
De todos os verbos que a gente usava no trabalho na roça o que eu mais gostava era semear. De brotar também eu gostava. A gente fazia isso em estações diferentes. Semeava arroz e café em setembro, feijão e fumo antes, em agosto. Trigo em maio, erva mate em abril, frutas cítricas em outubro. Então eu passava os meses seguintes observando cada semente germinar e irromper o solo em sua própria velocidade, acelerada ou não pelas chuvas, raminhos verdes se desenrolando aos poucos em folhas, em troncos, em flores, em frutos, em novas sementes. Até que chegasse a época da colheita, cada espécie em seu próprio e único período de tempo.
De colher eu não gostava tanto. Do trabalho de colheita sim, mas do verbo não. Pensava que confundia com colher, o instrumento de metal que no frio a gente usava para tomar sopa, e não entendia como podiam ter sido mantidas duas palavras que, apesar do som diferente, eram escritas da mesma maneira. O pai não soubera explicar. Nem a ensinadora da escola rural que eu frequentara, infelizmente por pouco tempo, apenas durante a primeira etapa escolar.
Fora lá que eu aprendera verbos. Eu semeio. Tu semeias. Ele semeia. Nós semeamos. Vós semeais. Eles semeiam. Modo: indicativo. Tempo: presente. Eu pensava que o tempo deveria se chamar atualidade, porque presente era aquilo que recebíamos uma vez por ano, no dia que comemorávamos o aniversário de nosso nascimento, mas a ensinadora explicara que, após deliberação do Conselho, o nome do tempo verbal havia sido mantido porque o tempo atual é, por si só, um presente. Uma dádiva, ela falou.
Eu cul-ti-vei. Tu cul-ti-vas-te. Ele cul-ti-vou. Nós cul-ti-va-mos. Vós cul-ti-vas-tes. Eles cul-ti-va-ram. Modo: indicativo. Tempo: pretérito perfeito, que era, na minha opinião, um nome muito bom para um passado. Era também essa a razão porque ninguém nunca dizia que Antes foi assim — pretérito perfeito do indicativo — , mas que era — pretérito imperfeito do indicativo, nomenclatura que indicava de forma muito mais correta, segundo a ensinadora, a imperfeição daqueles tempos. O verbo cultivar não era tão bonito quanto semear, mas tinha mais sílabas para que separássemos, o que facilitava na hora de compreender as desinências.
Havia também outro modo, o subjuntivo, do qual eu particularmente gostava. Presente do subjuntivo: que eu brote, que tu brotes, que ele brote, que nós brotemos, que vós broteis, que eles brotem. Era bonito imaginar que eu, primeira pessoa do singular, ou o pai, segunda ou terceira pessoa do singular, dependendo de eu estar falando com ou sobre ele, pudéssemos brotar da terra como as plantas, terceira pessoa do plural. Da mesma forma, era encantador que as plantas pudessem ser chamadas de pessoa, ainda que de terceira, porque, para mim, era isso que elas eram: pes-so-as.
Meu preferido de todos, entretanto, era o pretérito mais-que-perfeito do indicativo. Eu fazia questão de usá-lo sempre, juntamente com todos os substantivos certos, os pronomes bem colocados, as conjunções e preposições adequadas, os adjetivos e advérbios precisos. O pai achava engraçado. A arte do bem falar, porém, é essencial para o aprimoramento de uma sociedade baseada na comunicação direta, dissera a ensinadora. Eu aprendera.
Isso fora antes dos ciclos temáticos. Os ciclos não eram oferecidos ali na roça. Para prosseguir os estudos, era preciso fazer um longo trajeto, até ver a paisagem verde e marrom ser substituída pela de muros cinzas ao longo das estradas quase vazias e, depois, esses irem clareando até ficarem totalmente brancos nas ruas muito cheias da cidade.
Se eu tivesse continuado, estaria no quinto ciclo, que eu sabia se chamar História da Vida Sob a Marquise, o que me despertava uma enorme curiosidade, porque, embora eu já tivesse procurado o significado da palavra marquise no dicionário de palavras permitidas — “grande laje de cimento armado que se projeta, apoiada tão somente por uma das extremidades, usada em pavilhões e anfiteatros para proteger os espectadores do sol ou da chuva e também em edifícios, logo acima do andar térreo” — eu nunca conseguira ver uma, nem quando visitara a cidade com o pai, quando ele fora entregar uma remessa grande de sacos de café. Continuar estudando, contudo, era difícil, por três motivos. O primeiro é que não havia quem me levasse até lá. O pai passava o dia em meio à plantação, arando, adubando, capinando, arrancando as ervas daninhas. Semeando, vendo brotar, colhendo. A mãe morrera poucos meses depois de eu nascer e eu sequer me lembrava dela. Éramos só nós dois e esse era o segundo motivo pelo qual eu não tinha condições de ir estudar na cidade: eu era o que eu era, uma roçadeira. Precisava ajudar na lida da roça.
O pai contava que houvera uma época, no tempo do pai do pai dele, em que roçadeiros eram chamados de camponeses. Eu ficara encantada com a palavra e desejara com todo o meu pensamento ser uma camponesa, que se parecia tanto com princesa que só a imaginação dessa possibilidade me deixava tonta. Disse isso à ensinadora, com orgulho, altiva, numa determinada manhã: sou herdeira de camponeses, sou uma camponesa. Fui advertida. Camponeses são os que vivem no campo, que é, por definição, um terreno extenso e plano, com poucas árvores. É assim onde você mora?, lembro-me de ouvi-la perguntar, irritada. Pensei no pomar, na horta, no cafezal e no milharal entre cujos arbustos eu costumava brincar de me esconder. Não, não era um campo. Nosso trabalho era roçar.
