Tem muito mais além disso aqui.

Dito isto, Amélia fechou os olhos e pôs-se a apodrecer.

Alice, intrigada com as últimas palavras da avó, se esqueceu de chorar. Mal o corpo tocou a terra e a neta correu para casa sem prestar atenção ao caminho. Já em casa, seus olhos se puseram a farejar respostas. Olhou atrás de cada quadro, debaixo de cada tapete, em cima de cada armário. Nada. Se deitou, pronta para dormir. Não dormia. Porque a última frase da avó parecia importante, mas ela não entendia. Porque a vó já não entendia nem era entendida há um tempo e aquilo podia ser só um devaneio. Porque vovó então era só memória. Porque não tinha mais ninguém. Porque no fim das contas os devaneios dela, dada como caduca, eram a única coisa que conectava Alice com ela própria, a única coisa além daquele monte de “bom dia, tudo bem, sexta-feira sempre chove” que todo mundo repete quando acionamos o botão ou, como dizem, cumprimentamos; cumprimentos podiam ser mais que isso, dona Amélia disse que a avó dela disse que houve um tempo em que as pessoas se ouviam, como assim se ouviam?, não entendo, mas acho que às vezes as pessoas respondiam a verdade, diziam que não estavam bem, e as outras pessoas consolavam ou ajudavam…

Acordou, ou: o sol beijou a maçã esquerda do seu rosto de bolacha. A sabedoria calejada e turva da dona Amélia ainda povoava sua mente. O cheiro da avó sem sua presença já fazia a saudade bater em seu coração. Se arrastou até o armário, pegou uma muda de roupas para banhar a avó e levou, por hábito, até a cama — agora vazia. Se jogou na cama, exausta. Sentiu algo por baixo do colchão fino. Encontrou um livro, parece antigo, é um dicionário?, é um dicionário, com as palavras que conheço e várias outras, palavras para coisas que eu também não sabia que existiam, orgulho, sentimento de satisfação com algo feito por si ou por outro, satisfação, prazer consequente à realização de algo desejado, tramoia, maquinação secreta para iludir ou prejudicar alguém, revolução, transformação radical de estrutura política, social, econômica, cultural ou tecnológica. Ela fecha o livro com força, já tonta com tanta informação. Uma cartilha, guardada com o dicionário, trazia três colunas de palavras sob o título

Palavras permitidas

Abaixo disso, em letras menores e já não muito legíveis, estava escrito

O uso de palavras não contidas na cartilha e/ou de frases de duplo sentido será punido.

Alice se sentia em curto-circuito e nem se deu conta de que o sol atravessou o céu e já ia se desligando. Se lembrou de dona Sofia, amiga e companheira de bingo da vovó, e do dia em que ela usou uma palavra que a menina não conhecia. Não tinha certeza, mas parecia ser “utopia”, é isso mesmo? É, me lembro bem. Utopia, sim. Livro de palavras, utopia, lugar ou estado ideal, de harmonia entre os indivíduos. Não conseguia se lembrar da frase, nem da situação. Só da palavra e de dona Sofia, que se tornaram fonte de toda a fé que existia em Alice.

Precisava de respostas. Precisava localizar dona Sofia. Buscou a agenda da avó no móvel do telefone. Ao lado do nome “Sofia” uma sequência numérica que a garota imediatamente repetiu nas teclas do aparelho. Discou quatro ou cinco vezes e esperou por um “alô” que não chegou. Abaixo do telefone, duas linhas preenchidas por letras cursivas

Para encontrar, esquadrinhe flores. Não flores quaisquer. Flores cujos nomes também se relacionam a cores. Nem vermelho, nem azul: o mergulho em ambas. Agora conte todas as cores do arco-íris, todos os dias da semana e todas as notas musicais. Bata firmemente com os nós dos dedos na madeira marcada com o resultado da soma.

Aquilo era diferente de tudo o que ela já vira. Chegava perto de ser outro idioma, mas era o idioma dela. Não do jeito que ela aprendeu a usar. Parecia maior, melhor, parecia dizer coisas que ela nem sabia ser possível dizer e como dizer. Ela, com dificuldade, assimilou que existiam palavras no livro da avó que ela nunca vira. Mas esse jeito de falar… parecia que havia coisas ditas além das palavras, parecia que a junção das palavras significava mais do que ela podia entender, pareciam pistas.

