O atrito da vassoura com as pedras irregulares da calçada entoa um murmúrio hipnótico. Entro em transe. No tempo seco, o movimento ritmado levanta o pó do meio-fio. Se eu ainda tivesse boca me preocuparia em não comer poeira. O que é, afinal, ter uma boca? Por trás da placa de metal posso intuir que meus lábios ainda existem e, por dentro, o buraco úmido cercado de dentes, a língua mole envolta na saliva apodrecida pelo pouco contato com o oxigênio. O hálito, lembrança da época que a gente ainda queria colar boca na boca, do cheiro de vinho que exalava nas conversas que atravessavam a noite. Hálito, a recordação do almoço que acompanhava as palavras. Manter os lábios fechados depois de uma porção de cebolas. Manter. os. lábios. fechados. Quando criança eu costumava esquecer de riscar a curva vermelha no rosto dos bonequinhos de palito. Posso usar “bonequinhos de palito” para bonecos que são traçados a lápis? Provavelmente não. Troco: desenhos de bonecos riscados com lápis de cor no papel. Ainda não é bem o que eu gostaria de dizer. Talvez: desenhos de bonecos com corpos formados por linhas, riscados no papel com lápis de cor. Deve ter restado algum problema, mas vai servir. O que interessa é que eu esquecia da linha que deveria formar a boca e aqueles rostinhos ficavam ali, me olhando debaixo, ora desolados, ora enigmáticos, porque não ter boca era também não ter voz. Hoje, quando eu me vejo no espelho, percebo a mesma expressão que atormentava meus desenhos da infância. Por trás dos olhos desamparados, o vislumbre de um enigma. O meu mistério me encara na superfície refletora: o que eu diria se ainda pudesse dizer algo? O silêncio é um castigo, mas também é uma arma. Silêncio, arma branca, a passividade dos quarenta metros de altura que te esperam quando você se curva na janela do décimo terceiro andar. O que eu diria? Bobagem. É provável que meus músculos já tenham esquecido os movimentos necessários para articular fonemas. Mas gosto de imaginar que se, de repente, a placa de metal se soltasse, meus lábios emitiriam um grito que a minha mente é incapaz de gritar. De dor, de raiva, de alegria. Não sei. O grito tem sutilezas que aos poucos a gente foi perdendo. A gente foi mesmo deixando de gritar e com isso deixando de compreender, ou talvez o contrário. Mas o silêncio também tem nuances, isso ainda não conseguiram tirar. Isso a gente mantém. A gente, a gente. Grito, grito. Às vezes fico repetindo as mesmas palavras em um espaço muito curto de tempo. Eu conheço sinônimos, aprendi na época da escola. Costumava escrever bem. Mas o vocabulário tem ficado reduzido, sinto a variação de palavras se reduzindo a uma lista primária. Se restringindo, eu deveria ter dito. Vou prestar atenção nisso. Vou evitar repetir os termos, prometo. O pensamento não registra nada, fica difícil perceber as repetições. Por outro lado, fica mais fácil apagar os erros e pensar certo como se fosse a primeira vez. O importante agora é que, se eu tivesse boca, precisaria me cuidar para não comer poeira. Comer poeira. Expressão popular para… para o que mesmo? Era bem utilizada antes, vou me lembrar já, já. Ficar para trás, era isso. Normalmente dita em tom de provocação. Na educação física as crianças lançavam o desafio, vou correr tão rápido que você vai comer a minha poeira. Mas hoje comer poeira só pode significar uma coisa: triturar as partículas de sujeira entre os dentes, empurrá-las com a língua da esquerda para a direita, da direita para a esquerda e, finalmente, em um movimento sincrônico da língua que ondula para trás e da garganta que se abre e contrai, engoli-la. Isso para quem tem boca, é claro. Mas se “comer poeira” ainda pudesse significar “ficar para trás”, de certa forma eu diria que comi. Também comi tinta algumas vezes, é verdade, mas isso em outra época. Quando eu ainda era professora de educação artística. Queria mesmo era ter sido artista plástica, mas logo percebi que não se pagava o aluguel pintando quadros que ninguém comprava. Uma artista que não se lembrava de desenhar bocas, não parecia muito promissor. Eu chegava da escola, depois de horas ensinando crianças de dedos grudentos que o azul com vermelho formava o roxo, me sentava em frente à tela em branco e arriscava umas pinceladas. Técnica perfeita, luzes e sombras contrastando harmonicamente. Traços certos onde deveriam estar certos, caóticos quando o quadro exigia o caos. Tudo muito correto, tudo muito insosso. Falta o erro, me disse uma