Author Archives: hupokhondria

Cena

Cena

O barulho de pensamentos alheios se mesclava com a voz do homem imponente que pediu olhos fechados para o brinde. Ela mantinha os olhos fechados à força, mas não conseguiria por muito tempo. Abriu. Olhos arregalados, de criança que espera presente, mas, por dentro, adulto que acorda no meio da noite, pesadelo.

Era curiosidade em ver os olhos fechados dos outros, de ver se havia, como os dela, olhos também abertos. Era profundo, desespero. Sentimento de vulnerabilidade, exposição, perigo.

Olhos abertos, eram só os seus. O homem imponente parecia muito imponente, mesmo com os olhos fechados. Os outros demais rostos, vestidos serenos, cada um deles começou um círculo vicioso que rodava dentro da cabeça dela, que, de tanto questionar “o que eles estão pensando?”, começou a ouvir murmúrios de dor, em um lamurio barulhento e desorganizado.

Seus dedos magros suavam os dedos gordos que entrelaçavam os seus e ela ficou com medo de que eles percebessem seus olhos abertos, suas mãos suadas, seus pensamentos negros. Fechou os olhos querendo fazer-se parte, fazer-se presente, fazer-se demais. Fazia tanta força para manter seus olhos fechados que não percebeu que o discurso havia acabado, que os muitos olhos estavam abertos agora e só os seus permaneciam fechados.

Os semblantes antes serenos estavam agora assustados. Preocupação era a nova máscara dos rostos. “O que será que ela esta pensando?”, eles se perguntavam. E os dedos gordos soltaram seus dedos magros, suados. E tocando o vazio, ela abriu seus olhos, despreparada. Era o começo do jantar.

Tassiana Frank

Chá de revelação

Chá de revelação

Despediu-se do radiologista e do obstetra com a convicção de que iria dar alguma coisa errada, mas Carolina insistiu que não queria saber do sexo do bebê antes do chá de revelação.

Na festa, apartamento cheio de amigos e parentes, a amiga ainda tentou alertar:

– Carolina, você tem certeza disso?

– Claro, vai ser ótimo compartilhar com todo mundo.

Chegou a hora de abrir o baú. Lindo, com jeito de antigo, coisa de vó, um charme especial de onde sairiam os balões voando. A amiga tentou de novo:

– Você pode não gostar do resultado, as pessoas vão perceber a cara de surpresa de vocês.

– Só pode ser coisa boa, sempre queremos uma criança, não importa o sexo.

Carolina e o marido abriram o baú. De dentro saíram voando balões azuis e rosas. A amiga ficou tensa, mas Carolina e o marido pularam de alegria:

– Gêmeos! Teremos gêmeos! Um casal!

Antes de ser perguntada, a amiga correu para a cozinha e levou pro carro o bolo de recheio roxo.

Gustavo Burla

Engolido

Engolido

O fato de ela chorar muito — de dor, de tristeza, de raiva, de desespero, de emoção, de alegria — costumava incomodar as pessoas. Na infância, perguntavam por que estava chorando se o machucado no joelho nem doera (e ela, por sua vez, questionava-se como é que podiam supor isso se não estavam na sua pele esfolada). Na adolescência, diziam que precisava ser forte e que não podia demonstrar fraqueza (como se fosse esse, e não lágrima, o nome daquilo que escorria de seus olhos). Na juventude, debochavam dizendo que ela chorava por tudo (como se isso diminuísse, por si só, a intensidade de seus sentimentos).

Quando decidiu que ninguém mais a veria chorar, passou a esconder. Num velho armário de casa, cuja chave só ela tinha, começou a guardar os produtos daqueles prantos sofreados. Pequenos frascos foram enchendo as prateleiras, cada uma etiquetada com o estado correspondente: dor, tristeza, raiva, desespero, emoção, alegria. Vidrinhos e mais vidrinhos de lágrimas, datados e rotulados com cada instante em que, em vez de derramá-las, colhia-as com o conta-gotas e as depositava ali.

Adulta, no dia em que teve o coração partido, por um segundo pensou que não seria capaz de conter; que nenhuma garrafa, por mais litros que armazenasse, teria o tamanho suficiente para proteger da vista alheia o quanto queria chorar. Lembrou-se então dos adultos, todos na idade que ela acabara de atingir, ordenando-lhe, quando pequena, que engolisse o choro. Destrancou o armário secreto, então, e bebeu-os, um por um.

Táscia Souza