Sentada em uma poltrona, perto da janela do quarto, era ali que ela ficava a maior parte do tempo. Enquanto o marido estava em casa, fingia distrair-se com a tela do celular. Quando ele saía, aproximava-se da janela e tinha tempo de observar a rua e o que tinha se tornado. Em frente à janela havia uma escola e, quando compraram aquele apartamento, o muro ao lado amanhecia todos os dias com uma pintura diferente, assim como os diários de jornais e suas capas. Ela acordava e via que traços dos muros definiriam como seria aquele dia. Do portão que saíam animados adolescentes, com suas camisas estilizadas, seus gritos, denúncias da agitação da puberdade, passaram a sair pequenas mentes de cabeça baixa olhando para o celular. Silêncio. E ela também. Sempre que saía, fingia distrair-se com a tela do celular e calmamente deslizava os olhos para um lado e para o outro, como uma tentativa de reconhecer a paisagem tão distorcida do que ela conhecia, mas a mesma por toda a cidade. Era difícil saber marcar o ponto exato onde estava, isso também deveria fazer parte do sistema.

A parede, a paisagem que mais via nos últimos anos. Enquanto mexia no fogão ou enquanto lavava as louças na pia. Sabia quantos quadrados exatos de azulejo tinha naquela parede. Era capaz de apontar até os pequenos defeitos naqueles pequenos quadrados. Por vezes, imaginava cada um deles se desfazendo, abrindo uma passagem, e ela sairia correndo e correria por horas e horas. E não teria mais aquela placa pesada de metal, e não teria mais que olhar para baixo. Só olharia para o céu. Ficaria encarando o sol até que o olho não aguentasse mais de tanta luz.

Os seus dias de maior tristeza eram os dias de julgamento pelo aplicativo. Mesmo que ela não fosse um dos escolhidos com a permissão de julgar, observava o marido, a despretensiosidade com que apertava aquele botão, tão distante da força que um dia existiu nele, a sua garra de querer mudar o mundo transformada na incapacidade de atrasar alguns minutos para responder uma pergunta no sistema. Ela, parada perto dele, observava os comentários e temia por mais uma família que iria se desfazer. Uma mulher que era julgada pelo fato de não “honrar” a família e seus costumes. “Afinal, o dever dela era cuidar da casa, assim como você faz”, dizia o marido. E, nessas horas, ela não sabia como interpretá-lo: com horror pelo que ele havia se tornado ou acreditando ser aquilo resquícios de uma figura de linguagem abolida desde então. Mas o que importa? Ele sempre acabaria apertando o botão, coerente ou não.

“Afinal, o dever dela era cuidar da casa, assim como você faz.” Ouvia da cozinha a conversa entre os patrões e se enchia de uma vontade de vomitar e, se suas condições físicas deixassem, faria ali mesmo, no chão da cozinha, sujando todos aqueles azulejos sistematicamente brancos e alinhados. Ele devia ter dito aquela mesma frase quando ela foi julgada. Devia ter dito que ela era imoral, que não cumpriu o único papel que lhe foi designado. Ele devia ter indagado onde estariam os filhos naquele momento, enquanto a mãe esbravejava como uma louca, em praça pública. Ele devia ter dito desse jeito.

Em sua época de juventude era uma das mais espertas da turma, daquelas que não precisava sentar e ficar horas e horas revisando a matéria. Atenta, prestava atenção em tudo o que ouvia e questionava incansavelmente cada palavra do professor (ensinador hoje em dia). Todos os anos era escolhida como representante de turma, organizava manifestações e se envolvia em inúmeras confusões, por lutas que às vezes nem eram suas. Acreditava que cada pessoa tinha que lutar para conquistar seu espaço e a sua voz repetia incansavelmente para si e para as pessoas ao seu redor. Firme, corajosa e inteligente. Foi assim que logo começou a participar de reuniões sindicais e lutas pelas resistências. Os muros, ela acreditava no poder dos muros. A arte que não precisa ser comprada e não pede permissão para invadir sua vista.