vez um professor da faculdade. Exceto pelos lábios, é claro. Quando eu os pintava sempre aparentavam artificialidade. Lábios chapados, como se tivessem sido decalcados daquelas tatuagens temporárias que a gente costumava encontrar em embalagens de chiclete. Preferi esquecê-los. Justificava: estilo pessoal, desses que acompanham o traçado do artista desde a infância. O tal do erro que o professor cobrava. Isso em uma época em que o erro era romantizado. Professor, hoje ninguém mais erra, meu querido. Ninguém pode errar. Quem erra “come poeira”. Quem erra tá fodido, professor. Que saudade da porra de falar palavrão. “Saudade da porra”, sabe o que isso significaria atualmente, não sabe? Posso falar palavrão na minha mente, é verdade. Falar na mente também é errado. Pensar, o certo é pensar. Mas sim, eu posso pensar palavrão. Acho que isso eles ainda não conseguem descobrir. O problema é que a gente vai aprendendo a censurar até os pensamentos. E depois de um tempo a autocensura nem é mais necessária, a gente simplesmente desaprende a pensar como pensava antes. Será que eu ainda lembro de todos os xingamentos que eu costumava usar? Porra, caralho… sei lá. Você com seus óculos de grau estilo aviador, as roupas anos sessenta de quem nunca superou a contracultura, dizendo com tom pedante que a arte almeja a desordem do mundo. Onde é que você está agora, professor? Pintando os muros de branco, colocando ordem na desordem da arte. Eu queria chegar perto de você, empurrar a sua cabeça contra o muro e gritar para você me falar sobre a arte, queria olhar nos seus olhos e gritar para você ir tomar no seu cu, professor. E você não me compreenderia, porque já teria levado tanto choque no ouvido que estaria surdo. Teria levado tanto choque na língua que, mesmo com a boca destampada, não saberia falar. E por trás da mordaça de metal você conseguiria apenas esboçar um sorriso débil de quem já não entende mais nada. Cadê a sua arte dos erros, professor? Filho da puta. Não, para isso sua mãe teria mesmo que ser uma prostituta. Sua mãe provavelmente era professora, advogada, dona de casa, talvez até fosse mesmo uma puta. Não me importa. Eu não me importo. Olha aqui no meu olho, professor e me diz se eu ainda me importo com algo. Eu estava em casa quando eles entraram. Arrombaram a porta com um chute só. Era de se esperar que houvesse técnicas mais avançadas para invasão. Corria o boato de que eles possuíam ferramentas que abriam qualquer fechadura. A gente brincava que qualquer dia desses, voltando do trabalho, flagraríamos um policial assaltando nossa geladeira: Seu atum está fora da validade, moça. Chutar a porta é mais intimidador, eu suponho. Destrancar a fechadura e deslizar a maçaneta para a direita é uma marca de hospitalidade. E você é o hóspede na sua própria casa, o policial é seu anfitrião. Ou o Estado. Não sei falar disso, não entendo de política, eu entendia era de cor. Se você se comportar, fica alguns meses na casa, como convidado. Te garantem um teto sobre a cabeça e uma porta violável. Mas basta deixar o atum vencer para você se tornar um hóspede inconveniente. Hostis, palavra em latim para hóspede. Hostis, palavra em latim para inimigo. Dois significados opostos e perversamente complementares. A porta. Ainda quero falar sobre a porta. Chutar a porta talvez seja o melhor método porque não há qualquer pecado de linguagem nisso. Você levanta o pé enquanto simultaneamente dobra o joelho. Impulsiona. Mira. Estica a perna e acerta o pé na madeira. Ela cai. Às vezes na primeira, às vezes na segunda ou terceira tentativa. No caso deles, sempre na primeira. Você chuta e ela cai, é isso. Diferente de “bater na porta”, já que você não surra a madeira, apenas toca de leve com os nós dos dedos. Quando um policial acerta os nós dos dedos no meu rosto, não sei se é bater ou se é tocar. A linguagem é uma coisa complicada, não me surpreende que. Eu estava escovando os dentes quando eles entraram, a espuma ainda escorrendo no queixo. Empurraram meu corpo contra a parede e taparam a minha boca com um pedaço de pano. A boca é sempre a primeira coisa que eles prendem. No começo provisoriamente. Depois amarraram minhas mãos e me arrastaram do apartamento para as escadas. Das escadas para a rua. Da rua para o camburão negro. Não, não tenho certeza se foi assim que aconteceu. Pensei nisso tantas vezes que já não sei diferenciar a lembrança real da lembrança inventada. Eu estava na escola. Eles entraram na sala