
Eu deveria ter esquecido. Esquecido como garantiram a Ana e Carlos que eu faria. Não apenas as histórias, os nomes, os rostos, mas esquecido a ponto de nem mesmo me lembrar que houve vida antes deles. De fato, não tenho certeza se posso dizer que me lembro. Guardo daqueles outros tempos impressões difusas: imagens, perfumes, hábitos que acreditaram que eu seria jovem demais para adquirir. Guardo, principalmente, as palavras. Nem sempre certas, é verdade, mas as coleciono mesmo assim. Algumas memorizei incorretamente, uma letra b no lugar do v, um m inexistente entre a primeira e a segunda sílaba. Outras foram fabricadas pela minha própria imaginação, um conjunto de sons explorados apenas por mim.
O significado das palavras que coleciono muitas vezes permanece oculto. Limitadas a um sentido único, suas outras facetas se escondem atrás de cada letra. Toda palavra é um enigma pronto para nos devorar. É preciso rasgá-las com as unhas, em segredo, em silêncio, e de dentro delas arrancar os seus mistérios. Para isso as mantenho comigo, elas me servem de alimento. Às vezes poupo suas entranhas e invento significados apenas pelo prazer da infração. No silêncio da minha coleção, a palavra intruso diz mais do que “aquele que entra sem ser convidado”.
Cheguei à casa de Ana e Carlos quando tinha oito anos de idade. A casa era grande, clara e meticulosamente arrumada, muito diferente do apartamento de cortinas sempre fechadas e papéis escondidos atrás dos móveis ou por baixo do assoalho. Eu ainda usava o jeans azul marinho e a camiseta vermelha. As cores foram a primeira coisa que me tiraram. No meu novo quarto encontrei um conjunto simples de calça e camisa de algodão no mesmo tom de branco que cobria as paredes. Escondi meu jeans e minha blusa debaixo do colchão, como ela tinha me ensinado a fazer com o caderno sem pautas. Lembro que aquelas roupas eram os únicos pertences que me haviam restado e que no dia seguinte elas desapareceram. Cheguei a acreditar que alguém as colocara para lavar e que em algum momento elas retornariam. Eu me lembro que depois desse episódio, por muito tempo, eu esqueci da existência dessas cores. O azul marinho e o vermelho, o sorriso mecânico de Ana, os doze degraus até o quarto, a porta sem chave, as roupas e meu próprio esquecimento. É tudo o que posso dizer a respeito daquele dia. Se chorei durante a noite, se me senti sozinho ou se consegui adormecer, já não me recordo.
Eu me lembro de ter um primeiro nome antes de ter o segundo. E de que foi surpreendentemente fácil me acostumar com o novo, embora eu tenha guardado Raphael Alcântara na minha coleção. Com ph assim como eu havia aprendido a escrever no caderno da escola. O caderno pautado era para o colégio, nele eu deveria registrar apenas o que a professora permitisse, sempre com um lápis de grafite HB. O sem pautas era para as brincadeiras. Nele eu poderia desenhar com a cor que quisesse e escrever qualquer palavra, aquelas que tinha aprendido nas histórias para dormir ou as que eu mesmo tinha inventado. Foi no meu aniversário de sete anos. Ela chegou com o embrulho de papel pardo escondido por baixo do casaco e me disse que, de todos os presentes que eu poderia receber, aquele era o mais especial e também o mais perigoso. Disse, ainda, que eu aprenderia a contar a minha própria história preenchendo aquelas páginas brancas, única maneira de continuar sentindo algo naquele mundo. Quando nos separaram, tomaram também a minha história. Mas mantive as palavras comigo, elas são a minha memória.
Ana e Carlos pediram para que eu os chamasse de mãe e pai. Obedeci, da mesma forma que aceitei o meu segundo batismo. No entanto, a partir daquele momento evitei de todas as formas me referir a eles em voz alta. Não foi difícil, a vida era silenciosa naquela casa. Tomávamos café da manhã juntos e eles me deixavam na escola. Na hora do almoço, quando eu retornava, os dois ainda estavam no trabalho e só chegavam para o jantar. Era durante essa refeição que estabelecíamos contato. Ana me fazia sempre a mesma pergunta a respeito do meu dia na escola e eu sempre respondia que tudo tinha estado bem, assim como haviam me ensinado a dizer. Depois, Ana fazia exatamente a mesma pergunta a respeito do trabalho de Carlos, que respondia em um tom monótono que tudo também tinha estado bem, e voltava a baixar os olhos para a tela do celular. Algumas vezes, Carlos abandonava o aparelho e me olhava com severidade ou repreendia qualquer palavra a mais que eu deixasse escapar por entre os lábios.
