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São.

Chega de banana podre!

Chega de banana podre!

Você já deve ter ouvido alguém dizer que a banana espera você virar as costas pra amadurecer e passa do ponto antes de você olhar de novo. Era assim antes de a genética dar conta do recado. As novas bananas nascem com pinos vermelhos, clonados dos perus de Natal, que afloram quando elas estão no ponto certo.

“E se eu não estiver olhando na hora em que o pino saltar? Deu na mesma!”

O cruzamento de espécies envolve também o tomate, aquele do timer de cozinha. A Pomodoro Banana avisa quando está boa. É investimento certo contra o desperdício.

O Ministério da Ciência e Tecnologia adverte: bananas com casca escura e manchas brancas que avisam “Tô pronta!” fazem parte da experiência fracassada com galinhas d’Angola e podem ciscar pela cozinha.

Gustavo Burla

Fermentação

Fermentação

Toda manhã ia cedo pra padaria fazer pão. Quando o dono chegava, o forno já estava assando. Ele abria a porta pra sair o cheiro e os clientes entrarem.

Naquela noite não conseguia pregar o olho, a filha estava no botequim. Sempre chegava cedo. 23h era cedo pra ela, não pra ele. Chegou pouco depois, com alguns goles a mais e vontade de conversar, volume elevado.

Mandou a moça de volta pro bar, precisava de silêncio pra dormir.

Gustavo Burla

Steak tartare

Steak tartare

— Quase uma década!

Foi assim que concluíram a rápida conversa no elevador. Na pauleira da vida, não haviam se procurado pelas redes sociais, seguiram seus rumos depois da formatura e um deles lembrou: cê ainda gosta de steak tartare? Vou fazer especialmente procê no sábado.

Colocariam a conversa em dia enquanto o cozinheiro picava a carne, de valor proibitivo, mas era um reencontro de melhores amigos de faculdade, cúmplices, chapas, camaradas, quase irmãos.

Faca afiada, tábua na bancada e o amigo chegou. Ficou feliz ao saber que saborearia um tartare feito por profissional. Depois da formatura, o mercado foi se fechando, a crise se agravando. Fez cursos no Senac pra tentar outra vida. Deu certo, era cozinheiro num restaurante no Centro. Comida a quilo, mas podia pelo menos decorar os pratos. Contou e fatiava a carne com a ponta da faca.

O outro conseguiu entrar numa empresa, foi de trainee a gerente de setor: meritocracia é isso! O vinho que levou pra acompanhar o tartare era mais proibitivo que a carne sendo picada pela ponta da faca.

Na empresa tem uns concursos internos, geralmente descubro antes quando serão. E estudo pra caramba, tiro atestado médico na semana, pra ficar mais tempo na revisão. Tô lá, no andar de baixo da chefia. Isso só é possível porque agora a empresa tem suporte direto do governo, sem licitação. Desde 2016 acabou a burocracia.

Carne picada e misturada aos outros ingredientes. Sal e pimenta na medida. Faltava o ovo. A faca, lavada, pingava no escorredor.

O Brasil virou a terra das oportunidades! bradou antes de tomar a primeira pranchetada na cara. O sangue na tábua de cortar carne foi fácil de lavar. Pela primeira vez o cozinheiro comeu tartare com dois ovos.

Gustavo Burla