Category Archives: Gustavo Burla

São.

Vinhos e livros

Vinhos e livros

Se encontraram e falaram ao mesmo tempo:

— Já tomou/leu o vinho/livro X?

Silêncio nem um pouco constrangedor, porque nenhum dos dois sabia a prioridade. Amigos de longa data, respiraram e seguiram falando como num só fôlego:

— Me deixou inebriado.

— Que envolvimento inesquecível!

— Uma sensação maravilhosa.

— O primeiro contato foi…

— …estranho, diferente, uma experiência…

— …que lembra muito aquele clássico…

— …mas sem perder a originalidade…

— …a assinatura do tempo, sempre presente.

— Sim, sempre presente!

— Tinha linhas de um amargor angustiante.

— Fundamental para a complexidade da vida.

— De verdades universais, não é assim que dizem?

— Com um tato incômodo.

— Harmônico com a realidade atual.

— Excelente companhia.

— Cada instante tinha matizes próprios.

— No final fica um gosto…

— Inefável.

Despediram-se satisfeitos pela conversa impecável.

Gustavo Burla

Artista carioca

Artista carioca

Via nos filmes da juventude os caixões puxados por cavalos pretos, as fartas coroas de flores penduradas deixando pétalas pelo caminho, os enormes guarda-chuvas pretos como um mar pela avenida, sob eles os ternos pretos e os vestidos de luto eterno pela morte da pessoa mais importante do mundo.

Fez fortuna fazendo arte (desculpem pela interrupção do autor: estamos num passado distante ou num mundo hipotético, não no Brasil de 2019) e deixou claras as obrigações no testamento: fraques pretos a todos, longos pretos a todas, cavalos pretos, guarda-chuvas pretos, carruagem preta, gorros e chapéus pretos. Queria o mundo aconchegado em seu luto.

Morreu no verão.

Gustavo Burla

Tratado de hepatologia

Tratado de hepatologia

Ao Felga

Moço sério, vivia em reuniões, mas sempre em mesas mais frequentadas. Cachaça, cerveja, em restaurantes tomava vinho. Para desinibir, dar mais fluência nos trâmites. Funcionava. Não fechava negócio ruim, não fazia inimizades, não recebia nãos.

Sua peculiaridade: sempre pedir fígado para comer. Isca, bife, patê, mas fígado.

Perguntado, foi direto: para que encontrem algum na autópsia quando eu morrer.

Gustavo Burla