Ela se lembrava do antes. Não especificamente do Antes, não tinha tempo de memória para tanto, mas do antes que lhes pertencia, da infância, de quando conversavam sobre o que seriam quando crescessem — ou melhor, quando fossem adultos

Primeira lição: configura-se uma impropriedade não especificar, dado que um ser humano cresce do instante da concepção até aproximadamente a idade de dezesseis anos, no caso das meninas, e dezoito anos, no caso dos meninos. A pergunta o que vai ser quando crescer pode ainda provocar respostas de humor duvidoso, como um reles grande, o que, além de debochado, não é necessariamente verdade, porque uma criança cresce e pode se tornar um adulto pequeno em relação a outros, a depender da comparação. Qualquer recurso de linguagem que vise a parar a doxa deve ser evitado por não ser bem visto. Ou melhor, lido. Ou melhor, ouvido. Ou melhor… por não ser.

— e ele dizia que queria ser dentista.

Aquilo era bem próximo. A cadeira se parecia muito com aquela na qual havia se sentado uma vez, aos nove anos, antes da primeira menstruação e do estirão que a acompanhou.

Anotação de dúvida: é autorizado o uso do verbo acompanhar no sentido não de estar em companhia ou de ter a mesma opinião ou ainda de harmonizar musicalmente uma voz e um instrumento, mas de um episódio suceder outro numa temporalidade, sequencialmente, como causa e efeito?

O procedimento, na ocasião, não era nada demais, embora também não fosse de menos: havia um dente que não nascia, ainda que ela já estivesse havia mais de um ano com o buraco deixado pelo decíduo correspondente

Segunda lição: no Antes, as crianças eram ensinadas a chamar seus dentes decíduos de dentes de leite, bem como o espaço gengival deixado por eles após sua queda natural de janelinha. A dentição temporária, contudo, não é derivada de produtos lácteos nem é comestível. Tampouco a gengiva exposta onde outrora se fixara a formação óssea infantil com função mastigatória tem a mesma utilidade de uma abertura na parede de um imóvel pela qual passam luz e ar.

aberto em sua gengiva. Seria preciso cortá-la com um bisturi para expor o incisivo permanente. E, em seguida, colocar um aparelho ortodôntico que forçasse sua chegada para o lugar. Explicaram-lhe detalhes, deram-lhe uma anestesia, disseram que não doeria nada. Mesmo assim, ela recordava que passara o tempo da microcirurgia de olhos apertados e ainda sentira uma lágrima quente escorrer pela bochecha esquerda.

Foi esse mesmo lado do rosto que se molhou enquanto olhava para ele, tantos anos depois. Ao menos ele não disse que não doeria, porque ambos sabiam que não seria verdade e aquela não era uma sociedade de meias palavras. De poucas palavras, talvez, porque sobrara quase nada. Ou, por outro lado, mais adequado seria dizer que sobraram praticamente todas, só que tão privadas de sentido que nem pareciam mais tantas assim. Dor, no entanto, não era uma das que tinham sido eliminadas, em nenhum sentido em que ela estivesse pensando. Dor, física ou não, palavra ou emoção, continuaria a existir.

— Você tem direito a uma última palavra — ele disse. — Caso permaneça calada, seu silêncio poderá ser interpretado como recusa de admissibilidade da culpa e negação de arrependimento.

Mas não seria usado contra ela no tribunal. Primeiro, porque não existia um, não oficialmente. Segundo, que o mais perto disso que existia — e que era a sociedade inteira, as mãos invisíveis que apertavam o botão — já a havia condenado, justamente por causa da última palavra que ela havia dito.

Anotação de dúvida: é legítimo empregar o adjunto adverbial justamente no sentido de precisamente quando se reflete sobre uma sensação de injustiça? Ou isso provoca ambiguidade?

Terceira lição: ambiguidades não são bem vistas. Ou lidas. Ou ouvidas. Ambiguidades não são.

Então, que diferença fazia?

— Você quer? — tornou ele — dizer uma última palavra?

Ela sentiu, meio sem ver, os olhos dele nela, os olhos que lembravam tanto outros olhos, pequeninos. Seu coração se apertou de angústia e saudade. Uma saudade que, a partir de então, não teria volta.

