Category Archives: Gustavo Burla

São.

Não acaba

Não acaba

Nas noites de encontros dos amigos eu me remoía antes de começar o ritual. Criei o ritual pra automatizar tudo, pra lidar com a falta de prazer em ter que sair de casa, em ter que sair com eles.

Banho, roupa, sorriso e bar. Com música, pessoas falando, violão tocando. Pra quê!? Também conversei, cantei, me diverti como tinha que ser. Se fosse diferente, fariam perguntas que eu não queria responder.

Gustavo Burla

Texto elaborado juntamente com os participantes da oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.

Fog

Fog

Ferventou linguiça pra tirar a gordura e resolveu fritar na mesma panela. Não era anti-aderente, o que em nada comprometeu a feitura, mas agarrou um pouco de coisa no fundo. Despejou as rodelas num pote e deixou água cair aos poucos na panela. Subiu muita fumaça e ele achou divertido, ia quase gota a gota.

– Tá um fumacê aqui. – ouviu a voz dela do sofá pela última vez. Quando virou-se, onde antes havia uma quitinete era pura neblina. Chamou pela moça e nada. Caminhou pela fumaça e não via vultos. E caminhou e caminhou.

Horas depois, a nuvem escureceu São Paulo.

Ele, o cozinheiro, segue caminhando.

Gustavo Burla

 

 

 

Vontade de comer bolo

Vontade de comer bolo

Um bolo especial, daqueles de festa, não bolo comum. Desses, fazia em casa, comprava na rua, comia em cafés. Queria bolo de festa, molhadinho, enfeitado, pedindo a vela que nunca punha porque achava nojento ter chocolate com gosto de cera e cuspe.

Era só ligar e encomendar em algum lugar, mas faltava a festa. Lembrou de uma vez que a mãe comprou coxinhas, daquelas pequenas, que vendem o cento, numa sexta-feira qualquer. Estavam deliciosas, talvez as melhores já comidas naquela casa, mas eram coxinhas erradas, porque não havia festa.

Esperou até que surgiu uma data comemorativa. Uma data que tinha todo ano, não um aniversário. Que também tem todo ano, mas tem um número que muda. Era uma data genérica, mas data de festa. Encomendou o bolo. Pediu com o coração, muito maior que o estômago ou o cérebro e marcou hora de buscar no dia da celebração.

Quase beijou o bolo quando viu, resistiu diante das lascas de chocolate, deixou no banco do carona e contentou-se com o cheiro até a hora da batida. Tão feio o acidente que tripas e bolo tornaram-se um só, como ele desejava.

Gustavo Burla