
Acordavam juntos, pois dormiam todos no mesmo quarto. Era um quarto grande cheio de camas ocupadas por meninos como ele. Havia um outro dormitório apenas para meninas logo ao lado. Gostava da sensação de amplidão que dava dormir naquele mar de camas.
Despertavam com alto-falantes tocando músicas de um tempo que não conheceu. A cada manhã uma nova música apresentava o que havia sido feito quando era permitido falar usando todas as palavras e emoções que a mente humana livre era capaz de criar.
Aquele dia acordou animado! Era o grande dia! O dia do despertar do guerrilheiro. Enquanto ouvia a música, arrumou a cama, lavou o rosto e, junto com os outros garotos, desceu para o grande salão onde tomaria café.
O café sempre acontecia em pequenos grupos, de meninos e meninas de várias idades, cada grupo tendo a companhia de um mentor que ajudava a conduzir uma conversa mais profunda e poética para iniciar o dia com uma inspiração para a alma. Durava em média uma hora.
Normalmente, depois do café, cada um se ocupava da rotina do dia, que era dividida entre estudos da língua antiga, atividades físicas (luta e jogos de combate) e cuidados com o espaço coletivo. Mas aquele dia foi diferente para ele.
Assim que terminou o café, foi acompanhado pelo seu mentor do dia até o salão principal para encontrar com o Grande Conselho. Chegando, foi recebido com muitos sorrisos por todos que estavam ali. No centro havia uma mochila branca e um conjunto de calça e blusa cinzas. Ele precisaria trocar as roupas coloridas que usavam por aquelas de tom neutro para se misturar aos Cidadãos de Bem. Deveria também fazer a barba e cortar o cabelo. Dessa parte não gostou muito, mas não tinha muito como ir contra. Fazia parte do ritual.
Era para esse dia que estava sendo preparado nos últimos 18 anos. Todos os ensinamentos, toda a liberdade de falar, de sentir, de ser precisavam ser experimentados para que soubesse o que era ter isso tudo tirado em questão de segundos. O depois, ninguém sabia. Esse momento era uma passagem sem volta. Sairia daquela grande casa para a prova da Imersão. Nunca mais voltaria para aquele lugar. Sabia que, depois desse momento, teria que decidir o seu caminho olhando sempre para frente. Seu coração se enchia de alegria e temor ao mesmo tempo. Por que o desconhecido amedronta tanto nosso coração? — pensou.
Todo o processo de transformação levou uma hora. Se olhou no espelho e quase não se reconheceu. Rosto novo, cabelo brilhoso de gel, roupas sem graça nenhuma que tinham a função de torná-lo mais um no meio de todos. Apenas o brilho no olhar lhe confirmava que, dentro daquela figura inexpressiva, seu espírito ainda existia. Foi encaminhado de volta para a sala onde foi cercado por todos os membros do Conselho. Cada um deles tinha um presente para lhe dar:
— Olhos abertos! Coração atento! Espírito livre!
— Esse momento é transformador. Não se deixe chocar demais, nem de menos. Encontre a medida para o que vai ver e sentir nos ensinamentos que teve aqui nesta casa.
— Você não voltará. Mas estaremos sempre na sua memória e no seu coração. Quando precisar de orientação, terá no seu mentor tudo o que precisa para seguir firme na Imersão.
— Sempre terás a tua liberdade. Já ouviu falar dos que não conseguiram seguir em frente. Dos que não aguentaram o que viram, não conseguiram viver na dualidade e se juntaram ao Sistema escolhendo viver à sombra de tudo, longe de todos, mas seguros em si mesmos. Isso não é um problema. Mas, uma vez tomada a decisão, ela é imutável.
— Quando chegar o momento de decidir, você saberá!
— Não olhe para trás.
Após essas palavras, o mentor que o acompanharia durante a Imersão já estava ao seu lado vestido e arrumado da mesma forma que ele. Uma pequena porta na lateral da sala se abriu. A medida que caminhavam na direção dela, seu coração acelerava. A claridade ofuscava o que havia do outro lado. E a última mensagem “não olhe para trás” ecoava dentro da sua cabeça como um aviso do que seria sua vida dali para frente.
Passou pela porta. Os muros eram cinzas, pequenas calçadas de pedra, também cinza, indicavam por onde deveriam passar para ficarem a salvo de carros que andavam a uma velocidade que nunca havia visto.
Não havia árvores ou jardins na paisagem. Descobriu que eles existiam apenas em pequenas áreas onde era permitido descansar o corpo (não a mente) por alguns instantes. Essas árvores eram podadas e cresciam de acordo com a vontade do Sistema. Tudo tinha seu lugar e era sempre validado e vigiado pelos Cidadãos de Bem que ajudavam o Sistema de Regulação Social Integral a manter tudo em ordem.
Caminhou com o seu mentor até um prédio antigo, onde moravam várias famílias. Chegando lá, foi apresentado à sua nova casa, que dividiria com o seu mentor pelos próximos 4 anos. Antes de seguir para a próxima etapa, ele deveria passar pela Imersão no Sistema. Observar de perto como era viver com a limitação de ser livre. Viver na pele o que só havia ouvido falar nas aulas preparatórias. Seriam 4 longos anos depois dos quais deveria decidir se ficaria ou seguiria em frente.
O papel do mentor era acompanhar esse processo e ajudar em qualquer dificuldade de integração. O mentor já havia passado pelo mesmo processo e estava há muito tempo na Resistência. Para a sociedade funcionariam como pai e filho, mas eram muito mais do que isso. Eram hackers, entendendo o funcionamento do Sistema de perto, de forma invisível, para usar, no futuro, esse conhecimento contra o próprio Sistema.
