Garantiram que seria limpo e eficiente, como o gesto automático do indicador na tela do aparelho celular. Por isso decidi me apresentar no galpão às sete da manhã, conforme havia sido indicado no cartão de convocação, nenhum minuto a mais, nenhum a menos. Minha camisa branca e as botas perfeitamente engraxadas misturando-se em meio à fila de rapazes que aguardavam ávidos para cumprir seu dever, os peitos estufados antecipando a medalha e os louros recebidos pelo sacrifício em defesa do sistema.

O anúncio prometia o privilégio de servir à sociedade, garantir a manutenção da ordem e preservar os direitos dos cidadãos de bem. Era uma coisa bonita de se pensar, proteger as pessoas e assegurar que nada tumultuasse o ir e vir cotidiano, que nenhum dissidente impedisse a prosperidade do coletivo. Bonito mesmo, como os super-heróis das histórias que meu pai relembrava com saudades, para logo depois desconversar dizendo que era preciso sacrifícios em prol de um bem maior.

Embora só a conhecesse das falas de meu pai, a figura do super-herói sempre me fascinara. A prontidão com que se arriscava para salvar desconhecidos, o desapego que demonstrava ao colocar seu próprio corpo em perigo para evitar que a população da cidade, que até então sempre lhe apontara o dedo hostil, sucumbisse em uma grande explosão. Havia mesmo beleza nessa entrega ao outro e, ainda assim, tudo me parecia de uma idiotice cômica. Era com desdém que eu olhava para os rapazes de camisa branca, a seriedade com que encaravam a tarefa que lhes fora dada, a ânsia pela honra da farda. Muitas vezes eu me percebia segurando o riso, não por respeito a eles, mas por saber que fora dos limites de casa as risadas eram perigosas. Bem-estar coletivo, dever de cidadão, vontade de orgulhar a figura paterna. No final, apareci apenas porque haviam me informado que o salário era bom.

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Quando não estava me contando sobre as histórias em quadrinhos da sua infância, meu pai me falava sobre o Antes. Falar sobre o tempo anterior ao nosso, fora do ambiente supervisionado da escola, era um crime passível de punição, mas meu pai acreditava que era preciso conhecer o que de fato havia acontecido, para que pudéssemos entender a importância do que estávamos vivendo. O que ele me contava era diferente das coisas que eu aprendia em sala de aula e, ainda assim, semelhante. Diferia nos detalhes, nas datas e nomes, alguns eventos que pareciam nunca ter acontecido e outros que não eram mencionados nos ciclos da escola, mas aproximava-se na conclusão. Ainda que contada de modos distintos, a história do Antes era sempre pontuada por instabilidades, governos autoritários que alienavam o povo das decisões políticas, regimes totalitários que almejavam alterar a própria natureza humana, modificar a subjetividade a tal ponto que um novo homem surgiria, autômato e obediente.

Eu me surpreendia com a facilidade com que as palavras eram deturpadas naquelas histórias, chegando incompreensíveis aos ouvidos. Era aterrorizante saber que um boato poderia desencadear uma guerra e que o mero pressionar de um dedo no botão era capaz de dizimar uma população inteira. Mas meu pai me ensinou a não condená-los, ao menos não a todos. Ele fora parte deles, conhecera suas lutas e derrotas. Entre os homens do Antes existiram aqueles que buscaram fazer o certo, que ofertaram o próprio sangue para criar uma sociedade mais justa. Quando ele me contava sobre esses homens, eu recordava a figura do herói, a soberba em achar que sua força poderia salvar a humanidade, a tolice em acreditar que o sacrifício valeria.

Não era apenas das pessoas dispostas a dar a vida para a realização de um sonho que meu pai falava. Dizia principalmente sobre a gente comum, sobre a briga diária pela existência, a batalha por direitos travada nas pequenas coisas. Impressionava a maneira ambígua com que lidavam com os ideais democráticos, agarrando-os com teimosia durante os períodos obscuros, desfazendo-se deles com displicência diante de promessas fantasiosas. Tão frágil a democracia do Antes que bastava um aperto de mão entre dois senhores engravatados para que ela se rompesse. Mas não devíamos culpá-los.

