Category Archives: Hupokhondriakós

Caminho das águas

Caminho das águas

A biblioteca não catalogava os livros por áreas, separando volumes nacionais de estrangeiros ou prosa de poesia. Também não catalogava por títulos. Nem pelos sobrenomes dos autores, dispostos em ordem alfabética.

Aquela biblioteca catalogava livros por lágrimas. Numa estante se encontravam os que não provocavam choro algum (a não ser que fosse de raiva pelo tempo perdido). Em outra, do lado oposto, estavam dispostos aqueles que faziam derramar corredeiras entrecortadas de soluços. Entre as duas, uma progressão aritmética de prateleiras, páginas e prantos.

Mas havia ainda o lugar de destaque, bem no meio do salão principal, espécie de púlpito no qual a bibliotecária expunha a recomendação da vez: a última história que tivesse feito escorrer uma única gota, lenta e cheia, por seu rosto, ao mesmo tempo que lhe arrancasse um sorriso.

Táscia Souza

Festival de teatro

Festival de teatro

A cortina separava o público do material que ganharia vida em poucos instantes. A luz era à moda antiga: bastava o fogo da vela para deixar o encanto chegar aos olhos dos espectadores. A história cresceria à medida que a plateia se envolvesse. Dia de chuva era sempre uma delícia: bolas e bicicletas ficavam nas garagens e tinha teatro de sombras na sala.

Gustavo Burla

Fauna

Fauna

Quando a moça que engolia sapos e o rapaz acostumado a ouvir cobras e lagartos se conheceram, pensaram que jamais seriam capazes de dividir um jantar ou uma conversa. As refeições dela eram todas anfíbias, dos pequenos girinos cotidianos até grandes cururus profissionais, pessoais, emocionais, daqueles que inflam na boca e secretam veneno garganta abaixo. Já ele sequer comia, indigesto demais das coisas reptilianas que escutava, desde diminutas osgas domésticas até enormes serpentes que rastejavam pelo canal auditivo, enrolavam-se ao redor de seus pensamentos e apertavam, até sufocar.

Mas então eles se encontraram. E ela sentiu um gosto suave na língua, seguido de um frio gostoso no estômago, ao passo que ele experimentou o som melódico que entrava nos ouvidos com o prazer de quem percebe o silêncio. Dali em diante os diálogos passaram a ser passarinhos e o alimento, borboletas. 

Táscia Souza