Category Archives: Gustavo Burla

São.

Freud on-line

Freud on-line

Detestava sonhar. Se o sonho era bom (valores sociais, não dele), acordava frustrado; se era ruim, acordava assustado. Comentava com os amigos e as respostas iam de “ah, sonhar é muito bom” a “ah, pesadelo é terrível”, nada propositivas.

Uma conhecida disse que sonho era questão de interpretação. Provavelmente alguma coisa feita ou pensada no dia teria reflexo no sonho. Era só lembrar disso ao acordar e pronto, frustração ou susto resolvidos.

Acordou suado no meio da noite, taquicardia, desespero: sonhara que estava todo cagado. Primeiro passou a mão por dentro do pijama para se certificar do sonho. Sim, ficara a bosta com Morfeu, mas o coração acelerado era real.

Pensou que tinha lavado o banheiro na véspera, mas gostava de limpar banheiro, lembrar disso não tirou a sensação da massa pastosa crescendo embaixo dele numa mesa de bar. E que bar era aquele? Para!? Quase gritou no meio da noite.

Celular. Google. Dicionário de sonhos. Descobriu perspectiva de sucesso, fartura, dinheiro, abundância, amizades e vida produtiva. A mente jogava fora as energias negativas.

Desligou tudo, sorriu e seguiu com o sonho de merda adentro.

Gustavo Burla

Match no Tinder

Match no Tinder

para Lisandra

Como foi?

Lindo. Alma gêmea. Chamei no chat.

De cara, assim?

Instinto, senti que era pra casar. Foi logo perguntando onde eu tava.

E você?

Tava em casa, ele na rodoviária.

Indo viajar?

Chegando na cidade. Perguntou se eu morava aqui, se morava sozinha.

Saidinho, né?

Ele perguntou se eu tinha carro, se podia buscar ele lá na rodoviária.

Cê foi?

E perguntou se eu tinha comida em casa.

O quê?

Comida.

Entendi, mas no Tinder?

Ele queria casa e comida.

E você?

Silenciei. Mas era tão bonitinho…

Gustavo Burla