— Despertador apitando, é hora de acordar. Despertador apitando, é hora de acordar.

É sempre o primeiro da casa a acordar. Logo depois, a esposa também se levanta da cama. Passa em frente ao quarto do filho e bate na porta e grita: “Estou te chamando. É hora de você levantar”.

A mulher que trabalha em sua casa já deixou pronta toda a mesa do café todas as comidas, que estão em cima da mesa, e está na cozinha. Quase nunca é vista pelos moradores da casa. Sua feição não é algo agradável. O menino, às vezes, em uma distração do pai, fica observando-a, tentando entendê-la e entender o que de tão errado ela fez para merecer isso. Flávio, o pai da família o pai do menino e marido da esposa e patrão da empregada, desvia o olhar daquela mulher sempre que pode. Às vezes, lembra-se do dia em que apertou o botão. Talvez por isso prefira não se encontrar com ela. Para se livrar desses pensamentos, lembra-se de que não tem culpa dos erros alheios, cada um merece pagar pelos erros que cometeu. A sociedade é assim. A sociedade é assim. A sociedade é assim. (Você tem uma mensagem nova.)

O aplicativo acaba de apitar. Algum julgamento novo. Ainda na mesa do café sentado na cadeira, em frente à mesa em que estão as comidas de café da manhã, olha qual é o caso. E aperta “sim”. A sociedade é assim. A sociedade é assim. A sociedade é assim. (Você tem uma mensagem nova.)

É o aplicativo de conversas, mensagem do filho:

— Estou saindo.

Quando levanta a cabeça, ele e sua esposa veem a porta fechar. Um pouco depois também decide sair.

— Bom dia!

— Bom dia, tudo bem?

— Sim, e você?

— Bem também.

— Tchau.

— Tchau.

Ao passar pela avenida principal, (Você tem uma mensagem nova) tropeça em uma lata de tinta. Olha para o lado e vê dois subalternos pintando os muros de branco. É um dia de manhã, quando ele e sua esposa estão caminhando lado a lado. Ao ouvir um barulho, desvia o olhar, e é quando vê uma pintura de uma mulher nua, cabelos longos ao vento, em cima de uma concha (Você tem uma mensagem nova). Não sabe se já está sendo punido só de ver aquela imagem, mas pega o celular, automaticamente, abre a sessão de denúncias e, em menos de cinco minutos, já vêm cobri-la. A esposa, entretida com o aplicativo, nem nota que ele fica para trás, e só em casa recebe mensagens do marido sobre o que aconteceu. Não com os detalhes da imagem. Afinal, como descrevê-la?

— Bom dia!

— Bom dia, tudo bem?

— Sim, e você?

— Bem também.

— Tchau.

— Tchau.

(Você tem uma mensagem nova.)

Esta mulher disse uma frase de cunho ofensivo. Como pode ser capaz de criar os próprios filhos se não sabe seguir as regras.

Um comentário logo abaixo pergunta:

— Ela já explicou por que fez isso?

— Você acha mesmo que ela merece ter a chance de falar algo mais?

E aperta o sim.

Respira fundo e foca no aplicativo, lembrando-se de que é um homem de bem e faz o possível pelo bem da sociedade.

— Bom dia!

— Bom dia, tudo bem?

— Sim, e você?

— Bem também.

— Tchau.

— Tchau.

— Despertador apitando, é hora de acordar. Despertador apitando, é hora de acordar.

(Você tem uma mensagem nova.)

E aperta o botão sim.

(Você tem uma mensagem nova.)

— Aonde vai, filho?

— Ao mesmo lugar de todos os dias.

(Você tem uma mensagem nova.)

— Não deveria saber mais sobre esse lugar, marido?

Ele fica olhando para a mensagem da sua mulher. Ao levantar a cabeça, pelo reflexo da janela, ele vê a mulher que trabalha em sua casa.

— Bom dia!

— Bom dia, tudo bem?

— Sim, e você?

— Bem também.

— Tchau.

— Tchau.

— Bom dia!

— Bom dia, tudo bem?

— Não estou bem, não.

— … (essas reticências significam que Flávio não sabe o que responder.)

— … (essas reticências significam que a pessoa está esperando uma resposta.)