Nenhum governo baseado na soberania popular poderia dar certo enquanto estivesse à mercê de uma linguagem dúbia cujos ruídos impossibilitavam qualquer compreensão. Era nisso que acreditavam e, entre eles, meu pai. Buscar a inteligibilidade da palavra, sua pureza primordial, e através dela alcançar a verdadeira democracia, na qual cada membro da sociedade participaria ativamente, tomando decisões, assumindo a responsabilidade de suas ações. Ele sabia que o projeto exigiria renúncias, limitar a liberdade ilusória para que se alcançasse a verdadeira libertação. Renunciar a pequenos prazeres do cotidiano e controlar de perto o recomeço daquela sociedade, até que as pessoas estivessem prontas para gerir sozinhas as suas vidas. Ressocializar os opositores que, por desconhecerem a proposta, certamente sairiam em defesa da falsa democracia na qual viviam. Sabia que seria necessário firmeza para a implementação das novas diretrizes, adotar posturas radicais mesmo que contrariassem sua natureza dócil.

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Acordávamos às cinco da manhã com o alarme soando por todo o dormitório. Ainda sonolentos estendíamos os lençóis bagunçados durante a noite, políamos nossas botas com perfeição, vestíamos as fardas brancas, previamente passadas, e em passos ritmados caminhávamos até as salas de aula dispostas no galpão, onde um membro do Consultório já nos aguardava.

Alinhados nas carteiras, eu percebia a ansiedade dos meus colegas enquanto escutávamos as palavras de nosso superior. Ávidos para que as discussões teóricas se encerrassem, para que finalmente começássemos a exercer nosso dever. Tal como na escola, ansiávamos pelo fim dos ciclos, pelo dia em que a vida adulta se iniciaria. Ainda muito jovens, nos iludíamos com a simplicidade da tarefa, menosprezando a necessidade de nos preparar para o que enfrentaríamos.

“É preciso que seja limpo e eficiente, como é eficiente nossa linguagem.” A frase se repetia no decorrer de cada aula, como um lema que tentavam incutir a qualquer custo em nossas mentes. Escutando nossos superiores eu me lembrava das conversas com meu pai, a complexidade das coisas que ele me contava em oposição ao modo simplificado com que aqueles homens fardados descreviam nossa linguagem. Movendo-se entre as carteiras, o membro do Consultório resumia nosso sistema linguístico à função primordial da comunicação, cujo objetivo só era alcançado quando o receptor compreendia corretamente a mensagem. “Não é por acaso que nossa sociedade se ocupa tanto da fala e da escrita. Quando bem controladas, as palavras são a maneira mais eficaz de transmitir uma informação.”

Não eram as únicas, no entanto. Então ele nos falava das imagens, como se explicasse pela primeira vez uma fotografia para uma criança. Nos dizia que embora a antiga expressão uma imagem vale mais do que mil palavras não correspondesse à realidade, sendo por isso mesmo condenável, não havia como negar que as imagens expressavam algo, ainda que de modo difuso e facilmente manipulável sempre que tentavam escapar de sua proposta de mimese. Por isso preferíamos os muros brancos e as cores sóbrias. Por isso restituímos a arte à sua incumbência original de representação do real, objeto decorativo que se limitava a enfeitar as paredes dos mais sensíveis.

Transmissor e emissor primordial, também o corpo era capaz de se comunicar. Perigosíssimo, quando indisciplinado os gestos e as expressões faciais podiam facilmente corromper a mensagem. Maldito era aquele cujo corpo ousava dizer o oposto de sua voz. Assim como a palavra, o corpo deveria ser controlado e ensinado. Gesticulações, postura, um simples menear da cabeça, quando estudados corretamente, complementavam a fala, quando utilizados com displicência ou dissimulação confundiam o destinatário. Disciplinar alguém com uma mordaça de metal não se limitava a impedi-lo de falar, tinha também como intenção esconder a boca, parte do corpo que não apenas articulava as palavras, mas também expressava-se em silêncio: contrair dos músculos nos momentos de tensão; morder dos lábios em sinal de ansiedade, dor ou prazer; sorrir para demonstrar alegria, deboche ou a necessidade desesperada de agradar os outros.

Bloquear a fala era fácil. A tarefa principal era ensinar ao corpo o seu lugar, torná-lo dócil e decifrável. A partir dos lábios tampados aprender também a controlar o olhar, a limitar os movimentos dos membros somente àqueles necessários para o desempenhar das ações corriqueiras. Para isso éramos treinados, para auxiliar, na difícil empreitada de disciplinar os músculos, a todos aqueles que se rebelavam.

