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Tratado de hepatologia

Tratado de hepatologia

Ao Felga

Moço sério, vivia em reuniões, mas sempre em mesas mais frequentadas. Cachaça, cerveja, em restaurantes tomava vinho. Para desinibir, dar mais fluência nos trâmites. Funcionava. Não fechava negócio ruim, não fazia inimizades, não recebia nãos.

Sua peculiaridade: sempre pedir fígado para comer. Isca, bife, patê, mas fígado.

Perguntado, foi direto: para que encontrem algum na autópsia quando eu morrer.

Gustavo Burla

O filho

O filho

Meses antes haviam começado os enjoos. À mesma hora, toda manhã, quando se sentava na ponta do sofá, perto da porta da varanda, para ler. As letras se embaralhavam e vinha a vertigem, quase sempre seguida de uma azia que queimava do ponto mais baixo do tórax até a garganta, provocada por cada frase mais extensa da prosa da vez. 

Não chegou, porém, a fazer nenhum exame. Não foi preciso. Teve certeza da gestação quando veio o desejo. Forte. Súbito. Incontrolável. Uma vontade insana de comer poesia. Era madrugada. Afora alguns bares resistentes e farmácias necessárias, a cidade dormia. Mais de meio milhão de habitantes e nenhuma livraria ou biblioteca 24 horas aberta.

No apartamento vazio, vasculhou armários e estantes, geladeira e despensa, sem encontrar sequer um Neruda ou Drummond que tivesse sobrado, congelado, vencido, esquecido. Cozinho eu mesma então, pensou, mas a fome era tanta que só fez lambuzar os dedos de grafite e de tinta, lambendo o que ficava nas pontas, por baixo das unhas, sal das palmas que suavam, dos olhos que suavam por dentro e pingavam na página pautada de um velho caderno.

Grávida de desejo insatisfeito, pariu verso. 

Táscia Souza

De papel passado

De papel passado

Tudo escrito como manda a jurisdição: nome, endereço, CPF, RG, data e local de nascimento e até cor da pele, que era indispensável, mas ele fazia questão. Grafia inconfundível, documento de próprio punho com firma reconhecida anos antes. Mesmo assim, o juiz não queria aceitar.

– Isso não tem precedentes!

– Abra um!

– É inaceitável! Mais que isso: é insano!

– Está documentado e registrado, é o desejo do morto, escrito em momento de consagrada sanidade!

– Minha senhora, consegue entender o teor do que está me pedindo?

– Perfeitamente. E que seja rápido, antes que comece a se decompor.

– A senhora quer que eu tire a orelha o morto e entregue pra senhora!

– É o que consta neste testamento, não é?

– Ele está morto, não fazer diferença agora, deixe a orelha onde está.

– É o pedido dele, registrado, que precisa ser cumprido.

– E onde a senhora vai guardar a orelha?

– Deixar em cima do travesseiro, pra fazer carinho no lóbulo toda noite, até dormir, como combinei com ele.

Gustavo Burla