
No escritório d’O Jornal. Foi lá que a gente se conheceu. Não, demorou alguns anos. Eu já tinha lido o nome dele escrito n’O Jornal, várias vezes. Na verdade, eu lia o nome dele todos os dias e nem era no papel. Porque sou eu que faço as matrizes das páginas nas placas de zinco, as matrizes necessárias para a impressão. Digital? Não sei, é assim, foi assim que me ensinaram quando comecei a trabalhar no escritório d’O Jornal. Acho tão bonito. As colunas de palavras nas páginas, abaixo dos títulos. As frases curtas, diretas, como devem ser. E os espaços em branco. Me disseram que houve uma época, sabe, no Antes, que colocavam imagens nas páginas. Fotografias. Não é horrível? Não há nada menos direto e claro que uma fotografia. Pode ser interpretada de tantas maneiras diferentes. Assim é que é bonito. Bonito e bom.
Não, eu não sou jornalista. Sim, queria. Quero. Formação? Não, não é necessária nenhuma formação além dos Ciclos Temáticos do segundo nível de ensino. Porque a escola já nos permite desenvolver todo o senso crítico necessário para uma escrita clara e direta? Perguntando? Não, desculpe, não foi minha intenção fazer uma pergunta. Foi uma afirmação. A escola já nos permite desenvolver todo o senso crítico necessário para uma escrita clara e direta. A escola nos ajuda a desenvolver todo o raciocínio básico de que precisamos. Eu acredito, não, eu sei que nosso sistema escolar é suficiente para formar seres diretos. Isso é muito importante na profissão de jornalista. Sim, verdade, em qualquer profissão. Me referi à profissão de jornalista de maneira específica porque era sobre o que estávamos falando. Sim, é a profissão que eu quero. Ainda assim, não. Não ainda. É necessário ser um Cidadão de Bem. Pretendo sim. Mostrei isso, não mostrei? Só estou aguardando a certificação.
Ah, sim. Ele. Eu sabia quem ele era quando o via passar pelos corredores do escritório. Eu sabia que ele era o autor das reportagens que eu gostava de ler. Teve uma maravilhosa sobre a cordialidade dos cidadãos e cidadãs, em que ele escreveu sobre o fato de que, na nossa sociedade, todos e todas sempre estão bem. Ah, eu sei, mas gosto de falar desse modo para ficar evidente que estou me referindo tanto aos homens quanto às mulheres. Para não haver dúvidas. As mulheres em nossa sociedade também estão sempre bem, não só os homens. Igualdade é importante. Gostei muito de outra reportagem também sobre a importância da reforma no ensino e como o Sistema se preocupa anualmente em atualizar a Cartilha para Ensinar, estando sempre atento à necessidade de a educação escolar acompanhar a modernização da sociedade. E teve ainda uma outra muito bonita, histórica, sobre os acontecimentos do Antes que levaram até o Ano Zero e ao desenvolvimento da nossa sociedade como ela é hoje. Muito boa mesmo. Não, eu nunca tinha tido oportunidade de dizer isso a ele pessoalmente. Mesmo quando conversamos a primeira vez eu não disse. Timidez.
A primeira vez foi há uns meses passados. Ele caminhou na frente da porta da sala da estereotipia, dentro da qual eu trabalho, parou um instante e disse bom dia. Respondi bom dia. Ele perguntou se estava tudo bem, eu respondi que sim e perguntei se com ele também estava tudo bem. Foi só. Quer dizer, dissemos tchau, mas foi só. Alguns dias. Na verdade, acho que foram algumas semanas. Desculpe, vou me esforçar para ser mais exata. Posso beber um pouco d’água? (Inaudível)
Aconteceu há duas semanas e três dias passados. Foi isso. Ele caminhou na frente da porta da sala da estereotipia, dentro da qual eu trabalho, parou um instante e disse bom dia. Respondi bom dia. Ele perguntou se estava tudo bem, eu respondi que sim e perguntei se com ele também estava tudo bem. Depois ele não disse tchau. Ele perguntou: quer beber um café, garota dos clichês? Eu disse: quero.
O quê, garota dos clichês? Por que eu acharia estranho? É o meu trabalho. E ele não sabia o meu nome. Eu sabia o nome dele porque eu fazia as matrizes para impressão e lia todos os dias nas placas, mas ele não lia o meu nome em lugar nenhum. Crachá? Não. Não sei se é um erro da direção d’O Jornal. Quando comecei a trabalhar lá já era assim. Se ele perguntou meu nome? Nenhuma vez. Não, não me importei. Eu (inaudível). É, confesso, eu gostava do som da voz dele quando dizia garota dos clichês.
