Paladar: um comprimido de Sincerium.

Audição: as rodas do carrinho de instrumentos guinchando no piso branco.

Visão: o olhar de pavor do paciente atado à cadeira.

Tato: a mão puxando o pano branco que cobre o instrumento.

Olfato: o cheiro do Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora.

Uma inspiração. Permitida. O ar entra. O cheiro. E então outra inspiração. Proibida. Uma que não poderia acontecer.

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É exigência do cargo. A pequena pílula branca que derrete na língua, nem doce nem amarga, mas de um sabor asséptico, como enxaguante bucal. Serve para esse fim. Para impedir que qualquer resquício de matéria infecciosa ou patogênica entre no Consultório, inclusive — e principalmente — aquelas presentes nos pensamentos. Nenhum problema quanto a isso. À exceção das manifestações involuntárias do corpo provocadas pelos sentidos, a mente segue impassível. O corpo pode sentir ojeriza. Ou desgosto. Ou asco. Ou ojeriza, desgosto e asco que, juntos, denotam um mínimo de compaixão. A cabeça não. A cabeça se concentra na tarefa. A mesma no Antes e no Depois. Guardador de livros. Do livro.

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Paladar: acidez estomacal enviada, num refluxo, para a garganta.

Audição: a própria voz pronunciando a pergunta que antecede o juramento do dentista. Doutor, viestes aqui para cumprir vossa missão perante a sociedade. Por isso, eu vos pergunto diante da assistência: é de livre e espontânea vontade que o fazeis?

Visão: o piscar de olhos rápido que prenuncia a resposta.

Tato: a mão sob a quarta capa, tão manuseada.

Olfato: o cheiro do Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora.

Uma inspiração. Permitida. O ar entra. O cheiro. E então outra inspiração. Proibida. Uma que não poderia acontecer.

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Estava escrito em algum lugar que o olfato era o mais mnemônico dos sentidos. Ou estivera, sinônimo de não estava mais. Pretérito mais que perfeito era o que chamava no Antes. Nome mais que perfeito também. Literalmente, apesar de abolido no Depois. Todos os dias, ao abrir a porta, no Antes, o cheiro dos livros invadia as narinas. Uma inspiração e uma gama de inspirações, quando era possível tê-las. Colecionava-as. Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó cujo cheiro ainda conservo nas mãos (de um escritor antigo descrito como espanhol, quando espanhol ainda era um gentílico existente). Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… (de um poeta definido como brasileiro — outro gentílico extinto — ainda mais ancestral, quando poesia ainda era uma atividade aceitável). Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem… (de um dramaturgo também apontado como brasileiro, quando drama era uma categoria possível, dentro e fora da escrita). Em comum, o cheiro. Do papel: e dos produtos químicos utilizados na sua fabricação. Das tintas: utilizadas para imprimir cada livro. Da cola: usada no processo de encadernação. E da degradação química de cada um à medida do passar dos anos. Milhares deles, todos os dias.

Mas isso no Antes. No Depois, só um.

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Paladar: saliva espessa misturada a muco.

Audição: a respiração profunda da Assistência.

Visão: a lágrima escorrida no rosto do paciente.

Tato: as páginas passando pelas pontas dos dedos.

Olfato: o cheiro do Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora.

Uma inspiração. Permitida. O ar entra. O cheiro. E então outra inspiração. Proibida. Uma que não poderia acontecer.

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A biblioteca era o ideal de perfeição. Dia após dia, hora após hora, minuto após minuto de catalogação, sobe-e-desce de prateleiras, empréstimos, devoluções. Na boca, café, às vezes fresco, às vezes não. Nos ouvidos, os passos no chão de madeira e o shhhhhh que inibia as poucas conversas. Nos olhos, títulos, autorias, capas. No tato, filas e filas de lombadas. No nariz, cheiro de livros.

Havia livros para todos os gostos. Atlas coloridos em papel espesso e brilhante, trazendo ilustrações de mapas terrestres ou de corpos humanos. Pequenos e finos retângulos impressos em papel jornal e com capa de cartolina, feitos para caber nos bolsos de quem fosse lê-los. Grandes brochuras costuradas à mão, com capas de couro vermelha e caracteres dourados. Aquilo que chamavam romances — ainda que não narrassem especificamente casos de amor — , por vezes tão longos que uma única história se dividia em dois, três ou sete volumes. Antologias de poemas com versos metrificados e rimados, parecendo música, ou, por outra, versos denominados brancos e livres, embora aprisionados no papel com tinta preta. Grandes coleções batizadas de enciclopédias, cujo objetivo principal era descrever, por meio de variados verbetes, dispostos em ordem alfabética, o resultado do conhecimento humano até então. Dicionários com a compilação de palavras faladas e/ou escritas em grande parte das línguas existentes.

