Author Archives: hupokhondria

Literalmente

Literalmente

Foi o tempo de uma distração e o bilhete materializou-se ali, empurrado por debaixo da porta. Bilhete anônimo, como anônima seguiu a rua sem que, pela fresta da veneziana, conseguisse enxergar o mensageiro que o deixara. Em letra cursiva cuidadosa, nem feminina nem masculina demais, o enigma:

“Conheço sua dor porque já estive, literalmente, na sua pele.”

Por um instante buscou pensar quem, na vila, poderia ter passado por um sofrimento semelhante ao seu, mas aquele advérbio perturbava tudo. E entre vírgulas ainda por cima, tornando a coisa toda mais sufocante, enclausurada, como se a própria palavra estivesse presa entre as membranas de uma pele que não era sua.

O bicho-de-pé que pegara no sítio, na infância, certamente estivera, literalmente, em sua pele, sorriu. Um riso nervoso; um riso de estou enloquecendo, eu sei, mas é que deixaram um bilhete absurdo por debaixo da minha porta; um riso de todo impossível porque o bicho-de-pé morrera há muito tempo, trespassado pela agulha de costura da mãe que abrira-lhe um buraco entre os dedos.

Então pensou em outro pé. No pé que roçara o seu, pele na pele, depois de todas as partes, pelos e poros terem feito o mesmo, numa tarde quente dentro de um quarto abafado que ele não habitava mais. Talvez fosse essa dor, a dor do não-mais, a que se referia o bilhete. Ou talvez fosse um recado de outro plano da moça espevitada que uma noite, numa roda de dança, assumira o controle e falara coisas incompreensíveis dentro de sua cabeça.

Nenhum desses pensamentos, porém, conseguia penetrar sua pele de fato como aquele outro ser, aquele ser oculto feito de papel e tinta azul de caneta bic, dizia que fizera. Sem pistas na rua anônima, sem rastros por debaixo da porta, sem descuidos na letra cursiva, o único caminho, decidiu em transe, era rasgar a própria pele, era virá-la do avesso, era examinar célula por célula, descobrindo músculos e ossos e vísceras, a fim de encontrar que pistas, rastros ou descuidos quem sentia sua dor deixara por lá.

Táscia Souza

Papo de farmácia

Papo de farmácia

– Boa tarde, moço. Você tem…

– Não, não tenho! Todo dia vem uma fila de gente perguntar se tenho álcool gel e não tenho. E nem álcool 70 e nem antibactericida porque também não funciona porque bactéria é bactéria e vírus é vírus. O mundo todo tá esfregando álcool gel até no cu, o preço triplicou e quem tem coloca na porta, pra atrair cliente e vender rápido. Mesmo assim vem sempre uma porrada de imbecil me perguntar se tenho álcool gel ou álcool 70. Depois tem gente que pergunta se tenho luva cirúrgica. Não. Nem luva de borracha eu tenho, não sou supermercado. Onde já se viu… Luva de borracha… De limpeza! E máscara! O cara não vai lavar a mão com álcool porque não tem, não vai proteger a mão porque luva não tem e quer tapar a cara com máscara. E quer com filtro, daquela que vende em cirúrgica. Isso aqui é uma farmácia! A gente vende de tudo isso, se tem. Mas se não tem, não tem, porra!

– …xampu?

Gustavo Burla

Pandemia

Pandemia

Brasília, 15 de março de 2020 – 19:00

O excelentíssimo Presidente da República foi submetido à avaliação médica multiprofissional na manhã do último domingo no Hospital [nome omitido por medidas de segurança].

O presidente encontra-se em preocupantes condições clínicas. Embora a infecção pelo novo vírus tenha sido descartada pelos testes sanguíneos, constatou-se agravamento do estado geral, com picos febris provocados pelo esforço de destruir o país.

Médicos Responsáveis:

[informações omitidas por medidas de segurança]

Departamento de Infectologia

Táscia Souza