Ele olha para o botão verde brilhante piscando na tela de seu celular. Sabe que basta um clique e pronto, está feito! Ele sabe que aquilo é o certo! Todos sabem e estão de acordo.

No contador vermelho no alto da tela vê o número crescendo rapidamente. Em pouco tempo atingirá a meta. Em pouco tempo só faltará ele. Tem que agir rápido. É só um clique, ora bolas! Não pode ser tão difícil assim. Respira fundo e vai confiante. Mas, ao ver a imagem que o encara seriamente pela tela juntamente com o contador e o botão de confirmação, hesita.

Quando votou a favor dessa nova tecnologia, nunca imaginou que seria preciso usar. Anos se passaram sem que fosse necessário e por isso tinha uma certeza quase utópica de que nunca se veria nessa situação.

O contador se aproxima da meta. Faltam menos de cem pessoas. Aos poucos vai desacelerando, mas continua subindo num ritmo que ameaça a sanidade do nosso protagonista. Internamente ele torce para que outras pessoas estejam sentindo a mesma dúvida que ele. Afinal, não é possível que só ele esteja incomodado em participar dessa cena horrível.

Ele larga o celular na mesa e anda pela sala. A TV está ligada na transmissão ao vivo da cobertura da primeira execução a ser realizada depois da aprovação da nova lei. Todos estão em polvorosa já que essa nova forma de democracia autorresponsabilizadora prometia ser a invenção mais inovadora dos últimos tempos.

Começa a ouvir uma contagem regressiva e a multidão mostrada pelas câmeras grita em êxtase junto com o apresentador. Nove… oito… sete… seis… cinco… quatro… três… dois… um… Silêncio!

O desespero toma conta do seu coração. Só falta ele! Na TV a população começa a vaiar e a xingar esse anônimo que ainda não cumpriu com o combinado.

Ele corre desesperadamente para achar o controle remoto e desligar a TV. Fecha as cortinas e pega o celular. Na tela, o botão verde pisca mais forte ainda, parecendo clamar para ser apertado.

Mas tudo o que ele consegue ver é aquele par de olhos assustados que fitam a câmera e, consequentemente, o nosso protagonista, de dentro do celular. A transmissão é ao vivo e grossas lágrimas correm dos olhos do condenado.


Semanas atrás, quando o sujeito ainda não era um condenado e andava livremente pelas ruas foi pego de surpresa por um acontecimento inusitado. Um rapaz, de camisa amarelo ovo berrante (há muito não se via alguém vestindo esse tipo de cor. Agora, uso de amarelo ovo berrante era permitido apenas em sinalização de alerta, não era mais cor de roupa, comida, brinquedo ou cabelo), veio correndo em sua direção pedindo por ajuda. O rapaz parou esbaforido na sua frente, agarrou o sujeito pelos ombros, começou a sacudi-lo e a gritar a lista das palavras proibidas olhando fundo em seus olhos. O sujeito, por sua vez, tentava se desvencilhar dessa situação sem chamar muita atenção, mas não tinha mais jeito. O rapaz era forte, o sujeito já estava ficando tonto de tanto ser sacudido e uma pequena multidão de curiosos já se formava em volta daquela cena pouco comum.

O rapaz de amarelo ovo berrante parou de gritar de repente e, ainda segurando o sujeito pelos ombros, ficou olhando fixamente para as pessoas que os cercavam tirando fotos com o celular e exclamando: Nossa… Ohh! Absurdo! Heresia! Sem ter tempo de entender muita coisa, o sujeito foi arrancado da sua tonteira por um forte puxão dado pelo rapaz de amarelo ovo berrante, que o segurava pelo pulso e corria com ele rua afora. O arranque foi tão grande que se o sujeito não o seguisse seria com certeza arrastado pelo chão.

Ao olhar para as costas do rapaz o sujeito entrou em pânico. Escrita em horripilantes letras roxas estava a frase: “Liberdade ao verbo do exagero! Abaixo à fala rasa e direta”. Heresia! Pensou o sujeito. E agora ele corria pela rua sendo arrastado por essa aberração!

A multidão vinha atrás, com seus celulares filmando toda a cena. E, tão rápido quanto surgiu, o rapaz sumiu, jogando o sujeito contra a multidão enfurecida e correndo em meio às placas de construção amarelo ovo berrante como a sua camisa.

