Pacote suspeito

Pacote suspeito

Tava no chão da garagem, ao lado do carro, perto de onde ficava o lixo. Primeiro pensei que alguém tivesse deixado cair ali enquanto levava outras tantas caixas pro descarte. Só que estava muito perto do meu carro, na frente da minha vaga, numa parte onde apenas eu poderia passar. Achei que alguém tivesse deixado pra mim.

Lembrei do Quase-memória, do Cony, quando ele lembra de um monte de coisas por causa do barbante que prendia uma caixa. Depois do Proust e do doce, citados pelo brasileiro, e do quanto uma madeleine fez o sujeito pensar na vida. Sorri pra caixa e imaginei cartas, fotos, um objeto especial que poderia encontrar lá dentro.

Antes de dar um passo, pensei no pacote suspeito, daqueles que param trens, metrôs, trânsito e fecham lugares lotados só porque alguém esqueceu a caixa no chão. Esqueceu? E aquela ali? Se fosse alguém me chamando pra dar uma de Proust kamikaze? Voltei pro carro, não tinha seguro, achei melhor deixar na rua até o lixeiro passar.

Gustavo Burla

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