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São.

Toalhas customizadas

Toalhas customizadas

Na loja de toalhas, comparava preços, materiais e fofura. Foi o nome do critério que encontrou. Pensou em maciez, mas era mais que isso, era fofura mesmo. Passava no rosto, acariciava, apertava entre as mãos. E cores, olhava cores. Sistema complexo e infalível aplicado durante horas na melhor loja de toalhas do país.

Na pilha em destaque, diferentes cores de toalhas encardidas. Chegava a ser nojento, pareciam toalhas usadas por meses, mal-lavadas, algumas no limite de puir. E eram caras, as mais caras da loja. Com cara de eca, perguntou ao vendedor.

— As pessoas compram calças rasgadas, manchadas e desfiando, pagando caro por elas. Compram casas novas e raspam a parede para parecer rústico e pagam caro por isso. Por que não pagariam por toalhas estilizadas que parecem encardidas e que ficarão nesse estado até o fim. E ainda por cima: as mais fofas da loja.

Realmente, eram encardidas de fábrica, muito fofas e valiam cada centavo. Levou três jogos em cores diferentes, durariam até… o fim.

Gustavo Burla

Vaselina

Vaselina

Boa tarde, o senhor pode me mostrar onde está a vaselina, por favor?

Ali no canto, embaixo, vou lá com o senhor. Qual quantidade?

Um potinho pequeno é suficiente.

Só isso?

Cotonete também, por favor.

Perguntei se usa só isso de vaselina.

Vai ser pra testar. Se não der certo tem umas graxas especiais e até spray.

Spray? Nunca usei.

O cara disse que tem, mas que o melhor é a vaselina. E com cotonete.

Aplica com o cotonete?

Isso, bem pouquinho, coloca com o cotonete no buraco e espalha.

Gente, que novidade, tô passada.

Ele falou que antes o pau vinha lubrificado, mas agora tem que fazer isso pra não agarrar.

Coloca a vaselina no pau? No buraco do…

Ele disse que desliza até se bater um vento.

Que delícia!

Ontem fiz até careta pra puxar, a cortina tava bem agarrada.

Cortina?

Gustavo Burla

Carnívoro

Carnívoro

Churrasco, corte, espeto, filé, ponto, peça, pedaço, quilo, escondidinho foram palavras que cresceram com ele. Era como se tivesse mamado sangue, comido papinha de tartar e levado hambúrguer duplo de merenda. Sua carne era feita de carne. Cresceu leão, feito de carneiro assimilado.

Das carnes nobres foi obrigado a migrar para outros cortes, variando os animais, mas jamais abrindo mão. Vendeu airfryer, microondas, televisão, geladeira, fogão, mas não deixou de comer carne. Sem sofá, mesa, cadeira, tapete e cômoda, prestes a cancelar a internet, resolveu vender um rim.

Negociou, calculou os anos de açougue, estipulou as porções diárias e antes da anestesia perguntou:

— O fígado é perto do rim? Se for, tira metade, por favor, que faço isca acebolada quando acordar.

Gustavo Burla