Começar de novo

Começar de novo

Todo dia era um novo começo! Era disso que ela gostava! De começar! Mas não gostava da sensação de terminar algo. Tinha um quê de despedida e ela não gostava de despedidas. Por isso começou a evitar terminar qualquer coisa que começava.

Primeiro decidiu que não queria se despedir das personagens das histórias que lia, então não terminava os livros. Se despedir de um filme, ou novela então, impensável!! Ficavam pela metade e ela seguia criando infinidades de novas situações para jamais deixar terminar a trama em sua mente.

Depois começou a ficar com indigestão de terminar o prato do almoço, a caixa de bombons, o sorvete da tarde de domingo. Como acostumar com o ultimo gostinho de algo que foi tão bom?!

Aí percebeu que não conseguia terminar uma conversa, um telefonema. Passou a levantar e ir embora quando sentia que o papo estava acabando. No telefone, simplesmente desligava. Os amigos começaram a achar que ela estava estranha, ou que a ligação havia caído.

Começou a ficar obsessiva com começos. Começar era muito bom, parar antes do fim era o êxtase. E sua vida começou a acumular coisas inacabadas. Balas pela metade, contas meio pagas, palavras meio ditas, sonos interrompidos.

Até que um dia se pegou não querendo terminar um suspiro com medo de perder a poesia daquele começo de fim de tarde.

Prendeu o ar.

Parou o tempo.

Elena Duarte

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