Fomos à padaria e confeitaria perto do escritório d’O Jornal, na esquina mais próxima. Não nos sentamos nas cadeiras em volta de uma mesa, mas nos bancos mais altos que ficam em frente ao balcão. Sentei do lado esquerdo e ele do lado direito. É por isso que sei que ele é canhoto, porque quando escreveu no dorso da minha mão direita foi com a mão esquerda, que estava mais próxima de mim. Eu não tinha contado isso? Nós pedimos a comida. Ele pediu uma baguete recheada com manteiga e pediu que a aquecessem na frigideira até a manteiga derreter. Eu pedi um brioche frito recheado com creme amarelo com sabor de baunilha e açúcar ultrafino por cima. Do creme não, do brioche. Nós dois pedimos um chá. Dois chás. De hortelã. O quê? Sim, ele tinha me convidado para beber café. Ó. Não, eu… eu não tinha percebido a incoerência.
Ah… Nós não dissemos nada enquanto esperávamos a moça que atendia atrás do balcão trazer nossos pães e nossos chás. Só quando ela colocou o prato com o brioche frito recheado na minha frente é que, antes que eu o pegasse, ele encostou o dedo indicador da mão esquerda no dorso na minha mão direita e traçou uma linha imaginária na minha pele. A princípio eu achei que fosse uma onda. Mas, depois, quando ele continuou a traçar formas imaginárias na minha mão é que percebi que não. Primeiro foi essa onda, depois um círculo. Só na terceira vez é que notei que eram letras. Cinco. Primeiro um S, depois um O, depois um N, depois um H, depois outro O. Eu? Só olhei para ele, sem entender o que ele queria dizer. Não, eu não perguntei. Tive medo. Porque eu sei que o Sistema está desenvolvendo uma nova tecnologia para inibir essas sensações perigosas que ocorrem durante o sono. Como eu sei? Ó, eu só. Acho que ouvi no escritório d’O Jornal… Talvez. Talvez tenha sido ele, sim. Não me lembro. Mas é verdade, não é? Se não é, eu penso que deveria ser. É incompatível com a Democracia Autorresponsabilizadora. Não é possível ser autorresponsável nem direto quando se está sob efeito do inconsciente.
Já disse, eu não perguntei. Ele? Sorriu para mim. Depois tirou o próprio celular do bolso e ficou olhando um tempo. Parecia que estava decidindo se tomava ou não alguma atitude. Não sei qual. Hoje acho que era algum receio do aplicativo, mas não pensei nisso na hora. Depois ele guardou o aparelho de novo e disse: seu sonho é ser jornalista, não é? Me assustei, obviamente. Não, eu nunca sonhei ser jornalista, respondi. Eu tenho muita vontade de ser uma, de escrever reportagens importantes como as suas, disse para ele, mas penso nisso acordada, não quando estou dormindo. Não gosto de nada dessas coisas confusas que acontecem quando a gente está dormindo. Ele riu. Acho que minhas bochechas ficaram com uma cor rosada, porque senti que elas estavam quentes. E também porque ele encostou o mesmo dedo indicador da mão esquerda na minha bochecha direita e disse que eu era mesmo a garota dos clichês.
Como assim o que ele quis dizer? Que eu trabalho fazendo os clichês de impressão das página d’O Jornal, como eu já repeti mais de uma vez. Tem razão, se repeti, é porque foi mais de uma vez, desculpe. Significado? Que significado? Sim, todos os dias depois disso ele parava na porta da sala de estereotipia, dizia bom dia, perguntava se estava tudo bem e me convidava para beber café. Não, nunca bebemos café. Sempre chá. Nunca reparei.
Depois de alguns dias… quantos? Seis, eu acho. Não, eu sei. Depois de seis dias ele começou a me contar sobre a profissão de jornalista. Disse que já tinha publicado muitas reportagens n’O Jornal, mas que as mais importantes foram as que não deixaram publicar. Eu estranhei. Não há censura na nossa sociedade, vivemos num sistema democrático, em que tudo pode ser dito de modo direto e claro e em que as pessoas são autorresponsáveis. Ele? Riu, mas eu achei… Nada, é que. Foi um riso estranho, que não parecia alegre. Depois disso ele só disse ah, garota dos clichês… E não falou mais nada por um tempo.
