Category Archives: Gustavo Burla

São.

Passeio no parque

Passeio no parque

Mais um final de tarde quente, parque cheio, pessoas saindo do trabalho, da escola e para passear com o cão. Sentou em um banco depois de limpar, acomodou a bolsa de trazia no ombro e contemplou os passantes. Cumprimentou outros velhos, assíduos nas mesas de dama ou nos bancos das senhoras que trocavam gorjetas por carícias. Escutou buzinas, motores, vozes e o arrulhar das pombas.

Tirou um punhado de milho da bolsa, que caiu no chão entreaberta. Foi devagar, lançando caroços aleatórios para atrair as aves. Pelo canto do olho vigiava a bolsa e lançava frações do punhado, até acabar. Logo estava cercado por vários tons de cinza, mostrando os dentes amarelos enquanto via uma pomba esperta entrando para buscar mais comida na fonte. Com inesperada presteza, fechou a bolsa, pousou-a no ombro e foi para casa jantar.

Gustavo Burla

Colegas de trabalho

Colegas de trabalho

para Gilze Bara

Cansaço duplo com uma mão no teclado procurando as teclas e a outra afastando pernilongos. A raquete elétrica não funcionava mais para dar choque, mas espantava. Bastava a tarde olhar para a noite e eles chegavam para azucrinar.

No ouvido, na perna (impraticável usar calça naquele calor), no rosto, passando pela tela. Podia jurar que a raquete acertara um ou outro e vencera por knock-out (a raquete trazia uma marca em inglês estampada). Fim de noite era ligar os repelentes nas tomadas e deitar esquecida de encomendar um mosquiteiro.

Uma noite dormiu na mesa, sobre o teclado, desmaiada pela fadiga. Acordou na cama, pijama trocado, marido ao lado. Marido!? De pé pelo susto, viu a nuvem de pernilongos se dissipar com o raiar do dia.

Gustavo Burla

Armário de troféus

Armário de troféus

A primeira atividade da faxineira, quando chegasse na casa em que trabalhava, era limpar os troféus. E os vidros do armário em que estavam. A última função era repetir a limpeza dos vidros, do lado de fora, porque sempre subia o pó que ela levantava com vassoura e pano na faxina.

Foi assim por anos, três vezes por semana, até que a recomendação era que ficasse em casa até a pandemia acabar, recebendo semanalmente como se tivesse feito faxina.

Na casa, vassoura e panos funcionavam no ritmo dos patrões, mas ninguém ousava tocar nos troféus ou no vidro. Que embaçou. E embaçou mais. E mais um pouco até ficar pálido. O museu abandonado foi perdendo destaque, prioridade e as pessoas que tinham nomes naqueles troféus passaram a se preocupar mais com o presente.

Gustavo Burla