Category Archives: Gustavo Burla

São.

Chá de revelação

Chá de revelação

Despediu-se do radiologista e do obstetra com a convicção de que iria dar alguma coisa errada, mas Carolina insistiu que não queria saber do sexo do bebê antes do chá de revelação.

Na festa, apartamento cheio de amigos e parentes, a amiga ainda tentou alertar:

– Carolina, você tem certeza disso?

– Claro, vai ser ótimo compartilhar com todo mundo.

Chegou a hora de abrir o baú. Lindo, com jeito de antigo, coisa de vó, um charme especial de onde sairiam os balões voando. A amiga tentou de novo:

– Você pode não gostar do resultado, as pessoas vão perceber a cara de surpresa de vocês.

– Só pode ser coisa boa, sempre queremos uma criança, não importa o sexo.

Carolina e o marido abriram o baú. De dentro saíram voando balões azuis e rosas. A amiga ficou tensa, mas Carolina e o marido pularam de alegria:

– Gêmeos! Teremos gêmeos! Um casal!

Antes de ser perguntada, a amiga correu para a cozinha e levou pro carro o bolo de recheio roxo.

Gustavo Burla

Velhório

Velhório

A primeira a antecipar em lamento o abandono na velhice foi a avó. O neto disse que cuidaria dela quando precisasse, fosse em casa ou num asilo, que visitaria diariamente. Ela seguiu a vida tranquila. E longa.

Depois veio a tia, solteira, entendendo o que lhe aguardava. De novo ele se prontificou a acompanhá-la em carinho e carências.

Outra tia, com filhos morando longe, anos depois também pressentiu o que lhe poderia ocorrer e novamente foi ele quem se prontificou.

Assim seguiu a vida, por anos, prometendo às queridas, de todos os graus, cuidar delas na velhice.

Quis o destino que um infarto na flor dos 42 anos o levasse antes. Em torno do corpo, um coro de velhas chorava como viúvas do futuro promissor.

Gustavo Burla

Noite de amores

Noite de amores

Tinha uns sete anos de idade quando voltava de um restaurante com meus pais. Deixaram minha avó na porta do prédio e ela perguntou se eu queria dormir com ela. Sim. Fiquei no carro.

Não disse que quer ir? foi meu pai que perguntou.

Fiquei no carro, queria dormir com ela, mas queria dormir com eles também. Minha avó se despediu e quando iam fechar a porta, disse que queria descer.

Da calçada, de mãos dadas com minha avó, carro começando a se mover, joguei meu brinquedo no chão e fiz manha: queria ir com eles. Carro parado, ré dada, porta aberta e minha mãe me olhando nos olhos: decida-se.

Treze anos depois, quando minha avó morreu, deixei de dormir na rua.

Gustavo Burla