Category Archives: Gustavo Burla

São.

Plantação

Plantação

– Estamos falando ao vivo aqui do parque central da cidade, onde pessoas de várias escolas estão semeando no novo canteiro público. Bom dia, meu jovem, o que você está plantando?

– Tomates.

– Que ótima ideia para alimentar as pessoas.

– E jogar nelas.

– Ah… claro… E você, criança, o que vai plantar?

– Esta é uma semente de cupuaçu.

– Mas isso é típico do Nordeste, será que vai germinar aqui?

– Tamos precisando, né?

– Professora! Que ótimo encontrá-la aqui. Magnífico o seu projeto de semear no parque da cidade.

– Obrigado. Não imaginei que a imprensa viria aqui.

– Achamos que era uma ação social e apartidária.

– Nem por isso alienada.

– A senhora sabe que se o Escola Sem Partido…

– Criado pelo Partido Sem Escola?

– É que… E a senhora, tá plantando alguma coisa?

– Jaca.

– Mas vai demorar a crescer.

– Sou professora.

Gustavo Burla

Pedinte

Pedinte

Boa tarde. Desculpe incomodar o senhor, mas o senhor poderia me dar um trocado pra me ajudar a comprar um prato…

Dona Amélia? É a senhora mesmo? Ô, Dona Amélia, eu sou o Joaquim lá do Paulo VI, não tá lembrada?

O… Joca? Do sexto ano?

Isso, Dona Amélia. Que saudade da senhora. Adorava suas aulas. Parou?

Me pararam. Colocaram um professor de religião no lugar.

Que absurdo, Dona Amélia. Fico triste em saber. Eu mesmo sempre pensei muito na senhora.

Bom ouvir isso a esta altura da vida.

Suas aulas eram boas porque tinha gente lutando pelas causas.

Quem bom, Joca.

Na ditadura, quando os comunistas se armaram pra defender o povo, aquilo foi massa!

Estou emocionada.

Quero que os meus filhos possam ter aulas emocionantes assim, por isso gosto de luta armada.

É…?

Pois é, mas o que a senhora tava pedindo mesmo?

Pra você prestar atenção na aula, Joca. Só isso.

Gustavo Burla

O torcedor

O torcedor

Torcia no futebol da rua, nos coletivos na escola e nos jogos que via pela televisão. Nas corridas, escolhia um competidor e vibrava. Em reuniões de amigos pra jogar videogame, jamais segurava o joystick. Era torcedor.

Era ver a possibilidade de alguém ganhar e lá estava: dedos cruzados, pé de coelho em punho e começava a fazer contas. Apuração era sempre ótimo: escola de samba que não tirava 10 era triste, candidato que subia e descia no percentual do aplicativo era angústia.

Na última eleição, no entanto, terminou o primeiro turno com medo de não poder torcer mais se continuasse daquele jeito. Precisava virar a partida. Tornou-se jogador.

Gustavo Burla