Category Archives: Gustavo Burla

São.

Concha nasal média direita com curvatura paradoxal

Concha nasal média direita com curvatura paradoxal

Até a curvatura estava tudo bem. Assim… Bem daquele jeito que leigo interpreta exame médico: se nariz curvo é certo, nariz reto é falho. Tudo bem: anestesia e faca consertam. Paradoxo não tem cura.

Pensou nos argumentos opostos, nas opiniões absurdas, no senso comum, na lógica, no mundo. Nunca mais aceitaria que dissessem ter colocado o nariz aonde não era chamado.

Tomou a assertiva como política, pelo lado do paradoxo. Venderia as imagens de seu nariz como um tratado de ciência política!

Porém, como andar na rua carregando essa situação? Tudo já andava por demais distópico e  talvez o nariz não passasse de um texto.

Olhou para as as duas conchas nasais, colocou-as frente a frente, e ordenou dialético: resolvam-se.

Gustavo Burla

 

 

 

Pedidos para ensinar

Pedidos para ensinar

para a Professora de Geografia

Na porta do prefeito do campus universitário o que não faltava era fila para pedidos de equipamento. Naquele dia, duas professoras, de Geografia e de Enfermagem.

GEOGRAFIA: prefeito, esse Fernando Henrique já fodeu todo mundo com esse apagão e entendo o projeto da Engenharia de usar luzes intercaladas, apoio, é sustentável. Mas na aula de Cartografia os alunos precisam ver as curvas de nível e as pilastras na sala tão fazendo sombra. Faz parte do plano do presidente isso também? Libera a luz pra gente, por favor.

ENFERMAGEM: prefeito, estou paralisada com a disciplina de Prevenção e Cuidados para DST porque não tenho pênis para os alunos treinarem o uso dos preservativos. Precisam dominar o assunto para ensinar nos postos de saúde. Sem os pênis, não posso dar aula, preciso dos diferentes tamanhos e formatos que constam no formulário.

GEOGRAFIA: Podia pedir isso? Eu aqui pedindo lâmpada…

Gustavo Burla

Chá de revelação

Chá de revelação

Despediu-se do radiologista e do obstetra com a convicção de que iria dar alguma coisa errada, mas Carolina insistiu que não queria saber do sexo do bebê antes do chá de revelação.

Na festa, apartamento cheio de amigos e parentes, a amiga ainda tentou alertar:

– Carolina, você tem certeza disso?

– Claro, vai ser ótimo compartilhar com todo mundo.

Chegou a hora de abrir o baú. Lindo, com jeito de antigo, coisa de vó, um charme especial de onde sairiam os balões voando. A amiga tentou de novo:

– Você pode não gostar do resultado, as pessoas vão perceber a cara de surpresa de vocês.

– Só pode ser coisa boa, sempre queremos uma criança, não importa o sexo.

Carolina e o marido abriram o baú. De dentro saíram voando balões azuis e rosas. A amiga ficou tensa, mas Carolina e o marido pularam de alegria:

– Gêmeos! Teremos gêmeos! Um casal!

Antes de ser perguntada, a amiga correu para a cozinha e levou pro carro o bolo de recheio roxo.

Gustavo Burla