
Entre uma aula e outra, Alice me estendeu uma maçã. Me convidou ao impróprio com olhos doces e mãos trêmulas:
— Sabia que existem muitas palavras que a gente não conhece?
— Sabia.
E sabia que o simples fato de saber poderia me custar as sensações de assoviar, lamber um picolé, morder os lábios e pronunciar as palavras que guardo com todo esmero. Sabia, ainda, que deveria guardar meu saber, manter parte do meu silêncio antes que ele me seja obrigatório por completo. Mas, surpresa, o que consegui dizer foi “sabia”. O poder dessa afirmativa se mostrou primeiro com olhos confusos, que me apalpavam e investigavam. Depois o par de olhos se sentou ao meu lado, em silêncio. Permanecemos assim o fim do intervalo e, quando o sino bateu, ela me entregou um saco pardo que trazia consigo, se virou e saiu, trêmula novamente.
A mente dela provavelmente estava tomada de palavras, tentando me entender e descobrir como agir. A minha estava tomada pela sensação de culpa. Eu aprendi a esconder antes mesmo de aprender a falar, e falhei. Falhei no ambiente que menos imaginávamos, com uma pessoa que aparentemente não conseguia esconder os próprios segredos. Alguém pode ter nos ouvido. Ela pode me denunciar. Pode ser parte de algum grupo de proteção ao Estatuto da Democracia Responsabilizadora. Pode estar me testando. Posso ter colocado em perigo a mim, à minha família e a todos os membros da Existência*.
Em segurança, pude me dedicar ao embrulho. Ela me entregou um dicionário carcomido. Do Antes. As letras marcadas nas primeiras páginas formavam Rua e Sol. Separadores demarcavam a página sete e a vinte. Na página sete, letras circuladas formavam “casa” e, na vinte, “hora”. Ela conhece o Circulitera*, não deve estar sozinha. Quis conhecer o grupo dela. Por que ela me procurou? Envolvi o dicionário em uma capa de livro do Depois, botei na mochila e fui em busca de Alice. Sem quem me proteja, sem ter a quem proteger. Em silêncio. Mal bati a campainha, fui puxada para dentro por um velho de cabelos longos. Alice estava com um grupo de senhoras, na cozinha, dando pulinhos de excitação.
Uma delas foi até a sala:
— Oi, Júlia! Aceita um chá? — me estendeu uma xícara fumegante.
— Sim.
Bebi, e no quarto gole vi um círculo marcado no fundo da xícara — símbolo do Circulitera. Esse foi um convite a responder algumas perguntas. Se eu respondesse de forma correta, ela saberia que lutamos lado a lado.
— Chá de erva doce fica delicioso com biscoitos amanteigados. — Aproximou de mim os biscoitos da mesa de centro e me inspecionou com o olhar, sorrindo de lado. — Você resiste?
Cada. Palavra. Importa.
— Meus pais me ensinaram a resistir. Como posso beber e comer na casa de alguém que não posso chamar pelo nome? Seria muito indelicado da minha parte… A senhora ensina à Alice?
— Meu nome é Sofia, e aqueles são Clara, Mário, Joana e Mônica. Todos nós ensinamos. Antes a avó o fazia, mas recentemente ela começou a tomar chá conosco. Ela é uma graça, não? Como se aproximaram?
— Somos apenas colegas de classe. Ela me entregou uma maçã e um dicionário. Do Antes.
Senti a respiração do grupo parar. Eles estavam surpresos. Ela olhou para a menina, que estava petrificada de medo da reação do grupo.
— Ela agiu de forma muito errada, e nós conversaremos com ela depois — disse, olhando novamente para Alice — , mas tem uma boa intuição. — Pedi desculpas em silêncio. — Olhe em volta, querida. Repare em cada um de nós, no círculo que se forma com nossas cadeiras para que esse momento aconteça, assim, olhos nos olhos. Você entende a importância do círculo?
— Aprendi muito nova que, especialmente diante de um círculo, cada palavra importa.
Escolhi a palavra “especialmente” a dedo. Foi retirada das cartilhas. Sofia sorriu.
