“Há 40 anos, chegava ao fim um dos períodos mais sombrios da história brasileira: a Ditadura Militar.”
A voz do jornalista ecoa em minha mente. Penso em você, como há muito já não fazia. Lembro de momentos em que nos imaginei ficando velhinhos juntos, nos preocupando apenas com o que vestir ou o que fazer durante o dia todo. Não se voltaríamos vivos pra casa depois do trabalho.
Aliás, quando digo que há tempos não pensava em ti, quis dizer no peso da sua morte. Seus olhos me vêm à memória todo santo dia. Ouço sua risada gostosa virando as esquinas e cantarolo suas músicas. Penso em como você se incomodaria com a juventude de hoje – assim como se incomodava com a nossa. Honro nossas lembranças no parque e na sua casa, nossos refúgios. Momentos em que fomos felizes. Momentos antes de tudo acontecer.
– Resista mais um dia – você me dizia sempre que voltava de algum interrogatório durante a eternidade que passamos no inferno. Dia e noite nos enganavam.
Nossas celas lado a lado me deixavam saber que você não conseguia pregar o olho. Ouvia seus dedos no metal frio da porta. Nem no pior cenário você deixava a música ir embora. E graças a Deus por isso. Sendo bem egoísta, te ouvir era saber que ainda havia uma pontada de esperança.
Quem poderia imaginar, não é? Dois invertidos subversivos. Um músico e um jornalista. Era óbvio que, uma hora ou outra, iriam nos prender. Mas naquela noite, eu senti que alguma coisa seria diferente.
– Olha só, Jarbas. Enviaram as duas mariquinhas pra gente.
Os mesmos oficiais que nos prenderam em casa estavam na sala de tortura. Nos perguntaram de novo sobre o pessoal do Lampião da Esquina. Pela primeira vez, fizeram o interrogatório com nós dois juntos. O show de horrores começou depois de algumas tiradas suas e silêncios meus.
Você estava amarrado, as mãos para trás, a cabeça pendida para frente. Seu rosto, antes tão vivo, já carregava marcas profundas. Lábios rachados, o sangue seco no canto da boca. Mas seus olhos… seus olhos ainda eram seus. Machucados e fundos, sim, mas sem um pingo de medo ou submissão.
Eu queria correr até você, fazer um escândalo na cara daqueles boçais, te dizer qualquer coisa numa falha tentativa de aliviar aquela dor. Só consegui olhar e sentir. O cheiro de suor e ferro se misturava ao som do cinto lustrado de sangue estalando no ar, seguido por mais baque surdo contra tua pele. Você não gritava, apenas soltava suspiros contidos a cada impacto.
Os oficiais perguntaram, insistiram. Queriam nomes, queriam confissões. Queriam que você se traísse, que me traísse, que entregasse nossos amigos. Meus amigos. Você estava naquela por minha causa. Mas você só cantava e ria. Ria com aquele ar de deboche que sempre me fazia te amar e temer por ti ao mesmo tempo.
– Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia – você provocou, cuspindo sangue, com um meio sorriso torto. Desdenhando da força daqueles militares malditos. – Isso tudo vai passar e vocês ainda vão se foder, seus filhos da puta.
E então vieram os choques. O grito que você segurava se libertou e, com certeza, ecoou para além da música alta que tocava no rádio. Minhas algemas cravaram nos pulsos quando tentei correr até você, mas tudo que consegui foi te ver convulsionando no chão, seu corpo sacudindo como se tentasse se libertar dali. Mas não havia saída.
Te levaram naquela noite e me deixaram ali, no escuro. Sentindo o pouco que restava do seu cheiro. Não voltaram com você.
Eu te vi pela última vez naquela sala fria.
Os dias seguintes foram silenciosos e doloridos. Ninguém precisou me dizer. Eu já sabia que não eram mais os seus passos no cubículo ao lado. Não sei bem como, mas continuei.
Sobrevivi. Por mim, por você. Por nós.
Você sempre me lembrava de não deixar a arte morrer, principalmente, nos tempos mais sombrios. E talvez por isso sua melodia nunca tenha ido embora. A ouvi por muito tempo no farfalhar das folhas do nosso parque. Nos acordes que escorrem de violões desconhecidos em praças públicas. No estalo de dedos de algum jovem distraído no metrô. E, em todas essas vezes, a arte me fez continuar.
Resisti mais um dia.
E depois outro.
E mais outro.
Carreguei teu nome no peito e tua ausência nas costas. Continuei escrevendo, contando nossa história nas entrelinhas de artigos disfarçados, em poesias anônimas, em olhares trocados com outros que, assim como eu, carregavam a dor dos que ficaram para contar a história. Os anos passaram e com eles veio o nosso direito de existir sem precisar nos esconder tanto.
– Isso vai passar – você costumava dizer.
E realmente passou. Hoje os tempos são outros. Apesar da polarização política e de uma onda de retrocesso assustadora, consigo nos ver em casais de mãos dadas pela rua. Nos vejo na TV, nos jornais, nos filmes, nos palcos, nos livros. Hoje poderíamos usufruir do nosso barulho de anos atrás.
Eu só queria que você estivesse aqui para ver. Para me compor uma última canção. Para, quem sabe, envelhecermos juntos como sonhamos.
E, de certa forma, você está. Toda vez que a saudade aperta, sempre que as sombras do passado tentam me engolir, eu repito o que você me dizia por trás da parede daquela cela suja, entre uma tortura e outra, entre a vida e a morte.
– Resista só mais um dia.
Gustavo Diolindo