Um policial do Sistema de Regulação Social, que foi chamado por causa da confusão, começou a dissipar a multidão para chegar até o sujeito que estava sendo orgulhosamente contido por um grupo de três homens com insígnias douradas no peito. Eram os Cidadãos de Bem, que auxiliavam voluntariamente o Sistema a acabar com qualquer bagunça onde quer que ela surgisse.

Passaram o Relatório Silencioso para o policial ao pé do ouvido e, quando o oficial perguntou ao sujeito se ele confirmava a história dos Cidadãos de Bem, o pobre coitado teve a infeliz ideia de responder ironicamente: Com certeza vou confirmar uma história que eu não ouvi!

O policial, que não era dado a ironias, fez valer a nova Lei do Ser Direto e acionou o sujeito no Crime Contra as Pessoas de Bem. A esse crime se juntou a transgressão de ser visto ao lado de Inimigos da Democracia e a voz do sujeito foi calada pelos vídeos, pela pequena multidão que presenciou o acontecido e pela voz da Lei da Moral Social. Abriu-se votação para as penalidades no novo aplicativo do Sistema e, dado o calor surgido nas discussões na plataforma, a pena de morte do sujeito foi decretada.

Conforme acordado por toda a sociedade no Marco da Democracia Autorresponsabilizadora, a data e hora da execução era marcada para alguns dias após finalizada a votação on-line da sentença e a transmissão on-line ao vivo da execução seria feita para todos os que votaram a favor da pena escolhida.

O dia havia chegado e essa inovação estava sendo pela primeira vez utilizada! Todos os que condenaram o sujeito à pena de morte dariam juntos o comando para injetar a dose letal de veneno através do aplicativo do Sistema de Regulação Social Integral. A injeção só seria dada se TODOS os que votaram a favor da pena de morte estivessem conectados na hora marcada, assistindo pela tela do aplicativo a execução e apertando, quando liberada a sessão, o botão que autorizava executar a pena que eles decidiram dar para o sujeito condenado.


No dia do incidente com o condenado, o celular do nosso protagonista bipou com a abertura da Inquisição Popular e rapidamente a timeline do processo se encheu de vídeos, fotos, depoimentos de pessoas que estavam e não estavam no lugar. Ler aquilo era complicado, cansativo e tomava quase o dia todo. Mas ele não era obrigado a se envolver. Ele só teria obrigação de votar caso comentasse, curtisse, ou fizesse algum tipo de interação efetiva dentro da página do processo. E esse foi seu maior erro. Era difícil acompanhar as conversas e não se sentir tentado a falar. Num rompante justiceiro, esquecendo da responsabilidade incutida no ato, teceu um comentário em resposta a alguém que ponderava a favor do sujeito. Um comentário!

Esse comentário foi o suficiente para colocar o protagonista na situação em que se encontra agora: com o celular na mão, assistindo desesperado àquele circo dos horrores, sendo o único que ainda não tinha apertado o botão.

Ele achava certo condenar à morte, mas como poderia ele mesmo matar alguém? Uma coisa é você votar para que outra pessoa execute uma crueldade, outra coisa é você mesmo ser o executor dela, o carrasco. Ser a própria Morte.

Ele definitivamente não consegue. Várias perguntas dançam em sua mente: O que será que acontece se não apertar o botão? O sujeito condenado sai livre? Serei condenado junto com o sujeito? Por que aquelas outras pessoas acharam tão fácil apertar esse maldito botão e só eu não consigo? O que tem de errado comigo?

Uma coisa que a Lei não deixava clara era justamente essa situação. Como estes eram tempos de Ser Direto, a Democracia Autorresponsabilizadora não considerava como possibilidade a dúvida, a incerteza, a complexidade, a mudança e a flexibilidade. Você fala apenas aquilo que é verdade e uma vez dito, não há possibilidade de questionamentos ou de voltar atrás. Não havia protocolo a ser seguido caso alguém não apertasse o botão, porque estava estabelecido que, uma vez dentro do jogo, você estava concordando em cumprir com o seu resultado até o final. Não existe dúvida quando se é Direto.

Resolve ligar a TV para saber o que o está acontecendo e o que vê são pessoas tensas, querendo a cabeça de quem não tinha apertado o botão. Todos os canais agora exibem a imagem de um celular com a tela de entrada do aplicativo e várias perguntas: Quem não apertou? O que fazer com o desertor? Morte ou liberdade para o sujeito condenado? Morte para o sujeito e para o desertor?