de aula, eu com o avental manchado de tinta guache. Deve ter sido isso, porque em algum momento dentro da cela eu olhei para o avental em farrapos e não soube distinguir sangue e sujeira dos resquícios de tinta. Me empurraram contra o quadro branco, me amordaçaram e prenderam as minhas mãos. As crianças permaneceram sentadas, olhando impassíveis. Por muitos anos eu tive vontade de ter filhos, sufocaram esse desejo em mim. Há algo de perturbador nas nossas crianças. Eu procurava o dentro daqueles olhinhos e não encontrava, eram rasos como os olhos de um réptil. Elas abriam as boquinhas e diziam em coro: Bom dia, professora. Como vai a senhora? Pronunciavam perfeitamente cada sílaba, articulando bem a boca. Bom di-a, pro-fes-so-ra. Pausa. Co-mo vai a se-nho-ra? Eu sonhava em tacar fogo na sala e trancar aquelas crianças lá dentro. Da janela eu as observaria se contorcendo em meio às labaredas. Como quando a gente queima um documento comprometedor. Existe beleza no movimento do papel em chamas, existe prazer em observá-lo se contraindo desde suas bordas, enegrecendo, se desfazendo em cinzas. Elas não eram normais, entende? Não podiam ser. Eu tinha uma vizinha. Um dia a levaram. A gente não podia falar sobre o assunto, mas os boatos sempre encontram meios. E o boato era que o filho havia denunciado a mãe. Um menino de oito anos. Eu sabia que na Alemanha nazista tinham existido crianças que delataram seus próprios pais. Estudei isso quando ainda se estudava essas coisas. Eu estudei, mas eu não sei dizer o que era uma criança nazista. Tampouco saberia dizer o que são as nossas. Eu observava o menino subindo as escadas com as roupinhas brancas, entoando artificialmente cada sílaba. Aquele garoto nunca falou língua de criança. Elas nunca falam. Nascem mudas, como a gente costumava nascer, e logo que aprendem a falar já saem dizendo um português perfeito. Quando me levaram, elas não abriram a boca. Com a coluna ereta, o queixo erguido e os olhos fixos no quadro aguardaram a professora substituta. Ao entrar a nova professora iniciaria um discurso de como a arte deve retratar a ordem do mundo e as crianças voltariam a pintar flores simetricamente dispostas. Só o belo pode ser representado, o traço borrado é o traço da depravação. Minha mão pariu muitas coisas degeneradas e eu reneguei cada um de seus frutos imundos, mas preferia morrer a admitir que ela é incapaz de parir, que do movimento do pulso não se cria nada. Não há pecado de linguagem nisso, o pecado aqui é de vida. Minha mão pariu muitas coisas degeneradas e meu autorretrato foi seu filho mais imundo. Eu levava as mãos ao rosto e tentava identificar cada uma das minhas feridas. O sangue que vertia dos meus dedos se mesclava com o sangue da minha face, ela era fluida como tinta na tela. Com a ponta do indicador eu refazia em vermelho os traços do meu rosto, um novo nariz onde só restava o vazio, um novo olho onde eu era só inchaço. Um rosto de tinta não sente dor, mas há sempre outras formas de te quebrarem. O que ninguém conta é que quando te jogam em uma cela no porão, eles não te dão um banheiro. Nem mesmo uma folha de jornal, jornal é para os bichos e na jaula você é pior do que um bicho. Eu poderia argumentar que os animais possuem a sua própria linguagem e falam por aí sem se impor limites, mas isso não importa. Isso talvez os faça realmente melhor do que nós. Quando te levam para a sala branca e te espancam, quando te dão choque em partes do corpo que você jamais havia sentido, o que eles querem é que você fale, querem que você dedure: quem, quem mais, onde. Quando afundam a sua cabeça em um balde de água suja, quando te penduram pelos braços e espetam o seu corpo, o que eles querem é te castigar: degenerada, traidora, imunda. Quando abrem suas pernas e deitam sobre você, o que eles querem é se divertir: puta. Mas quando te levam de volta para a cela e te obrigam a rolar na sua própria urina, quando te obrigam a dormir nas suas próprias fezes, o que eles querem é quebrar a sua identidade. No começo a gente tenta, separa um canto da cela e mantém distância. Somos higiênicos como gatos enterrando dejetos na areia. Mas um dia, depois de uma sessão de tortura, a gente acorda e descobre que desmaiou em cima da própria sujeira, e que nem se importa mais. É nesse dia que a gente deixa de ser gente. Fazem da sua dor uma coisa indigna e, mesmo anos depois, quando as lembranças traumáticas vêm sacudir cada músculo do seu corpo, você percebe que