
Pai e filho em um passeio cotidiano dominical. Fazia anos que transitavam pela cidade aos domingos, frequentando parques e padaria, conhecendo ruas e bairros por toda a urbe. Ao pai, professor e geógrafo, cabia ensinar ao filho como se deslocar com consciência. O filho, ano após ano, registrava as palavras do pai e questionava à maneira da idade o que ele dizia.
Naquele domingo o pai decidiu caminhar por uma área de maior concentração populacional e comentar os nomes dos prédios, entre os quais Abdias Fanon, Branca Cabinda, Silva (acompanhado por três estrelas), quando o filho estranhou.
– Pai, os prédios têm nomes de pessoas.
– Sim, filho, nomes de pessoas.
– São prédios, pai, não podem ter nomes de pessoas, isso não é literal.
– Como deveriam se chamar? Concreto armado? Tinta branca? Tijolos empilhados? Acho nomes pouco adequados a qualquer prédio.
– Mas, pai, é o que tem ali, não é?
– Tem pessoas também naqueles prédios.
O filho continuou ouvindo as histórias do pai sobre o traçado urbano, a existência daquele bairro, o acesso até ali. Falou das encostas, da geologia do planeta e da idade avançada daquele desenho de relevos relativamente baixos em relação às montanhas do mundo. Por isso ali havia morros, não montanhas como propagavam alguns, mas os Cidadãos de Bem que monitoravam os dizeres através dos aplicativos estavam alheios a esse erro. Procuravam outros, menos relevantes.
– Esses caminhos das ruas se parecem com as cidades medievais europeias, as casas se encaixavam onde podiam para que os moradores pudessem se estabelecer o mais rápido possível, fincando chão e trabalho. Porém, lá na Idade Média, a busca de sobrevivência acompanhava as margens dos rios, aqui segue somente as margens, os rios já foram apropriados.
O filho olhava as curvas, esquinas, asfaltos e falta dele. As casas com varanda do lado, telhado de zinco em cima do terraço e os prédios de três andares, alguns até mais. Em outras ruas, muito mais. Todos, sobretudo os maiores, com nomes. As ruas tinham nomes ou números ou letras. As que não tinham nomes de pessoas carregavam palavras comuns, como Rua Funda, ou estranhas, como Avenida Independência.
A explicação vinha de outros passeios, eram nomes herdados dos córregos que passavam ali antes das ruas. O Córrego Fundo havia sido canalizado mais recentemente, o da Independência tinha quase um século. Ambos eram caminhos centrais nas regiões que cortavam e antes de o pai comentar, o filho, que não morava nessas regiões, os desconhecia e se perguntava se algum habitante daqueles leitos sabia em que água pisava.
– Ainda não entendi, pai, por que os prédios chamam assim. As ruas e os bairros… Acho que entendi, mas os prédios ainda não. Porque as ruas com nome é porque… Porque já tinham esse nome, não é?
– O manancial está ali, mesmo que encanado. No bairro, algum momento histórico explica os nomes. Houve outros nomes antes, muitos nomes, de santo, mas o estado é laico e obrigou que esses nomes fossem trocados para o que eram. O Bairro Industrial ou o Floresta se mantiveram assim: um recebeu mais insumos para desenvolvimento das produtoras e o outro virou área de reserva ambiental. Tivesse sido diferente e arriscavam mudar de nome também.
– Mas os prédios, pai, têm nomes que são de pessoas. Essas pessoas moram ali?
– De certa forma moram, meu filho.
Foram abordados por Cidadãos de Bem preocupados com os bips geolocalizados de seus celulares. O pai mostrou o aparelho aos dois benfeitores, o filho ainda não tinha aparelho, não era uma obrigação ainda na idade dele, embora muitos colegas tivessem feito (ou os pais) a opção por ter o aparelho e os aplicativos obrigatórios, sobretudo o de vigilância.
– Ano que vem será obrigatório o uso do aparelho, vocês sabem disso, certo?
– Ano que vem ele usará. Está aprendendo tudo o que precisa antes de ser conectado, para não cometer enganos.
Os Cidadãos de Bem sorriram diante daquele pai responsável, sério, idôneo, como constava em sua ficha básica, à qual tinham acesso os que se voluntariavam para se tornarem Cidadãos de Bem. À ficha ampla tinham acessos os profissionais do Sistema de Regulação Social, do qual o pai já fizera parte durante a elaboração de material escolar que era utilizado nas escolas junto com a Cartilha para Ensinar. Os departamentos do Sistema funcionam de maneira integrada, para não haver divergências.
Seguiram, pai e filho, por uma rua repleta de prédios baixos, cinco andares no máximo, próximos às encostas do final daquele bairro. Rua pouco frequentada, utilizada apenas pelos moradores da região e por quem requisitava os trabalhos da oficina que levava o nome do pai do mecânico.
– Antes, meu filho, ela se chamava Oficina do César. Hoje é Oficina César.
– Por que mudou desse jeito? É quase a mesma coisa.
Houve uma chuva repentina, dessas que parecia a tempestade de verão de uma noite e durou cinco dias, entre parar e voltar. Alagamentos por toda a cidade, mesmo em pontos tidos como sempre secos. Enxurradas até em vias quase planas. Deslizamentos de terra na periferia e no centro. Caos, ninguém usava outra palavra para explicar como estava a cidade naqueles dias.
Milhares de pessoas foram desalojadas, dezenas foram mortas esmagadas ou sufocadas por barrancos, algumas na tentativa de ajudar quem já havia sido apanhado. Toda a cidade se mobilizou, aulas foram suspensas, equipes de resgate se desdobravam, grupo de voluntários se expandiam pelas escolas que se tornaram abrigos e em pontos de coleta de doações. O primeiro passo era sobreviver.
