Category Archives: Gustavo Burla

São.

Estalos

Estalos

Nada de anormal na radiografia de quando começou a andar. Os pais acharam que ele tinha quebrado o pés, os dois pés, tamanho o estalo. Tudo sob controle, disse o médico, deve ser o corpo se acostumando à nova posição.

Bastava pisar e clec!, estalava. Como as pessoas fazem com os dedos das mãos, massagistas fazem na coluna e alguns fazem com o pescoço. Só que o dele era involuntário. Na adolescência o som se agravou e chegou ao incômodo, por isso vivia com fones de ouvido.

Andava com tênis maiores que os pés pra caberem as camadas de meia grossa que abafavam o som, o que não impediu o vizinho de baixo de dizer numa reunião de condomínio que a vizinha de cima andava de salto até de madrugada. Ele, que morava sozinho, acrescentou pantufas às camadas de meia e parou de fazer xixi no meio da noite.

Tinha pernas nervosas, daquelas que ficam balançando quando a pessoa está sentada, por isso era chamado de metralha no escritório. Ficava imaginando o tempo das máquinas de datilografia, quando seria menos notado.

Seu consolo estava em viajar pelo mundo apresentando o show de sapateado que fazia descalço.

Gustavo Burla

Homero

Homero

Quando a flecha chegou perto do meu olho perto mesmo quase tocando a córnea antes que a pálpebra pudesse abaixar pensei o que uma flecha faz nessa era de celular e whatsapp em pleno centro da córnea já era que forte esse arqueiro deve ser fã de quadrinhos ou doente mental porque a íris nem viu o que pegou o cristalino fiquei tentando lembrar de onde vinha tudo isso vida passando pelos olhos sem sentido nenhum e humor era fúria não vítreo era foda porque não tinha nada de senso quando respondi a pesquisa não podia ser eu porque os cabelos brancos tudo era caminho pro nervo óptico e depois a certeza de que havia acertado no ponto cego e o resto era silêncio mais que som.

Gustavo Burla

Festival de teatro

Festival de teatro

A cortina separava o público do material que ganharia vida em poucos instantes. A luz era à moda antiga: bastava o fogo da vela para deixar o encanto chegar aos olhos dos espectadores. A história cresceria à medida que a plateia se envolvesse. Dia de chuva era sempre uma delícia: bolas e bicicletas ficavam nas garagens e tinha teatro de sombras na sala.

Gustavo Burla