Preciso da sua ajuda. Assassinaram meu irmão por dinheiro.
Apesar do clima tenso, Carlos riu com as palavras de Vânia. Não era assim que ele esperava receber notícias da mulher que um dia fora o grande amor de sua vida. Na verdade, não esperava receber notícia nenhuma. Então, lembrou-se do ex-cunhado e lamentou a perda de Vânia e dona Nena. Apesar de estar sempre batendo de frente com a família e causando confusão, no fundo, Caio era um menino bom.
Assim que se encontram no café, Carlos volta no tempo, para a época em que os dois eram felizes. Antes dele descobrir a traição.
– Oi – ela cumprimenta.
– Oi – ele responde. – Como você tá?
– Na merda, mas isso já era de se esperar.
Ela, então, conta uma história sobre Caio ter saído de casa há alguns anos. Nem Vânia, nem dona Nena faziam ideia de onde ele morava ou do que fazia para sobreviver até um ano atrás. A matriarca descobrira uma doença terminal e Vânia se prontificou a procurar o irmão para que a família pudesse se ajudar e se reunir nesse momento difícil.
Preocupado com a mãe, Caio voltou para casa. Porém, dessa vez, com uma rotina diferente. Enquanto Vânia saía para trabalhar, o jovem ficava em casa fazendo companhia para a mãe. À noite, era a vez dele sair e voltava quase ao nascer do sol.
– Um amigo dele conseguiu um bico de segurança em boate e ele sempre chegava em casa com dinheiro vivo. Eu achava estranho e até o segui uma vez para ver se era verdade.
– E era?
– Era. Ele ficava na porta da Safira, aquela balada no centro. Às vezes fazendo a revista, outras só tomando conta mesmo. Isso ele que me falou, só fui conferir uma noite. Você sabe como ele era, não queria que me envolvesse, ou pior, envolvesse a nossa mãe em algum esquema de tráfico ou sei lá o quê.
Vânia prossegue sua novela – Deus, Carlos havia esquecido como ela estendia os assuntos – até a parte em que Caio começou a agir estranhamente. Segundo ela, estava mais feliz do que o normal. Até achou que pudesse ter encontrado alguém com quem sossegar, finalmente. A irmã tentou puxar assunto sobre, mas deu com os burros n’água. Caio escondia algum segredo, mas Vânia só descobrira algum tempo depois.
– Ele era o caso de um casal.
– Como é?
– Caio conheceu uma mulher… Lídia, e começou a se envolver com ela. Cheia da grana que é, meu irmão viu uma oportunidade de tentar subir de vida e pagar um tratamento melhor para nossa mãe. Pelo que ele me contou, Lídia já estava insatisfeita com o casamento e queria pedir o divórcio há séculos. A chegada de Caio foi meio que o que faltava para ela tomar coragem.
– Desculpe, mas há quanto tempo essa situação começou? – Carlos pergunta.
– Acho que há uns oito meses – Vânia responde, um tanto irritada pela interrupção.
– E quando o Caio se abriu com você sobre isso?
– Pouco tempo depois. Coisa de um mês, quando a coisa começou a ficar séria.
Chegava a ser cômico pensar nessa situação toda. Como Caio, aquele adolescente porra louca e mimado, tinha crescido e virado o estopim de uma separação. Vânia desconfia do ex-marido de Lídia? Porra, aquela mulher nunca chegava ao ponto final.
– O corno nem desconfiava?
Carlos percebe que a pergunta deixa Vânia incomodada, mas não poderia deixar de alfinetá-la sobre a traição que ele mesmo descobrira há 15 anos.
– Roberto, o marido de Lídia, também conhecia o Caio. Os dois frequentavam a Safira, foi assim que conheceram meu irmão. Você acredita que a mulher teve a cara de pau de apresentar o Caio pro marido como o amigo gay dela? Assim ele começou a frequentar a mansão sem grandes problemas e desconfianças.
