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Chega de banana podre!

Chega de banana podre!

Você já deve ter ouvido alguém dizer que a banana espera você virar as costas pra amadurecer e passa do ponto antes de você olhar de novo. Era assim antes de a genética dar conta do recado. As novas bananas nascem com pinos vermelhos, clonados dos perus de Natal, que afloram quando elas estão no ponto certo.

“E se eu não estiver olhando na hora em que o pino saltar? Deu na mesma!”

O cruzamento de espécies envolve também o tomate, aquele do timer de cozinha. A Pomodoro Banana avisa quando está boa. É investimento certo contra o desperdício.

O Ministério da Ciência e Tecnologia adverte: bananas com casca escura e manchas brancas que avisam “Tô pronta!” fazem parte da experiência fracassada com galinhas d’Angola e podem ciscar pela cozinha.

Gustavo Burla

Encaixotado

Encaixotado

Os amigos foram avisados: preciso de caixas para esvaziar meu apartamento. Senão não caibo mais aqui.

As caixas eram, por óbvio, para encaixotar coisas que não lhe serviam: roupas não usadas, objetos que perderam o sentido ou a serventia, livros já lidos para serem doados, discos disponíveis nas plataformas digitais e que não precisavam mais ser guardados. 

O aviso, no caso, foi um pedido prontamente atendido. Ao longo de meses. O colega que assinava o clube de vinhos, ficava com as garrafas e lhe doava a embalagem da transportadora. A namorada, que semanalmente recebia em casa legumes e verduras fresquinhos do hortifruti orgânico do bairro, separava o caixote de papelão da entrega, às vezes ainda com uma folha de alface desgarrada e esquecida. E até caixinhas de pasta de dente a mãe juntava, lembrando que o filho colecionava um tanto inútil de miudezas. 

Foram tantos os meses, porém, que caixas de papelão de todos os tamanhos possíveis, em vez de organizadoras da tralha que deveria colocar para fora, foram se somando à quinquilharia. Embaixo da mesa de jantar, ao lado da geladeira, bloqueando o guarda-roupa, atravancando o caminho para a cozinha e causando um tropeço a cada tentativa de beber água na madrugada. Não havia um espaço sequer sem um monte de caixas vazias empilhando-se desde o chão.

Quando não conseguiu entrar em casa porque a pilha colocada atrás da porta de entrada desmoronou e impediu-o de abri-la, percebeu que era ele quem não se encaixava mais.  

Táscia Souza

Modo avião ilusório

Modo avião ilusório

Tudo o que ela queria era ficar quieta.
Ignorar o despertador.
Não levantar da cama.
Não trocar de roupa e nem se arrumar.
Não sair de casa.
Não cumprimentar ninguém — sequer desejar bom dia.
Não olhar ninguém.
Não sorrir pra ninguém, nem tentar ser simpática — apesar de ninguém ter nada com isso, nem com seu modo intimista, nem com seu desânimo com o mundo.
Tudo o que ela queria era ser invisível e inaudível por 24 horas. Era não ser.
Não conversar com ninguém no trabalho.
Não atender aos telefonemas, por mais raros que fossem hoje em dia.
Não responder mensagem nenhuma — nem mesmo olhar as mensagens que chegariam e que seriam acusadas pela vibração do smartphone.
Mas foi mais um dia como os outros. Fazendo tudo da lista acima.
O modo avião só durou o tempo de escrita deste texto.

Gilze Bara