Category Archives: Gustavo Burla

São.

Eterno retorno

Eterno retorno

Num centro de umbanda, três criaturas esperam.

1 – O que tá esperando aqui?

2 – Um passe, pra quebrar o meu…

1 – Ciclo?

2 – Isso. Você também?

1 – É. Sou Ouroboros, vivo girando em torno do próprio rabo

2 – Você atrás de você?

1 – Não aguento mais me comer, preciso sair da mesmice, esse giro me deixa tonta, é a pior coisa que existe, tô fodida.

2 – Você não viu nada. Meu ciclo é infernal. Meu nome é Sísifo.

1 – O da pedra?

2 – O próprio e tenho tendinite de tanto empurrar o trambolho. Além das cãibras, distensões, fadigas musculares. Um verdadeiro inferno.

1 – Ciclo complicado o seu.

2 – Não aguento mais, preciso quebrar, por isso o passe. Sem ele tô fodido.

1 – Vida repetitiva a nossa, estamos fodidos… E você, quem é?

3 – O povo brasileiro.

Gustavo Burla

Galinha Pintadinha

Galinha Pintadinha

Como tá a vida de pai?

Sonâmbulo!

Mas seu filho tem o quê, três anos, não parou de chorar de noite?

Nem de dia, um inferno!

Meu filho parou cedo. Aliás, os dois. Três meses de choro e pronto, uma paz.

Como cê conseguiu isso? Me conta a mágica!

Galinha Pintadinha.

Sem chance, não vou envenenar a cabeça do meu menino com aquilo!

Mês que vem nasce meu primeiro neto e vou usar também.

Mas nem a pau que coloco isso dentro de casa!

Calma, cara, o negócio é bom se você usar com moderação.

Não vai fazer meus filhos virarem zumbis?

Vai é te tirar desse estado deplorável.

O que você chama de “usar com moderação”?

Sei lá, liga quando cê precisar tomar um banho, trocar uma ideia com a galera…

Sempre que quiser um tempinho pra mim…

Isso, pegou a ideia.

Funciona até quando?

Esperei até os dezoito anos pra tirar…

Gustavo Burla

Letras de médico

Letras de médico

No final do congresso de medicina, os amigos se reuniram num bar. Um conta vantagem daqui, outro dali, até que o José falou:

– Quem precisou de remédio outro dia foi Drummond.

– O que tinha?

– Pedra.

Os companheiros riram, bêbados, com cara de sempre.

– Machado foi ao meu consultório semana passada.

– Coitado. Medicou o quê?

– Ressaca. Nos olhos.

Mal deram bola, mal menor.

– Outro dia prescrevi pro Rubem Fonseca.

– O que ele tinha? – perguntaram genericamente alguns.

– Mandrake.

Outro acordo dos entendedores.

– E outro dia, pro Quintana.

– Sério? O quê?

– Passarinho.

Concordaram os sábios de Hipócrates.

Gustavo Burla