Category Archives: Gustavo Burla

São.

Animal de estimação

Animal de estimação

“Boa tarde, eu gostaria de um animal de estimação.”

“Veio ao lugar certo, senhor, e veja só este último gatinho. Tão esperto, e toda a família já se foi, sobrou só ele.”

“Queria um bicho diferente, mais…”

“Ali temos os cãezinhos… Oh… Tão bonitinhos…”

“Você ouviu a parte do diferente?”

“Temos peixes ali, diversos, maravilhosos.”

“Peixe não tem graça, não dá pra fazer carinho.”

“Ali temos um coala, um panda e um…”

“Não, queria algo mais…”

“Um bicho-pau? Um lagarto? Um ornitorrinco?”

“Isso existe?”

Um movimento na parede, perto do chão, chama a atenção dos dois. O comprador fica vidrado, o vendedor fica vermelho.

“Desculpe, senhor, a gente sempre cuida tanto do nosso espaço. Eu não sei como…”

“Quanto é?”

“Senhor, é uma barata.”

“Quanto custa? É exatamente o que…”

“Senhor, aquilo é uma barata!”

“É um animal, isso aqui é uma loja de animais e….”

O croque-croque do gatinho mastigando a barata suspende a discussão. Destroça sem pressa a barata que movia as antenas cada vez mais curtas dentro da boca do bichano. Engole, vira a carinha, abaixa as orelhas e encara os humanos.

“Quero o gato.”

Gustavo Burla

Parágrafo

Parágrafo

A tecla Enter estragou, aquela que joga o texto para a linha de baixo e faz o parágrafo. Autor de parágrafos curtos e muitos diálogos, pensou que detestaria ser frankfurteano, com longos blocos de texto sem mudar de assunto. Mais ainda: um único bloco do início ao fim do texto. E sem mudar de assunto. Justo ele, tão cheio de opiniões, comentários, estudos, convergências, amigos, grupos, referências, encontros! Ficaria restrito a uma única opinião, sem a antítese do parágrafo seguinte, ou sem os diálogos repletos de contrapontos, impedido de desdobrar em tópicos os assuntos, incapaz de aproximar conceitos e explicar os resultados. Ficaria restrito a um único pensamento, a uma ideia plana, a uma certeza incontestável, a uma verdade absoluta, a uma unanimidade…

Sozinho, o teclado mudou de linha. Nem ele era capaz de cogitar a possibilidade de virar um bolsominion.

Gustavo Burla

O padrinho

O padrinho

Os primeiros fios brancos nas têmporas do jovem mostraram que era a hora. O velho chamou, sentou ao lado no sofá preto e disse.

— Chegou a hora.

— Falta pouco.

— Chegou a hora, é o momento de você…

— Espera só um minuto, padrinho.

— Preciso que você assuma esse jogo. É uma proposta que você não pode rec…

— Tá quase acabando.

O padrinho ficou intrigado. O que estaria acabando? O que o sábio jovem, futuro da famiglia, via naquele celular que nem ele, com décadas de reconhecimento, sabia?

— Você precisa entender que…

— Padrinho, preciso da sua ajuda.

Era o último momento em que o velho esperava ouvir aquilo, ainda mais vindo do herdeiro.

— Ajuda?

— Aqui, padrinho. Preciso juntar três pra vencer o jogo.

O padrinho observou, observou e foi taxativo.

— Deixe a arma e pegue os canolli.

Gustavo Burla