Eu tenho vergonha de admitir, mas eu sonhei com aquilo. É preciso que o Sistema desenvolva essa tecnologia rápido, porque (inaudível). No sonho? Eu estava comendo um brioche frito recheado de creme amarelo com sabor de baunilha e meu rosto estava todo sujo de açúcar ultrafino. De repente, ao mastigar, eu senti algo estranho e tirei um pedaço de papel da boca. Era um desenho de uma mulher sem boca. E, no lugar da boca, estava escrito garota dos clichês e, de repente de novo, era eu que estava sem boca, com um clichê no lugar.
Não, eu relutei durante um tempo. Dois dias. Fiquei assustada. Recusei os convites para beber café. Mas também fiquei curiosa, admito. Sim, foi por isso que eu o procurei. Dois dias depois. Fui eu que entrei na sala mais ampla do escritório d’O Jornal, onde ficam todas as mesas, cadeiras e computadores dos jornalistas. Caminhei até a mesa que tinha a placa com o nome dele e disse bom dia. Ele respondeu bom dia, eu perguntei se estava tudo bem, ele disse que sim. Perguntou se tudo estava bem comigo, eu também disse que sim. Em seguida perguntei se ele queria beber um café. Sim, eu disse café.
Na padaria que fica na esquina, nesse dia, nós não nos sentamos nos bancos altos em frente ao balcão, mas nas duas cadeiras junto à mesa que fica mais ao canto. Ele perguntou se eu comeria um brioche recheado, como de costume, e, lembrando da noite ocorrida duas noites antes, eu respondi que não. Foi quando eu perguntei que reportagens eram essas que ele não pudera publicar. Ele não me respondeu. Em vez disso, me perguntou por que eu queria ser jornalista. Para escrever sobre a verdade, respondi. Para que a verdade seja lida por todas as pessoas. E o que é a verdade, garota dos clichês?
Eu fiquei calada. Foi ele quem retomou o assunto. Posso te ajudar a realizar seu sonho, foi o que ele disse, olhando para o celular que ele tinha colocado em cima da mesa. Disse que eu não precisava ficar assustada, que era só um modo de dizer. Depois disse também que precisava da minha ajuda para publicar uma reportagem. Que não era sobre política, que eu não precisava me preocupar com qualquer problema com o Sistema. Que era uma reportagem para a editoria de Produções Artísticas. Tinham localizado uma obra rara de uma artista que desapareceu há uns anos passados e era preciso divulgá-la. Um quadro. Sim, ele usou o verbo desaparecer e eu também questionei por quê. Ele disse que provavelmente ela se cansou da fama e resolveu viver no anonimato. Mas repetiu que a obra — o quadro — era importante. Eu quis saber se era uma obra artística mesmo, uma obra bonita. A mais bonita, foi o que ele disse. Então eu falei que isso era bom.
Como O Jornal não publica imagens, mesmo na editoria de Produções Artísticas, o editor-chefe não queria que a reportagem fosse feita. Sim, foi isso o que ele me contou. E era por isso que ele precisava da minha ajuda. Porque faria a página assim mesmo e queria que eu fizesse o fotolito e o fototipo para a impressão. Ele garantiu que seria uma surpresa, mas que a direção d’O Jornal certamente aprovaria. E mais ainda o Sistema, que ficaria com toda a glória da preservação do patrimônio artístico pela recuperação de uma obra tão rara.
Sim, eu concordei, é verdade. Por um momento eu acreditei que estava fazendo o que era bom. Porque a arte é bela e o que é belo é bom, não é? Foi o que eu pensei. E também pensei que, se eu fizesse aquilo e provasse que era de bem, eu seria uma boa jornalista, como ele. Escrevendo reportagens importantes, com autorresponsabilidade, para o bem da nossa democracia.
Não, não, não, não cheguei a executar o plano. Quando vi a página diagramada que ele me enviou, a página que eu deveria transformar numa matriz de metal, e aquela frase escrita na boca raspada da mulher do quadro, eu soube que ele não era o jornalista que eu queria ser. Então fiz o que o Sistema faria. Fiz para mostrar que posso ser uma Cidadã de Bem. Sim, com as minhas próprias mãos. (Inaudível) Eu tenho experiência em trabalhar com clichês, não tenho?
Táscia Souza
Texto publicado originalmente no dia 8 de agosto de 2018, no Medium.