Category Archives: Segunda opinião

Juiz de Fora

Juiz de Fora

Nada de novo, no anoitecer dessa tarde fria que seguiu a manhã de sol. aprendo com as estações, que são poucas, mas podem ser muitas em vinte e quatro horas juizforanas. e agora, enquanto as coisas desimportantes correm a madrugada vazia, que esconde gente á procura de gente em alguns bares cheios de desimportâncias, eu vejo o fleche de céu azul que anuncia a tormenta segunda-feira. esperando, peço um café preto no balcão da padaria, assistindo amanhecer o dia que chegou pra mastigar meu coração al dente.

Tassiana Frank

Dentes

Dentes

No mesmo dia em que o médico gritou “nasceeeeeu”, outro, lá fora, decretava o lockdown. E nada de visitas com beijinhos na mão, celebrações de batizado e festa de um ano. Vivia realmente isolada. Aos poucos, começou a sentir-se estranha, como se tivesse algo que ninguém mais ali tinha e, por isso, vivia quieta, com a boquinha fechada. 

Os pedidos eram muitos: “Sorri pra mamãe…”, “Sorri pra vovó”, mas ela escondia com medo da vergonha de decepcionar pelo que iriam encontrar os mascarados que a observavam. 

Sentiu-se feliz quando começou a usar a máscara também, não precisava disfarçar ou tentar esconder. Queria até dormir de máscara. Os pais, ainda que receosos, se tranquilizaram com o zelo que a criança tinha, quando nenhuma outra suportava. 

Todo seu incômodo se resolveu somente quando começou na escola. Por um descuido, a coleguinha retirou a máscara e, ao sorrir, viu apontar nela um pontinho branco, igual ao que nascia em si. 

Ufa! 

E foi assim que nunca mais parou de sorrir.

Mariana Virgílio

Coleção coercitiva

Coleção coercitiva

Nunca colecionei nada. Quando criança/adolescente, alguns familiares tentaram plantar em mim esse “hábito”, me dando mini garrafinhas de Coca-Cola em mini engradados, Fofoletes das mais variadas cores, revistas de vôlei. Curtia tudo, mas não era tomada pelo desejo de colecionar. Chegou a pandemia e mudou a vida da gente — a vida da gente que ainda tem vida. Todas as vezes que faço compra, peço logo umas seis, por medo de faltar, já que sou daquelas piradas em evitar o coronavírus de todas as formas. E elas acabaram se acumulando no armário da dispensa. Treze garrafas de álcool 70%. De quatro marcas diferentes. É… virei colecionadora.

Gilze Bara