Por isso o processo de integração teria que ser perfeito. Ele, enquanto aprendiz, deveria conseguir se integrar e entender a ‘sociedade normal’, mas, ao mesmo tempo, deveria conseguir manter a pureza dos aprendizados que teve na grande casa, não deixando a poesia e o livre falar desabitar o seu ser. Se isso não acontecesse, deveria ficar integrado de vez na sociedade, perdendo sua chance de integrar a resistência. Mas ainda não sabia disso. Isso só seria revelado no momento da decisão.
* * *
Quatro anos passaram rápido. Não havia sido muito difícil habitar dois universos diferentes. Na universidade, com os amigos, se habituou a falar apenas usando as palavras permitidas. Sublimava qualquer ironia, traço de humor, sarcasmo, lirismo, poesia das suas falas. Mas, quando chegava em casa, tinha longas e belas conversas com o seu mentor sobre tudo o que tinha visto, sentido, aprendido durante o dia. Seu mentor havia se tornado uma grande fonte de inspiração na sua vida.
Via tudo como uma grande diversão e sentia que estava sendo preparado para algo ainda maior. No dia da sua graduação houve a celebração permitida pelo Sistema, com toda a pompa e palavras medidas que eram permitidas. Estava ansioso para chegar em casa e falar com o mentor que estava pronto para a próxima etapa. Que queria muito lutar contra toda aquela limitação de pensamento e palavras.
Mas, chegando em casa, seu mentor não estava. No quarto onde ele dormia agora havia um quarto de estudos que nunca parecia ter tido outro uso nos últimos 4 anos. Saiu de casa e começou a perguntar por ele para os vizinhos, mas todos pareceram surpresos em descobrir que morava mais alguém como ele. Ninguém nunca havia visto o seu mentor, não sabiam de quem ele estava falando.
Sentiu seu mundo desmoronar e sentiu que estava ficando louco. Como uma pessoa some assim de uma hora para a outra da sua vida? Como ninguém no prédio conhecia o seu mentor? Sabia que ele era um homem reservado e nunca havia visto ele deixar o apartamento, mas isso não era motivo para seus vizinhos acharem que ele morava sozinho.
Voltou para casa e ficou pensando no que aquilo poderia significar. Será que ele inventou isso tudo para evitar a solidão que vivia desde pequeno por não ter pais?
Passou alguns dias sem sair de casa, perdido em divagações, tentando decidir o que fazia mais sentido para sua vida. Tudo o que viveu na grande casa realmente parecia fruto de ilusão. Aquele mundo, seco, cinza, sem vida e sem cor, que todos aceitavam tão bem, parecia muito mais plausível do que a fantasia de um mundo onde existia liberdade de ser e falar. Não queria sair de casa. Não queria falar com os vizinhos nem os amigos da faculdade. Se fechou no fundo da sua paranoia.
* * *
Um dia, em meio a mais uma noite mal dormida, um livro de capa amarelo ovo berrante, na sua cabeceira, chamou a atenção do seu olhar. Pegou e lá dentro estava escrita apenas uma frase “se você chegou até aqui, sabe o caminho para voltar.”
E nas páginas seguintes letras de músicas escritas com muitas palavras proibidas. Começou a ler e lembrar das manhãs que acordava no dormitório com os outros meninos. Das conversas no café da manhã. Das frases que eram destacadas dia após dia explicando o sentido das músicas. Lembrou que sempre encerravam os encontros matinais com uma palavra destacada, que seria a palavra do dia para meditação e inspiração. Depois de um tempo, ele notou que eram sempre as mesmas palavras, que se repetiam em uma ordem específica. Mas tomou isso como mera curiosidade.
À medida que lia as músicas, essas palavras começaram a voltar em sua mente. Pegou uma caneta e começou a sublinhar as palavras nas músicas e percebeu que elas formavam uma instrução bem poética e detalhada de como chegar ao acampamento da resistência.
* * *
Sua chegada foi festejada com muita alegria. Na porta do pavilhão seu mentor e o grupo de conselheiros que havia visto no seu último dia na grande casa estavam de braços abertos e se apressaram para abraçá-lo e parabenizá-lo pela conquista. Se estava ali naquele momento, era porque o ideal da resistência havia sido bem semeado no seu coração. Seria um bom guerreiro para a luta.
Começou então mais uma fase da sua preparação. Deveria conhecer todas as técnicas necessárias para poder atuar em todas as frentes existentes na resistência. Seriam mais dois anos de treinamento antes da sua primeira missão de campo.
* * *
Mas esse dia chegou antes do esperado. Com seis meses de treinamento foi chamado na sala do conselho e avisado de que precisavam dele para uma missão urgente. O novo app do Fórum Virtual de Inquisição Popular havia sido lançado há um tempo e ainda não tinha sido usado. Precisavam criar uma situação que forçasse seu uso, mas que eles pudessem garantir que nenhum inocente fosse condenado. Depois de muita discussão, um dos resistentes se ofereceu para sacrifício à causa. Mas precisavam de mais um para o plano e teria que ser uma pessoa ágil, que fosse boa de corrida. Ele era o melhor de todos nesse quesito.
* * *
Camisa amarelo ovo berrante com os dizeres “Liberdade ao verbo do exagero! Abaixo à fala rasa e direta” escritos em roxo nas costas. A lista das palavras proibidas memorizadas. O corpo preparado para a ação. Seu coração pulsava forte, quase saindo pela boca ao se ver camuflado em meio aos tapumes que tinham a mesma cor da sua camisa. Estava quase no momento. Ao ver passar o seu alvo, correu, gritou, puxou, encenaram, sumiu novamente em meio ao mar de placas amarelo ovo berrante.
Elena Duarte
Texto publicado originalmente no dia 2 de maio de 2018, no Medium.