Category Archives: Hupokhondriakós

A cor da virada

A cor da virada

Foi a calcinha, tenho certeza. Eu escolhi cada detalhe. Da roupa. Dos acessórios. Da maquiagem. O vestido branco para a paz, mas com leves fios dourados na trama do tecido, para a prosperidade. O batom vermelho para a paixão. O blush rosado para o amor. A sombra verde para a saúde e o equilíbrio. O anel de turquesa que foi da minha avó, porque dizem que o azul representa a tranquilidade e a abertura para o novo. 

Mas aí teve a calcinha. Tentei todas as cores, mas estavam marcando, entende? Fui sem. Deu no que deu. 

Táscia Souza

Meninos e meninas

Meninos e meninas

para Valéria

O que diferencia meninos de meninas? Fácil: um laço na cabeça.

Da tenra infância aos primeiros passos da juventude, quando ímpetos pessoais começam a se sobrepor, minha mãe usou um laço na cabeça. Imposição da minha vó.

Depois, nunca, exceto por um leve chapéu ou delicado lenço, aceitou qualquer adereço na cabeça.

Na tensão entre viagens para aulas e pesquisas de doutorado, foi ao acupunturista. Explicou o contexto e deixou claro: na minha cabeça você não põe agulha!

— Mas aqui é um ponto que

Foi colocar a agulha na testa, no que alguns chamam de olho da mente, e a cabeça cuspiu longe o metal.

— Por que aconteceu isso!?

— Porque sou menina.

Gustavo Burla

Marido de aluguel

Marido de aluguel

Quando o telefone toca mais de duas vezes, a amiga desconfia. Do outro lado, vendo a bina, a amiga reluta.

— Oi, amiga, tá tudo bem?

— Tudo certo, eu tava longe do telefone.

— Olha, não deu mesmo, fui trocar a resistência e não consegui encaixar. Me empresta seu marido um pouquinho?

— Olha, amiga…Não posso…

— Ele tá ocupado? Não tem problema, pode ser mais tarde, deixo pra tomar banho na hora de dormir.

— Você não viu a postagem no Instagram, do nosso novo negócio?

— Jura, amiga!? Vi não! Que sucesso, vou olhar agora! Vocês começaram um negócio novo? Que maravilha conseguir uma empreitada assim no meio dessa cris… Ué? Marido de aluguel?

—  É. Todo mundo pede ajuda pro Jaime e… Fizemos umas contas e…

— Sério isso? Amiga, cê vai me cobrar pra emprestar o seu marido?

— Nem chama emprestar, né? Foi o jeito de complementar a renda, amiga…

— Mas… De mim…?

Silêncio constrangido dos dois lados da linha. Nenhuma das duas amigas tinha coragem de falar. Nenhuma das duas amigas tinha coragem de desligar. Até que:

— Tudo bem, fala pra ele vir quando puder.

— Ah, que alívio, amiga. Que bom que você entendeu.

— Fala também que vou cobrar o mesmo preço pelo que sempre faço com ele quando vem.

Gustavo Burla