Category Archives: Gustavo Burla

São.

Semana Santa

Semana Santa

Desde o mês anterior fazia contas. Somava luz, água, aluguel, descontava alimentação, transporte, uma eventual saída com os amigos e comparava aos valores dos ovos de Páscoa para os sobrinhos. Tudo muito caro, demais, mas criança pequena não tem culpa disso e não vai pagar ficando sem os ovos. Época mais esperada pelos sobrinhos.

Esperando a impressão de alguns arquivos no balcão do xerox, a senhora ao lado pediu ajuda para uma leitura. Estou sem óculos, foi o que disse, mas parecia desconhecer as letras. Com a frase lida no comprovante, identificou: meu dízimo, tenho que tirar uma cópia, pra mostrar, né?

O número era de 1/10 do salário mínimo, multiplicado pela quantidade de fiéis na igreja por menor que fosse, descontados os que recebiam menos e somados os que talvez pagassem mais, comparando aos valores do mercado, concluiu: os sobrinhos do pastor teriam caganeira.

Gustavo Burla

Ember van ä hűtöben!

Ember van ä hűtöben!

Sistema de reabilitação prisional para presos perigosos. Depois de décadas conversando com assistentes sociais, psicólogos, agentes penitenciários, instrutores de atividades físicas e manuais e professores de diversas áreas, contava os dias para poder sair novamente, recuperado.

Estudava e lia bastante, queria voltar um novo homem para o mundo livre, fazia até exercícios para aprender novas línguas no computador da prisão.

Na véspera da saída, entre as sugestões aleatórias construídas pelo programa da aula de húngaro (foram tantos anos de reclusão que lhe restaram húngaro e klingon), leu a frase que traduziu como um sinal: tem uma pessoa na geladeira!

Gustavo Burla

Vinhos e livros

Vinhos e livros

Se encontraram e falaram ao mesmo tempo:

— Já tomou/leu o vinho/livro X?

Silêncio nem um pouco constrangedor, porque nenhum dos dois sabia a prioridade. Amigos de longa data, respiraram e seguiram falando como num só fôlego:

— Me deixou inebriado.

— Que envolvimento inesquecível!

— Uma sensação maravilhosa.

— O primeiro contato foi…

— …estranho, diferente, uma experiência…

— …que lembra muito aquele clássico…

— …mas sem perder a originalidade…

— …a assinatura do tempo, sempre presente.

— Sim, sempre presente!

— Tinha linhas de um amargor angustiante.

— Fundamental para a complexidade da vida.

— De verdades universais, não é assim que dizem?

— Com um tato incômodo.

— Harmônico com a realidade atual.

— Excelente companhia.

— Cada instante tinha matizes próprios.

— No final fica um gosto…

— Inefável.

Despediram-se satisfeitos pela conversa impecável.

Gustavo Burla