Author Archives: hupokhondria

Vinhos e livros

Vinhos e livros

Se encontraram e falaram ao mesmo tempo:

— Já tomou/leu o vinho/livro X?

Silêncio nem um pouco constrangedor, porque nenhum dos dois sabia a prioridade. Amigos de longa data, respiraram e seguiram falando como num só fôlego:

— Me deixou inebriado.

— Que envolvimento inesquecível!

— Uma sensação maravilhosa.

— O primeiro contato foi…

— …estranho, diferente, uma experiência…

— …que lembra muito aquele clássico…

— …mas sem perder a originalidade…

— …a assinatura do tempo, sempre presente.

— Sim, sempre presente!

— Tinha linhas de um amargor angustiante.

— Fundamental para a complexidade da vida.

— De verdades universais, não é assim que dizem?

— Com um tato incômodo.

— Harmônico com a realidade atual.

— Excelente companhia.

— Cada instante tinha matizes próprios.

— No final fica um gosto…

— Inefável.

Despediram-se satisfeitos pela conversa impecável.

Gustavo Burla

Epidemia

Epidemia

para Gabi

Ela via o vento. Era mais do que observar o balanço dos galhos e das folhas das árvores, ou contemplar o tremular das roupas coloridas nos varais vizinhos, ou assistir a poeira desenhar espirais no chão de pedras num balé de cascalho e areia, ou se impressionar com a forma como os vestidos das outras moças levitavam ou se enrolavam em suas coxas, para delírio dos garotos do campo de futebol da praça. Ela o enxergava, a ele, pelas frestas da veneziana fechada, o que significa que não mirava os sintomas, mas diretamente a causa: o próprio ar transformado numa massa que vinha feito brisa, para em seguida se mover de maneira mais e mais ameaçadora, invadindo com assobios os vãos dos basculantes e das portas.

Foi assim que soube que o surto que tanto a amedrontava nos livros chegara ao vilarejo. Bastava um vento — aquele vento — pelas costas e o atingido era contaminado pela nova doença, um ataque poético que, violento, fazia a vítima gritar versos e atirar rimas a quem passasse. Um a um foram caindo todos os habitantes do povoado: o goleiro do time da molecada queimado pela bola que sua própria língua tornou sol; a jovem do vestido mais bonito derrubada pelas estrofes enrodilhadas às pernas; o padre confuso substituindo a homilia de domingo por um soneto. Até a benzedeira octogenária, acostumada a livrar o arraial de quaisquer males, de maus-olhados a espinhelas caídas, quebrantou-se ao vento virado da inspiração.

Foi com pavor, portanto, que a moça avistou o exato instante em que a ventania, depois de varrer todas as casas e todos os terreiros, deixando um rastro de caos e poesia, virou-se para a veneziana atrás da qual ela via tudo. A agressividade do vendaval sacudiu a estrutura de madeira e vidro, ensurdecendo-a. O ar frio penetrou pelas gretas das ripas, apossando-se de suas narinas, sua garganta, e fazendo-a sufocar e tossir e cuspir as primeiras sílabas métricas que indicavam o contágio. Quase sem forças, apanhou uma caneta na gaveta e se pôs a grafá-las, furiosamente, nos braços, nas pernas e no peito.

Quando o turbilhão conseguiu arrancar as dobradiças e escancarar a janela, tragou-a céu afora, noite adentro. Quem viu seu corpo flutuar no ar, envolto pela camisola branca, disse que parecia uma folha de papel.

Táscia Souza

Artista carioca

Artista carioca

Via nos filmes da juventude os caixões puxados por cavalos pretos, as fartas coroas de flores penduradas deixando pétalas pelo caminho, os enormes guarda-chuvas pretos como um mar pela avenida, sob eles os ternos pretos e os vestidos de luto eterno pela morte da pessoa mais importante do mundo.

Fez fortuna fazendo arte (desculpem pela interrupção do autor: estamos num passado distante ou num mundo hipotético, não no Brasil de 2019) e deixou claras as obrigações no testamento: fraques pretos a todos, longos pretos a todas, cavalos pretos, guarda-chuvas pretos, carruagem preta, gorros e chapéus pretos. Queria o mundo aconchegado em seu luto.

Morreu no verão.

Gustavo Burla