
Estudamos juntos para o vestibular, lembra? Ficávamos horas entre as fórmulas em que eu me perdia por completo e você tinha a maior paciência do mundo para me explicar novamente, e novamente. Você custou a aprender a estudar ouvindo músicas de fundo, mas se acostumou porque era uma das coisas que me faziam concentrar. E eu parava, e falava alto e você aprendeu a se acostumar com meu jeito. E apesar da bagunça que era aquele quarto eu sei que a gente aprendia muito. Não foi nenhuma surpresa quando a gente passou. Quer dizer, eu tinha um pouco de dúvidas se conseguiria, mas você eu sabia que passaria sem problemas. Sempre muito certinho. Inúmeras listas, o dia estruturado em seus afazeres. Apesar disso tudo, eu jamais imaginaria que você chegaria a esse ponto. Eu acreditava que a resistência sempre estivesse na sua lista. Eu não sei se você cortou dela ou se, no fundo, ela nunca entrou.
Poesia, eu amava poesia. Era o que eu mais lia durante o dia. E é do que eu mais sinto falta aqui. Logo quando cheguei, achei que a poesia estaria sempre viva. Para tudo que eu olhava eu via cor e via texto. E essa era a minha resistência, a MINHA RESISTÊNCIA. Enquanto ela estivesse em mim, eu teria esperança. Esperança, lembra o que é? Mas hoje, quase um ano aqui, jogado nesta cela, apanhando quase que diariamente, ou diariamente, não sei muito bem quando ainda está no mesmo dia ou se já está em outro, eu acho que nem sei mais reconhecer uma poesia. Eles me levam, batem em mim e depois me jogam aqui novamente, e às vezes durmo e se durmo nem sei se dormi por horas ou por dias. Você sempre riu da minha falta de atenção aos horários, mas acho que nem você, com todo seu controle e rigidez, conseguiria dar conta de tudo que se passa por aqui.
Você foi a primeira pessoa a saber que eu era gay. Na verdade a primeira parq quem contei, porque desconfiar todos já desconfiavam. Lembro de você rindo, dizendo que isso não era segredo. Você nunca perguntou se eu era apaixonado por você, nunca teve medo que eu me apaixonasse, diferente de muitos amigos que tínhamos. Você sabia que o carinho que sentíamos um pelo outro sempre seria carinho de irmão, nada mais. A gente se entendia no olhar e talvez seja por isso que nunca consigo esquecer o seu, quando entrei naquele carro, daquele dia. Eu já esqueci tanta coisa. Tanto tempo sem conversar com alguém, sem ver alguém com quem possa conversar e sem ter forças para falar algo. A minha boca vive em carne viva. Tenho escutado que eles estão fazendo vários testes, e aquela ideia da mordaça, aquela de que você ria e debochava, sim, já começaram os testes para que ela comece a funcionar.
Quando eu passei em segundo lugar para a faculdade de Jornalismo, lembro-me de você dizer que segundo lugar era bom, se eu passasse em primeiro eu ia me achar muito. Eu tava é muito feliz, era meu sonho desde pequeno. Ficava olhando os caras na TV, me imaginava lá, ou com meu nome em alguma assinatura em grandes reportagens ou matérias nos jornais. Eu não concordava com tudo o que via, e isso me incentivou ainda mais. Entrei na faculdade achando que ia mudar o mundo, que ia fazer a diferença, que meu nome e sobrenome seriam conhecidos em todos os lugares e, hoje, a única coisa que assino é esta carta que sei que nunca chegará a você. E, se chegasse, nem sei se você ainda entenderia essas palavras, essa forma de escrever. E também não sei se você me reconheceria aqui. É que não tenho a energia de antes. E fazia tanto tempo que não escrevia, que acho que não escrevo mais como antes, no Antes. Você provavelmente já deve estar decorando toda a legislação desse novo mundo. Deve saber cada detalhe das normas e seguir fielmente, para não ficar igual a esse seu amigo aqui, jogado na própria bosta em uma sala que mal me cabe esticado.