Demorei um tempo para treinar a minha fala. Embora ela tivesse me ensinado a esconder minha coleção enquanto eu estivesse na escola ou na presença de outras pessoas, era difícil censurar minha língua durante todo o dia. O que mais irritava Carlos era minha mania de enfeitar as palavras ou o que ele denominava como “erros de pronúncia”. Em um de nossos primeiros jantares eu ousei rebater uma de suas correções para defender a minha crença de que luiz soava muito melhor do que luz. Levei o meu primeiro tapa. Seco e impessoal, bem no meio da bochecha esquerda. Ana se desculpou pelo meu “pai”. Disse que o marido tinha um cargo importante no Diretório e que eu, como filho, deveria ser exemplo de comportamento. Eles sabiam que a reabilitação seria mais difícil quando escolheram uma criança da minha idade, mas acreditavam no programa de reinserção. Éramos família agora e logo eu aprenderia a me sentir como um deles.
Ela havia me ensinado que só com palavras e desenhos nós preservaríamos nossa sensibilidade. Era o modo como ela sentia que eu desejava aprender. A maneira como dominava a linguagem secreta, cheia de sons afáveis, que usava comigo. Tão diferente da fala mecânica que eu encontrava do lado de fora de nossas paredes mofadas. A facilidade com que vertia uma outra língua de tom eloquente e apaixonado quando o grupo cada vez menor de amigos se reunia em nossa sala. O modo sorrateiro como silenciava quando ultrapassava a segurança da nossa porta. Eu também precisei aprender a me calar. Não por causa da violência com que cada equívoco meu era recebido, embora eu temesse Carlos e intuísse a aura de ameaça que pairava sobre aquela casa. Tampouco por estar realmente me tornando um deles, ainda que durante anos eu tenha me atormentado com a ideia de que aquela rotina de censuras e as lembranças cada vez mais nebulosas terminariam por corromper o pouco que eu conseguira preservar da minha primeira vida. Eu aprendi a me calar por querer me parecer com ela e não com eles. Mesmo que para isso eu precisasse me assemelhar ao seu momento de derrota.
Eu me lembro de nunca conseguir descansar. Sentia-me constantemente vigiado dentro daquela casa. A qualquer momento os homens de coturno poderiam saltar de dentro das paredes e modificar meu cérebro, apagar as minhas palavras. Tinha um sono inquieto e no dia seguinte acordava com os lençóis encharcados. Acho que foi nesse período que Áurea e eu nos tornamos amigos. Ela entrava no meu quarto bem cedinho, antes que o despertador de Ana tocasse, recolhia a roupa de cama coberta de urina e me conduzia até o banheiro. Durante as tardes eu me sentava na cozinha e observava-a trabalhando. Embora eu sentisse medo da mordaça de metal que lhe tapava a boca, gostava de olhar para aquele rosto de olhos amáveis. Eu permanecia em silêncio, apenas acompanhando seus movimentos, até que percebi que poderia confiar nela, que aqueles lábios cerrados jamais poderiam me trair. Comecei a falar-lhe sobre tudo. Inicialmente, Áurea pareceu se assustar. Enquanto eu tagarelava, ela aumentava a velocidade de seu trabalho e evitava meus olhos. Aos poucos, passou a se interessar pelo que eu dizia. Criamos a nossa própria forma de diálogo. Ela me respondia com gestos e mímicas que aprendi a interpretar, enquanto as reações mais sutis eu lia diretamente em seus olhos.