Havia, porém, ainda o terceiro motivo, mais vergonhoso. Eu tinha medo da cidade. Os muros brancos, as paredes brancas, as pessoas olhando para frente ou para a pequena tela em suas mãos me assustavam. No quintal de casa existiam pintassilgos pretos e amarelos, ameixas arroxeadas, lírios azuis. O pai e eu nos olhávamos nos olhos e sorríamos quando acordávamos de manhã e tomávamos o café na varanda, vendo o mato molhado de rocio. Mesmo a escola, onde a ensinadora ordenava que encarássemos o quadro branco com aquele olhar fixo e onde eu não podia contar meu dia como fazia com o pai, não era tão intimidante quanto eu vira na cidade. Até porque eu não tinha tanta vontade assim mesmo de contar meu dia para as outras crianças.
Para ser sincera, nem havia muito o que contar. Eu despertava às cinco em ponto, antes mesmo que o pai viesse me chamar. A primeira tarefa era colocar a água para ferver, para, enquanto ela esquentava, arrumar a cama, escovar os dentes e trocar de roupa. Quando ainda frequentava a escola, vestia o uniforme; nos últimos anos, contudo, bastavam a calça jeans e uma velha blusa de mangas compridas, para proteger os braços do sol. Depois que a água fervia, passava o café. O verbo, às vezes, parecia estranho, deslocado de sentido, mas era esse mesmo: eu punha o café em pó no coador e, em seguida, quando despejava a água quente, ele passava líquido para o outro lado. Então eu enchia as duas canecas e íamos para a varanda.
Não fora só o uniforme que eu deixara de vestir depois que a primeira etapa escolar terminou. Quando ainda frequentava a escola, eu caminhava uma hora inteira pela estrada de terra, muitas vezes descalça, para poupar os sapatos e só calçá-los, limpos, quando chegasse. Sem a escola, no entanto, eu calçava as galochas de borracha e ia direto para a plantação. Havia dias em que o pai e eu íamos juntos cuidar do mesmo cultivo e ríamos enquanto trabalhávamos, ele contando histórias das visitas à cidade, ou enquanto comíamos, sentados sob a sombra de nossa mangueira preferida, a marmita fria que eu preparara na véspera. Em outros dias, nós nos dividíamos e eu era encarregada de explorar outros terrenos, para além da cerca, que estivessem vazios, que não tivessem donos ou que fossem improdutivos — o que era possível, porque já não tínhamos tantos vizinhos assim — e que fossem aráveis para receber sementes.
Aquele foi um desses dias. Eu atravessara um buraco na cerca de arame farpado, esgueirando-me por entre os fios e sentindo-os quase rasgar minha blusa, e vagara com uma foice na mão e uma enxada na outra, cortando o mato alto e cutucando a terra de vez em quando para examinar o potencial de plantio. Acho que andei um pouco mais do que de costume e numa direção até então desconhecida, porque de repente o mato diminuiu e eu estava no meio de uma clareira que eu nunca vira. Era um terreno extenso e plano, com poucas árvores, a exata definição dada pela ensinadora para explicar o que era o campo, e eu senti o coração bater um pouco mais forte pensando que se eu vivesse ali, bem ali no meio, entre as mini margaridinhas que num canto ou noutro coloriam de branco e amarelo o verde do chão, eu enfim seria uma camponesa. Essa sensação, porém, durou apenas o tempo de eu me lembrar de que trazia uma foice numa mão e uma enxada na outra e que, portanto, o objetivo era roçar aquele solo. E então ele não seria mais campo. E então ele seria chão daquilo que era semeado, e não do que brotava naturalmente.
Não foi sem um certo pesar que deixei a foice provisoriamente no chão e segurei com mais força a enxada. Ergui-a e depois tornei a baixá-la, fazendo com que o gume afiado da lâmina revirasse a terra. Fiz o mesmo movimento outra vez, e outra, e repetidas vezes, arrancando mato e, com pena, algumas margaridinhas no processo, até expor o ventre — eu tinha a intuição de que não podia usar a palavra ventre para isso, mas o pai usava e eu gostava do som — de um marrom frio e úmido da terra.
Era uma terra fofa, gostosa de capinar, como deveriam ser, na minha imaginação, todas as terras dos campos. Todavia, ao me aproximar de um pedaço semirrevirado do terreno, sem mato por cima, que destoava de todo o resto, a lâmina da enxada emperrou. Não era normal haver um trecho pedregoso logo ali, onde a terra parecia remexida, mas tentei mais uma vez e, novamente, o gume bateu em algo duro sob a superfície, fazendo um ruído de metal contra metal. Larguei a ferramenta de lado e agachei-me no chão, tateando com as mãos mesmo, limpando com os dedos os grãos de poeira, tentando chegar ao que havia por baixo. Até que o aço reluzente brilhou sob o sol, parafusado ao sorriso cadavérico de um crânio descarnado.
Recordo-me pouco do que aconteceu depois. Lembro-me de ter gritado o pai, inutilmente, até ficar rouca e sentir gosto de sangue na garganta. Lembro-me dos braços dele me levantando do chão quando já estava escuro, eu catatônica em seu colo. Lembro-me do barulho ensurdecedor dos tratores nos dias seguintes. Lembro-me do medo que senti dos homens que chegaram olhando as pequenas telas luminosas em suas mãos. Lembro-me dos ossos e crânios com placas de metal parafusadas no maxilar que iam sendo empilhados no meio do campo, que se transformou, de uma hora para outra, no último lugar onde eu gostaria de viver.
E me lembro de perguntar, antes de não poder perguntar mais nada, se os corpos haviam brotado sozinhos ou se alguém os semeara ali.
Táscia Souza
Texto publicado originalmente no dia 21 de novembro de 2018, no Medium.