— Bem também.

— T…chau.

— Tchau.

Para. Abre a mensagem: “Estou saindo”. Com o celular no modo silencioso, faz o caminho de volta para casa. Olha a cidade as ruas por onde passa, a calçada, cheia de muros brancos, se tentasse observar, perceberia leves riscos por baixo daquela tinta. Fazia tempo que não parava para perceber isso. Olha para o lado e firma a postura, como há muito desde o tempo do fino sol não fazia. Ao passar a mão no bolso, lembra de que alguma denúncia pode estar esperando por ele. Volta a se concentrar no celular e tenta não dar margem às suas lembranças se distrair com suas lembranças. A sociedade é assim. A sociedade é assim. A sociedade é… (Você tem uma mensagem nova… Você tem uma Você tem uma mensagem… Você tem … Você tem uma… Você tem uma mensagem… Você tem uma mensagem nova.)

— Um menino foi encontrado pintando as paredes dos muros da rua que fica perto da praça…

— Marido, quando vier para casa, poderia comprar folhas de alface?

— Pai, vou atrasar um pouco para o almoço.

— O menino já está sendo levado pelos guardas e mais tarde será divulgado se será aberto um processo contra…

— Bom dia!

— … (essas reticências querem dizer que Flávio ficou um tempo olhando para a pessoa, pensando no que responder.)

— Bom dia, tudo bem?

— Sim, e você?

— Bem também.

— Tchau.

— Tchau.

Depois de entrar pela porta de casa abrir a porta, entrar em casa e fechar a porta novamente, vai até a cozinha e deixa a sacola perto da pia. Ao olhar para o lado, depara-se de frente com a mulher que trabalha em sua casa. Fica parado encarando-a, pela primeira ve… (Você tem uma mensagem nova.) Caminha até a sala, senta-se no sofá ao lado de sua esposa. A noite chega Anoitece e ele continua sentado no sofá, exceto na hora do almoço e nas vezes em que vai ao banheiro. Mantém o foco no trabalho e nas mensagens do aplicativo.

— Despertador apitando, é hora de acordar. Despertador apitando, é hora de acordar.

— “Estou te chamando. É hora de você levantar.”

(Você tem uma mensagem nova).

— Estou saindo.

Um pouco depois, ele também se levanta da mesa da cadeira e sai de casa. Vê de longe o filho caminhando, o olhar atento no celular provavelmente não deixaria que ele o visse. Faz o mesmo trajeto, porém mais distanciado. Fica com o celular na mão, que, apesar de estar no silencioso, ele finge olhar, para não causar espanto. Mais uma vez, começa a perceber um pouco mais a cidade conhecer mais as ruas, e muros, e casas e tudo que há por onde ele passa. Em certo momento, percebe que os muros não são mais brancos e, sim, cinzas. Uma cor também determinada como sem significado, mas que é menos evasiva que o branco dos muros que costuma ver. Nunca tinha reparado que, apesar de cinza, o lugar já ganhava outro tom. Explicação: ele sente que a cor cinza é como se desse a certeza, para os que tem ainda um pouco da capacidade de interpretação, de que ali já existiu alguma manifestação de arte, ou melhor ou pior, algo poderia estar querendo viver. Se alguém lesse seus pensamentos, talvez ele estivesse prestes a ser punido. Mas bloqueia qualquer culpa, da mesma forma que fazia quando votava pela punição de alguém.

Quando começa a descer o primeiro degrau, de uma escadaria que dá para faz parte do caminho para se chegar ao que eles as pessoas da cidade chamam de “lar dos punidos”, começa a ouvir o som de instrumentos, melodias somente, sem letras de músicas, algo que havia sido proibido há um tempo, por gerar interpretação e sentimentos que não podem ser explicados e interpretados de uma forma geral. Seu filho entra por uma porta. Ao descer o último degrau, Flávio quase escorrega e apoia a mão no chão, quase em cima de um papel que tem os escritos: “Esperança é a última que morre”.