Quarta lição: a despeito de, por semelhança de movimento, ser possível dizer que o coração se aperta durante a sístole, nome da contração rítmica dos ventrículos por meio da qual o sangue é impulsionado para as artérias aorta e pulmonar, as emoções são controladas pelo sistema límbico, parte medial do cérebro, órgão alojado no crânio, e não pelo músculo cardíaco, no mediastino, parte da cavidade torácica, um pouco inclinado para o lado esquerdo do peito.

Contudo, que se fodessem todos os botões já apertados, pensou ela, pois foi bem no peito que doeu.

— Quer dizer sua última palavra? — repetiu, ansioso.

Ela olhou-o. Bem nos olhos. Como tantos anos antes.

— Sim.


Era apenas uma sílaba, mas que mudava tudo. Fosse outra sílaba, aquela que, quando escrita, parece sobrecarregada pelo sinal de nasalidade assemelhando-se ao mesmo cenho franzido de quem a pronuncia, a história teria sido outra. Haveria uma comoção estranha, um espanto amedrontado, pessoas assustadas com o fato de ela declarar que não estava ali de livre e espontânea vontade, perguntando-se como ele a obrigara, mas a mudança na vida seria mínima. A casa continuaria a mesma, mesmos hábitos, mesma rotina. Entretanto, ela estava. Ali. De livre e espontânea vontade. Sempre soubera que estaria, desde menina, do mesmo modo que ele sempre soubera que seria dentista. Por isso, foi com o sorriso que a sílaba que escolhera fazia esticar naturalmente em seus lábios — sorriso desalinhado mesmo depois do ano que passara usando aparelho ortodôntico na infância — que, naquele segundo, pouco antes de assinar o papel, olhou bem nos olhos dele e disse sim.

As recordações desse dia eram feitas de imagens impronunciáveis, metidas fora da língua havia um longo tempo, mas sem as quais o pensamento não conseguia pensar o amor. Durante alguns anos, o cotidiano dos dois não se resumira a acordar e bom dia, tomar café e tudo bem, se arrumar para o trabalho e bem e você, sair de casa e bem também sem que o outro sequer estivesse escutando ou se importasse com a resposta ou soubesse o que dizer se essa fosse diversa do esperado. A diferença de terem crescido juntos era que tinham aprendido desde a infância a se escutar. E se escutavam: com os ouvidos, com os olhos, com a boca, com as narinas, com a pele, sentindo ao mesmo tempo.

Até que passaram a não escutar mais. Ou, como lá fora da casa, em cada rua, em cada beco, em cada esquina, atrás de outros muros, outras paredes, outras cortinas, a escutar apenas o que de fato escutavam, só com os ouvidos, sem olhos nos olhos, sem pele, sem pensamentos. E o antes deles se transformou em algo tão remoto quanto o Antes.

Ela conseguiria identificar no calendário a data exata em que tudo havia acontecido. Os celulares haviam apitado quase simultaneamente, o que não era novidade com a quantidade de aplicativos que avisavam sobre o recebimento de mensagens, notícias, promoções, lembretes e, o que era cada vez mais frequente desde que o sistema começara a ser implantado, polêmicas envolvendo a Regulação Social Integral. Cada um pegou seu aparelho e, enquanto os olhos dela brilharam, ele empalideceu.

— Tudo bem?

— Sim, e você?

— Bem também. — E depois abafou uma gargalhada, divertindo-se, como de costume, com a forma como aquele diálogo ensaiado soava na voz dos dois e, mais do que nunca, com o quão pouco aquelas palavras diariamente repetidas a quem quer que encontrassem podiam graduar o quanto realmente estava. Bem. Muito bem. — Estou grávida.

Ele fitou o aparelho que ela lhe estendia, o resultado do exame visível na tela inicial do aplicativo, mas não a encarou.

— Fui convocado para comparecer à sede do Conselho de Garantia da Autorresponsabilização.


