Author Archives: hupokhondria

Sete ondas

Sete ondas

Estava escrito no manual de prosperidade que ela decorara ao longo de dezembro: “quando pula as sete ondas no mar, você invoca os poderes de Iemanjá para abrir caminhos para o próximo ano”. Foi com isso em mente que ela própria abriu caminho entre a rebentação e se posicionou, com a água um pouco acima da cintura, de frente para o horizonte, à espera do septeto que transformaria sua vida a partir da meia-noite. 

Na primeira, que suavemente levantou seus pés do fundo, pediu saúde, para si e para a família. Na segunda, um pouco mais alta — o que considerou uma sorte, se o tamanho da onda pudesse ser diretamente proporcional à realização do desejo —, invocou a promoção tão desejada no emprego. Terceira, quarta e quinta, porém, vieram tão rápidas que mal teve tempo de almejar paciência, sabedoria e uns quilos a menos antes que a sexta chegasse e ela suplicasse que a Rainha do Mar lhe enviasse toda a energia possível para encontrar um grande amor.

A energia veio, de fato, com força, quebrando em cima dela e a arrastando, não sem antes virá-la do avesso, até a faixa de areia. 

Ao contrário do plano, foi a sétima onda que a pulou, uma marola de espuma, enquanto o único desejo restante foi levantar com alguma dignidade dali.

Táscia Souza

Vida vida

Vida vida

Um lado meu é fuga, o outro, refúgio.
Um lado meu é mar profundo, o outro, altas montanhas.
Um lado meu está sempre pronto pra partir. O outro, ansiando por ficar.

Alguns vão dizer que é transtorno de personalidade.

Mas o coração sabe que é apenas a vida transbordando viva.

Elena Duarte

Freud on-line

Freud on-line

Detestava sonhar. Se o sonho era bom (valores sociais, não dele), acordava frustrado; se era ruim, acordava assustado. Comentava com os amigos e as respostas iam de “ah, sonhar é muito bom” a “ah, pesadelo é terrível”, nada propositivas.

Uma conhecida disse que sonho era questão de interpretação. Provavelmente alguma coisa feita ou pensada no dia teria reflexo no sonho. Era só lembrar disso ao acordar e pronto, frustração ou susto resolvidos.

Acordou suado no meio da noite, taquicardia, desespero: sonhara que estava todo cagado. Primeiro passou a mão por dentro do pijama para se certificar do sonho. Sim, ficara a bosta com Morfeu, mas o coração acelerado era real.

Pensou que tinha lavado o banheiro na véspera, mas gostava de limpar banheiro, lembrar disso não tirou a sensação da massa pastosa crescendo embaixo dele numa mesa de bar. E que bar era aquele? Para!? Quase gritou no meio da noite.

Celular. Google. Dicionário de sonhos. Descobriu perspectiva de sucesso, fartura, dinheiro, abundância, amizades e vida produtiva. A mente jogava fora as energias negativas.

Desligou tudo, sorriu e seguiu com o sonho de merda adentro.

Gustavo Burla