
Ano 1 do Antes
Andávamos na rua e não víamos um muro que não estivesse pichado com palavras de ordem, pedidos de liberdade, símbolos caçados, imagem de pessoas desaparecidas. Tudo estava ali, ainda presente.
Ano 10 do Antes
Uma porta se abre e um senhor sisudo entra para se juntar a um grupo de senhores de cinza que já estavam sentados ao redor de uma grande mesa.
A atmosfera era sombria, apenas uma pálida luz iluminava o perímetro imediato da mesa, deixando todo o resto da sala na mais completa escuridão.
O senhor que chegou ocupa o último lugar vazio, olha todos os presentes, um por um, dentro dos olhos e, após uma longa pausa, se levanta novamente e inicia uma fala carregada de emoção.
— Caros senhores! Meu coração se enche de alegria ao ver que não estou sozinho nesta luta. Me orgulho em saber que meu chamado ecoou em vossos corações. Se os senhores estão aqui é porque concordam com a necessidade de combater a confusão que vem se instalando em nossa sociedade. Essa ambiguidade de valores, de interpretações do que é falado é uma vergonha! Essa tal de flexibilidade do discurso está acabando com a nossa comunicação e gerando um grande caos que ameaça a segurança da nossa tão amada Ordem Social. Sabemos que vivemos em um momento único de liberdade de expressão que foi conseguido com muito custo. Mas sabemos também que a satisfação com essa liberdade é uma farsa! E está sendo sustentada por esse Sistema com um custo ainda maior: nossos valores! Como ser feliz na liberdade que, na ânsia de atender a todos de forma igualitária, é permissiva e deixa qualquer coisa acontecer?! Não é possível ser feliz quando a sociedade permite ao outro fazer algo que fere pessoas de bem! A felicidade só é real se existirem regras que ditem como o mundo correto deve funcionar. Os erros estão sendo relativizados e, com isso, perdemos o parâmetro do que é certo. Tudo hoje é discutível, tudo hoje é subjetivo, analisado, relativizado e, por consequência, permitido. “É a realidade dele”, dizem, “Precisa saber ouvir o outro, pois só quem sofre sabe onde aperta o sapato”. Não!!! Se tudo fosse regrado, ordenado e fiscalizado da maneira correta, o mal não aconteceria. A receita da felicidade já está aí para nós desde a antiguidade clássica: a ordem! E não existe ordem na relatividade. A culpa de estarmos assim vem, principalmente, da forma como nos comunicamos! A sofisticação linguística que o nosso povo atingiu é tão grande que não basta apenas falar uma palavra para dizer algo, é preciso olhar nos olhos, investigar as entrelinhas, atentar para os movimentos corporais, sentir os odores e o toque do interlocutor para tentar, vejam bem, TENTAR compreender o sentido do que foi dito. Tudo está tão relativo e tão focado nas possibilidades entre emissor e receptor da mensagem que nada mais é fácil de ser compreendido, pois sempre tem uma interpretação que depende de quem ocupa o lugar de fala, desconsiderando, assim, os valores e a ordem que já temos estabelecidos há séculos. Nem mais em nossos tribunais conseguimos ter julgamentos concluídos com a certeza de culpa ou inocência. Cada vez mais pessoas estão sendo deixadas soltas quando deveriam ser presas por terem dito coisas que ofendem a moral e o bom costume das pessoas de bem. É por isso que a nossa união, o nosso movimento é tão importante. Precisamos juntos convencer o Sistema, por bem ou por mal, de que essa nova forma de relativização excessiva da democracia é um câncer em nossa sociedade e que está fazendo morrer as certezas que antes nos guiavam em direção a um bom convívio social e a uma vida digna para as pessoas de bem. Os lugares de homens e mulheres estão se misturando, os núcleos familiares estão uma bagunça. Certo e errado são conceitos que foram explodidos e transformados em meros adjetivos sem importância nenhuma, como feio, bonito, limpo, sujo. Há tantas formas de relacionamentos que já não podemos mais estabelecer uma conexão coerente com a nossa religiosidade e nossa moral. Como se não bastasse, ainda somos atacados por dizer o que sempre dissemos, pois agora quem recebe a mensagem pode interpretar o que foi dito da forma como bem entender! Qualquer um agora tem poder sobre o que nos sai da boca. As palavras já não nos pertencem mais e se tornaram armas que podem ser usadas contra nós por quem está comandando nossa sociedade. Algo precisa ser feito para restabelecer a ordem. Nossos governantes são fracos ao permitirem que tal atrocidade aconteça dessa forma. Eu sonho com uma nação onde subjetividades não terão lugar. Onde as pessoas usarão apenas um número limitado de palavras, nem mais, nem menos, apenas o necessário. Não haverá eufemismos ou espaço para outras interpretações. As falas serão diretas e de sentido único determinado pelo Sistema. Essas palavras não terão poder de machucar nenhuma pessoa de bem e elas trarão a clareza que precisamos para conduzir a nossa sociedade para uma vida feliz e saudável, sem os vícios dos exageros, das ironias, das ambiguidades, do falar flexível que permitem diversas interpretações. E as falas sendo diretas, as ações também serão, assim como os comportamentos. Tudo dentro da norma, do socialmente correto alinhado com a construção de uma nação que promova o bem estar das pessoas de bem! Para isso precisamos de uma fala direta que nos guie para longe desse pântano de dúvidas e permissividades onde estamos nos afundando!