Como a melhor aluna da sala, calada, prestava atenção em cada explicação e, quando chegava em casa, revisava tudo o que aprendeu. Não fazia por obrigação, gostava de aprender. E apesar de passar a maior parte do tempo em silêncio, ajudava os outros colegas de turma, promovendo grupos de estudos e pequenos debates sobre os textos na casa de seus pais. Passava a maior parte do tempo observando, mas mediava, quando necessário, os afoitos gritos que surgiam em meio a uma opinião e outra. Apoiava os revolucionários, mas ficava às margens das passeatas, observando da janela, e, dali, via alguns cartazes que tinha ajudado a revisar e algumas frases que havia sugerido. Sentia que estava contribuindo o suficiente e alimentava aquele sentimento enquanto a multidão seguia rua abaixo, aos gritos.

Nos dias mais estressantes, andava pela cidade sem pronunciar uma só palavra. Observava os muros e as arquiteturas das casas na esperança de encontrar algum conforto que trouxesse de volta a sua força e a sua grandeza. Nesses dias, toda a gritaria de sua mente dava lugar às boas reflexões, esperança de dias melhores e de não precisar subir na mesa para que sua voz fosse mais ouvida que a do colega ao lado. Sabia que era reprimida por ser jovem. Sabia que era reprimida por ser mulher.

Em silêncio, sentava-se no último banco da igreja e por ali poderia ficar por horas. Nos dias de agradecer, lia inúmeras orações e pedia por todos de quem sua mente conseguisse se recordar naquele momento. Nos dias tristes, ficava por mais de horas calada, deixando que o próprio Deus ouvisse as pequenas lamúrias que nem ela seria capaz de dizer. Ou, talvez, nem ela soubesse o que a perturbava. Mas ficava ali, esforçando-se para ter paz.

Aos poucos, essa diferença começou a ficar nítida para ela. Seja em suas inúmeras brigas com o pai que, por falta de argumentos, terminava saindo da sala ou dando uma bofetada em sua cara, ou nas reuniões de que participava, em que seu tom de voz era sempre questionado, as suas ideias sempre precisavam vir juntas de números e embasamentos para que se cogitasse uma conversa. Depois, em cada mesa a que se sentava, percebia os assuntos mudando ou as piadas que se esgotavam. Ou isso, ou as piadas aumentavam e ela tinha que escolher se ria por educação ou ia embora deixando-os com ar de vitoriosos. Era uma doença silenciosa.

Achava um elogio quando lhe davam um lugar no transporte público ou a ajudavam a carregar as sacolas na entrada do prédio. Um serviço sempre acompanhado de “você é muito bonita para fazer isso”. Como poderia ter algo errado naqueles favores? Naquele sistema, talvez nunca tivesse percebido que aqueles “elogios” também lhe tiravam o poder de escolha. Precisou de muito tempo para que se atentasse aos pequenos sinais de uma doença silenciosa e contagiosa que era a segregação por gênero.

Enquanto tomava seu café da manhã, a televisão anunciava os primeiros testes do aplicativo e tudo parecia caminhar mais rápido do que muitos imaginavam. Precisou adoçar o líquido preto para ver se descia trazendo algum conforto para seu corpo que queria desabar ali. Olhava para o lado e era um misto de incredulidade e pavor. Naquele momento, sentiu que ninguém sabia se deveria ou não ter medo e de que lado do jogo estavam. Por um segundo, ela também não.

Depois de horas ajoelhada, tentando tranquilizar-se, quando chegou à porta, viu a rua tomada por intensos gritos, muito mais agressivos do que tudo o que já tinha visto antes. Olhava a multidão e não via o rosto de ninguém, somente cartazes e mãos levantadas. Não havia coro, havia sons embaralhados, uma mistura de desespero e terror. Na dúvida, voltou e ajoelhou-se novamente, tentando encontrar algum silêncio em sua mente para aliviar o medo de algo que ainda nem sabia o que era, mas que estava fazendo seu coração acelerar.

