Category Archives: Gustavo Burla

São.

Doce

Doce

— Você demorou demais pra voltar aqui.

— Doutor, foi essa pandemia, sair de casa…

— A situação está no limite: se você tiver qualquer contato com doce, acabou. Sua diabetes está em um nível que algumas literaturas consideram insustentável.

— Mas, doutor.

— Sem mas. O fato é este. Se cuide e mantenha contato comigo para qualquer dúvida.

Apertou o botão do elevador com o desespero de quem não tinha escrito o testamento e a esperança de ter netos e bisnetos. Entrou quando a porta abriu para aquele lugar estranho e apertou o botão do térreo antes de perceber a estranheza. Espaço vazio, ocupável pela lotação de até 6 pessoas, mas com apenas uma, nada de estranho depois de tanto tempo de isolamento social. Nos últimos centímetros da porta que se fechava percebeu: o cheiro. Que perfume horrível, enjoativo, exagerado, desnecessário, incômodo, enjoativo (já tinha pensado nisso) e doce! Muito doce! Horrivelmente doce. Enjoativamente doce! Exageradamente doce! Desnecessariamente doce! Incomodamente

O corpo ainda estava quente quando a porta do elevador abriu. Foram somente três andares.

Gustavo Burla

Meninos e meninas

Meninos e meninas

para Valéria

O que diferencia meninos de meninas? Fácil: um laço na cabeça.

Da tenra infância aos primeiros passos da juventude, quando ímpetos pessoais começam a se sobrepor, minha mãe usou um laço na cabeça. Imposição da minha vó.

Depois, nunca, exceto por um leve chapéu ou delicado lenço, aceitou qualquer adereço na cabeça.

Na tensão entre viagens para aulas e pesquisas de doutorado, foi ao acupunturista. Explicou o contexto e deixou claro: na minha cabeça você não põe agulha!

— Mas aqui é um ponto que

Foi colocar a agulha na testa, no que alguns chamam de olho da mente, e a cabeça cuspiu longe o metal.

— Por que aconteceu isso!?

— Porque sou menina.

Gustavo Burla

Marido de aluguel

Marido de aluguel

Quando o telefone toca mais de duas vezes, a amiga desconfia. Do outro lado, vendo a bina, a amiga reluta.

— Oi, amiga, tá tudo bem?

— Tudo certo, eu tava longe do telefone.

— Olha, não deu mesmo, fui trocar a resistência e não consegui encaixar. Me empresta seu marido um pouquinho?

— Olha, amiga…Não posso…

— Ele tá ocupado? Não tem problema, pode ser mais tarde, deixo pra tomar banho na hora de dormir.

— Você não viu a postagem no Instagram, do nosso novo negócio?

— Jura, amiga!? Vi não! Que sucesso, vou olhar agora! Vocês começaram um negócio novo? Que maravilha conseguir uma empreitada assim no meio dessa cris… Ué? Marido de aluguel?

—  É. Todo mundo pede ajuda pro Jaime e… Fizemos umas contas e…

— Sério isso? Amiga, cê vai me cobrar pra emprestar o seu marido?

— Nem chama emprestar, né? Foi o jeito de complementar a renda, amiga…

— Mas… De mim…?

Silêncio constrangido dos dois lados da linha. Nenhuma das duas amigas tinha coragem de falar. Nenhuma das duas amigas tinha coragem de desligar. Até que:

— Tudo bem, fala pra ele vir quando puder.

— Ah, que alívio, amiga. Que bom que você entendeu.

— Fala também que vou cobrar o mesmo preço pelo que sempre faço com ele quando vem.

Gustavo Burla