Limpo e eficiente. Nos manuais de anatomia desvendávamos os mistérios do organismo humano, ensinavam-nos os jargões médicos, as funções de cada órgão e com elas as fragilidades biológicas do ser humano. Aprendíamos que, quando aplicados os instrumentos corretos nos pontos em que terminações nervosas se concentravam, o corpo se contorcia até o limiar da fragmentação. A carne debaixo das unhas, escondida e esquecida, aguardava a perfuração da agulha. Pulsos e tornozelos, quando bem amarrados a uma barra de ferro fixada em eixo longitudinal, resultavam em dores musculares e interrupção da circulação sanguínea. Às regiões sensíveis do corpo destinavam-se os choques elétricos: mãos, sola dos pés, órgãos genitais, ânus, mamilos e língua. Instruíam-nos a concentrar principalmente na língua, a observar como as papilas gustativas se eriçavam com a passagem da corrente elétrica, como se o corpo saboreasse seu próprio sofrimento. Quando mal geridas, as descargas elétricas poderiam causar convulsões, perda de consciência, parada cardíaca ou respiratória. Quando aplicadas com precisão resultavam em confusões mentais, amnésia e ruptura da subjetividade.

Romper a subjetividade, era esse o efeito esperado em nosso ofício. Não apenas pelas sensações físicas, mas pela negação das necessidades biológicas mais básicas, pela destituição do direito que o infrator acreditava ter sobre o próprio corpo. Privação do sono, jejum forçado, exposição a temperaturas extremas. As estratégias disciplinares adotadas almejavam provocar uma cisão entre o corpo e a linguagem. Desarticular a associação entre língua, neurônios e músculos. Quando efetivas, as técnicas desordenavam a sintaxe, corrompiam os signos, comprometiam o uso das palavras. Controlava-se a fala através da disciplina do corpo.

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Desde a infância eu escutava rumores sobre a resistência. Em falas murmuradas na cozinha, nos comentários difusos entre os adultos, nos trechos que eu interceptava quando tentava bisbilhotar as conversas que meu pai mantinha com seus colegas do Diretório. Eu adivinhava a chegada daqueles senhores, sempre trajados com ternos cinza, pelas rugas de meu pai. Quando o vinco entre suas sobrancelhas se acentuava, bastava esperar algumas horas para que viessem bater em nossa porta. O senhor sisudo de barba branca era o primeiro a chegar. Encaminhavam-se para o escritório de meu pai e ali permaneciam trancados às vezes por um dia inteiro. Eu esperava com o ouvido colado atrás da porta, excitado por escutar aquelas discussões que sabia serem importantes, embora o que eu ouvisse não passasse de palavras soltas. Os termos resistência e ressocialização eram constantes naquelas conversas, sempre pronunciados com ênfase. Quando as reuniões terminavam, os senhores partiam e meu pai permanecia com a ruga na testa e o semblante cansado.

Falávamos sobre a resistência entre nós, crianças e jovens, sempre em sussurros, verificando por cima dos ombros se nenhum adulto nos escutaria mencionando aquele termo proibido. Sabíamos muito pouco, por isso trocávamos informações, tentando desvendar o mistério a partir do que cada um descobria. Entendíamos que aquele grupo era formado por saudosistas dos tempos da desordem, muitas vezes criminosos que se beneficiavam com as incongruências do Antes e que desejavam recuperar seus antigos privilégios. Longe do olhar dos adultos, usávamos o termo resistente como uma ofensa, sem nos atentar para os perigos daquela acusação.

Para mim era de fato uma ofensa saber que existiam aqueles que se opunham ao modo de vida que meu pai se empenhara tanto para criar. Revoltavam-me as acusações de que o sistema nos tornara mecânicos, de que os membros do Diretório, sem sujar as mãos, derramavam o sangue de inocentes, violavam direitos. Era verdade que algumas pessoas começavam a exibir expressões apáticas e que entre as crianças mais novas houvesse aquelas que se comportavam como soldados bem treinados, articulando perfeitamente as poucas palavras, movendo-se com precisão. Também era fato que cada vez mais precisávamos vigiar nossas atitudes diante dos outros, mas eu jamais poderia acreditar naqueles que tentavam transformar meu pai em um vilão.