é incapaz de dissociar o sofrimento do cheiro da sua própria merda. Ainda tenho pesadelos com o momento em que pregaram a mordaça de metal no meu rosto. Um parafuso na articulação temporo-mandibular de um lado, um parafuso na articulação temporo-mandibular de outro. Certeiro, rápido. Conheço o termo correto porque tive disfunção de ATM há alguns anos. A causa da disfunção é desconhecida, normalmente associada à ansiedade. Na prática, uma pessoa que sofre de DTM aperta os dentes durante o sono, como se carregasse uma raiva que ela tenta conter travando mandíbula e maxilar. Passei a usar uma placa de acrílico para dormir. A placa é um protetor bucal que se encaixa nos dentes superiores e os mantêm a alguns centímetros de distância dos inferiores. Resumindo: ela evita o contato. No meu caso não funcionava. O lado direito sempre amanhecia latejando e cada vez que eu abria a boca sentia a articulação estalar. Durante os primeiros dias de uso minha gengiva ficava dolorida. Eu sentia a boca seca e os lábios rachando. Mas logo o meu corpo se adaptou e o incômodo desapareceu. A mordaça parafusada no rosto é uma placa de metal. A mordaça tampa a boca impedindo-a de abrir pouco mais do que alguns centímetros. Resumindo: ela evita o contato. Funciona em todos os casos. No início você sente dor. Depois a dor é substituída pela sensação de boca seca e pelos lábios rachados por debaixo do aço. Mas o corpo se adapta às situações mais degradantes e, cicatrização após cicatrização, a pele endurece como calos nos dedos. Antes de falar sobre os lábios, preciso falar sobre o buraco. Ele existe porque não querem que você morra, precisam que você varra a calçada, que limpe suas casas. Quando não te dão uma sentença de morte, querem que você sobreviva até o fim dos dias como um lembrete. Clichê. O cadáver içado como a bandeira da vitória. O prisioneiro que retorna para dar o recado: Não há esperança aqui. Não há. As formas de controle são sempre clichês, a história está pontuada desses episódios: o corpo esquartejado de Tiradentes espalhado pelas ruas da cidade, a cabeça de Maria Bonita piscando debochadamente para os transeuntes. Mudam-se os meios, adotam-se novas tecnologias, mas os objetivos permanecem os mesmos. Vivo ou morto, o seu corpo é sempre um anúncio. Vá e não peques mais. O buraco não tem mais do que dois centímetros de diâmetro, espaço suficiente para um canudo ou uma colher pequena de sopa. Odeio comidas líquidas desde a infância. Odeio comidas líquidas desde que minha mãe fez uma sopa de legumes para o jantar e eu vomitei a noite inteira. É mais provável que a indisposição tenha sido causada por uma virose ou por alguma besteira que comi na rua, mas desde aquela época eu passei a associar sopa a vômito. Não era vômito o que eu sentia no caldo frio que me serviam na cela. Quando o líquido viscoso tocava nas minhas papilas gustativas o que eu sentia era gosto de tinta. Tinta a óleo branca, algumas vezes preta. Eu saberia distinguir cada cor pelo paladar. O branco é perceptível na parte de trás da língua, região de sabores amargos. O preto se sente na ponta, área gustativa dos adocicados. A sinestesia pode ser um crime quando usada como uma figura de linguagem, mas no corpo ela é um fenômeno biológico que te torna vulnerável. Foi pela tinta na boca que me apanharam. Nem interna, nem externa, ponto de troca entre o de fora e aquilo que há de mais escuro nas entranhas, a boca é o entre-lugar do corpo. Antigamente eram comuns os ditados populares envolvendo essa parte enigmática da anatomia, vestígios de uma língua morta: Quem tem ____ vai a Roma. Em ____ fechada, não entra mosca. O peixe morre pela ____. Ela. foi. pega. com. a. boca. na. botija. Tudo o que é sério começa como uma brincadeira. Como os jogos da infância, que treinam para a vida adulta. Eu costumava abrir o guarda-roupa da minha mãe e me vestir com seus terninhos de ombreiras volumosas e sapatos de saltos que sobravam nos meus calcanhares. Com o figurino meticulosamente escolhido eu me tornava uma repórter, uma detetive, uma mãe bem-sucedida que tentava conciliar a profissão com os cuidados com os filhos. Nunca brincava de ser artista, embora eu desenhasse apaixonadamente. Riscar o papel com giz de cera não me parecia uma tarefa de adultos e crianças sempre brincam de ser adultas. Os relacionamentos também começam como um jogo, um mero explorar de corpos. O que é, o que é, eu e você? Adivinha? Você me adivinha? Tocar o corpo do outro