A sala explodiu em aplausos ao fim do discurso e todos se levantaram para cumprimentar o distinto senhor de cinza, que abria um largo sorriso e a cada aperto de mão que recebia, dizia: “Pela fala direta!”
Estava selado o acordo.
Ano 8 do Antes
Normativa interna de instrução de revisão nº 001
“Fica determinado que a mudança deverá acontecer aos poucos, de forma quase imperceptível, para não haver luta. Deve começar primeiro nas escolas, berço formador dos cidadãos do futuro, e nas universidades, fonte da nossa mão de obra. A mudança deverá ser diluída também, pouco a pouco, nos jornais, noticiários, livros didáticos, técnicos e todo tipo de leitura fácil e de rápida absorção. Depois será hora de tratar dos casos mais complexos, os livros de literatura, poesia, cordéis, as letras de música, teatro, filmes, novelas, séries, todos os meios por onde a fala indireta é difundida com maior frequência. Nesses casos, deve-se redobrar o cuidado, pois são meios em que o conteúdo é idolatrado pelo seu público, que, por ter um intelecto questionador, pode notar a mudança e iniciar uma revolta, por isso muita cautela.”
Comissões foram formadas com pessoas cooptadas de dentro do Sistema para, na surdina, ir promovendo essas alterações sem que a sociedade notasse.
Essas comissões desenvolveram um minucioso trabalho de coleta, pesquisa e separação das palavras para selecionar aquelas que poderiam ser utilizadas na nova sociedade e aquelas que deveriam ser banidas. Dicionários foram destrinchados verbete por verbete, os oficiais, os regionais, os profissionais. Todos deveriam conter apenas as palavras necessárias para uma fala direta e clara.
Depois desse processo de caça palavras, as comissões se debruçaram em um processo de revisão literária traduzindo os livros eleitos para o novo vocabulário. O que não foi possível traduzir foi queimado ou trancado no esquecimento.
Esse processo se deu com todos os tipos de livro, da literatura a livros técnicos. A ordem era não deixar passar nenhuma palavra proibida.
Nem as artes plásticas foram esquecidas. Um grupo incitado pela facção Radical iniciou um movimento que valorizava a representação do mundo com ele é, e que foi amplamente divulgado e popularizado em pouco tempo. Textos foram escritos exaltando a nova arte, críticos foram comprados e uma nova estética, em que a subjetividade da interpretação do observador era completamente suprimida, começou a ganhar lugar na sociedade.
As cidades começaram a perder seus espaços poéticos. Grafites e expressões de minorias começaram a ser abafadas do cenário urbano com maior frequência, sendo substituídas por tinta cinza ou silêncios vazios. Pontos de encontro, praças, locais públicos começaram a ser fechados só sendo permitido seu uso com o preenchimento de uma Solicitação de Uso do Espaço Comum, longa e burocrática, que poderia ou não ser aprovada, a depender do propósito do encontro, do grupo que solicitava e, principalmente, da vontade de quem dava a aprovação.
Todas essas ações estavam a cargo da Aliança Radical, grupo que se formou no dia da fala do senhor de cinza e que crescia em número de adeptos dentro do Sistema e entre as pessoas de bem.
Ano 4 do Antes
O Sistema cria a Operação Releitura para descobrir a razão de tantas palavras terem sumido dos dicionários, de os livros clássicos estarem tão diferentes do que era lembrado na memória dos mais antigos e de as expressões artísticas estarem ficando tão monótonas.
Há uma grande comoção na sociedade quando se lança a suspeita de que existe um movimento para cassar a liberdade das palavras. O Sistema diz que vai lutar bravamente contra qualquer tentativa de subtração do que já foi conquistado pelo povo.