Sorríamos muito dentro de casa, embora na rua nos preocupássemos em conter qualquer manifestação exacerbada de nossos sentimentos. Recordo os finais de semana em que meu pai me acordava com um leve toque dos dedos nos cabelos e me levava, os dois ainda sonolentos, para jogar bola no quintal. Quando não ostentava a ruga entre as sobrancelhas ele era um homem brincalhão e alegre. Durante a noite, antes de dormir, me contava sobre a sua infância, sobre os quadrinhos e seus brinquedos favoritos. Às vezes me falava sobre como conheceu minha mãe. Eu ainda os surpreendia de mãos dadas ou com os braços enlaçados nas cinturas.

Ele nunca me privou de nada, embora me alertasse de que nos espaços públicos era preciso cautela. Acreditava que eu deveria conhecer todo o potencial das palavras, pois só assim eu compreenderia a importância do que estávamos construindo, o legado que nos seria deixado. Quando me julgou maduro o suficiente, ele me contou sobre a resistência. Explicou que, ainda que transgressores, os membros daquele grupo não eram pessoas ruins. Muitos ainda não entendiam os benefícios do que estava sendo feito, deixavam-se iludir pelo discurso utópico de uma linguagem livre, na qual as palavras poderiam se desdobrar em incontáveis intenções e significados sem prejuízos. Acreditavam que o desregramento no qual viveram era liberdade. Não eram nossos inimigos, eram como nós, apenas temiam o que não conheciam. Por isso falava-se em ressocializá-los, em educá-los.

Os domingos me pareciam uma festa. A mesa farta ao redor da qual nos reuníamos com os convidados, amigos antigos de meus pais e algumas pessoas da vizinhança. Nos dias de sol servíamos o almoço no quintal. Antes de cortar a carne meu pai sempre roubava um pedacinho com os dedos e me dava às escondidas, para que eu pudesse saboreá-la antes de todos. Os adultos se reuniam sorrindo sem pudores, a conversa se estendendo enquanto os copos permanecessem cheios. Eu brincava com as outras crianças, corríamos no gramado, escondíamos nos cômodos da casa.

Gostava principalmente de brincar com Júlia. Desde que se mudaram para a casa ao lado ela e a mãe sempre nos visitavam. Enquanto nós dois íamos para o quarto de brinquedos, a mãe dela permanecia com meus pais. Durante as brincadeiras, Júlia e eu escutávamos as risadas e as vozes eufóricas vindas da sala de estar e, nos entreolhando, ríamos com a mesma intensidade. Às vezes os meus pais e a mãe de Júlia saíam sozinhos para jantar e nos deixavam com uma babá. Às vezes íamos nós à casa delas e permanecíamos até a noite.

Tornou-se um hábito esperar as duas todo fim de tarde, a mãe de Júlia sempre trazendo um bolo fresquinho nas mãos, o café cheirando na cozinha. Sentíamos que éramos uma família e que nossas casas, tão próximas uma da outra, poderiam ser uma só. Eu ansiava por aqueles encontros, mesmo quando o comportamento da mãe de Júlia pareceu se alterar. Quando abria a porta para recebê-las eu notava seus olhos inchados, a expressão do rosto denunciando choro recente. Muito agitada, parecia distraída ao falar, desfazendo o pedaço de bolo com os dedos, transformando-os em incontáveis farelos sobre o prato. Permaneciam cada vez menos tempo conosco, mal terminava o café e insistia com Júlia para que fossem embora. Até que uma tarde elas não vieram mais. Naquela noite flagrei meus pais chorando no quarto, baixinho, como se tivessem receio de que o choro ultrapassasse as paredes de casa. No dia seguinte notei a ruga entre as sobrancelhas de meu pai, o vinco na testa que nunca mais desapareceu.

As reuniões com os demais membros do Diretório tornaram-se cada vez mais constantes. Eu já não precisava colocar o ouvido contra a porta para escutar as discussões ferrenhas que eram travadas no escritório. Os homens de cinza entravam e saíam de casa várias vezes ao dia, os semblantes contrariados. No dia em que o senhor de barba branca apareceu, não senti vontade de bisbilhotar a conversa. Do sofá da sala conseguia ouvir as vozes exaltadas e temia que algo muito sério pudesse acontecer com meu pai. Quando o homem deixou o escritório, notei que escorria sangue do seu nariz. Sem me olhar, ele foi embora, batendo a porta atrás de si. Com a partida dele, as reuniões pareceram se encerrar. Os senhores engravatados nunca mais retornaram à nossa casa e meu pai que, desde que eu me lembrava, passava todas as manhãs no Diretório, deixou de fazê-lo.