O casamento foi a tentativa de se proteger durante o sistema que estava destruindo tudo o que ela sempre acreditou. Foi como um galho de árvore em meio à enxurrada. Ela sabia que não conseguiria se livrar do tumulto, mas teria onde se segurar para não ser levada pela correnteza. Pelo menos era no que ela acreditava. Porque não demorou muito para que ela percebesse que aquele em que ela confiava sua esperança já a tinha perdido havia muito tempo, e nadava de braçada para acompanhar o ritmo da água. Poderia até não estar confortável com o percurso, mas já não tinha energia suficiente para lutar contra aquela força. Abraçada àquele porto, ela seguiu água adentro e, quando a tormenta pareceu passar, ela já estava muito longe de casa. Muito longe do que acreditava. Muito longe daquilo pelo que tentava lutar.

Casou-se aos olhos de Deus. Instituição muito forte em sua época de juventude. Cartesiana, seguiu todos os passos que acreditava e aprendera que era o certo: namorou, noivou, casou-se, entregou-se na lua de mel. Os filhos eram planos para o futuro. O marido trabalhava arduamente e ela, como uma boa esposa, dedicava-se aos cuidados da casa, especialista desde então. Sabia todos os azulejos da parede, limpava-os um por um. Apesar da certa apatia com que levava a vida, acredita ser felicidade aquele sentimento que a preenchia todas as manhãs, quando tomava o primeiro gole de café olhando a cidade amanhecer enquanto o sino da igreja batia sistematicamente por um minuto. Ali, ela sentia saber como seria o dia na cidade. Pela agitação dos carros, ou pela monotonia que às vezes cortava as ruas.

Quando deu por si, estava dividindo seu olhar entre a tela do celular e os muros, agora parcialmente brancos, da cidade. Seu passo rápido, porém atento, deu espaço a um passo vagaroso, cuidando de cada posicionamento da cabeça, ouvindo mais do que vendo, imaginando mais que falando. Escondia-se em casa, escondia-se na rua. Por vezes via, mas fingia não ver. Da mesma forma que fingia confiar no marido, mas não sabia mais que rumo ele seguia. Quando descobriu que estava grávida, sentiu uma mistura de medo e alívio. Apesar de saber que o que estava para oferecer àquela nova vida que ali se formava era desastroso, também sabia que ele poderia ser a ponta da esperança, a mesma que eles acreditavam que nunca deixariam morrer.

No seu caminho diário para a igreja, viu quando os guardas prenderam duas mulheres que liam para o seus filhos histórias em quadrinhos, sentadas no banco da praça. Era como se algo clareasse em sua mente e, por um instante, ela entendesse tudo o que começava a acontecer ao seu redor. Porém, não teve tempo de digerir. Quando deu por si, já estava gritando, pedindo que as pessoas agissem e não se conformassem com aquela cena que estava ali, bem em frente aos olhos. “Como vocês não percebem?”, essa era a última frase que ela se lembrava de ter dito. A última que a remetia ao som de sua voz. A cada dia mais esquecido.

Em casa, enquanto o marido saía, aproveitava os pequenos momentos para olhar além da tela do celular. Era por esse mecanismo que julgava entender o que a moça que trabalhava na sua casa também estava pensando. Era por esse olhar que educava o filho. Em pequenos momentos que escapavam da vista do sistema, deixava pequenos sinais do que já existira para que o menino, esperto, trilhasse o futuro. Na falta do que poder dizer, ela descobria outros sentidos que também poderiam ser usados.

Entre quem sempre acreditou ter coragem e acomodou-se, e entre quem decidiu, no último minuto, que poderia agir, ela não saberia qual receberia maior benção divina. Mas naquele momento, naquela casa, só existia o silêncio e dois olhares que se cruzavam em um comprimento: nós estamos existindo.

Mariana Virgílio

Texto publicado originalmente no dia 22 de agosto de 2018, no Medium.