O segundo foi o de dar continuidade à vida. Houve quem pudesse retomar suas moradias. Muitos tiveram que construir novas, o que fizeram com apoio do Sistema. Prédios foram erguidos em velocidades recordes, acolhendo diversas famílias que tinham a tragédia como ponto comum. Esses prédios foram batizados com os nomes das pessoas que morreram nos lugares onde havia cada construção. Era o terceiro passo diante da catástrofe: a memória.
Uma edificação precisava ter seu nome amparado pela verdade. Um edifício chamado Manhã de domingo teve o nome contestado sob alegação de que mentiria em seis dias da semana. Mantiveram somente Manhã, sobre o que foi novamente questionado, desta vez mantendo o nome sob alegação de que não se tratava de manhã ali, pois em alguma parte do mundo seria manhã naquele momento.
– Esses nomes dos prédios são das pessoas que moram neles? Não estou entendendo…
– A ponte que liga nossa cidade à outra tem o nome das duas cidades, não tem?
– Claro, ajuda a orientar o que ela faz, ligar as duas cidades, foi o que me ensinou.
– Já reparou que alguns pilares da ponte têm placas com nomes de pessoas?
– Homenagens a quem construiu?
– São os nomes desses pilares que custaram a vida de algum construtor, concretado ou afogado durante a obra.
– Pai, esses nomes nos prédios são de pessoas que morreram nesses lugares…?
– E não foram encontradas. São lápides, meu filho.
O jovem ainda tentava acreditar no que o pai havia dito quando foram abordados por dois Fiscais da Autorresponsabilização. Depois dos cumprimentos de praxe, um dos Fiscais da Autorresponsabilização perguntou se ele tinha mesmo criado aquele material de madeira que usavam na escola. Enquanto a autoridade lembrava do passado, o professor falava de como criou todos aqueles brinquedos, que nem eram brinquedos de verdade, se chamavam material de apoio, mas as crianças acreditavam que eram brinquedos e se localizavam na sociedade e no uso das palavras através dele. Nem o filho sabia que o pai tinha feito aqueles objetos, sorriu orgulhoso e calado, como foi orientado pelo pai a fazer a não ser que fosse consultado. Despediram-se contentes, sem qualquer comentário sobre o motivo da abordagem, situação rara desde que o Sistema assumiu o controle da sociedade.
Pai e filho foram para casa em passos longos e rápidos. O pai deixou o celular na sala e foram para o banheiro. Fecharam a porta. Com gestos, o pai pediu ao filho que se despisse enquanto ele fazia o mesmo e entrava no banho. Com chuveiro aberto, explicou:
– Assim que eu sair do banho você entra, enquanto isso pegue aquele pote no armário debaixo da pia e coloque água. Depois suje nossas roupas de lama, sobretudo sapatos e barra das calças.
O filho fez enquanto ouvia o que o pai dizia. Sujou tão bem as roupas de lama que parecia não estar ouvindo o que era falado como uma metralhadora naquele banheiro.
– Filho, saiba que todo o amor que sempre tive por você foi verdade e por isso nunca mais te chamarei de filho. Você foi um achado na minha vida, mas foi gestado por uma mulher que nem conheci e seu pai conheci dos jornais. Ele amordaçou sua mãe porque trabalhava pro Sistema e ela se opunha. Você era bem pequeno e foi uma coincidência de algoritmos que me levou até você. Desde então te cuido como filho e trabalho, sim, para o Sistema, mas tentando criar materiais educativos que outros fariam para doutrinar. Trabalho para educar. Bem difícil o que eu faço. Espero que me entenda e que saiba que vou sempre amar você, meu filho.
Saiu apressado do chuveiro porque sabia que a campainha tocaria. O filho foi para a água e ele foi enrolado na toalha atender a porta. Os Fiscais da Autorresponsabilização estavam lá, outros, não os que havia encontrado na rua. Os que chegaram eram do ministério. Perguntaram pelo celular ignorado, somente com registro de ruído branco.
– Fui ensinar os nomes dos edifícios e tinha lama em alguns pontos. Chegamos em casa e fomos nos lavar. Celular ficou na sala. Sou mais velho e fui primeiro. Ele está lá, começou agora. As roupas estão enlameadas, caso precisem de confirmação.
– Entendemos a situação, senhor. Esses poucos deslizes são condenáveis, mas sua conduta exemplar nos permite apenas falar que agiu errado, cientes de que seguirá agindo certo.
– Obrigado pela confiança.
– Este aqui é o celular do seu filho. No padrão da idade, como você sabe.
– Na idade dele ainda é facultativo o uso, optamos por começar ano que vem, quando se torna obrigatório.
– É facultativo ao Sistema. Agora ele tem um celular. Aplicativos já instalados e configurados, basta que ele se conecte por voz.
– Vocês… – ele pegou o celular do filho que não era filho para eles e pensou se deveria falar, e falou – têm algum sistema especial para pessoas que não têm voz se conectarem ao aplicativo?
– Essas pessoas não usam o aplicativo. Algumas se tornaram nomes de prédio, você sabe, professor.
O filho saiu do banheiro de bermuda e esfregando a toalha no cabelo.
– Algum problema?
O pai se adiantou:
– Olha só o que chegou: seu celular!
Abraçaram-se em tom de comemoração, o filho apertando o aparelho na mão, o pai apertando o filho, os Fiscais da Autorresponsabilização se retirando sem perceber as lágrimas de dificuldade que se desciam pelos ombros.
Gustavo Burla