como uma criança se agarra ao seu presente de natal, incansavelmente, até que a brincadeira recai na seriedade do cotidiano, na pequena tragédia das traições. E você reza a deus para que a traição envolva apenas sexo com outra pessoa, mais um número na história milenar dos adultérios. Eu não acredito em deus, mas naqueles dias eu implorava para que a sombra nos seus olhos fosse o vulto de um outro corpo. Não era. Deus não existe. Deitado ao meu lado você costumava traçar as curvas do meu corpo com a ponta do dedo suja de tinta. As linhas se misturavam com as minhas veias formando um labirinto indecifrável. Eu te perdi em alguma bifurcação, quando os seus olhos também começaram a ficar rasos. O fio de Ariadne se desenrolaria por séculos e não nos salvaria. Nós olhávamos para os rostos sem lábios e você dizia empolgado que eu estava melhorando porque finalmente tinha desistido da perfeição. Encarando o retrato nós brincávamos de adivinhar o que aquela figura diria caso pudesse. E se houvesse uma mensagem por trás da pele, bem ali onde os lábios deveriam estar? Começou como uma brincadeira. Eu te entregava uma tela recém-pintada e uma espátula. Quando a tinta já estava seca você raspava de leve a camada superficial e a mensagem se revelava. Às vezes era uma palavra inofensiva, traçada ali apenas pela necessidade de escrever algo, pelo prazer de vasculhar o repertório linguístico que eu tentava preservar nas minhas lembranças. Lá do fundo eu içava uma palavra de sonoridade bonita, um termo que soasse engraçado ou um conjunto de sílabas que quando lidos em voz alta fizessem a ponta da língua roçar nos dentes. Lata. Prata. Bor-bo-le-ta. Outras vezes eu arriscava os versos de um poema que ainda sabia de cor ou uma piada de outros tempos que pudesse te fazer rir. Houve também aqueles momentos em que escondi sob a tinta o que era mais fácil de ser dito em silêncio: Eu amo você. Estou esperando um filho seu. Tive um sangramento essa noite. Acho que estou feliz com isso. Tenho medo por nós. Suas respostas eram devolvidas com o mesmo silêncio: uma frase traçada no labirinto das minhas veias. Um toque nas minhas mãos, um abraço. Os lábios apertados tentando conter suas recriminações. Os olhos rasos que começavam a se desviar de mim. Não devíamos ter nos arriscado tanto. Mas parecia certo bancar o herói, fazer das nossas vidas um obstáculo, resistir quando tudo o que era suave, justo e criativo nos foi tomado. Era excitante fazer circular tantas palavras proibidas bem ali, de baixo dos olhos de todos. Usar as pinturas como meio de transporte, camuflagem, solo fertilizado. Os quadros ainda eram permitidos, desde que se limitassem à função decorativa. A arte é aceitável quando agrada aos olhos. Hipocrisia de uma sociedade que condena uma imagem de Botticelli, mais pela alegoria do que pela nudez, e que, no entanto, se alegra com um vaso de flores toscamente pintado. Para os nossos propósitos, flores mal pintadas serviam. Os retratos sem boca eu guardei. Pelo medo da censura, é verdade, mas também pelo desejo de manter um segredo só nosso. Por trás das pétalas eu ocultava mensagens que me pareciam completamente distintas das que eu te enviava. Mais sérias, mais subversivas. Eram endereços, horários ou nomes que precisavam chegar aos remetentes certos. Às vezes eram também citações, trechos de antigos filósofos que a gente lembrava de cabeça porque já não tinha acesso aos livros. Lembrando agora percebo que me enganei, os recados que eu te deixava eram os mais perigosos. No momento em que iam me colocar a mordaça eles me mostraram uma das minhas pinturas. Não as flores destinadas à resistência, mas os retratos sem lábios. Colocaram a tela diante de mim e me disseram para admirar meu reflexo. Eu queria ter a chance de te perguntar se o que você fez foi apenas por covardia ou se houve um momento em que você realmente passou a acreditar neles. Se desejou que eu me transformasse em uma daquelas figuras na tela. A covardia eu talvez pudesse perdoar. Ainda penso no nosso filho, aquele que morreu dentro de mim antes mesmo de ter um nome. Cada pedaço do meu corpo desejou que essa criança não nascesse. Quando eu fecho os olhos, consigo imaginar o rosto dele, os lábios livres em um choro manhoso. Mas, por mais que eu pense, ele permanece sem nome. Talvez porque a gente nunca tenha conseguido dizê-lo em voz alta. Não diremos mais.

Raíssa Varandas

Texto publicado originalmente no dia 4 de abril de 2018, no Medium.