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No meio do caminho tinha um

No meio do caminho tinha um

Caminhada diária morro acima pela calçada ladeada de grama e foi o canto do olho, ou o alto do olho, que percebeu ao longe um corpo estranho no caminho. De longe uma pedra, mas de um dia pra outro não poderia surgir ali. Um monte de areia talvez, mas pequeno e disforme demais pra ser um monte de areia e a cada passo a cor ganhava textura. Um casaco jogado, caído, perdido, deixado por alguém desapegado no calor da noite. Ou outro desapego, menos espiritual e mais orgânico. Ou espiritual em alguns casos, mas não naquele ali. Parou. Poderia seguir e descobrir o que era e talvez arriscar o nojo e o cheiro porque um cavalo não poderia deixar rastro tão pequeno e um cachorro… Talvez um cachorro grande pudesse. Um homem, um ser humano, certamente. Do outro lado da rua tinha uma calçada igualmente ladeada por grama e limpa. Só passar ali pelo lado não seria também um problema se… E se não fosse? O casaco, ou uma… meia? Improvável. Seguiu resoluto, na coragem de que passaria direto e esperaria que a erosão (eólica, tempo muito seco) levasse pra longe. No dia seguinte nada teria. Levantou o rosto e com ele o nariz, pra se distanciar, seguiu olhando a paisagem, até o inevitável passo ao lado da coisa prender o olhar. Que bosta, era uma blusa.

Gustavo Burla

Violação

Violação

O primeiro incômodo não fora bem com a palavra em si, que, aos cinco anos, você nem sabia o que significava. O problema fora com a forma como sua colega de pré-escola a pronunciava, rodopiando ao seu redor, como um xingamento. O som daquela palavra estranha, sussurrada a cada vez que a outra menina se aproximava do seu ouvido, atingia sua audição como um tiro de escopeta. De vez em quando, a garotinha ainda a enunciava com a hostilidade do aumentativo, o que tornava o termo parecido com o líquido que sua mãe usava para limpar o esmalte descascado das unhas, só que diferente, com uma fantasmagoria inicial, um buuu ameaçador. Um susto.

Foi só algum tempo depois que, sem ter contado a ninguém sobre o episódio, você descobriu sozinha o significado da expressão. Deu-se conta também de que não havia nada de realmente ameaçador em nomear aquilo que se encontrava no meio das próprias pernas, embora, ao longo da vida, fosse perceber que as diferentes maneiras como era encarada por causa daquilo a colocavam em perigo. Como aquele ao qual — e você só constata isso agora — sua antiga colega, que você passou anos detestando, poderia ter sido exposta. Afinal, por que uma criança de cinco anos saberia usar aquela palavra específica, com aumentativo e tudo, para ferir se não tivesse sido ferida por (causa d’) ela também?

Foi necessário muito esforço para que, já adulta, você conseguisse dizê-la com naturalidade. Para que conseguisse até cantar, numa marcha pelos direitos das mulheres, que ninguém tinha o poder de controlar aquela parte de seu corpo, só você. No entanto, a cada vez que você via aquelas três sílabas grafadas num papel ou digitadas numa tela qualquer, a mesma velha sensação de violência a dominava. Talvez fosse aquela letra U ali, que as pessoas insistiam em colocar no lugar errado. Substituir o O pelo U, como também era hábito fazer com o verbo correlato, era mais que uma opção ortográfica. Para você, era uma agressão. Era transformar o que deveria ser um elo num urro.

Táscia Souza