Esquadrinhar, procurar em todos os lugares, cujo, equivale a de que, ambas, uma e outra, pronto. Já sabe o que quer dizer cada palavra, mas elas juntas ainda dão um nó em todos os pensamentos que ameaçam aparecer. Mergulhar em cor não faz sentido, é uma piscina com corante?, consulta: mergulhar, entregar-se a algo, é como se a flor se entregasse ao azul e ao vermelho?, será que é a mistura delas?, azul e vermelho formam roxo, mas roxo não é nome de flor, …, violeta é!, violeta é palavra que serve para os dois, mas violeta não é o nome de uma rua a três quadras daqui?, esse é o endereço da dona Sofia?, é, Rua da Violeta, número 21.

Assim que os olhos de Alice alcançaram o número 21 na pequena porta que ela queria acreditar corresponder à casa de dona Sofia, o coração da menina se pôs em marcha intensa e os pés não tinham o que fazer se não acompanhar. Os dedos tamborilaram a porta. Mais uma vez. E outra. Sem sinal de resposta, ela girou a maçaneta. Dona Sofia? Olá? A casa fedia a comida estragada, a pia era o paraíso das moscas. Na mesa, um prato de comida pela metade divertia as moscas mais reservadas. Ou a velha tinha péssimos hábitos ou saíra às pressas.

No quarto, as roupas estavam intocadas, o aparelho de TV ligado, a última gaveta da cômoda semiaberta. Abriu de vez. Estava tomada por livros, todos com o idioma esquisito do livro da avó. Um deles, todo preto com letras brancas, continha anotações a lápis espalhadas. A contra capa continha

Liberdade

palavra e verdade

Domingos, 18h

Encontrou um livro com a palavra Liberdade expressa em letras grandes na capa. Na contra-capa, a lápis

Para encontrar, esquadrinhe astros. Não os dos programas de TV. Encontre o astro que atravessa o ar e é absorvido por corpos humanos. Depois encontre as palavras por trás de palavra e liberdade.

A lembrança da avó inundou seus olhos antes que ela pudesse se dar conta. Durante suas sábias alucinações, ela falava para a neta que o sol era um astro especial, que aquecia os corpos das pessoas. Ela ensinava um endereço. Não bastasse isso, vez ou outra ela insistia para que a neta fechasse os olhos e sentisse o calor do sol.

“Palavra e verdade” pareciam significar algo grande, principalmente desde a morte da avó. Foram tantas descobertas de palavras e a partir de palavras que era como se a menina tivesse ganhado um par de asas.

Encontrou um livro igual ao livro de palavras da avó. Abriu em p, encontrou palavra, capacidade de exprimir ideias por meio de sons articulados ou manifestação verbal escrita. Ao final, manuscrito

2+

Verdade, algo que está conforme com os fatos ou a realidade.

+5

Rua do sol, número 7. Ela tinha em mãos mais um endereço, igualmente enigmático. Irritada com todo o mistério e toda a falta de respostas, pôs-se novamente a caminhar.

Caminhar já não era simples. Os pés se antecipavam e se atropelavam, apressados feito os pensamentos — que a preenchiam com lembranças vivas e frescas da avó. Alice sentia que cada detalhe dessa busca lhe fora confiado pela velha, ao pé do ouvido. Se lembrou da avó, pensativa, dizendo repetidamente: “para bom entendedor meia palavra basta”, “em boca fechada não entra mosquito”, “minha boca é um túmulo”, “a palavra é de prata e o silêncio é de ouro”. “Tem muito mais além disso aqui”. Recuperou mentalmente a razão da caminhada, já passando pelo número 100. Voltou um tanto. Número 7. Não sabia se deveria simplesmente bater na porta, não sabia quem atenderia, se atenderia, no que a vida se transformaria depois disso, por que eu vim até aqui, afinal, por que meu coração bate tão rápido?, luz acesa é sinal de gente em casa.

Olhou pela fresta que a cortina deixava desprotegida. Um grupo de cinco pessoas discutia em torno de uma mesa, com livros feito os da avó nas mãos. Quatro mulheres, um homem. Faziam anotações, dialogavam com firmeza e doçura. Comiam o tempo todo. O senhor grisalho de longos cabelos se ausentou enquanto a menina apostava todas as suas fichas na tentativa de fazer leitura labial.