Eu entrei na faculdade, me inscrevi em todas as matérias que podia, participei de diretórios, fóruns de discussão… eu estava em estado de êxtase. E eu estava ali, no centro do debate crítico do mundo, ou pelo menos eu acreditava que sim. Os mesmos debates que me deixavam tristes com os rumos que as coisas estão tomando também me davam gás para lutar e ajudar a transformar tudo. Parece ingênuo, né? Eu fazia tudo o que estava ao meu alcance e eu sinceramente acho que fiz muito. E, assim, acreditava que você, cursando direito, também faria a diferença. E, juntos, iríamos lutar para que não houvesse um golpe, pelo menos jurídica e midiaticamente. Mas foi exatamente nesse nível que começaram as imposições dessa nova era. Que nomes será que as coisas aí fora estão tendo? Aqui dentro é como se eu estivesse dentro de uma cápsula, e o mundo lá fora estivesse sendo revirado, enquanto eu estou aqui, intacto. Se eu saísse, acho que nem reconheceria os próprios escritos que fiz em vários muros da cidade. Antes vivo e cheio de energia, hoje pior do que um rato, porque não tenho sequer a ilusão de que estou me divertindo.
Como a gente consegue perceber que estão nos levando coisas e, ainda sim, ficamos intactos assistindo a tudo. Como? Essa é a pergunta do milhão, né? E essa é a pergunta que eu me faço todos os dias. E era essa a pergunta que eu me fazia quando aos quatorze anos de idade li livros sobre governos autoritários e ficava indignado pensando o que estava fazendo a população daquele país enquanto tudo que eles haviam conquistado ou estavam conquistando estava sendo tirado. Pelo menos para essa pergunta eu tenho a resposta. Nada. Eles estavam levantando todas as manhãs, tomando seu café, indo trabalhar, trabalhando e voltando pra casa, ou iam em festas à noite. Eles sabiam que tudo estava ficando diferente mas eles não faziam nada. Nós não fazíamos nada. Participamos da resistência acreditando que estávamos fazendo até muito, mas será que fizemos algo? Será que foi no mínimo suficiente?
Lembro daquele dia em que viramos a noite no seu apartamento e de manhã você saiu, comprou café e trouxe um jornal dizendo que eles haviam fechado uma exposição de arte. Apesar de não concordar, você, diplomático como sempre, achou que era melhor agir com cautela, talvez fosse só uma ação isolada, vindo de algo maior que nós não saberíamos, “talvez as obras fossem pornográficas demais mesmo”, sim, você usou essas palavras. E não, não era um caso isolado, eu gritava isso, e no fundo você também sabia disso. E também não, as obras não eram pornográficas demais, as obras eram retratos de deuses e tinham mais de dois mil anos. Eu acharia graça disso se naquele momento eu não tivesse com um puta pressentimento ruim de que as coisas iam mal, bem mal. Você preferia trocar o disco, ouvir uma canção mais animada, querendo acreditar que tudo ia continuar como estava, você se negava a aceitar o caos. E eu, ah, eu surtava.
Meu primeiro instinto sempre foi surtar. Por isso que estou aqui. Por isso que não fui o primeiro a correr como um bicho acuado naquele dia. O mesmo dia em que descobri que, além de surtar, eu também era coletivo. Eu fiquei, eu cuidei do meu grupo, eu assumi as consequências dos riscos. Você não. Mas, afinal, você não estava inteiramente na causa, né? Você teria sido menos covarde se tivesse saído antes, se tivesse dito desde sempre que você não era capaz de lutar. O problema é que você não era nem capaz de resistir. Em qualquer lugar que tivesse, seja na luta das ruas, seja com apoio de suas amadas leis, você não resistiria muito. Era da sua natureza, e eu preferia não ver.
Quando surgiram as primeiras versões da fase teste do aplicativo, foi a minha fase de negação. Eu achava tão surreal tudo aquilo que não podia acreditar que viria a ser imposto. A única coisa que me trazia de volta para a realidade eram seus olhos medrosos em cada vez que a gente se encontrava. Eu nunca te perguntei, mas deveria ter perguntado se seu maior medo era dessa coisa toda entrar em vigor ou se era medo de aguentar muito tempo e virar um deles. É melhor que eu nunca saiba isso mesmo. Nesses dias de negação, eu saía e pintava os muros, colocava as minhas poesias e enquanto elas ainda estivessem lá, tudo poderia se resolver. Pena que não durou muito tempo para eles começarem a fiscalizar os muros. Apagavam somente o que eles achavam subversivo demais. Não me espantaria se passassem a não permitir mais nada.
