Category Archives: Gustavo Burla

São.

Papo de farmácia

Papo de farmácia

– Boa tarde, moço. Você tem…

– Não, não tenho! Todo dia vem uma fila de gente perguntar se tenho álcool gel e não tenho. E nem álcool 70 e nem antibactericida porque também não funciona porque bactéria é bactéria e vírus é vírus. O mundo todo tá esfregando álcool gel até no cu, o preço triplicou e quem tem coloca na porta, pra atrair cliente e vender rápido. Mesmo assim vem sempre uma porrada de imbecil me perguntar se tenho álcool gel ou álcool 70. Depois tem gente que pergunta se tenho luva cirúrgica. Não. Nem luva de borracha eu tenho, não sou supermercado. Onde já se viu… Luva de borracha… De limpeza! E máscara! O cara não vai lavar a mão com álcool porque não tem, não vai proteger a mão porque luva não tem e quer tapar a cara com máscara. E quer com filtro, daquela que vende em cirúrgica. Isso aqui é uma farmácia! A gente vende de tudo isso, se tem. Mas se não tem, não tem, porra!

– …xampu?

Gustavo Burla

A tatuagem é minha!

A tatuagem é minha!

Tudo começou com um comentário alto demais na rua: que tatuagem feia… Tom de quem não quer nada, mas a perna da tatuagem tava sem fone de ouvido e parou e respondeu sem cuidar do volume também. Tava dito mesmo, não tinha volta, reafirmou, sem pedir desculpa ou acusar, só dizendo mesmo, mas cuspe (saliva voando do esporro, não cuspe cuspe mesmo) já pedia guarda-chuva nos óculos que nem tirou pra limpar quando esfregou a manga e devolveu que podia fazer o que quisesse e veio que podia mesmo que meu corpo minhas regras e poluição visual e a rua é pública e gente em volta que não parava de chegar e vai se foder pro seu gosto de merda e que tatuagem cada um faz a que quer e tem calça mais comprida e lugar tem que escolher com celular ligado filmando tudo e mostra quem pode quem quer e se tirar a roupa não pode é diferente mesma coisa e cuspe cuspe mesmo e segura no cabelo pede pra pedir desculpa barulho em volta e olho no olho e desculpa e beijo e que beijo putaquepariu que beijo e aplausos e mãos dadas e faz de novo amanhã?

Gustavo Burla

Intensidade

Intensidade

Vivia hiperbolicamente. Tudo o que decidia era sempre muito. Quando resolveu correr, foi maratona; nadar, do Leme ao Pontal; beber, só galões e barris; amar, uma multidão; viajar, volta ao mundo. Parecia estar sempre Em busca do tempo perdido (que, aliás, leu em um Carnaval).

Um dia resolveu dormir. Primeiro, comeu feito um urso antes do inverno. Tomou banho como se a caixa d’água do prédio fosse sua. Ajeitou a cama, afofou fartamente o travesseiro, deitou e adormeceu. Ao acordar, percebeu que, se tivesse trabalhado, estaria aposentado, mesmo depois da reforma da Previdência.

Gustavo Burla