Uma mão firme pegou o pulso de Alice e, milésimos de segundo antes de o grito tomar cor, o senhor tapou-lhe a boca e disse, ríspido, que ela o acompanhasse. Mal atravessou a porta, recebeu um abraço acalorado de outra velha. Uma terceira disse que o abraço parasse, que não sabia se essa era a garota certa, e ela retrucou com Ela chegou até aqui, só pode ser ela, tem os olhos da Amélia, veja, e esticou a menina pelo queixo para análise do grupo. Uma senhora que parecia alheia à situação levantou os olhos por cima do livro e sorriu. Alice reconheceu dona Sofia, mais magra e cansada, e disparou em busca de amparo, olhos em tempestade. A velha lhe sorriu, Se aquiete, menina, já estávamos a perder esperanças, e agora você está conosco. Alice desandou em palavras Que livros são esses que você tem e vovó tinha?, por que vocês se escondem neles?, quem são essas pessoas?, por que sua casa está tão bagunçada?

Calma, garota, temos tempo, ela respondeu. Vamos começar conhecendo os amigos de bingo da sua avó. Essa que te recebeu na porta — apontou com dedo frouxo — é Clara. As outras duas são Mônica e Joana, e o rapaz que lhe deve um pedido de desculpas — Ela é que espiou, ele disse — é Mário.

Clara, trançando o cabelo da menina, assumiu a rodada de respostas com Alice, algumas dúzias de anos antes de o mundo receber você, vivíamos um momento de tecnologia muito desenvolvida e aplicada às relações humanas. Graças a essa tecnologia, estabelecer comunicação era muito fácil. Mas graças a ela e também a nós, população, a comunicação era cada vez menos efetiva. Alguns de nós não se entendiam,

Joana continuou dali Porque quanto mais as máquinas pensavam, menos as pessoas achavam que precisavam pensar. Então decidiram banir de vez… o pensamento. Lógico. Sensato.

Mário explicou, Isso que Joana fez — dizer que algo é lógico e sensato para dizer que é exatamente o oposto, por exemplo, foi banido. Na rua, as pessoas diriam que ela está, de fato, concordando com isso. Pareceu para você, Alice, que ela concorda?

Não.

Porque sua avó se recusava a criar uma criança que não conseguisse pensar como nós. Ela descobriu que sua ausência parcial de lucidez era encarada pela maioria como uma demência. Se aproveitou da segurança por trás disso e da sua bondade, Alice, de continuar dando atenção às palavras dela e te ensinou a pensar de forma não mecânica.

Mônica gostava de detalhes e os entregou, Nada que fosse fazer você perder a boca. Nós conversamos e decidimos que você deveria saber só o suficiente para entender, não para falar. Falar é perigoso. É uma decisão que ninguém tem o direito de tomar por você.

Nós?

Todos acompanharam seu crescimento de longe, disse Sofia, eu e sua avó mais de perto. Quando sua avó — olhou para a menina, medindo as próximas palavras — telefonou e disse que aguentaria o peso da vida nas costas por pouco tempo, nós decidimos que era a hora de ter você conosco. Quatro dias depois ela nos deixou, e deixei eu todas as coisas, inclusive minha casa, menina enxerida, para esperar por você e traçar os próximos passos a partir daí.

Ainda não me responderam nada sobre os livros.

Ah, sim, os livros! Nós, conhecidos por você como grupo de bingo, preferimos as palavras a ele — pegou um dicionário igual ao de dona Amélia e outros materiais, entregou à menina. — Quando éramos jovens, tínhamos ao nosso dispor as palavras contidas nesse livro e muitas outras. Tínhamos também a mensagem que ficava escondida no conteúdo principal, o que sua avó te ensinou a entender. Quando paramos de compreender uns aos outros, passamos primeiro a captar apenas o sentido óbvio das coisas, e quando tentávamos dizer algo além disso nós éramos socialmente agredidos. Com o tempo, limitamos também nosso uso de palavras. Da infinidade que você tem nas mãos, poucas funcionavam numa conversa. Decidiram então banir de vez o uso das palavras menos usadas e aceitar apenas frases que diziam exatamente o que queriam dizer. Perdemos, junto das palavras, nossa capacidade de expressão. Não verbalizamos o que sentimos e pensamos se não encontrarmos formas adequadas de fazê-lo, certo? Aprendemos uma pequena lista de palavras, e só com elas nos comunicamos, dizendo exatamente o que queremos dizer, sem humor, sem poesia, ou melhor, sem surpresas e expressão de sentimentos — você vai aprender isso mais tarde, se quiser. Assistimos aos mesmos programas, vamos aos mesmos lugares, temos os mesmos diálogos, aprendemos as mesmas coisas e, assim, temos os mesmos pensamentos. Preciso de água. Segue daqui, Joana?