Você brigava comigo quando via algo meu nos muros, espero que sempre ao passar por algum, pintado ou não, você pare por alguns segundos e lembre-se de mim. Escrevo tudo, quase tudo sobre o nosso passado, quase tudo que você já sabe, mas o que eu escreveria de diferente? Da nossa amizade só restou o passado. E, de mim, também. Porque, afinal, a única coisa que sou agora é um cobaia de um governo que não sabe nem mais interpretar, jogado no chão de uma cela imunda escrevendo no verso de um panfleto que diz: “A sociedade é assim”. É irônico se vocês ainda souberem o que é ironia.
Até porque, nenhuma figura de linguagem está presente no Estatuto da Democracia Autorresponsabilizara, né? Que nome ridículo. Fico aqui imaginando você, sentado em sua mesa de estudos, que agora deve estar sem seus inúmeros livros de leis e etc., aquelas papeladas de processos e sem seus quadrinhos, a única coisa que deixava a mesa colorida, com o seu Estatuto da Democracia Autorresponsabilizadora. A coluna ereta e você ali, lendo cada trecho, chocado com algumas coisas, e outras não achando “tão ruim assim”, “até que precisava de uma ordenzinha, nada de muito forte, mas um pouco de ordem, que mal tem né”. Eu surtava quando você falava isso, mas eu demonstrava menos do que eu realmente sentia quando você tentava amenizar qualquer história com o argumento podre de: vamos ver o outro lado. Não, nem tudo nesse vida tem um outro lado, mas você sempre insistia em ficar na terceira margem. Realmente, é uma posição mais confortável mesmo. Dói menos. Se posicionar custa caro. Realmente você não estaria disposto a pagar esse preço. Mas, na verdade, ninguém está. Aqui, a palavra escolha não faz muito sentido. Nem morrer é uma alternativa. Portanto, escolher viver, aqui dentro, talvez nem signifique resistência. Mas eu continuo aqui, sei lá por quê, e sei lá pra quê.
Era mais um dia de tortura e eu estava um pouco mais são do que nas outras vezes, acho que dessa vez o espaço da outra tortura foi maior, eu não sou a única cobaia aqui, infelizmente. É, porque saber que não estou sozinho neste barco não me ajuda em nada, pelo contrário, quanto mais gente aqui dentro, menos resistência lá fora. Pela fresta da janela, um papel se debatia contra o vento. Eles nos batem tanto que não se preocupam em nos deixar sozinhos na sala, antes, durante ou depois dos testes. Sem força física e mental, completamente nu, o que faríamos? Exatamente, nada. Foi em um dos meus impulsos, sem nem pensar, que peguei o papel e ao ouvir os passos, rapidamente enfiei no único lugar em que poderia enfiar, no lugar que por tantos anos, desde que aceitei quem eu era, me dera prazer. É certo que, nas torturas é nada mais do que um ponto de dor, mas, nesse dia, ele abrigou o meu refúgio. Já na cela, fiquei por horas olhando esse papel, sem forças para rir de quão estúpido é isso. O quão estúpido é esse governo. Em um papel branco, com o escrito em preto, e nada mais. Sem nenhuma outra cor. Sem nenhuma outra informação. Direta e viciante: “A sociedade é assim”, “A sociedade é assim, “A sociedade é assim”. A única vantagem é que sobrou mais espaço para que, aos poucos, eu escrevesse esse meu relato, com a única tinta que tenho na cela, minha própria bosta. Desculpe o meu linguajar, mas, se ainda me resta alguma esperança, é a de que tudo que te descrevi acima lhe choque mais do esse pequeno ato, que eu consideraria de resistência, se depois eu não tivesse que comer esse papel para que eles não vejam. Continuo esperando que isso também não lhe choque tanto assim.
O que espero é que, pelo menos de algumas músicas você ainda se lembre, mesmo que não cante mais. Espero que ao comprar o jornal do dia, um dia, não veja meu nome na lista de desaparecidos. Você tem coração e é socialmente bom, e é por isso que sinto muito que você, com seu potencial, tenha se tornado não pequeno.
Assinado,
Tomás
Mariana Virgílio
Texto publicado originalmente no dia 30 de maio de 2018, no Medium.