros, os moradores de rua) que não dessem o que comer àquele bando de desocupados (na verdade ela os chamava de vagabundos, mas, para manter a classe diante dos vizinhos, achava chique usar eufemismos). 

“Sem comida pra eles é claro que vão embora”, raciocinava a mulher, que, de tão seca, esquecera que solidariedade é um compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas. 

Ao chegar ao local, o jornalista teve receio. Seria hostilizado pelos moradores de rua? Escondeu seu relógio e celular no bolso da calça. Pensou em abordar os mendigos, oferecendo dinheiro para afastar qualquer possibilidade de ataque. Sentiu vergonha de pensar assim. “Cadê minha humanidade?”, advertiu-se. 

Mas não foi preciso tática  especial. O gelo foi quebrado por meio de um assovio. Do banco da pracinha, um mendigo, de sorriso quase vazio, chamou o repórter. Contou que, depois de receber o que comer, solidariamente, de alguns moradores, arrumava seus pertences, que não eram muitos, e passava o dia na praça. Quando estava muito frio ou chovendo, ele se mudava para debaixo de uma marquise. 

Ele já não se lembrava mais há quantos anos vivia nas ruas. A memória era falha, mas disse que viera da roça. “Minha família nunca teve casa própria. Éramos muito pobres. Por isso, não tenho para onde voltar”, relatou. Ele ainda contou que já estivera em abrigos da Prefeitura, mas não gostou. “Eles proíbem a gente de passear e eu adoro passear”, ressaltou, lembrando que não era escravo das horas. “Mas um pássaro sem pouso e desapegado”. O jornalista voltou ao jornal e, no lugar da reportagem, entregou ao seu editor uma poesia sobre a liberdade!

Marcos Araújo

Dancinha

Dancinha

Foi na aula de educação física que o professor quis ensinar a dancinha da moda. Trabalhava quadril, pernas, braços, atenção e disciplina.

— Braços rentes ao corpo! Cintura prum lado! Braços pro outro! Ritmo! Ritmo!!!

O gordinho batia o braço na barriga ou na bunda empinada. Tinha ritmo, mas não a tangência certa. Era empenho puro, mas insuficiente. Chorou.

O professor laçou-lhe os olhos e foi direto:

— Emagreça ou desista.

Em casa, quando não havia mais como se desidratar, diante do espelho criou um estilo próprio e foi ser gauche na vida.

Gustavo Burla