– Mas eu não posso ir agora, eu sinto que ainda tenho uma última missão a cumprir. Eu sinto isso! Que se partir nesse momento, a minha vida vai ficar incompleta.
– Eu te acompanho há muitos anos, eu sei que você já fez tudo o que podia, protegeu seus irmãos, garantiu uma vida ótima para eles. Cuidou da mãe com carinho antes de morrer. Viu seu marido morrer, cuidou dele. Você disse que o seu dever aqui estava cumprido e me chamou muitas vezes. Agora eu vim e já deu a sua hora. Temos que ir embora.
– Mas eu não tenho direito de ir e levar ele comigo. Parece um filme mal escrito, em que tudo deu certo. Que graça tem essa história?
– O ser humano nunca está satisfeito né!? É agora que você quer virar a mesa? nesse momento?
– Minha irmã ainda vai voltar aqui, eu sinto isso… que vou ter mais uma chance de falar com ela. Só mais uma chance, para eu ter certeza antes de ir.
– Mas é uma mesquinharia, viu? Foram 20 anos fazendo as escolhas que te trouxeram até aqui e, agora, você quer trocar a direção, fuder com todo mundo e partir. Você é mesmo bem filha da puta. Arcar com as consequências você não quer não né?
– Eu não posso carregar isso comigo para o lado de lá! A gente precisa negociar…
– A sua irmã não volta aqui. As pessoas se despediram de você. Foi adeus, bye bye, tchau! Combinou de me encontrar na Suíça, mobilizou a família inteira num ritual de despedida… A essa hora da madrugada, já está todo mundo bebendo a defunta. Você é muito filha da puta mesmo.
– Se eu não tivesse escolha, você já tinha encerrado a minha ladainha. E se a gente está aqui tendo essa conversa, é porque cabe recurso. Por que você está argumentando comigo?
– Você não está morrendo nem de morte morrida, nem de morte matada. Você solicitou “serviço premium” – coisa de gente que faz terapia e sabe o que quer. Então a gente não pode cancelar assim não. Vamos precisar entrar em um acordo.
– Pois então me diga…
– Se eu deixar você ficar, tem duas condições. A primeira é que se eu for embora sem você, eu só volto em, no mínimo, dois anos. E depois disso, vai ser quando EU quiser. E a segunda é que se você ficar de putariazinha de “ah, não sei se conto, se não conto…”, você vai sofrer! Porque eu vou vir bem devagarzinho e você vai me sentir chegando todo dia.
Ângela respira fundo… A Morte continua.
– Então em resumo é isso: se você quiser ficar para fuder com todo mundo, não vai ser só mais 5 minutos. Isso aqui não é modo soneca. Vai ter que aguentar o tranco, a choradeira, o ódio, o rancor… E se você começar a se redimir em vida, um tanto melhor. Você desce mais rápido depois e eu prometo vir mais de mansinho para te buscar sem alarde.
Ângela ficou em silêncio, pois nos seus pensamentos a Morte não poderia entrar. Examinou suas emoções e, mais uma vez, só teve coragem para seguir em frente e não para voltar atrás. De filmes sem graça também é feita a vida. Tomou o comprimido deixado pela enfermeira e repousou no travesseiro com a cara de quem não morreu em paz, mas também não deu trabalho para ninguém.
Maristela Meireles
Este conto nasceu no contexto dos estudos decoloniais. Os Estudos Matemáticos abordavam a palavra “mas” como a mais perigosa da língua portuguesa, como disse Zezé Motta em uma entrevista sobre racismo. A motivação da escrita era um conto que tivesse uma virada, um “mas” inesperado.