O Consultório localizado na sede do CGA

Anotação de dúvida: não é uma incoerência manter a nomenclatura consultório, substantivo derivado do verbo consultar, para um gabinete no qual ninguém entrava para pedir ou aceitar de bom grado um conselho? Onde o sim nunca seria como aquele proferido anos antes, sorriso nos lábios, de livre e espontânea vontade? Quem (um eu querendo ser bom) mantém o nome consultório (uma palavra querendo ser agradável) não estaria cometendo uma infração digna de ser enviada para o próprio Consultório?

preservava (ou imitava) as características do consultório de antes. A mesma luminosidade, os mesmos tons, até o mesmo móbile de dentinhos de pelúcia que o trauma infantil a fizera insistir para que ele instalasse a fim de distrair qualquer criança que precisasse passar por lá. O que o distinguia eram, sobretudo, as correias que prendiam os pés e mãos do paciente

Quinta lição: no Antes, era usual denominar pacientes os indivíduos atendidos por profissionais e serviços de saúde em geral, incluindo dentistas. A terminologia, contudo, é equivocada em sua origem, uma vez que paciência não costuma ser um sentimento vivenciado pelas pessoas que procuram tais profissionais e/ou serviços — ao menos não no momento em que essas pessoas os buscam. Em contrapartida, a adequação do termo paciente ao contexto do Depois é direta, visto que, após pronunciar a última palavra a que tem direito para não incorrer em recusa de admissibilidade da culpa e negação de arrependimento, paciência é o que resta ao indivíduo em questão.

para impedi-lo de se mover quando sentisse a dor.

— Fica calma — por um instante, um espasmo muscular deu-lhe a impressão de que ele lhe afagaria o braço, mas o toque não aconteceu. — O instrumentista vai entrar logo. O Assistente também.

Sexta lição: assistente era um nome impróprio dado, no Antes, aos auxiliares de consultórios, que, obviamente, não apenas assistiam ao procedimento, mas ajudavam dentistas, médicos e afins a realizá-lo. Por sua vez, os Assistentes do Consultório, no Depois, honravam o nome.

— Tudo bem?

Sim e você bem também sim e você bem também sim e você bem também se repetiram na cabeça dela, mas não ousou nem piscar os olhos. Paciência. Era uma paciente.


— Atendi hoje o primeiro paciente.

— Você não está falando sério.

— Não estou sorrindo.

Quem sorriu foi o filho, os olhinhos espertos, que lembravam tanto os do pai, enrugando-se nos cantinhos, e a risadinha sonora e aguda preenchendo o ambiente. Puxara o babador sobre a boca e o nariz, como uma máscara e, se em outro tempo ela acharia graça e diria a ele — olha só, será como você! — , naquele dia pegou-o no colo assustada, tirando o pano de seu rosto e fazendo a criança chorar. Enfiou-lhe o indicador entre os lábios pequenos, tocando a língua macia e sentindo a dorzinha da mordida dos quatro dentinhos afiados que nasciam. Não foi para calá-lo, mas para saber que lábios, língua, dentes ainda estavam ali.

Pouco mais de um ano e meio antes, no dia que as mensagens chegaram, os dois sentiram medo de terem sido flagrados pelo novo aplicativo em fase de implantação. Tomavam cuidado para não dizer nada proibido, mas e se a tecnologia fosse capaz de detectar que o tom de suas vozes nem sempre correspondia ao esperado, ou que seus olhares davam risadas mesmo quando suas palavras não, ou que sabiam ter conversas inteiras só deitados, um ao lado do outro, segurando-se as mãos? O motivo da convocação, porém, era outro. O Marco da Democracia Autorresponsabilizadora havia sido um grande avanço, mas a sociedade moderna que substituíra ministérios por conselhos populares e tribunais por fóruns de discussão virtuais ainda carecia de um método para executar as sentenças. Ele entendia de consertar bocas; estava sendo chamado a trabalhar, pelo bem comum, para calá-las.

Os meses seguintes foram de treinamento e depois de espera, e não só pelo filho que crescia, primeiro dentro e, em seguida, fora do corpo da mãe. Perguntar se tudo estava bem ao fim de cada dia adquiriu um outro significado. Responder o sim também. Queria dizer: ainda não. Ainda não amordacei ninguém.

