Fauna

Fauna

Quando a moça que engolia sapos e o rapaz acostumado a ouvir cobras e lagartos se conheceram, pensaram que jamais seriam capazes de dividir um jantar ou uma conversa. As refeições dela eram todas anfíbias, dos pequenos girinos cotidianos até grandes cururus profissionais, pessoais, emocionais, daqueles que inflam na boca e secretam veneno garganta abaixo. Já ele sequer comia, indigesto demais das coisas reptilianas que escutava, desde diminutas osgas domésticas até enormes serpentes que rastejavam pelo canal auditivo, enrolavam-se ao redor de seus pensamentos e apertavam, até sufocar.

Mas então eles se encontraram. E ela sentiu um gosto suave na língua, seguido de um frio gostoso no estômago, ao passo que ele experimentou o som melódico que entrava nos ouvidos com o prazer de quem percebe o silêncio. Dali em diante os diálogos passaram a ser passarinhos e o alimento, borboletas. 

Táscia Souza

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