— Que coincidência! Esse grupo tem grande afeição por palavras e, mais que isso, reconhece a necessidade e a importância delas. A gente se reúne há mais de dez anos, Júlia. Fazemos isso para manter a língua viva — como você fez agora — e, assim, resistir.
Soei mais empolgada do que gostaria:
— Fui ensinada a resistir! Mas vocês estudam… e só?
— No princípio, era quase um passatempo. Conforme as coisas foram se complicando na nossa sociedade, nossos estudos foram ficando mais sérios e necessários. Não sabíamos, mesmo, o que fazer com o que mantínhamos vivo. Mas mantínhamos. Recentemente nós perdemos uma amiga querida e, com sua doença, percebemos que se nós não ampliarmos nosso grupo, essa chama que mantemos pode se apagar. Por isso Alice se juntou a nós, e por isso recebemos agora a sua visita. Confiamos a você nossa história, querida. E a sua, qual é?
Abandonei a desconfiança e contei a eles uma versão juvenil do que conto agora: estudo palavras desde que me lembro, e isso me me deu um par de asas e um fardo. Conhecer desde cedo tantas possibilidades e tantos nomes de coisas que as pessoas nem sabem que existem é libertador. Saber tão bem tantas palavras e ter que guardá-las do mundo é um fardo e, como todo fardo, pesa simplesmente pelo fato de existir. Urgia em mim a necessidade de mostrar essa verdade para o mundo, mas para que isso pudesse ser feito um dia eu precisava guardá-la. Alice fez, ao me entregar a maçã, tudo o que eu sempre quis fazer. Eu não teria forças nem se quisesse para fingir que não partilho com ela a alegria das palavras.
Finalizado meu depoimento, recusei algumas ofertas de biscoitos, leite quente, bolo e doces e corri para o encontro da Existência, que já havia começado havia quinze minutos quando cheguei. Pedi a palavra e dei o susto em todo o grupo de uma só vez: encontrei outra resistência, eu disse, estive com eles há poucos minutos, usei muitas palavras do Antes, tomei chá, contei minha história e fiz uma amiga.
Um burburinho de indignação começou a acontecer e, em poucos segundos, as vozes eram tantas, tão altas, e falavam tão rapidamente que não se podia entender uma só palavra. Os mais velhos pareciam bravos e pareciam discutir o que fazer comigo e com a situação. Os mais novos fizeram em torno de mim uma roda e começaram a perguntar detalhes. Falaram, todos, até se cansarem. Então começou uma inquisição e, como boa adolescente, reclamei e acusei todos de não confiarem em mim, mas acabei respondendo: descobri eles por causa dessa menina, Alice. Ela me entregou um dicionário do Antes. Sim, fui sozinha me encontrar com eles. Eu não sei como sabia que era seguro, só sabia, confiem em mim…
Duas horas depois do horário normal da reunião eles decidiram marcar um encontro com o grupo, enviando a eles um convite em Circulitera sobre um panfleto de igreja, que continha: “Júlia resiste conosco. Alice resiste com quem?”, acompanhados de data, horário e endereço. No dia seguinte, levei o convite e uma maçã para Alice:
— Sabia que existem mais resistências que a que você conhece?
— Sabia.
Rimos juntas. O pátio da escola continuava sendo um lugar pouco seguro para falar do que estávamos vivendo, mas nossa cumplicidade pulsava mesmo sentadas em silêncio no único banco com sombra do pátio.
O simples fato de saber poderia causar meu fim, mas constituiu meu doce início.
*Circulitera: forma de comunicação utilizada pela resistência. Não necessariamente feita em círculos, a comunicação pode se utilizar de cores, pequenos símbolos e outros elementos. Geralmente são usadas em locais públicos para transmitir apoio entre as resistências.
*Existência: grupo de pais resistentes ao Estatuto, que criaram seus filhos de modo a conhecerem o Antes e saber guardar esse segredo.
Louise Nascimento
Texto publicado originalmente no dia 13 de junho de 2018, no Medium.