Naquele dia, porém, a resposta foi outra. Apenas uma sílaba, mais uma vez, mas que novamente mudou tudo. Ela conseguia enxergar na testa dele, entre as sobrancelhas franzidas, os sulcos carregados formando o til que marcava o som daquelas três letras que pairaram no ar, sem que nem ao menos precisassem ser ditas. Eles não se abraçaram, não choraram um nos braços do outro. Só ficaram ali, encarando-se, sem coragem de dizer mais nada, enquanto o filho chupava o dedo da mãe. Talvez, se aquilo virasse um hábito, a criança precisasse de um dentista quando crescesse. A partir daquele momento, os pais passaram a esperar muito que não.


Não precisaram esperar muito tempo até que instrumentista e assistentes entrassem no Consultório. De esguelha, imóvel na cadeira em que estava de pés e mãos atados, ela tentava decifrar se seus rostos traziam os cenhos

Sétima lição: glabela é o nome oficial da parte da testa entre os sobrolhos, assim chamada porque se trata de um espaço geralmente glabro, isto é, sem pelos. Era considerado impróprio se referir a ela como cenho, por dois motivos: 1) esta palavra designa todo o rosto e 2) esta palavra designa um rosto de aspecto severo, uma fisionomia sombria, algo que não acontecia no Depois; o Depois não dava motivos para faces sombrias.

Anotação de dúvida: pode-se usar o adjetivo sombrio para descrever um rosto perfeitamente iluminado pelas lâmpadas artificiais do Consultório claro?

Oitava lição: não.

do não ou os lábios do sim.

O instrumentista vinha empurrando um carrinho de metal, coberto com um tecido branco, imaculado como sua roupa. Ela estranhou, porque a maioria daquilo que daria nome ao instrumentista já estava lá dentro, disfarçado do que era no Antes. Brocas continuavam sendo brocas, embora sua função não fosse mais a de remoção de cáries e preparação das cavidades dentárias para receber obturações, mas sim a de abrir os buracos no maxilar para a entrada de parafusos. As diversas chaves de fenda eram semelhantes aos antigos aplicadores de cimento de hidróxido de cálcio, calcadores espatulados, sondas exploradoras e escavadores de dentina. O boticão também continuava ali, um aviso de que, se algo desse errado com o procedimento padrão, sempre seria possível arrancar não só todos os dentes, mas a língua.

O instrumentista, no entanto, não era honrado com esse título por todos os apetrechos odontológicos que o dentista já fora preparado para utilizar. Sua tarefa era mais nobre: debaixo do pano branco que se descortinaria para o Ato Final, estava o único que realmente interessava à audiência: a placa de metal eletrônica que seria implantada em seu rosto. O meio pelo qual os homens reunidos naquela sala, naquele dia, roubariam a voz de uma mulher.

Nona lição: o verbo roubar significa apossar-se de algo que pertence a outrem, com intimidação ou violência. Não era apropriada, portanto, sua utilização para se referir ao que acontecia dentro de um Consultório. A Democracia Autorresponsabilizadora não intimidava ou violentava; cumpria normas autodeterminadas pela sociedade e realizava procedimentos. Tampouco era lícito dizer que se apossava da voz de alguém. A voz em questão era descartada porque, na verdade, não interessava a ninguém.

Anotação de dúvida: é possível se sentir roubado por algo que já se tinha perdido?


Ela recebia-o calada a cada vez que ele chegava em casa. Ele também não tinha nada a dizer. Sabiam que se arriscavam, que algum vizinho podia sentir falta dos tudobens e dos sins mecanizados, que a tecnologia se desenvolvia com agilidade suficiente para que quaisquer palavras — ou falta delas — fosse monitorada pelos respectivos celulares e aplicativos. Só que não tinham forças. No início, passado o estupor da primeira notícia, ainda o abraçava algumas vezes e beijava-lhe o cenho franzido (ela se recusava a usar, em pensamento, a outra palavra) até substituí-lo, ainda que minimamente, pelo leve esticar de lábios que dizia, em silêncio, que sim, ainda escuto você.

Abraços e beijos diminuíram, contudo, na proporção inversa ao aumento das mensagens convocando-o à sede do CGA. Sempre que o celular dele apitava, o corpo dela se arrepiava inteiro e o que ela apertava nos braços era o filho, todo ano um pouco mais crescido, temendo pelo dia em que um simples choro infantil, passível de tantas interpretações, também infringisse as regras cada vez mais rígidas.

