Author Archives: hupokhondria

A casa de vidro

A casa de vidro

Desde criança eu tenho tara por ver como é a casa dos outros. Reparar mesmo, olhos fixos, curiosos. Cresci numa cidade do interior, dava pra fazer isso com facilidade, num passeio prosaico pra brincar na pracinha. Cresci assim e a cidade também. Mudei de cidade, os prédios eram maiores, foi ficando mais difícil. Demorei, mas me acostumei. Até esqueci (cheguei a acreditar).

Até que a pandemia chegou. E com ela a lives, as aulas à distância, a vida pela tela. Disruptivamente tudo voltou, com requintes, como aquele velho amigo que a gente não vê faz tempo, mas que sabe tudo da gente. Parece que o tempo não passou. A janela agora é uma tela. Transparência. 

Outro dia mesmo participava de uma reunião on-line. Poderia ter saído, tinha trabalho a fazer e a coisa não estava produtiva. Não mesmo. Mas um dos participantes tinha uma casa linda. Pé direito alto, muita luz, vidros largos com esquadrias de madeira. Piso de tábua corrida, móveis minimalistas. Sofá delicioso. Fiquei imaginando quem era essa pessoa, com essa casa. Será que ele escolheu tudo? 

A sua interlocutora escolheu um enquadramento ruim. Vergonha? Ou será que tinha mais gente lá atrás. Um filho, vendo TV? Só dava pra ver aquela quina de uma sala, cheia de cartazes numa parede, do outro lado, outra parede, amarela. Não gostei. Por que alguém pinta uma parede de amarelo?

A loira de cabelos tingidos, a terceira participante, tinha dois quadros em preto e branco atrás. Fotos de uma grande cidade, talvez Nova Iorque. Quadros da Tok&Stok. Não havia livros. A fala seguiu o mesmo rumo: sem grandes interesses. Insossa. 

Tive uma epifania. Santa Clarice Lispector. Será que a vida anda chata demais em casa? Ou será que eu tô vendo agora como é, de fato. A pandemia muda tudo, eu ouço por aí. Muda mesmo. O mundo não tem volta depois que a gente vê a casa das pessoas. Tem cura pra isso? 

Evandro Medeiros

 

Abraços

Abraços

Abracei a primeira pessoa que vi na rua. Naquele tempo foi estranho, antes via gente na rua de quinze em quinze dias, ao sair para as compras. Quando tudo acabou, dei um abraço na primeira pessoa que encontrei. E ela me abraçou de volta. Sem susto, sem surpresa. Foi troca de carinhos, de saudades, de vontade de ser gente na rua de novo. Todo mundo se abraçou. Até hoje a gente se abraça muito, bem mais do que antes de a gente ter que ficar em casa abraçando gato, cachorro, arco da porta. Abraçar gente porque a gente pode abraçar gente é o que nos faz humanos. Todo mundo se abraça hoje em dia, cada abraço gostoso, que preenche. Na fila do banco, na porta do banheiro do bar, na rua sem mais nem quê, todo mundo se abraça. Com a sensação de que sempre falta alguém para abraçar.

Gustavo Burla

Retrocesso

Retrocesso

Vínhamos progredindo. Era o pior cenário desde a redemocratização e o fascismo bafejava bem na nossa cara, mas havia um avanço perceptível que fazia crer que, se uma parte da humanidade evolui, toda ela o faz também. Com a pandemia, o desastre. E não apenas o escancaramento da nossa brutal desigualdade, mas aquele pequeno bilhete junto à máscara de tecido: “Após lavada, passar com ferro bem quente para ser usada novamente”. Aquele verbo ali. Aquele calor capaz de matar vírus, mas também de derreter a evolução. Agora que tudo voltou ao normal — e com tudo digo até a brutal desigualdade e o fascismo bafejante —, as pessoas de bem estão lá fora, sem as máscaras, mas exibindo suas roupas cuidadosamente desamarrotadas. Depois de tudo, não dava pelo menos para termos abolido o ferro de passar?

Táscia Souza