          * * *

Acordava todas as manhãs quando o fino traço do sol raspava pelos seus olhos. O buraco da cortina era milimetricamente calculado. Para os dias sem Sol, é claro, deixava o despertador preparado como respaldo. Levantava ainda meio sonolento, arrumava as pequenas bagunças deixadas espalhadas pelo chão, tomava um banho e preparava a mesa do café, ao som de suas músicas preferidas. O celular apitava, mas ele preferia olhar pela janela o movimento da rua. Ou melhor, o pouco movimento que ainda restava. A patrulha já havia começado. Já havia testes para aplicativos de punição e já estavam desenvolvendo quais seriam os melhores artifícios de punir. O fim do mundo, dessa vez, estava próximo, ou, pelo menos, o fim do mundo que ele conhecia. Na parede mais vista da sua pequena sala, ficava a placa de madeira: “Esperança é a última que morre”. Olhava para ela, todos os dias, com fixação, como que absorvendo cada palavra. Saía para o trabalho e, aí sim, entre uma espera ou outra pelo ônibus, checava o aplicativo de mensagens.

— Bom dia, Flávio!

— Bom dia, seu Zé!

— Tudo bem?

— Estou sim, e você?

— Vou indo.

— Isso que é bom.

— Tchau.

— Até.

Mensagem recebida: Reunião hoje à noite, no mesmo beco de sempre. Beijos!

— Tô dentro!

          * * *

Pela fresta da cortina da janela que dá para a sala de reunião, ele pode ver seu filho, sentado em uma cadeira, e outras pessoas também sentadas em cadeiras que, juntas, formam um círculo. A sala é toda pintada, com desenhos da parede. Meio desfocado pode ver o desenho da mulher nua, muito parecido com que viu no muro. Tenta, mas não consegue ouvir os que eles estão falando. Um pouco disso deve-se ao fato de suas pernas estarem tremendo estar nervoso, com medo de ser pego por essas redondezas em um lugar em que só ficam pessoas punidas e, por isso, acontecem coisas fora da lei. Vê quando todos se levantam, em um grito capaz de ver reconhecido por qualquer leitura labial:

— E A ESPERANÇA?

          * * *

— É A ÚLTIMA QUE MORRE!

Sua voz era a que soava mais forte. Uma determinação misturada com uma pitada de nervosismo, sua mão suava e seu riso era de nervoso.

— Onde será a reunião de amanhã?

— Não sei, Flávio, deve ser aqui no beco mesmo.

— Mas aqui já está manjado.

— Relaxa…

— Você sabia que os aplicativos já estão na fase de teste?

— Isso nunca vai pra frente.

— …

— Você já se imaginou o dia inteiro tomando conta da vida das pessoas?

— Não! Por isso tenho medo.

— Não deixaremos, mano. Não deixaremos isso acontecer.

          * * *

Percebe que a turma começa a se dispersar se levantar para sair da sala onde se reuniam. Sai correndo, ou melhor, andando rápido, sobe as escadarias e só se acalma quando começa a perceber que os muros já são brancos novamente.

Ao sair do banheiro, depois de tomar banho, depara-se com a mesa posta as comidas que irá comer no jantar em cima da mesa e, nas cadeiras, sua mulher e seu filho estão sentados, esperando por ele enquanto mexem no celular.

(Você tem uma mensagem nova.)

— Pai, você ainda tem a placa de madeira?

          * * *

— Placa bonita, comprou onde?

— Mandei fazer. Gostou? Pode levar.

— Como assim? Vai se livrar de algo valioso assim?

— Tô te dando um presente.

— Tá perdendo a esperança.

— Quer ou não?

— Espero que você não tenha medo agora, Flávio. É muito fácil bradar que temos que ter atitude e, na hora que o caldo engrossa, sair correndo.

— …

— Você tá com medo, eu sei, mas eu também tô, cara. É normal. Esses caras são poderosos, eu realmente acredito que eles têm força para construir o que quiserem. Mas nós não podemos dar pra trás. Essa é a hora de tomar a frente, lutar pelo que a gente acredita.

— Chega, Tomás. Vamos. Você fala muito.

— É o que me resta.

— Precisa é levar a sério a situação.

— E por acaso quem usa uma camisa laranja fluorescente pode ser levado a sério? Me respeita. Eu gosto de causar.

          * * *

— Você não gostaria de saber onde ela está.

