Category Archives: Gustavo Burla

São.

Hortelã

Hortelã

Me dá alface, por favor?

O ou a?

Tanto faz, a folha verde.

A folha de alface ou a alface?

Viu, é a, me respondeu.

Se fosse o pedaço? O tanto? Um cado?

Me dá hortelã?

O ou a?

Tanto faz.

Agora te peguei, né?

O hortelã. Se alface é a porque é AAAlface, hortelã é o porque é hOOOrtelã.

É com agá.

Sem essa de preconceito com cis ou trans. Me dá.

Gustavo Burla

Dorminhado

Dorminhado

Nem tinha acordado ainda quando acordou. Parecia que estava caindo e depois voando, mas estava dormindo daquele jeito que dá pra escutar quando estão falando alguma coisa na sala e a casa estava vazia. Quando acordou de verdade suava de alívio, virou para o lado e fechou os olhos novamente.

Só que não dormiu. Ficou ali pensando que estava voando pela sala e caindo quando alguém falava alguma coisa, num vazio suado de quem não acorda de lado para dormir de olhos abertos. E então mergulhou no sonho e viu cores com cheiros estranhos e o estômago chamou para a realidade.

Sem dormir ou comer ou acordar ou viver, permanecia na dúvida, porque jamais poderia afirmar qual o melhor estado em que poderia estar. E passou para o seguinte.

Gustavo Burla

Abraços

Abraços

Abracei a primeira pessoa que vi na rua. Naquele tempo foi estranho, antes via gente na rua de quinze em quinze dias, ao sair para as compras. Quando tudo acabou, dei um abraço na primeira pessoa que encontrei. E ela me abraçou de volta. Sem susto, sem surpresa. Foi troca de carinhos, de saudades, de vontade de ser gente na rua de novo. Todo mundo se abraçou. Até hoje a gente se abraça muito, bem mais do que antes de a gente ter que ficar em casa abraçando gato, cachorro, arco da porta. Abraçar gente porque a gente pode abraçar gente é o que nos faz humanos. Todo mundo se abraça hoje em dia, cada abraço gostoso, que preenche. Na fila do banco, na porta do banheiro do bar, na rua sem mais nem quê, todo mundo se abraça. Com a sensação de que sempre falta alguém para abraçar.

Gustavo Burla