O que fazer meu Deus?! Agora estão querendo me matar por isso! — grita sozinho pela sala o nosso protagonista. Pega novamente o celular e num sentimento de amor à própria pele tenta apertar o maldito botão. Mas o olhar do condenado não deixa que ele o faça. Sabe que no momento em que clicar naquele botão verde gritante estará matando alguém e matar é contra seus princípios. É a favor da pena de morte desde que outra pessoa execute a pena e que ele não tenha nada a ver com isso. Mas esse aplicativo muda tudo! Que merda! Grita enfurecido e larga novamente o celular sobre a mesa.

Ele sabe que é só uma questão de tempo para o identificarem, acharem seu endereço e irem bater em sua casa, aí estará morto! A sua sorte é que o aplicativo garante o anonimato na plataforma, mas com certeza o Sistema deve ter uma maneira própria para identificar as pessoas. Não pode mais ficar perdendo tempo ali, tem que fugir antes que a sua foto esteja estampada em todas as telas do país e sua cabeça, a prêmio.

Rapidamente junta alguns pertences em uma mochila, pega a chave do carro, o celular, e sai de casa ainda sem saber para onde ir, mas com uma certeza: tem que ser o mais longe possível do Sistema.


No Diretório de Cumprimento das Leis do Acordo Social Democrático há um grande rebuliço. Os setores de inteligência já estão sendo acionados para verificar de onde vem essa anomalia e buscando pelo ID dos participantes do julgamento para encontrar o desertor. Porém, não têm ideia do que fazer com ele.

O mais lógico é colocá-lo à prova no aplicativo para ser julgado também.

Mas isso faz com que o outro julgamento seja anulado, pois, se ele não votar, o sujeito não pode ser executado.

O sujeito não pode sair livre, é um herege!

Não sabemos ao certo se ele é um herege ou não. O rapaz de roupa amarela ovo berrante que é, com certeza, um herege.

Mas o povo decidiu que o sujeito é um herege! E deixar ele sair assim, livre pela rua, vai dar força à resistência, vai mostrar o quanto o nosso sistema é falho.

Não podemos deixar que ele saia. Mas também não temos como matá-lo caso o desertor não aperte o botão.

Precisamos convencer o desertor, saber por que ele não apertou o maldito botão!

Isso é impossível! Para convencê-lo, vamos ter que falar mais do que ele pode saber. Se ele for um pouquinho mais inteligente que o normal, ele já está ciente que existe uma anomalia. Ele precisa morrer. Melhor, ele precisa sumir.


Sair de casa só deixa nosso protagonista mais apavorado. Não se fala em outra coisa que não seja o desertor. Todas as telas de projeção coletiva mostram imagens da sala de execução e do aplicativo.

De repente seu celular começa a apitar e ele vê o aplicativo pipocar de denúncias contra o desertor. Se o número de denúncias for suficiente para abrir um processo, logo logo ele estará indo a julgamento antes mesmo de ser preso.

Não consegue pensar aonde ir para se esconder. Sabe que tem que ser um lugar longe de qualquer possibilidade de rastreamento pelo Sistema. Mas locais assim são quase impossíveis de se achar. Lembra-se então de um bunker abandonado perto de uma praia a algumas horas de carro da cidade. Conhece esse lugar porque seu pai costumava levá-lo, junto com a irmã, para passear quando pequenos. Ele lembra que seu pai sumia escada abaixo dentro da grande construção de concreto e eles ficavam com a mãe brincando na praia deserta. Com sorte, esse lugar ainda existe e continua desconhecido. Como não consegue pensar em outra solução, pega a via expressa e segue na direção do abrigo.

O celular segue apitando com as mensagens do aplicativo. Não consegue mais lidar com aquilo. Coloca no silencioso e joga dentro da mochila. Pelo menos assim não saberá quando for condenado. Não irá apertar aquele botão, sua cabeça já está a prêmio.


Essa situação já está saindo do controle. Falta pouco para condenarem o desertor.

Derrubem o sistema!

Tá maluco!? Não podemos fazer isso! Se derrubarmos o sistema, a base Universal de Dados de Controle desaparece e perdemos todo o trabalho desde a instauração do Marco. Eles não vão gostar disso!

Trava! Joga um bug! Qualquer coisa que faça esse contador parar de subir até que a gente consiga chegar ao nosso alvo!


Saindo da rodovia principal, o protagonista entra em uma estrada secundária que desemboca em uma estrada de chão. As ramificações começam a desaparecer e apenas um filete único de terra em meio a uma grande massa de vegetação resta na paisagem.

