Category Archives: Hupokhondriakós

Colegas de trabalho

Colegas de trabalho

para Gilze Bara

Cansaço duplo com uma mão no teclado procurando as teclas e a outra afastando pernilongos. A raquete elétrica não funcionava mais para dar choque, mas espantava. Bastava a tarde olhar para a noite e eles chegavam para azucrinar.

No ouvido, na perna (impraticável usar calça naquele calor), no rosto, passando pela tela. Podia jurar que a raquete acertara um ou outro e vencera por knock-out (a raquete trazia uma marca em inglês estampada). Fim de noite era ligar os repelentes nas tomadas e deitar esquecida de encomendar um mosquiteiro.

Uma noite dormiu na mesa, sobre o teclado, desmaiada pela fadiga. Acordou na cama, pijama trocado, marido ao lado. Marido!? De pé pelo susto, viu a nuvem de pernilongos se dissipar com o raiar do dia.

Gustavo Burla

Cinzas

Cinzas

A essa altura todo mundo perdeu alguma coisa. Ou alguém. Nestes seis meses que se completam daqui a três dias, uma amiga de infância perdeu o ar numa manhã de sábado e, umas duas semanas depois, um pedaço do pulmão esquerdo, no qual fibroses remanescentes reduziram consideravelmente a capacidade respiratória. Obviamente, como não sou médica, não sei se é esse o diagnóstico exato, mas perdi o pudor de emitir meu próprio laudo a partir da notícia que me chegou pelas redes sociais, essas que também perderam os filtros para todos os assuntos e opiniões, inclusive as minhas. Pelas mesmas redes soube de conhecidos queridos que perderam seus próprios conhecidos queridos cujos corpos, mesmo passando pela UTI, não reagiram com toda a intensidade que o tratamento exigia. Unidade, até aqui, só na perda. O garçom do restaurante onde eu almoçava quase todos os dias, perto do trabalho, perdeu uma parte do salário, depois a expectativa de revogarem a suspensão de seu contrato, e depois, definitivamente, o emprego. Minha vizinha de cima perdeu a paciência junto com uma bola de soprar, dessas de aniversário, cheia de água, que caiu de sua sacada e estourou bem no meio da área externa do apartamento do quinto andar, onde outros vizinhos recebiam gente para uma festinha. Do sofá, vi o balão colorido passar feito uma bomba e logo o perdi de vista, só restando dele os gritos que provocou. Dia desses, o atendente da farmácia da esquina onde eu comprava quinzenalmente os indispensáveis comprimidos para dor de cabeça, no susto de me ver entrar de repente, perdeu a máscara que estava pendurada na orelha. E, com pesar, mais meu do que dele, também perdeu a cliente. Desde então, perco alguns minutos a mais indo a outra drogaria, que fica dois quarteirões mais distante. A moça do caixa da padaria mais perto perdeu as luvas cirúrgicas que fazia questão de usar desde o início de tudo. Ou talvez, o que é mais provável, alguém as tenha perdido por ela, porque as pontas encardidas dos dedos de látex — como você deve ter notado se tiver passado por lá, sem resistir a um sonho, em qualquer dos dias em que foi obrigado a deixar o home office e ir ao escritório resolver pendências — estavam num estado bem deprimente de se ver. Um amigo perdeu a lente do telescópio no alto do morro onde subiu para observar o rastro de um cometa. Mães ianomâmis perderam seus bebês e o direito de prestar-lhes os ritos fúnebres. Sei de muita gente que tem perdido o equilíbrio, o humor, a esperança, a sanidade. Outro tanto não quis perder o pôr-do-sol na praia no feriado — e passei por todos os outros estágios do luto, com especial destaque para a negação (que também poderia ser chamada de incredulidade), até chegar à aceitação de que é compreensível diante das perdas generalizadas do equilíbrio, do humor, da esperança e da sanidade —, mas agora resta torcer para que nem eles nem outros percam futuros pores-de-sóis por causa disso. Leio na internet que o Pantanal perdeu mais de 12% de sua vida nas chamas e me perco em silêncio lamentando que nem lá nem aqui essa parece ser toda a vida que será perdida. Você, quase seis meses atrás, perdeu a chegada do meu táxi na frente do seu trabalho, uma ferida na testa provocada pela porta do carro, um band-aid que eu não poderia mesmo te comprar e meu acesso de tosse diante do pedido de casamento que você tampouco pôde me fazer pouco tempo depois. Já eu, querido amor desencontrado, há quase seis meses, naquela mesma tarde em que a gente não se conheceu, perdi você. 

Táscia Souza

Armário de troféus

Armário de troféus

A primeira atividade da faxineira, quando chegasse na casa em que trabalhava, era limpar os troféus. E os vidros do armário em que estavam. A última função era repetir a limpeza dos vidros, do lado de fora, porque sempre subia o pó que ela levantava com vassoura e pano na faxina.

Foi assim por anos, três vezes por semana, até que a recomendação era que ficasse em casa até a pandemia acabar, recebendo semanalmente como se tivesse feito faxina.

Na casa, vassoura e panos funcionavam no ritmo dos patrões, mas ninguém ousava tocar nos troféus ou no vidro. Que embaçou. E embaçou mais. E mais um pouco até ficar pálido. O museu abandonado foi perdendo destaque, prioridade e as pessoas que tinham nomes naqueles troféus passaram a se preocupar mais com o presente.

Gustavo Burla