Author Archives: hupokhondria

Doce

Doce

— Você demorou demais pra voltar aqui.

— Doutor, foi essa pandemia, sair de casa…

— A situação está no limite: se você tiver qualquer contato com doce, acabou. Sua diabetes está em um nível que algumas literaturas consideram insustentável.

— Mas, doutor.

— Sem mas. O fato é este. Se cuide e mantenha contato comigo para qualquer dúvida.

Apertou o botão do elevador com o desespero de quem não tinha escrito o testamento e a esperança de ter netos e bisnetos. Entrou quando a porta abriu para aquele lugar estranho e apertou o botão do térreo antes de perceber a estranheza. Espaço vazio, ocupável pela lotação de até 6 pessoas, mas com apenas uma, nada de estranho depois de tanto tempo de isolamento social. Nos últimos centímetros da porta que se fechava percebeu: o cheiro. Que perfume horrível, enjoativo, exagerado, desnecessário, incômodo, enjoativo (já tinha pensado nisso) e doce! Muito doce! Horrivelmente doce. Enjoativamente doce! Exageradamente doce! Desnecessariamente doce! Incomodamente

O corpo ainda estava quente quando a porta do elevador abriu. Foram somente três andares.

Gustavo Burla

A cor da virada

A cor da virada

Foi a calcinha, tenho certeza. Eu escolhi cada detalhe. Da roupa. Dos acessórios. Da maquiagem. O vestido branco para a paz, mas com leves fios dourados na trama do tecido, para a prosperidade. O batom vermelho para a paixão. O blush rosado para o amor. A sombra verde para a saúde e o equilíbrio. O anel de turquesa que foi da minha avó, porque dizem que o azul representa a tranquilidade e a abertura para o novo. 

Mas aí teve a calcinha. Tentei todas as cores, mas estavam marcando, entende? Fui sem. Deu no que deu. 

Táscia Souza

Meninos e meninas

Meninos e meninas

para Valéria

O que diferencia meninos de meninas? Fácil: um laço na cabeça.

Da tenra infância aos primeiros passos da juventude, quando ímpetos pessoais começam a se sobrepor, minha mãe usou um laço na cabeça. Imposição da minha vó.

Depois, nunca, exceto por um leve chapéu ou delicado lenço, aceitou qualquer adereço na cabeça.

Na tensão entre viagens para aulas e pesquisas de doutorado, foi ao acupunturista. Explicou o contexto e deixou claro: na minha cabeça você não põe agulha!

— Mas aqui é um ponto que

Foi colocar a agulha na testa, no que alguns chamam de olho da mente, e a cabeça cuspiu longe o metal.

— Por que aconteceu isso!?

— Porque sou menina.

Gustavo Burla