Meu pai nunca falou contra o sistema, mesmo após a discussão com seus colegas e as complicações da aposentadoria antecipada. Tornou-se um homem soturno, no entanto. As festas de domingo terminaram, almoçávamos só nós três, em silêncio na mesa da cozinha, igual a todos os dias. Também as risadas se tornaram escassas, surgiam em um breve segundo para logo depois silenciarem. Ele ainda me contava histórias, mas interrompia sua fala constantemente, o olhar pousado em algum ponto do chão. Às vezes se levantava da poltrona ao lado da minha cama e saía do quarto sem dizer nada, esquecendo-se de me desejar boa noite e apagar as luzes.

Em seus últimos anos emagreceu muito e o rosto desfigurou-se com sulcos profundos, embora ainda não tivesse feito sessenta anos. Definhava com uma doença para a qual nunca demos um nome, mesmo com a quantidade de médicos que entravam em nossa casa e saíam balançando a cabeça. Nos dias que antecederam sua morte, meu pai se calou definitivamente. Permanecia deitado na cama, de olhos fechados. Os músculos da face tensionados, demonstrando que ele não descansava.

Nunca pude confiar na resistência, nas coisas terríveis que diziam sobre nós. Mas também passei a duvidar daquilo que por anos me parecera um projeto de bem-estar comum. Olhando o corpo quase sem volume coberto pelo lençol, eu me dava conta que meu pai se sacrificara em vão, como os tolos heróis de suas histórias.

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Quando surgiu a oportunidade de me alistar como integrante do Consultório, pensei nele. Lembrei de nossas conversas sobre ressocialização e resistência, de seus anos finais. Intuía que ele desaprovaria aquelas medidas, que não gostaria que eu me envolvesse. Embora ele nunca tivesse dito, sabia que havia se decepcionado com os rumos tomados a partir dos planos que ele ajudara a traçar, assim como eu passara a desacreditar na beleza das coisas que ele me falava. Ainda assim, parte de mim talvez desejasse servir àquele projeto com o qual ele me ensinara a sonhar, enquanto outra parte insistia em convencer-se de que aquele seria um trabalho como outro qualquer.

Disseram que deveria ser limpo. Por essa razão nossas fardas eram brancas, através delas distinguia-se um serviço perfeito. Quando executávamos nossas tarefas corretamente, nossas roupas permaneciam alvas, intactas, mesmo que tudo ao nosso redor terminasse maculado. Sabíamos onde e como tocar, sabíamos evitar os exageros e impedir que se extinguissem rápido demais em nossas mãos. Recordávamos o nome de cada músculo que retorcíamos, cada órgão que acertávamos com o bico de nossas botas. Aprendemos a derramar sangue sem que ele jorrasse, sem que fôssemos atingidos.

Era fácil discipliná-los. Mesmo que um menino assustado aguardasse a mãe sentado em um corredor escuro, os olhos incapazes de piscar ou derramar uma lágrima na presença dos guardas. Mesmo que não tenham nos prevenido de que a carne humana era tão macia, que sob a pressão das mãos desfazia-se sem resistência. Mesmo que não tenham nos contado que o corpo transborda com violência, que seus fluídos se espalham em torrente sobre a pele, o chão, as paredes. E que é impossível não sujarmos nossas mãos, nossos rostos e lábios. Mesmo que não tenham nos alertado para os gritos, para as súplicas, para o instinto violento que se apossa de nós e que mais tarde nos envergonha. Mesmo que não tenham me preparado para os olhos daquela mulher, me encarando, me encarando, me encarando, até não se abrirem mais.

Somente do lado de fora do galpão notei a farda branca manchada de vermelho. Sob o luar o sangue se assemelhava a tinta preta e no reflexo de uma das janelas pude perceber o vinco na minha testa que, assim como o do meu pai, eu sabia que não desapareceria.

Raíssa Varandas

Texto publicado originalmente no dia 19 de setembro de 2018, no Medium.