          * * *

Quando saiu de casa, percebeu um clima pesado nas ruas. Toda a agitação de conversas, brigas de trânsito e buzinas começam a dar lugar a um silêncio esquisito, como se todas as pessoas estivessem ouvindo heavy metal no volume mais alto e, de repente, trocassem para a música clássica. O som logicamente mudou, mas no clima dos ouvintes ainda seria agitado. Seu corpo ainda estaria em movimento acelerado e sua mente, inquieta. Era assim que via as pessoas que encontrava na rua.

— Mais um canal de televisão saiu do ar.

— Eles disseram que isso vai voltar.

— Claro que vai voltar, né, Flávio? Afinal, o que mais, além da televisão e dos aplicativos de celulares, pode distrair as pessoas do jeito que eles querem?

— …

— Essas porras vão voltar todas zoneadas.

— Calma, Tomás.

— Calma? Eu? Quem tava todo nervoso outro dia? Agora você acalmou, né? Só vai faltar me dizer que baixou o aplicativo teste, pra ver como funciona.

Flávio levanta-se rapidamente da cadeira e parte pra cima de Tomás.

— Claro que não, seu merda. Tá me estranhando? Qual foi?

— Qual foi não, Flávio. Qual é! A verdade é que mais cedo ou mais tarde seu corpo vai se adaptar a tudo isso, né? Dez reuniões por semana, depois nove, agora você aparece em cinco. Até o dia que você vai sumir.

— Eu já te falei que estava ocupado com o trabalho. Mas, cara, eu não deixei de fazer nenhuma tarefa daqui.

— O corpo tá fazendo. Mas a mente já tá vacilando.

          * * *

A noite chega Anoitece, e Flávio percebe que o filho ainda não chegou em casa. Pergunta à esposa se ela sabe alguma coisa sobre ele. Primeiro ela o olha com estranheza, mas, depois, responde que o menino não mandou nenhuma mensagem. Ao ouvir, pensa em como a voz dela é bonita. Depois, a olha novamente. Ela, parada, parece não compreender a inquietação do marido. Seu celular O celular dela apita e ela automaticamente olha para a tela. Ao olhar novamente para cima, não vê mais o marido.

          * * *

Percebe que já está passando em frente ao lado dos muros cinzas e por isso, tem a impressão de que já está chegando. No meio do caminho (Você tem uma… Você tem uma mensagem nova). Enquanto estava caminhando, colocou o celular no silencioso e nem percebeu que novas mensagens haviam chegado.

Uma nova denúncia sobre um grupo de revoltosos acaba de ser computada no nosso sistema. Alguns rabiscos foram encontrados em paredes pertos dos arredores dos subalternos. O grupo é grande, estamos juntando alguns policiais, e iremos para lá imediatamente. Aguardem que, em poucas horas, provavelmente teremos alguns novos julgamentos pendentes.

Olha pela fresta da cortina e percebe que as pessoas estão agitadas dentro da sala. Vê que a pessoa de calça verde musgo e blusa branca, encostada na parede, é seu filho. Algumas pessoas andam de um lado para o outro, outras estão sentadas, olhando o celular e comentando com os colegas. Percebe quando seu filho sai de onde está e grita:

          * * *

— A polícia está vindo. O que vamos fazer?

— Eles não podem fazer nada, ainda não foi implantada nenhuma lei.

— Deixa de ser sonso, Tomás…

— Ah, Flávio, vai pro banheiro, vai. Tá se cagando todo já.

Agitado, sem saber para que lado ir, Flávio percebeu quando um risco de sol cortou cortina e chegou até seus olhos. Não tinha percebido que já amanhecera. A noite tinha sido agitada. Depois de picharem o muro, seguiram para a sala de reuniões e ficaram pensando nas próximas ações. Flávio havia discordado da ideia da pichação. Ele achava muito arriscado, mas a intenção era exatamente essa, arriscar-se. O grupo acreditava que, apesar do risco, nesse momento crucial da transição, era importante que as pessoas soubessem que havia grupos de resistência e não se sentissem obrigadas a seguir o que estava sendo imposto. Porém, não previram que a vigilância já estava forte, e suas atitudes na rua já haviam sido rastreadas pela polícia.

