Author Archives: hupokhondria

Toalhas customizadas

Toalhas customizadas

Na loja de toalhas, comparava preços, materiais e fofura. Foi o nome do critério que encontrou. Pensou em maciez, mas era mais que isso, era fofura mesmo. Passava no rosto, acariciava, apertava entre as mãos. E cores, olhava cores. Sistema complexo e infalível aplicado durante horas na melhor loja de toalhas do país.

Na pilha em destaque, diferentes cores de toalhas encardidas. Chegava a ser nojento, pareciam toalhas usadas por meses, mal-lavadas, algumas no limite de puir. E eram caras, as mais caras da loja. Com cara de eca, perguntou ao vendedor.

— As pessoas compram calças rasgadas, manchadas e desfiando, pagando caro por elas. Compram casas novas e raspam a parede para parecer rústico e pagam caro por isso. Por que não pagariam por toalhas estilizadas que parecem encardidas e que ficarão nesse estado até o fim. E ainda por cima: as mais fofas da loja.

Realmente, eram encardidas de fábrica, muito fofas e valiam cada centavo. Levou três jogos em cores diferentes, durariam até… o fim.

Gustavo Burla

Fisioterapia

Fisioterapia

Era uma clínica de reabilitação para quebras em geral. Quebras que tivessem a ver com o sentido de humanidade, quer dizer. Copos quebrados não precisavam de reabilitação, só de vassoura e pá e extremo cuidado para, na pressa, não arrancar sangue de um dedo. Fêmures, patelas, tíbias e fíbulas, porém, tinham lá sua sala específica, onde eram incentivados, mesmo combalidos, a prosseguir a caminhada, assim como quadris quebrados também tinham a sua, na qual tentavam voltar a ter jogo de cintura. Até ombros quebrados, que exigiam extrema paciência — uma paciência que multiplicava as muitas horas de cirugia por semanas e meses e até anos —, tinham um local propício para serem reensinados aos poucos a suportar os pesos do mundo.

Havia, no entanto, amplos salões lotados, mas muito menos bem-sucedidos nos propósitos do lugar. O vasto cômodo dos que quebravam a cabeça. O enorme auditório dos que quebravam a cara. O pátio imenso, descoberto, dos que viam quebradas suas promessas.

Táscia Souza

Coleção coercitiva

Coleção coercitiva

Nunca colecionei nada. Quando criança/adolescente, alguns familiares tentaram plantar em mim esse “hábito”, me dando mini garrafinhas de Coca-Cola em mini engradados, Fofoletes das mais variadas cores, revistas de vôlei. Curtia tudo, mas não era tomada pelo desejo de colecionar. Chegou a pandemia e mudou a vida da gente — a vida da gente que ainda tem vida. Todas as vezes que faço compra, peço logo umas seis, por medo de faltar, já que sou daquelas piradas em evitar o coronavírus de todas as formas. E elas acabaram se acumulando no armário da dispensa. Treze garrafas de álcool 70%. De quatro marcas diferentes. É… virei colecionadora.

Gilze Bara