Aprendemos a esconder nossa amizade. Quando Áurea servia meu prato durante o jantar, eu mantinha os olhos pregados na mesa, sempre receoso de que uma expressão de cumplicidade pudesse nos denunciar. Também evitávamos contato nos finais de semana em que Ana e Carlos permaneciam em casa. Eram os dias em que eu mais me sentia sozinho. Ficava dentro do quarto, a porta sempre aberta porque não confiavam em mim. Às vezes tirava das prateleiras os brinquedos educativos que Ana comprara e ficava observando as cores sóbrias daqueles objetos de madeira, a consistência áspera e pouco fantasiosa. Não brincava. Depois que cheguei naquela casa, eu nunca mais brinquei. Nem mesmo durante as tardes livres passadas na cozinha.
Em uma dessas tardes contei a Áurea sobre a minha coleção e soube, pelo brilho das pupilas, que ela também era uma colecionadora. No dia seguinte, logo que entrei na cozinha, Áurea se aproximou e colocou algo entre as minhas mãos. Notei sua expressão ansiosa antes de me dar conta de que segurava um livro. Uma edição pequena e muito gasta. A capa havia se soltado, deixando exposta a folha de rosto amarelada com o título As aventuras de Huckleberry Finn. Sentamos à mesa, o livro entre nós. Notei que minhas mãos tremiam ao folhear as páginas. Com a ponta do indicador eu acariciava as palavras que pareciam se destacar. Próximo da hora do jantar ela voltou a esconder o livro por baixo da roupa e eu corri para o quarto antes que Ana e Carlos chegassem. Quando deitei na cama, senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
A partir daquele dia, sempre que possível, Áurea me apresentava um novo livro. Nunca tive certeza de como ela conseguia acesso a esse material, mas sabia que arriscava a própria vida com esse contrabando. Passavam-se semanas sem que ela trouxesse algo, dias em que eu me consumia de ansiedade, até que ela depositava sobre a mesa mais um exemplar de páginas amareladas. Saltávamos de uma passagem para outra, consumindo as palavras com avidez porque sabíamos que não havia tempo. Às vezes nos detínhamos em algum trecho marcante, correndo nossos olhos sobre ele repetidas vezes. Eu tentava guardar aquelas palavras na minha coleção, exatamente como as estava lendo e, pelos olhos de Áurea, percebia que ela tentava fazer o mesmo. À noite, eu repassava as citações mentalmente, sabendo que no terreno movediço da minha coleção elas já haviam se transformado.
Nesses momentos, eu pensava nela. Nas noites em que me contava histórias para dormir. Quando aprendi a ler, me dei conta de que ela não se limitava ao que estava registrado nas páginas, sempre acrescentando um novo detalhe ou alterando o final das personagens. Eu me encantava com sua capacidade de tornar tudo melhor através da mente fantasiosa. Agora tentava fazer o mesmo, criava minhas próprias histórias a partir de tudo que havia guardado. No dia seguinte as contava para Áurea e percebia, encantado, que mais uma vez elas se alteravam, adquirindo novos tons no momento em que se formavam na minha língua. Lembrava-me de que ela sempre me falava sobre a propriedade mutável das palavras, sua capacidade de adquirir novos sentidos a cada momento e nos atordoar com seus mistérios. Disse-me, certa vez, que toda palavra é um enigma pronto para nos devorar. Por isso precisaram amordaçá-las.
Apesar da cumplicidade, eu levei anos para contar a Áurea sobre ela. Sentia medo de que, ao arrancá-la da minha coleção, sua imagem se desgastasse, tornando-se apenas um vulto na minha memória. Mas mesmo minha cautela de colecionador não foi capaz de preservá-la intacta. Ano após ano percebia seus traços se apagando. Lembrava-me cada vez menos dos detalhes e tentava preencher as lacunas com minha imaginação. Em alguns momentos olhava para Áurea e me perguntava se não seria ela por trás daquela placa de metal. Quando, finalmente, contei-lhe minha história, sabia que aquilo que eu relatava era um pouco verdade, mas também um pouco mentira. Ana e Carlos talvez estivessem certos em confiar na reinserção, eu não deveria me lembrar de quem tinha sido e, de fato, já quase não me lembrava. Ainda assim, guardei vultos, ecos, perfume. Guardei as palavras. Guardei principalmente aquela palavra: mãe.
Raíssa Varandas
Texto publicado originalmente no dia 27 de junho de 2018, no Medium.