Pela fresta viu que o lugar começava a ficar cercado. Saiu pela porta dos fundos e correu até o pátio da casa vizinha. De longe, e cada vez mais longe, ouvia os gritos das pessoas do grupo, e a luta de cada um para se impor.

— Calma, galera! Vamos nos dispersar com calma. Luíza, se esconde ali. Kléber e Amanda, saiam pela porta lateral. Juninho…

— Tomás, e você?

— Darei um jeito. Preciso ajudá-los primeiro. Somos um grup…

A polícia invadia o local, no meio da correria todos tentavam arrancar os cartazes com mensagens mais claras sobre a resistência.

          * * *

— Cada um precisa cuidar de uma coisa!!! Arranquem os cartazes e joguem-nos neste fogo aqui. Depois, vamos nos dispersar, com calma, gente, sem tentar levantar suspeitas.

— Talvez a gente tenha pegado pesado demais dessa vez.

— Não imaginávamos que íamos ser descobertos.

— Aaaaaaaa, preciso gritar, pode ser a última vez.

— Calm….

— Vamos por aqui.

— Tira isso daí.

A porta da sala cai é derrubada no chão. Vários guardas entram e começam a recolher todos os papéis que encontram pelo caminho. Pessoas que ainda restam na sala correm desesperadas, mas algumas são pegas pelos guardas.

          * * *

No meio da correria, permaneceu parado, no canto do terreiro da casa da vizinha. Por um buraco do muro, viu algumas pessoas que conseguiram se dispersar, enquanto outras estavam dentro do carro dos policiais sendo levadas embora. Um último carro restava e, dentro dele, uma camisa laranja cobria quase todo o vidro.

          * * *

Fingindo estar conectado no celular, segue pelas ruas pelas calçadas das ruas, simulando naturalidade. Percebe que já está passando ao lado dos muros brancos, mas dessa vez, seu coração não ficou em paz não se tranquiliza. Um pouco mais à frente, alguns homens cobrem um desenho na parede. Para um tempo em frente ao muro, mas logo é repreendido pelos olhares dos homens. Volta a olhar rapidamente para o celular e segue seu caminho.

— Onde você está?

(Você tem uma mensagem nova.)

Foram pegas quatro pessoas que faziam parte do grupo, responsáveis pelas pinturas nos muros. Todos eles vestem uma camisa branca, a menina uma saia estampada, dois meninos estão de calça jeans e o último, com uma calça verde musgo. Essas pessoas serão levadas a julgamento não só pelas pinturas, mas também por fazerem parte de um grupo que propaga ideias criminosas.

— Conseguiu sair?

Por mim, nem precisava de julgamento, punia automaticamente.

— Me responde, por favor!

Precisamos ouvi-los primeiro. Entender por que fizeram isso. Por que eles se voltam tanto contra o sistema? Ninguém tem curiosidade não?

— Nosso filho já chegou?

— Ainda não, por quê?

— Marido, não mostre essa mensagem pra ninguém. Mas não estou com um bom pressentimento. Não sei o que isso quer dizer.

Abre a porta de casa, liga a televisão e senta no sofá. No aplicativo já são computadas 57 ligações para o filho e 94 mensagens. Todas sem retorno.

(Você tem uma… Você tem uma mensagem nova…)

O julgamento começa. Na tela, as fotos das quatro pessoas julgadas. É a hora de decidir o que fazer. É a hora de votar para punir o próprio filho, ou esperar a punição bater na própria porta que os guardas vão até ele e o punam, se não fizesse nada. Fica parado por um tempo. É a primeira vez que percebe aquilo tudo acontecer sem apertar o botão. Ao olhar para o lado, vê a esposa chorar, escondida no quarto. No canto da cozinha, a mulher que trabalha em sua casa o observa, sem piscar, intacta. Sente que, se pudesse, ela gritaria. Mas está parada, olhando fixamente para ele, e ele, pela primeira vez, olha fixamente para ela.

A sociedade é assim. A sociedade é assim. A sociedade é…………A socieda…… A socie…. A soci…. A…

Mariana Virgílio

Texto publicado originalmente no dia 7 de março de 2018, no Medium.