Mas o anúncio dessa suposta rebelião tem um efeito contrário ao esperado e começam a surgir apoiadores da Aliança Radical de todos os lados. O Sistema tenta controlar os manifestantes, mas pessoas a favor da nova sociedade dentro do Sistema começam a vazar para o público ações do próprio Sistema que beneficiaram a Aliança. O Sistema é taxado de ambíguo e promotor de incertezas.
Um período de trevas, incertezas e agressões abre caminho para o que um dia seria chamado de Anos de Sangue.
Ano 3 ao Ano 1 do Antes
Período de grande instabilidade social. As lutas entre o Sistema e a Aliança ficam mais claras. A sociedade se divide entre Pessoas de Bem e Pessoas Livres. Cresce o número de Pessoas Livres que são dadas como desaparecidas.
A Aliança Radical resolve que a mudança será feita pela luta armada. Um novo exército é colocado nas ruas, a nova polícia patrulha casa por casa sufocando qualquer tentativa de ir contra o Novo Sistema que está sendo instaurado.
Dentro do Sistema, todos os que um dia se opuseram à ideia do Ser Direto são presos ou devidamente comprados.
Mas há resistência…
Andávamos na rua e não víamos um muro que não estivesse pichado com palavras de ordem, pedidos de liberdade, símbolos caçados, imagem de pessoas desaparecidas.
Ela apenas não resistiu…
Tudo estava ali, ainda presente. Mas pronto para ser apagado assim que o novo ano chegasse.
Ano ZERO
Nunca um Novo Sistema foi tão eficiente em apagar as marcas do sistema antigo. Da noite para o dia muros foram pintados de cinza, cartazes arrancados e nomes apagados do Cadastro de Identificação Geral.
Aquele novo ano era o começo de uma transformação social que colocaria todos na direção de uma vida mais correta e feliz.
O senhor de cinza, que há dez anos atrás havia feito um discurso inflamado em uma reunião às escuras em um beco suspeito agora está de pé à frente de uma multidão na porta do Palácio do Estado. Ele, que por anos a fio se contentou em ser a figura sombria que sentava à direita do governante eleito pelo povo, é agora o próprio governante. É o representante maior do Sistema. E desse lugar fala à nova nação.
— Meu povo de bem! Há muitos anos eu tive um sonho! Nesse sonho pessoas de bem, como nós, eram perseguidas por monstros feitos das palavras que saíam de suas próprias bocas. Esses monstros mudavam de forma, mudavam as palavras, mudavam o sentido do que era dito. Ninguém tinha controle de nada, e a humanidade sucumbia estraçalhada pelo que ela mesma gerava de ambiguidade. Acordei suando, coração acelerado e contei o sonho para minha esposa, que disse: Querido, mas isso já está acontecendo! Olhe à nossa volta! Sábias palavras da minha companheira. Não é à toa que a escolhi para cuidar de mim, da minha casa e dos meus filhos! Não consegui dormir mais aquela noite e, assim que o sol raiou, comecei a pesquisar todos os dados que precisava para comprovar o abismo para onde caminhávamos e assim conseguir aliados para que esse grande dia de hoje fosse realidade! Temamos fazer a transição de maneira suave, para que ninguém sofresse. Mas a resistência, em seu egoísmo cego, nos obrigou a usar a força bruta para alcançarmos o que era certo de ser feito. Após anos de muita luta, na qual vários dos mais bravos de nossos guerreiros pereceram em combate, podemos entregar a vocês uma nova sociedade. Mais pura, mais clara, mais Direta! Nada mais do que existiu no Antes terá espaço em nossas vidas. E caminharemos juntos para a construção dessa nossa nova sociedade do Falar Direto. Mas para que isso seja feito de maneira definitiva e duradoura, instauramos a Democracia da Autorresponsabilidade, na qual cada um é responsável pelo que diz, de forma direta e clara, e quem usar de qualquer subjetividade, ironia, sarcasmo, lirismo, ambiguidade para falar, agir ou se expressar no mundo de qualquer maneira será devidamente notificado e punido pela nossa Polícia do Falar Direto. Tudo aquilo que está nos novos livros é liberado para ser dito, ouvido, pensado e escrito. Tudo o que não está neles não existe e, portanto, não deve ser utilizado em nenhuma forma de expressão ou interação. Só respeitando essas regras seremos capazes de construir uma sociedade feliz e digna das pessoas de bem que a compõem. Agora é hora de nos unirmos, pelas pessoas de bem, pela Fala Direta! É com muita alegria que compartilho com vocês a realização desse sonho que tive há dez anos e me sinto honrado por estar guiando vocês nesse novo momento da nossa história!
Elena Duarte
Texto publicado originalmente no dia 25 de julho de 2018, no Medium.