Dirige por mais alguns quilômetros nessa pequena estrada até chegar a uma praia deserta, com algumas ruínas em um dos lados. Estaciona o carro próximo a uma grande rocha, cobre com o que achou de vegetação e procura a entrada da construção abandonada. Nunca havia estado dentro do bunker, não sabe o que vai encontrar no final daquelas escadas. Mas tem esperança de que ali estará em segurança para pensar o que fazer com a sua vida dali pra frente.

Desce as escadas usando a luz do celular como lanterna. Após muitos degraus, chega a um grande salão e começa a procurar por alguma luz de emergência que, por milagre, pode funcionar.

Encontra um quadro de luz em um dos cantos. Testa os fusíveis e, para sua alegria, um deles funciona, acionando uma pálida luz que ameaça apagar a todo instante. Corre os olhos ao redor da sala. As paredes cinzas estão cobertas por textos usando palavras cujo significado não conhece mais. Segue observando as paredes até que, chegando ao outro lado do salão, encontra uma porta que leva a uma outra câmara. Usa o celular para iluminar o seu interior e o que vê o faz perder o fôlego. Uma série de esqueletos amontoados uns sobre os outros mostrando que algo terrível aconteceu ali no passado.

O protagonista corre até a escada, sobe os degraus desesperadamente, mas encontra a porta trancada. Força a trava de segurança, a maçaneta, mas nada se move. Está preso, sepultado junto com todos os outros ali.

Ouve passos vindos da praia. Barulho de sapato na areia fina que está nos degraus externos. Grita, pede Pelamordedeus! para o deixarem sair. Mas de nada adianta. Fica ali chorando e batendo na porta até suas esperanças se acabarem e ele descer de volta para o salão com a luz que resta, pois está ficando sem bateria no celular e logo logo ficará sem luz.


Feito?

Feito!

Agora só falta clicar! Hackearam o IP dele?

Sim!

Clica logo nesse de botão verde e acaba com isso! — virando-se para o restante da equipe do Diretório de Cumprimento das Leis do Acordo Social Democrático — Que isso nunca mais volte a acontecer!


Na sala de execução soa um alarme, uma salva de palmas é ouvida, o sujeito chora alto e a injeção é finalmente aplicada. A multidão que acompanha pela TV chega ao êxtase ao ver os olhos do sujeito se revirarem e depois seu corpo perder a firmeza, se entregando, morto, para as correias que o seguram na maca.

Aos poucos as queixas contra o desertor vão sendo retiradas do aplicativo e ele sendo esquecido. Uma vantagem do anonimato. Nunca ninguém saberá quem demorou tanto para apertar o botão. O importante é que a pena havia sido aplicada! A vida segue seu fluxo, mas o Sistema tem um problema para ser corrigido. Não é fácil sumir com pessoas de uma hora para outra. Dessa vez foi pura sorte. Sozinho, pais mortos em um acidente anos atrás, irmã desaparecida após um forte temporal, sem filhos, namorada ou amigos e funcionário anônimo de uma fábrica de alimentos sintéticos, não podia haver perfil mais perfeito para ser apagado do Sistema. Mas uma sorte dessa poderia não acontecer duas vezes. O erro deve ser corrigido.


A luz dentro do salão começa a enfraquecer. Logo logo estará na mais completa escuridão, esperando para morrer sozinho naquela tumba junto com outros que tiveram destino semelhante. Tudo porque não teve coragem de apertar um botão, de matar uma pessoa condenada por ele mesmo.

Seu celular já não funciona mais. Está apagado. Nem a chance de reverter a situação, alcançar o perdão de quem o trancara ali ele teria. Começa a chorar e acaba por adormecer.


Acorda meio zonzo com o balançar de um carro. Os vidros escuros deixam ver o exterior apenas por uma fresta de janela aberta. Estão passando por muros brancos, altos. Esses muros ao poucos vão ficando cinzas e as ruas mais sinuosas e estreitas. Está cansado, entorpecido como se tivessem dado algo para ele beber. O carro para em uma ruela, tiram-no do banco traseiro e começam a carregá-lo escada abaixo.

Ao longe ele ouve uma música, sons proibidos. Ao seu redor todas as paredes são cinzas. Vira para o lado tentando ver quem são essas pessoas que o salvaram da morte certa, mas a única coisa que consegue identificar é que usam camisas amarelo ovo berrante. A cabeça pesa, mal consegue se manter acordado. Antes de desmaiar novamente, consegue ler em um cartaz colado em uma parede cinza: “Esperança é a última que morre”.


Elena Duarte

Texto publicado originalmente em 7 de fevereiro de 2018, no Medium.