Em contrapartida, o trabalho dele era admirado no condomínio em que moravam. No pequeno parquinho, onde as mães se reuniam no fim das tardes para que as crianças brincassem, os tudobens e você que recebia eram rotineiramente mesclados de deslumbramento e inveja, pontuados com frases soltas que incluíam expressões como trabalho importante, alto posto no Conselho de Garantia da Autorresponsabilização, função imprescindível para o bem-estar social, como ela devia se orgulhar e um suspiro do tamanho de uma exclamação.

Esse foi o grande assunto no dia em que a professora das crianças foi denunciada e levada sob custódia do Sistema de Regulação Social.

— Nossas crianças expostas, que horror.

— Que bom saber que alguém próximo de nós, que conhece nossos filhos, será o responsável pessoal por assegurar que essa influência ruim não continue nem se repita.

— Como você deve se orgulhar!

E todas sacavam seus celulares e digitavam com fúria na plataforma da Inquisição Popular aberta, citando exemplos de como sempre desconfiaram que a professora era uma subversiva.

Aquilo lhe provocou um mal-estar. Eles conheciam a professora; de vista, mas conheciam. Não dava aulas para o filho, mas era alguém de seu convívio, que morava por perto, que tinha uma vida visível. Não um número no celular, não um perfil, não uma fotografia, por vezes distorcida, no avatar de uma rede social, mas alguém tangível, com quem já chegaram a trocar cumprimentos pelo menos uma vez. Nem sabia do que estava sendo acusada, mas, ainda que fosse grave, como poderiam deitar na mesma cama e dormir depois disso?

Pegou o menino no colo, sem se despedir, e foi para a casa às pressas. Na sala, enquanto andava de um lado para o outro esperando que ele chegasse, preparando-se para exigir que ele não fosse responsável por aquilo, lia as manifestações das vizinhas e de dezenas, centenas, milhares de desconhecidos que possivelmente nunca haviam se encontrado com a acusada na vida e que, ainda assim, apontavam dezenas, centenas, milhares de razões pelas quais uma mulher que não sabe se expressar merece ser amordaçada.

— Quatro pessoas também foram levadas sob custódia só hoje. — A cabeça latejava.

— Quatro pessoas e a professora. — Os ouvidos zuniam.

— Que horror, quatro pessoas e uma mulher. — A vista tingiu-se de vermelho.

— Claro, porque uma mulher não é gente, né?

Quando percebeu o que tinha digitado, largou o aparelho como se lhe queimasse os dedos. O baque, entretanto, foi abafado pelo choro da criança e pelo barulho da porta, de cujo batente ele a olhou apavorado, com seu próprio celular nas mãos.


Décima lição: declarar publicamente que mulheres não são gente constitui ofensa e crime contra os direitos humanos, os direitos das mulheres e o Sistema Democrático Igualitário. Pena de perda do direito à maternidade e à livre expressão, corroborada em Fórum Virtual de Inquisição Popular instituído para julgar o caso, conforme estipulado no Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora.

A cópia do EDA era o segundo instrumento trazido, este no bolso da roupa imaculadamente branca, e sobre ela o instrumentista devia fazer o dentista repetir o juramento de sua função. Aquele era um momento de grande expectativa para os assistentes, que se remexeram em seus lugares, ávidos pelo espetáculo.

— Doutor, viestes aqui para cumprir vossa missão perante a sociedade. Por isso, eu vos pergunto diante da assistência: é de livre e espontânea vontade que o fazeis?

Os assistentes prenderam a respiração, como devem ter prendido também todos aqueles que acompanhavam as notícias de suas casas, do conforto de seus sofás. Ela, porém, soltou o ar lentamente enquanto o observava enrugar o intercílio. Ele olhou-a — bem nos olhos — no mesmo segundo em que a boca dela, ainda descoberta, repuxou-se ligeiramente num canto. E então ele pronunciou, com uma única sílaba, sua palavra. A última.


Táscia Souza

Texto publicado originalmente em 21 de fevereiro de 2018, no Medium.