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São.

Peito de pé

Peito de pé

Menina gorda, desengonçada, de pernas tortas e (desde a adolescência) peitos grandes. Sonhava ser bailarina. Os pais não queriam gerar trauma e deixaram. Frequentou escola por onde ia e na cidade em que foi fazer faculdade encontrou o amor na dança.

O professor se apaixonou pelo peito do pé dela. “Lindo! Nunca vi tão maravilhoso! Que envergadura!”. Casaram-se e ela seguia a dança. Dele. Bailarino da companhia da escola. Ela não passava das aulas, sabia seu limite.

Ele só deixava que ela saísse de casa de sapato fechado. “Poxa, meu coração! Vai sair mostrando o peito do pé pra todo mundo?” Ela sentia o carinho e topava. Viagem, só no inverno, pra não andar de sandália pela rua. Mesmo em casa, recebia visitas de meia, no mínimo.

Nadar já não nadava. Nem sentava pra tomar sol. Quando pediu pra irem pra praia, apanhou. Da cabeça aos tornozelos. Ficou em casa, ele em turnê. Ele voltou pra um presente na cama: no envelope “fui pra praia”, na caixa, os peitos dos pés.

Gustavo Burla

Estalos

Estalos

Nada de anormal na radiografia de quando começou a andar. Os pais acharam que ele tinha quebrado o pés, os dois pés, tamanho o estalo. Tudo sob controle, disse o médico, deve ser o corpo se acostumando à nova posição.

Bastava pisar e clec!, estalava. Como as pessoas fazem com os dedos das mãos, massagistas fazem na coluna e alguns fazem com o pescoço. Só que o dele era involuntário. Na adolescência o som se agravou e chegou ao incômodo, por isso vivia com fones de ouvido.

Andava com tênis maiores que os pés pra caberem as camadas de meia grossa que abafavam o som, o que não impediu o vizinho de baixo de dizer numa reunião de condomínio que a vizinha de cima andava de salto até de madrugada. Ele, que morava sozinho, acrescentou pantufas às camadas de meia e parou de fazer xixi no meio da noite.

Tinha pernas nervosas, daquelas que ficam balançando quando a pessoa está sentada, por isso era chamado de metralha no escritório. Ficava imaginando o tempo das máquinas de datilografia, quando seria menos notado.

Seu consolo estava em viajar pelo mundo apresentando o show de sapateado que fazia descalço.

Gustavo Burla

Homero

Homero

Quando a flecha chegou perto do meu olho perto mesmo quase tocando a córnea antes que a pálpebra pudesse abaixar pensei o que uma flecha faz nessa era de celular e whatsapp em pleno centro da córnea já era que forte esse arqueiro deve ser fã de quadrinhos ou doente mental porque a íris nem viu o que pegou o cristalino fiquei tentando lembrar de onde vinha tudo isso vida passando pelos olhos sem sentido nenhum e humor era fúria não vítreo era foda porque não tinha nada de senso quando respondi a pesquisa não podia ser eu porque os cabelos brancos tudo era caminho pro nervo óptico e depois a certeza de que havia acertado no ponto cego e o resto era silêncio mais que som.

Gustavo Burla