Os indícios de transformação apareceram na ordem inversa à descrita. Primeiro a biblioteca foi desfalcada do odor dos dicionários, ausência não sentida a priori, porque pouca gente pegava-os emprestado ou consultava-os, mesmo que fosse no próprio local. Depois esvaziaram-se as prateleiras das enciclopédias e seus aromas, o que se atribuiu à sua rápida obsolescência comparada à agilidade das novas tecnologias da informação disponíveis para os cidadãos. Em seguida perderam-se as fragrâncias dos exemplares de poesia, antes os de versos livres e brancos — que confundiam as pessoas, sobretudo as que sequer entendiam-nos como poesia — , para em seguida desaparecerem também os cheios de métrica e rima, todos proibidos por causa da ambiguidade dos termos com os quais eram compostos e dos sentimentos que provocavam. Os tais romances foram os próximos a passar por uma criteriosa análise e se, a princípio, permaneceram disponíveis os perfumes daqueles escritos com a linguagem mais direta possível, sem recursos estilísticos que pudessem intrigar o leitor, bastou pouco tempo para que a forma caísse em desuso e a própria terminologia ficasse restrita à exclusiva função de definir relacionamentos amorosos, de preferência inodoros. Por fim, mesmo os atlas geográficos e anatômicos sumiram das estantes — e sua emanação do ambiente — , inutilizados diante da nova configuração da ordem mundial e da periculosidade representada por qualquer compreensão sobre o funcionamento do corpo humano, com destaque para pulmões, traqueia, laringe, cordas vocais, glote, alvéolos, palato duro, palato mole, véu palatino, úvula, parede rinofaríngea. Todo o aparelho fonador.

Dentes. Lábios. Língua.

Nariz.

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Olfato: o cheiro corrosivo da fumaça.

Tato: a queimadura de terceiro grau na mão que tentara salvar um exemplar.

Visão: a fogueira alta na qual a pilha de papéis se contorcia até se desfazer.

Audição: os estalidos do fogo.

Paladar: o sal das lágrimas.

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Os frequentadores da biblioteca, que já não eram tantos naquele tempo, mal perceberam as mudanças, porque os livros — não aqueles específicos, mas como categoria geral — não foram completamente banidos. A nova sociedade tratou de editar suas próprias publicações, devidamente autorizadas, e dispô-las na estante em substituição às anteriores. Para quem não conhecesse bem cada exemplar antigo, os volumes novos eram vistos com uma modernidade bem-vinda. E, o que era melhor aos olfatos e mentes de todos, inodora e asséptica.

Isso não foi feito, porém, sem um pouco de sofrimento. Não que ideias perdidas importassem. Mas cheiros, sim. A busca pelo cheiro de livro — do livro — passava pelo farejar de cada exemplar recém-publicado que chegava à biblioteca reformulada. Nenhum, contudo, tinha o papel certo, os produtos químicos certos, as tintas certas, a cola certa, o bolor certo, as traças certas, o tempo certo.

A não ser ele, que chegou recomendado a ocupar o lugar de destaque na principal estante: o Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora. Para manuseá-lo, porém, só assumindo o novo cargo criado pelo Sistema. De bibliotecário a instrumentista.

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Paladar: ferrugem, do sangue da bochecha internamente mordida.

Audição: o som da broca perfurando o osso.

Visão: o esguicho vermelho respingando na máscara branca do dentista.

Tato: o metal frio da bandeja do carrinho de instrumentos.

Olfato: o cheiro do Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora.

Uma inspiração. Permitida. O ar entra. O cheiro. E então outra inspiração. Proibida. Uma que não poderia acontecer.

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Paladar: bile.

Audição: o urro grave do paciente.

Visão: a mordaça de metal.

Tato: o livro de volta ao bolso.

Olfato: o cheiro do Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora.

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Dentro do Consultório, sobre a cadeira, alguém tem a voz impedida de ecoar. Enquanto isso, as rodas do carrinho guincham novamente, para fora da sala. A concentração mantém-se no cheiro que emana do objeto no bolso e na memória do Antes que ele desperta: para eliminar o regurgitar amargo que se mantém na boca, para desembaçar a vista enegrecida, para conter o ímpeto de rasgar as páginas sobre as quais são feitos os juramentos. Para não gritar.

O corpo pode sentir ojeriza. Ou desgosto. Ou asco. Ou ojeriza, desgosto e asco que, juntos, denotam um mínimo de compaixão. A cabeça não. A cabeça se concentra na tarefa. A mesma no Antes e no Depois. Guardador de livros.

Do Livro.

Táscia Souza

Texto publicado originalmente no dia 17 de maio de 2018, no Medium.