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Diálogo pandêmico em figurinhas no WhatsApp

Diálogo pandêmico em figurinhas no WhatsApp

para Renata Vargas

G: – …

R: – É SÉRIS?

G: – EU TÔ RINDO, MAS É DE DESESPERO

R: – CALMA, RESPIRA

G: – TÁ TRANQUILO 

G: – TUDO SOB CONTROLE

R: – CALMA, VAI PIORAR

G: – CRUZES

G: – GRITOS INTERNOS

R: – PARECE QUE ESTÁ RUIM, MAS VAI PIORAR

G: – MI SE RI CÓR DIA

R: – HOSPÍCIO LOTADO

R: – RIVOTRIL LITRÃO

G: – ALGUÉM ME ILUDE, POR FAVOR

R: – E O SALÁRIO… Ó

G: – NÃO HÁ PUTA QUE PARIU QUE CHEGUE

R: – AINDA BEM QUE A GENTE TEM A GENTE

G: S2 S2

Gilze Bara

Suspiros

Suspiros

Quando o sono chegava, mesmo sem avisar antes, tinha aquele instante de cochilo que era o melhor momento do dia. Mais que isso. Ou menos que isso: não era o cochilo, mas o instante que precede o cochilo e sucede a vigília. O átimo da respiração mais profunda que ainda não acordou quem vai porque não sabe que foi. E quando respira — pelo volume, som ou relaxamento —, volta. O melhor momento do dia era o instante parado no ar.

Aprendeu a sentir, esperando sorrateiro, desdenhando quase, a chegada do acontecimento. O coração oscilava ente a sístole e a diástole, com muita força e pouco tempo, uma pausa a bombear. Vinha — ou ia — na leitura, no filme, na aula, com o corpo esticado no sofá e ouvindo música. Na cama, desde cedo nos feriados. Até no banho, mas arriscado insistir.

Insistia, o dia todo insistia, onde pudesse e estivesse insistia, cada vez mais tinha aqueles suspiros ou a suspensão de tudo. Vinha de um momento e iniciava outro. Sucessivamente por todos os tempos do mundo, em eternas pequenas mortes.

Gustavo Burla

Me adota aí!

Me adota aí!

Seguindo o bem-sucedido exemplo da campanha de adoção desenvolvida pelo canil municipal, a  biblioteca da cidade também decidiu fazer sua parte em prol de encontrar novas prateleiras para escritores abandonados. Nas redes sociais, uma série de postagens foi feita com o retratinho de cada autor, acompanhado de um chamado: 

“Oi, eu sou a Jane! Sou uma menina inglesa e tenho só 246 aninhos. Assim como minhas personagens, procuro uma casa pra chamar de minha. Me adota?”.

Ou então:

“Oi, eu sou o Joaquim Maria! Tenho quase dois séculos e escrevo livros de porte médio, mas conteúdo elevadíssimo. Sou muito irônico! Me leva pra sua estante?”.

No rol de pobrezinhos à espera de uma leitura, há escritores para todos os gostos: astutos criadores de romances policiais para vigiar sua casa, bravos elaboradores de contos de terror para amedrontar os pensamentos invasores, carinhosos e fofinhos autores de histórias de amor para você nunca mais se sentir só.

Vamos ser amigos?

Táscia Souza