Com prazer. No fim das contas, Alice, ele te contou isso tudo para te dizer que: as pessoas podem ser quem realmente são quando nada as restringe assim, e o mundo pode ser múltiplo — abra o dicionário, querida — e muito mais justo se aprendermos novamente a nos comunicar.

Vocês estão me convidando para entrar no grupo de bingo, é isso? Riu a menina.

Mário pulou da cadeira, surpreso, Ironia! Você leva jeito! Ótimo. E, sim, queremos você tão livre quanto nós somos. Queremos também que você nos ajude a libertar a sociedade.

Ela se espantou mais que o velho. Eu fiz apenas uma brincadeira, mas percebo que outra mensagem poderia estar escondida ali. Já é começo, não é? Eu quero aprender a falar como vocês, a pensar como vocês. Como minha avó. E quero ajudar.

Clara sorriu, doce. Queremos justamente que você pense diferente. De todos nós! Vamos brindar a sua chegada, jantar, e depois vamos à prática, está bem?

Ela tirou do forno uma infinidade de comida, fazendo Alice perceber que não se lembrava da última vez que comera. A barriga roncou alto. Entre garfadas, o grupo comentou o último livro de poesia que cada um leu, aproveitando para apresentar poesia à jovem. Leram juntos o Poema de sete faces, seguido de Nariz, nariz, e nariz. Retomaram, então, o assunto principal.

Mônica puxou a conversa séria. Alice, eis nosso plano: todos os dias, de oito às dez, você toma café com a gente e aprende o que nossa geração e esses livros sabem juntos. À tarde você vai à escola, se mantém longe de suspeitas e encontra pessoas da sua idade que possam conhecer a verdade das palavras. À noite você cuida das coisas da escola e das tarefas daqui. Novamente conosco, pela manhã, conversamos sobre as pessoas que você encontrou, avaliamos se é seguro incluí-las. O que acha?

Como posso encontrar essas pessoas?

A partir de hoje, disse Mário, o mundo vai parecer diferente para você. Você vai enxergar com facilidade as pessoas que não se encaixam na sociedade em que vivemos, que precisam conhecer as palavras antes das outras. Aí você conversa com essa pessoa e nos diz por que ela pareceu diferente. O próximo passo nós discutimos quando você encontrar a primeira pessoa, certo? Agora vá para casa, amanhã nos vemos cedo.

Ela saiu com a certeza de que, se não fosse pela avó, não pisaria novamente naquela casa, a cabeça fervendo. Meia hora depois, percebeu que a vida cotidiana, que já não fazia sentido sem a presença da avó, faria ainda menos sem conversas cheias de possibilidades como as que tivera nesse dia. Voltaria, também, pela avó.

O sol iluminou aquela parte da terra oito vezes sem que ela encontrasse uma só faísca em algum colega de escola. Um dia encontrou a turma comentando sobre a professora de artes das crianças, que fora levada durante a aula na véspera. Todos pareciam puramente satisfeitos com a situação. Quase todos. Uma garota, Júlia, retorcia o rosto tentando cobrir seu horror com indiferença. Provavelmente era o máximo que ela podia tentar e tentava sem sucesso. No dia seguinte, Alice ofereceu à garota uma maçã, de mãos trêmulas. Questionada sobre o estado das mãos, criou um problema de saúde qualquer. A adrenalina dominava seu corpo. Ela precisava ser cuidadosa, podia ser denunciada. Concluiu que não existiam maneiras de falar sobre o assunto sem quebrar a barreira do que aquelas pessoas consideravam correto. Pegou o livro da avó, que estava enfiado em saco pardo. Fechou os olhos, inalou toda a coragem que pôde e a soltou em forma de Sabia que existem muitas palavras além das que a gente conhece?

Louise Nascimento

Texto publicado originalmente no dia 21 de março de 2018, no Medium.