
Nos porões da antiga sede do Museu da Democracia Autorresponsabilizadora, sobre pilhas e pilhas de ferragens retorcidas, memórias de um mundo que não aconteceu começavam a acordar em meio à escuridão. Nas salas de exposição acima, pessoas corriam para todos os lados fugindo do fogo e da fumaça. Tudo estava um caos.
Apenas um vulto destoava do cenário apocalíptico. Ele caminhava cuidadosamente entre corpos, gritos e choros. As labaredas não pareciam incomodar. Foi serpenteando até um painel no fundo do salão principal que continha o que restava de uma reprodução de Guernica. O painel tinha sido colocado ali para lembrar do quão perigosa pode ser a experiência distorcida de viver em uma sociedade de pensar e falar livre. Passou por um buraco talhado pelo fogo entre os corpos pintados no quadro e entrou em uma saleta que parecia ter ficado guardada pela pintura por muitos anos. Foi até o fundo da saleta e no chão deixou uma pequena bomba. Se afastou, aguardou a explosão e os escombros revelaram uma escada que levava aos porões do antigo prédio.
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Pouca coisa havia restado do prédio e da história que ele guardava. Técnicos do Sistema de Reedição da História Nacional vistoriavam o local comparando as plantas cadastradas com o que havia restado avaliando possibilidades de reconstrução. A câmara na lateral do saguão principal, antes oculta pela reprodução do grande painel de um artista do Antes, Pablo Picasso, chamou a atenção de um dos técnicos por não constar no conjunto de plantas que trazia nas mãos. Chamou um colega e foram avaliar o que poderia ser.
A câmara era pequena, cabiam apenas umas três pessoas, possuía formato retangular. No fundo havia uma escada que levava para um subsolo também não documentado. Enquanto um dos técnicos se apressava em iniciar a correção dos documentos, com medo de serem levados ao Fórum Virtual pelo fato de as plantas não estarem corretas, o outro se aproximava da escadaria que sumia abaixo do solo. Notou que em frente ao primeiro degrau havia uma placa de cobre com os dizeres: “Todos que por aqui passarem protejam esta câmara, pois ela guarda documentos que revelam a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que não soube construir o seu próprio futuro.”
Mal teve tempo de chamar seu colega para verificar a placa. Foram surpreendidos por soldados da Guarda do Sistema que, aos gritos, os retiraram de lá tomando as plantas com as anotações sobre a câmara.
— Nós assumimos a partir daqui!
Dali para frente a recuperação do prédio era assunto do Conselho. Foram acompanhados até a porta por outros dois guardas armados. No caminho viram o Conselheiro Geral chegar e se dirigir direto para a câmara sumindo por detrás de uma pesada cortina com a imitação da imitação do quadro do pintor, que agora ocultava novamente a sala misteriosa. Entenderam que nada poderia ser falado sobre o acontecido ali, a não ser o que fosse oficialmente revelado.
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Os noticiários do Sistema mostravam reportagens lamentando a catástrofe. A nação chorava a perda do grande prédio sisudo e cinza que guardava a memória do que poderia ter acontecido se o Marco da Democracia Autorresponsabilizadora não tivesse existido. Anos e anos de história criada para assegurar que essa forma de viver, direta e rasa, era a melhor que poderia ter existido tinham desaparecido para sempre.
Lamentavam também as vidas perdidas. O Museu estava recebendo um fluxo maior de pessoas por conta do início das comemorações do Marco da Democracia Autorresponsabilizadora. Rapidamente uma grande lápide com o nome de todos que morreram no incêndio foi erguida na entrada do terreno do Museu.
As investigações levantaram eventos em cadeia que culminaram no incêndio. Todos fatalidades. — Foi um triste acidente — falou o Oficial da Investigação.
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No gabinete do Conselheiro Geral o clima era tenso. Depois da noite do incêndio, os maiores esforços foram para encobrir a existência do porão. Não conseguiam imaginar como os construtores do Sistema esconderam de forma tão descuidada o acesso para a antiga Sede da Resistência.
Até então, a Sede era uma lenda urbana, usada para assustar as criancinhas para que não fossem bisbilhotar ruínas que por acaso tivessem passado pelo processo higienista do Novo Governo. Mas agora a lenda havia se tornado realidade e eles não sabiam o que fazer.
Extraoficialmente o incêndio acidental havia sido criminoso. Vários indícios levavam a essa conclusão e o principal deles era a violação da entrada para as ruínas da Sede, que havia sido completamente despedaçada por uma pequena bomba caseira.
O que ninguém ali na sala entendia era a razão de o acesso estar escondido por algo tão frágil como uma réplica de um quadro antigo. Parecia que o Novo Governo subestimara a resistência. Acreditara que tinha realmente acabado com ela nos anos que se seguiram ao Marco da Democracia.
Mas agora era preciso ir fundo para descobrir os responsáveis. Nas buscas feitas no porão pouco foi encontrado. Como não existia documentação do que havia ali, não conseguiam saber se algo importante havia sumido. Mas ainda assim o Conselheiro se mostrava muito preocupado. Uma porta foi achada no final de uma das salas. Essa porta dava acesso a um túnel escavado na rocha, que levava para fora do prédio, se conectando com uma tubulação do sistema de água pluvial da cidade, indo parar em uma praia nos arredores da cidade.
Os Guardas procederam buscas em todo o perímetro, mas como a praia ficava ao lado de uma grande rodovia, quem quer que tenha entrado na sala poderia estar em qualquer lugar do país.
A única coisa a fazer era decretar alerta máximo de todos os investigadores e dos chefes de mídia para impedir que qualquer fato diferente da Verdade fosse a público. De alguma forma, após anos de silêncio, a resistência estava claramente de volta.
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Em uma sala sem janelas, o homem que havia enfrentado o incêndio admirava o seu trabalho. Livros, fotos, vídeos, esculturas, documentos, diários. Aquela sala era uma verdadeira cápsula do tempo. E a história que esses achados contavam era bem diferente da que aprendera nos livros da escola ou da que era estampada e enaltecida nas salas do museu.
Elena Duarte
Texto publicado originalmente no dia 18 de outubro de 2018, no Medium.