Enquanto descia as escadas, minha mente revirava, tentando entender o porquê. Ou talvez sem querer aceitar o(s) motivo(s). Nem peguei o elevador, não queria ver ninguém, muito menos ter que chegar em casa e ver a cara de decepção da minha família. Andando pela rua, assim meio sem rumo, entrei em uma cafeteria, pedi meu lanche preferido, como se para compensar a minha sensação de fracasso. Enquanto isso Doechii no fone “My anxiety, can’t shake it off of me / Somebody’s watchin’ me…” E eu imerso no meu mundo sem perceber que sim, alguém de fato me observava.
Quando o garçom deixou a xícara de café com o sanduíche de cebola caramelizada com pesto, o mesmo pedido se duplicou na minha frente e eu vi as mãos, aquelas mãos que eu conhecia bem, Luana, na minha frente. Seu rosto, assim como o meu, estava diferente. Mas não existia nada nele que causasse alguma repulsa como em mim, ela tinha o rosto iluminado, o cabelo raspado realçava ainda mais o lindo sorriso que ela tinha tem, somado ao batom vermelho que usava e seus belos dentes, tão brancos e simétricos que parecia pintura, nem uma harmonização conseguiria deixar um rosto tão bem moldado (comparação idiota porque nenhuma harmonização deixa rosto harmonizado).
– João, que surpresa te encontrar aqui.
E sentou. Com um desprendimento e uma leveza que eu me senti constrangido em estar tão mal humorado naquele momento, arranquei rapidamente o fone, sem parar a música, abri um sorriso que tempos depois ela me disse que foi o sorriso mais sem jeito que já viu eu dar e brigou por eu não ter desabafado em como meu dia estava sendo ruim. Mas, em minha defesa, eu acho que tudo que ocorreu depois, só aconteceu, porque eu fiz questão de me mostrar na minha melhor versão, contrariando tudo que eu poderia imaginar do meu restante de dia.
O café fechou e nós continuamos o papo pelas suas, enquanto encontrávamos algum barzinho de esquina, para continuar molhando a palavra. Ela contava sobre suas viagens, que conheceu a Nigéria, o quanto se encantou pelo país, mas que estava feliz em voltar, que nunca gostaria de trocar o Brasil por nenhum outro, apesar de ser um país tão racista. Perguntou pela cicatriz no meu rosto como quem perguntaria por um acessório qualquer e nem fez cara de pena quando contei do acidente, na verdade ela ainda disse (e eu jamais vou esquecer) “Puxa vida, um acidente deste e só te sobrou uma cicatriz no rosto? Você deu muita sorte”. O que me fez rir, porque sorte seria a última palavra que eu usaria para falar daquele dia.
Seria, se eu não tivesse encontrado ela. Se ela não tivesse chegado na minha mesa no café, me reconhecendo, me percebendo no momento que eu não percebia ninguém. Nos votos de casamento, ela disse “Você é o perfil que se encaixa perfeitamente para mim”, não ingenuamente porque ela não é inocente e eu agradeço porque do dia que reencontrei Luana eu só me lembro que esse dia foi o dia que a reencontrei e nada mais seria maior que isso. “Every good girl needs a little thug… Every block boy needs a little love”.
Mariana Virgílio
Este conto nasceu no contexto dos estudos decoloniais. Os Estudos Matemáticos abordavam a palavra “mas” como a mais perigosa da língua portuguesa, como disse Zezé Motta em uma entrevista sobre racismo. A motivação da escrita era um conto que tivesse uma virada, um “mas” inesperado.