Category Archives: Gustavo Burla

São.

Conselho de mãe

Conselho de mãe

Não vá fazer bobagem, menino! – foi a última coisa que ouviu a mãe dizer.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando saiu pra brincar na rua com os vizinhos.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando entrou na prova do vestibular.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando viajou pro intercâmbio.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando foi contratado.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando se casou.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando trocou de emprego.

Foi a última coisa que ouviu a mãe dizer quando entregou a ele os remédios para a eutanásia.

Gustavo Burla

Trabalho de editor

Trabalho de editor

O escritor e filósofo sueco Lars Gustafsson, de 79 anos, morreu de madrugada, após uma breve doença, acompanhado da mulher e da filha mais nova.

— Ambíguo!

O escritor e filósofo sueco Lars Gustafsson, de 79 anos, morreu de madrugada, após uma breve doença, vigiado pela mulher e pela filha mais nova.

— Omissão?

O escritor e filósofo sueco Lars Gustafsson, de 79 anos, morreu de madrugada, após uma breve doença tratada pela mulher e pela filha mais nova.

— Médicas?

Após uma breve doença, escritor e filósofo sueco Lars Gustafsson, de 79 anos, morreu de madrugada, tratada pela mulher e pela filha mais nova.

— Prioridade!

O escritor e filósofo sueco Lars Gustafsson, de 79 anos, morreu de madrugada, depois de ficar doente.

— A família?

— Passa bem, porra!

Gustavo Burla

Peito de pé

Peito de pé

Menina gorda, desengonçada, de pernas tortas e (desde a adolescência) peitos grandes. Sonhava ser bailarina. Os pais não queriam gerar trauma e deixaram. Frequentou escola por onde ia e na cidade em que foi fazer faculdade encontrou o amor na dança.

O professor se apaixonou pelo peito do pé dela. “Lindo! Nunca vi tão maravilhoso! Que envergadura!”. Casaram-se e ela seguia a dança. Dele. Bailarino da companhia da escola. Ela não passava das aulas, sabia seu limite.

Ele só deixava que ela saísse de casa de sapato fechado. “Poxa, meu coração! Vai sair mostrando o peito do pé pra todo mundo?” Ela sentia o carinho e topava. Viagem, só no inverno, pra não andar de sandália pela rua. Mesmo em casa, recebia visitas de meia, no mínimo.

Nadar já não nadava. Nem sentava pra tomar sol. Quando pediu pra irem pra praia, apanhou. Da cabeça aos tornozelos. Ficou em casa, ele em turnê. Ele voltou pra um presente na cama: no envelope “fui pra praia”, na caixa, os peitos dos pés.

Gustavo Burla