Category Archives: Gustavo Burla

São.

O gambá

O gambá

Descobriu que havia um gambá passeando de noite pelo quintal quando encontrou morta uma de suas galinhas. Passou a prender sua fauna dos fundos (as três cabeças restantes) no galinheiro até o sol nascer.

Durante o clímax do filme de suspense ouviu as penosas temerosas e correu para afugentar o gambá que rondava o galinheiro, fazendo “bu!” pela grade de tempos em tempos. Sangrou com pena (ou sem) as aves e as comeu em família.

Era pouco vento para muito som de árvore e foi para o terreiro encontrar o gambá se divertindo entre galhos e pêras e pitangas. Flagrado pela lanterna, fez cara de “ops” (se aumentar o som escuta I did it again) e correu pelo muro até sumir.

Quintal pelado, os potes de chocando que o fizeram chegar até o canto do quintal, onde o gambá bebia água depois de ter levantado o ralo. Respiraram no mesmo tempo e lançou a pergunta ao bicho:

— O que você vem buscar aqui?

— Sua paciência.

Gustavo Burla

Bibliotecário tímido

Bibliotecário tímido

Os frequentadores da biblioteca achavam que ele os ignorava, mas era timidez. Bom dia e obrigado eram sussurrados pra dentro, olhos sempre baixos, corpo escondido pelo balcão e pelos livros.

— Vai ser demitido se não mudar seu comportamento.

Adorava a biblioteca, emprego dos sonhos. Decidiu fazer teatro.

Aprendeu a lidar com o corpo, a projetar a voz, a construir personagens que, nos dizeres do professor, deveriam ter vida em si, o ator deve olhar para além do público.

Na biblioteca, os que antes se sentiam ignorados passaram a se sentir desprezados.

Gustavo Burla

Não acaba

Não acaba

Nas noites de encontros dos amigos eu me remoía antes de começar o ritual. Criei o ritual pra automatizar tudo, pra lidar com a falta de prazer em ter que sair de casa, em ter que sair com eles.

Banho, roupa, sorriso e bar. Com música, pessoas falando, violão tocando. Pra quê!? Também conversei, cantei, me diverti como tinha que ser. Se fosse diferente, fariam perguntas que eu não queria responder.

Gustavo Burla

Texto elaborado juntamente com os participantes da oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.