– Vânia, eu vou ter que interromper novamente. Eu te conheço e sempre odiei esse seu jeito de prolongar até mesmo os mais breves encontros. Será que dá pra você chegar logo ao ponto ao invés de ficar dando sua opinião sobre cada ação do seu irmão ou dos suspeitos? Acredito que isso tudo já tenha sido informado à polícia e eles não deram a mínima para as suas firulas e por isso você me procurou, estou certo?
– Continua o mesmo grosso de sempre pelo visto, né, Carlos? Por isso tá aí sozinho, enfurnado naquele muquifo. Você é insuportável, por isso te meti aqueles chifres.
– Insuportável e muito bom no que faço, caso contrário nós dois nem estaríamos tendo essa conversa. Agora anda logo, por favor. Vamos aos finalmentes.
Vânia dá uma bicada no café que havia pedido e enxuga as lágrimas que caem pelo rosto. Mas Carlos a conhece bem demais para saber que não são de dor ou sofrimento, e sim, de ódio.
– Roberto começou a se insinuar para Caio. O amigo viado sempre estava em casa e ele aproveitava enquanto a esposa tomava banho para se divertir com ele. Caio contou que o velho também já andava de saco cheio da madame e queria… experimentar coisas novas.
– Ora, ora, quer dizer então que seu irmão não se satisfez com a sugar mommy e garantiu um daddy também?
– Isso não é engraçado, seu merda. Maldita hora em que eu achei que seria uma boa ideia te pedir ajuda.
– Prossiga.
– Ele conseguiu conciliar a dinâmica entre os dois cornos safados. Deus que me perdoe, mas Caio arrancou um dinheiro bom dos dois. Conseguimos pagar o tratamento da nossa mãe e… ele resolveu dar um basta na situação com o casal.
– Ele te contou isso?
– Sim, tivemos uma longa conversa sobre isso. Eu falei que, se fosse pra terminar, que fizesse aos poucos. Um não sabia da traição do outro, então ele não corria grandes riscos se fosse dando um fora ou outro até os dois desistirem dele.
– Não antes de tirar mais dinheiro dos velhos, né?
– Q-que isso, Carlos? – Ele percebe que o comentário a desestabiliza.
– Só estou seguindo sua narrativa, Vânia.
Ela desvia o olhar e toma mais um pouco de café antes de continuar.
– Enfim, ele disse que terminaria tudo e assim o fez. Uma semana depois, ele me ligou chorando tarde da noite. Eu estava dormindo e levei um susto com o telefone. Caio tinha ido jantar na casa dos riquinhos e, no meio do jantar, abriu o jogo sobre tudo. Que havia usado os dois para conseguir dinheiro, que os dois estavam se traindo com ele e que aquela seria a última vez que o veriam.
Quando me ligou, estava desolado e sem rumo. Pedi que ele me esperasse, pois iria atrás dele para levá-lo de volta para casa. Quando cheguei no endereço que ele me passou, não o vi. Liguei e caiu na caixa postal. Resolvi descer do carro e finalmente o encontrei. Só que ele já estava sem vida.”
– E como você tem tanta certeza de que foi Lídia ou Roberto que o matou?
– Além do óbvio? Motivo de vingança, raiva ou sei lá mais o que se passava na cabeça daqueles imundos depois de todo o dinheiro gasto com ele? Bom, que tal o papel escrito “sinto muito” saindo do bolso da jaqueta dele?
– Então quer dizer que um dos dois o matou e depois se arrependeu?
– É claro, com certeza foi no calor do momento, mas quem quer que tenha feito isso ainda tinha um sentimento recente de… amor por ele.
– E como ele estava quando o encontrou?
– Estirado no chão, com um corte feio na testa e uma poça de sangue em volta da cabeça.
– O que a polícia falou?
– Que ele foi jogado ou empurrado na parede, onde cortou a cabeça e teve um sangramento forte. Deve ter ficado apavorado, a asma atacou e, consequentemente, ele morreu.
Carlos, finalmente, toma um copo d’água antes de começar a falar. Olha para frente, para a mulher por quem foi perdidamente apaixonado um dia. Por quem fora enganado de diversas formas. Ela havia acabado de tentar mais uma vez.
