Category Archives: Gustavo Burla

São.

No meio do caminho tinha um

No meio do caminho tinha um

Caminhada diária morro acima pela calçada ladeada de grama e foi o canto do olho, ou o alto do olho, que percebeu ao longe um corpo estranho no caminho. De longe uma pedra, mas de um dia pra outro não poderia surgir ali. Um monte de areia talvez, mas pequeno e disforme demais pra ser um monte de areia e a cada passo a cor ganhava textura. Um casaco jogado, caído, perdido, deixado por alguém desapegado no calor da noite. Ou outro desapego, menos espiritual e mais orgânico. Ou espiritual em alguns casos, mas não naquele ali. Parou. Poderia seguir e descobrir o que era e talvez arriscar o nojo e o cheiro porque um cavalo não poderia deixar rastro tão pequeno e um cachorro… Talvez um cachorro grande pudesse. Um homem, um ser humano, certamente. Do outro lado da rua tinha uma calçada igualmente ladeada por grama e limpa. Só passar ali pelo lado não seria também um problema se… E se não fosse? O casaco, ou uma… meia? Improvável. Seguiu resoluto, na coragem de que passaria direto e esperaria que a erosão (eólica, tempo muito seco) levasse pra longe. No dia seguinte nada teria. Levantou o rosto e com ele o nariz, pra se distanciar, seguiu olhando a paisagem, até o inevitável passo ao lado da coisa prender o olhar. Que bosta, era uma blusa.

Gustavo Burla

Concha nasal média direita com curvatura paradoxal

Concha nasal média direita com curvatura paradoxal

Até a curvatura estava tudo bem. Assim… Bem daquele jeito que leigo interpreta exame médico: se nariz curvo é certo, nariz reto é falho. Tudo bem: anestesia e faca consertam. Paradoxo não tem cura.

Pensou nos argumentos opostos, nas opiniões absurdas, no senso comum, na lógica, no mundo. Nunca mais aceitaria que dissessem ter colocado o nariz aonde não era chamado.

Tomou a assertiva como política, pelo lado do paradoxo. Venderia as imagens de seu nariz como um tratado de ciência política!

Porém, como andar na rua carregando essa situação? Tudo já andava por demais distópico e  talvez o nariz não passasse de um texto.

Olhou para as as duas conchas nasais, colocou-as frente a frente, e ordenou dialético: resolvam-se.

Gustavo Burla

 

 

 

Pedidos para ensinar

Pedidos para ensinar

para a Professora de Geografia

Na porta do prefeito do campus universitário o que não faltava era fila para pedidos de equipamento. Naquele dia, duas professoras, de Geografia e de Enfermagem.

GEOGRAFIA: prefeito, esse Fernando Henrique já fodeu todo mundo com esse apagão e entendo o projeto da Engenharia de usar luzes intercaladas, apoio, é sustentável. Mas na aula de Cartografia os alunos precisam ver as curvas de nível e as pilastras na sala tão fazendo sombra. Faz parte do plano do presidente isso também? Libera a luz pra gente, por favor.

ENFERMAGEM: prefeito, estou paralisada com a disciplina de Prevenção e Cuidados para DST porque não tenho pênis para os alunos treinarem o uso dos preservativos. Precisam dominar o assunto para ensinar nos postos de saúde. Sem os pênis, não posso dar aula, preciso dos diferentes tamanhos e formatos que constam no formulário.

GEOGRAFIA: Podia pedir isso? Eu aqui pedindo lâmpada…

Gustavo Burla