Category Archives: Hupokhondriakós

Abraços

Abraços

Abracei a primeira pessoa que vi na rua. Naquele tempo foi estranho, antes via gente na rua de quinze em quinze dias, ao sair para as compras. Quando tudo acabou, dei um abraço na primeira pessoa que encontrei. E ela me abraçou de volta. Sem susto, sem surpresa. Foi troca de carinhos, de saudades, de vontade de ser gente na rua de novo. Todo mundo se abraçou. Até hoje a gente se abraça muito, bem mais do que antes de a gente ter que ficar em casa abraçando gato, cachorro, arco da porta. Abraçar gente porque a gente pode abraçar gente é o que nos faz humanos. Todo mundo se abraça hoje em dia, cada abraço gostoso, que preenche. Na fila do banco, na porta do banheiro do bar, na rua sem mais nem quê, todo mundo se abraça. Com a sensação de que sempre falta alguém para abraçar.

Gustavo Burla

Retrocesso

Retrocesso

Vínhamos progredindo. Era o pior cenário desde a redemocratização e o fascismo bafejava bem na nossa cara, mas havia um avanço perceptível que fazia crer que, se uma parte da humanidade evolui, toda ela o faz também. Com a pandemia, o desastre. E não apenas o escancaramento da nossa brutal desigualdade, mas aquele pequeno bilhete junto à máscara de tecido: “Após lavada, passar com ferro bem quente para ser usada novamente”. Aquele verbo ali. Aquele calor capaz de matar vírus, mas também de derreter a evolução. Agora que tudo voltou ao normal — e com tudo digo até a brutal desigualdade e o fascismo bafejante —, as pessoas de bem estão lá fora, sem as máscaras, mas exibindo suas roupas cuidadosamente desamarrotadas. Depois de tudo, não dava pelo menos para termos abolido o ferro de passar?

Táscia Souza

Jornalismo de dados

Jornalismo de dados

Tá nervoso?

Não.

Tá suando.

Calor.

Tá frio aqui, ar tá ligado. (pausa) Tá nervoso sim.

O que cê tá fazendo aqui?

Vim pra entrevista.

Por quê?

Por quê…? Pelo emprego…

Você trabalha com dados?

Desde o colégio.

Colégio!?

Calma, parceiro… Cê quer uma água, um…?

Não! Nada. Tudo bem.

Meio tenso mesmo tudo isso, parece que tem um monstro atrás daquela porta…

Para!

Sente a emoção, fica melhor assim.

Para!!!

Cara, cê não confia na sua sorte?

Achei que ninguém mais estivesse aqui, acha que tenho sorte?

Ia entrar nessa sozinho!? Cara, ainda bem que tamos juntos!

Só tem vaga pra um.

Verdade… Falhar é crítico. Mas…

O quê!?

E se um dos dois tiver sucesso absoluto? Pode puxar o outro.

Você é…

Confiante.

Tem certeza que trabalha com dados?

Tenho uma luderia, um blog, e um canal no YouTube.

E daí?

Dados, saca. Da-dos. Tá no edital. Trouxe os meus aqui na mochila. Mas até chamarem a gente dá tempo pra um cardgame.

Gustavo Burla