Category Archives: Gustavo Burla

São.

Artista carioca

Artista carioca

Via nos filmes da juventude os caixões puxados por cavalos pretos, as fartas coroas de flores penduradas deixando pétalas pelo caminho, os enormes guarda-chuvas pretos como um mar pela avenida, sob eles os ternos pretos e os vestidos de luto eterno pela morte da pessoa mais importante do mundo.

Fez fortuna fazendo arte (desculpem pela interrupção do autor: estamos num passado distante ou num mundo hipotético, não no Brasil de 2019) e deixou claras as obrigações no testamento: fraques pretos a todos, longos pretos a todas, cavalos pretos, guarda-chuvas pretos, carruagem preta, gorros e chapéus pretos. Queria o mundo aconchegado em seu luto.

Morreu no verão.

Gustavo Burla

Tratado de hepatologia

Tratado de hepatologia

Ao Felga

Moço sério, vivia em reuniões, mas sempre em mesas mais frequentadas. Cachaça, cerveja, em restaurantes tomava vinho. Para desinibir, dar mais fluência nos trâmites. Funcionava. Não fechava negócio ruim, não fazia inimizades, não recebia nãos.

Sua peculiaridade: sempre pedir fígado para comer. Isca, bife, patê, mas fígado.

Perguntado, foi direto: para que encontrem algum na autópsia quando eu morrer.

Gustavo Burla

De papel passado

De papel passado

Tudo escrito como manda a jurisdição: nome, endereço, CPF, RG, data e local de nascimento e até cor da pele, que era indispensável, mas ele fazia questão. Grafia inconfundível, documento de próprio punho com firma reconhecida anos antes. Mesmo assim, o juiz não queria aceitar.

– Isso não tem precedentes!

– Abra um!

– É inaceitável! Mais que isso: é insano!

– Está documentado e registrado, é o desejo do morto, escrito em momento de consagrada sanidade!

– Minha senhora, consegue entender o teor do que está me pedindo?

– Perfeitamente. E que seja rápido, antes que comece a se decompor.

– A senhora quer que eu tire a orelha o morto e entregue pra senhora!

– É o que consta neste testamento, não é?

– Ele está morto, não fazer diferença agora, deixe a orelha onde está.

– É o pedido dele, registrado, que precisa ser cumprido.

– E onde a senhora vai guardar a orelha?

– Deixar em cima do travesseiro, pra fazer carinho no lóbulo toda noite, até dormir, como combinei com ele.

Gustavo Burla