Autópsia

Autópsia

O turno havia começado e nesse dia, em especial, a encomenda parecia grande. Era hora da autópsia. Muitos criticavam seu emprego, mas ninguém sabia o quanto ele adorava cada parte. Exigia muita concentração, pois, assim que desse o primeiro corte, seria transportado para uma nova história.

Começou pelo cérebro, já em avançado estágio de decomposição (desconfiou que o processo tivera início ainda em vida, devido ao grande uso). Nele, além das poucas lembranças que restavam, estavam as fórmulas que criou no trabalho e as frases memoráveis, já patenteadas e em grande sucesso.

Na boca, ainda restava o gosto do último beijo, misturado com o cheiro forte de vinho, café e cigarro. Dos quatro cheiros, não foi possível distinguir qual o havia matado primeiro.

O coração permanecia bonito. Como algo bem cuidado em vida (ou pouco usado) e ainda quente, resquícios de um uso recente.

Mas era no estômago que teve a maior surpresa: ali, misturado com a ansiedade e nervosismos dos dias ruins, estavam, ainda vivas, as borboletas do primeiro e último amor.

Mariana Virgílio

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