Masoquismo

Masoquismo

Eram placas grandes, vermelhas, inchadas, que dominaram o corpo dos ombros até os joelhos. Só escaparam a cabeça e os pés, talvez como metáfora de que a coceira insuportável não tivera começo nem parecia querer ter fim. E eu lá, com aquela vontade de arrancar a pele a unhas, as mãos inquietas quase amarradas sob o travesseiro para resistir ao desespero. De vez em quando uma escapava e arranhava o corpo em ânsia, ajudando a espalhar ainda mais o empolamento. Noutras horas, apenas rolava de um lado para o outro na cama, desejando cegamente que o lençol fosse mais áspero, que o colchão fosse de lixa, que o estrado fosse de pregos, qualquer coisa que acabasse com a agonia.

Só esperei amanhecer por causa da lembrança insistente das palavras ríspidas de um amigo médico sobre os pacientes que procuravam a emergência dos hospitais em plena madrugada. Mas tão logo o sol clareou o céu, clareei eu também o caminho até o posto de saúde. As miras foram certeiras: uma agulhada no lado esquerdo do traseiro e outra na veia do pulso direito bastaram para que eu mergulhasse no torpor gostoso da dor que substituía a comichão. Nunca imaginei que, depois de velha, fosse gostar tanto de tomar injeções.

Táscia Souza

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