– Vânia, eu sinto muito mesmo.
Um ar de surpresa perpassa pela feição da mulher. Em seguida, ela atravessa a mesa e pousa sua mão na dele.
– Obrigada.
– Sinto muito por você ser tão estúpida – assim que as palavras saem da boca de Carlos, Vânia fecha a cara e recolhe a mão estendida. – Que tipo de idiota você acha que eu sou? Quem você acha que vai acreditar nesse seu fingimento cretino?
Carlos vira para trás e chama alguém. É Lídia. A mulher anda em direção à mesa em que os dois estão e se senta ao lado de Vânia, prendendo-a contra a parede.
– Olá, cunhadinha.
– Sua puta desgraçada, o que foi que você enfiou na cabeça do Carlos?
– Ela não enfiou nada. Apenas me contou a verdade e com provas consistentes.
– Que tipo de prova essa megera poderia ter. E contra quem? Contra o marido?
– Contra você, Vânia.
Carlos tira o celular do bolso e entrega à ela. Dá play em uma gravação onde se via Roberto e Caio brigando. O mais velho empurrando e socando o irmão de Vânia até que ele bate a cabeça na tal parede do beco e cai no chão. Em seguida, Lídia aparece correndo, tentando socorrê-lo. Porém é paralisada pelo marido, que a pega pelo braço e a tampa a boca até entrarem de volta ao casarão.
O vídeo é acelerado até que Roberto volta e coloca o corpo de Caio para dentro do beco. Por pouco, o velho não é visto por Vânia, que sai do carro e vai ao encontro do irmão, ainda vivo. É possível vê-lo segurando o braço dela e tentando dizer alguma coisa. Vânia, então, olha para todos os lados e tampa nariz e boca de Caio. Ele se debate embaixo dela mas, sem força alguma por conta da pancada na cabeça, logo para de resistir.
– Quem faria uma coisa dessas? – Lídia está aos prantos ao rever o vídeo.
– Cala a boca, sua piranha – Vânia falta espumar de tanta raiva. – Você e seu marido viado acabaram com a vida do meu irmão. Antes de vocês, ele era normal. Tinha seus problemas aqui e ali como todo homem, mas não era essa aberração promíscua em que vocês o transformaram.
– Vânia, eu e Roberto erramos, sim. Usamos seu irmão para saciar um desejo que já estava intrínseco no nosso relacionamento. Mas eu não matei ninguém.
– Mas seu marido matou.
– Não, Vânia. Ele deu o empurrãozinho que você precisava para tirar o Caio da sua vida e da vida da sua mãe, pobre mulher. Enquanto ele levava o dinheiro de dois ricaços pra casa tava ótimo, né? Quando ele teve um pingo de dignidade e bom senso por todas as outras pessoas a sua volta, você o descartou.
– Não me importo. Caio não era mais da minha família há muito tempo. Eu tolerava suas confusões, mas a partir do momento em que ele passou a raspar o bigode no do seu maridinho, aquilo foi o fim para mim. E aposto que se minha mãe soubesse, concordaria comigo.
– Além de assassina, é homofóbica. Quais crimes mais você costuma cometer?
Vânia dá um berro e voa em cima de Lídia. Carlos corre para apartar e, logo, dois policiais entram no café.
– Como foi que você conseguiu isso, hein, porra?
– Essa é a câmera de segurança da casa de Lídia. O marido, obviamente, apagou a gravação do computador, porque achou que tinha matado o seu irmão. Mas Lídia conseguiu um backup e me procurou horas antes de você me ligar.
– Te procurou? É o que, você tem um caso com ela também, seu merda?
– Sou famoso por desvendar traições, como você bem se lembra. Lídia, querida, desculpe a indiscrição, mas quantas infidelidades de seu marido eu já descobri?
– Sete.
– Ah, sim. Obrigado – Carlos se vira para os policiais, que já estavam de sobreaviso do lado de fora desde o momento em que o detetive e sua falsa cliente chegaram ao café. – Podem levá-la.
Gustavo Diolindo