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Chá de revelação

Chá de revelação

Despediu-se do radiologista e do obstetra com a convicção de que iria dar alguma coisa errada, mas Carolina insistiu que não queria saber do sexo do bebê antes do chá de revelação.

Na festa, apartamento cheio de amigos e parentes, a amiga ainda tentou alertar:

– Carolina, você tem certeza disso?

– Claro, vai ser ótimo compartilhar com todo mundo.

Chegou a hora de abrir o baú. Lindo, com jeito de antigo, coisa de vó, um charme especial de onde sairiam os balões voando. A amiga tentou de novo:

– Você pode não gostar do resultado, as pessoas vão perceber a cara de surpresa de vocês.

– Só pode ser coisa boa, sempre queremos uma criança, não importa o sexo.

Carolina e o marido abriram o baú. De dentro saíram voando balões azuis e rosas. A amiga ficou tensa, mas Carolina e o marido pularam de alegria:

– Gêmeos! Teremos gêmeos! Um casal!

Antes de ser perguntada, a amiga correu para a cozinha e levou pro carro o bolo de recheio roxo.

Gustavo Burla

Engolido

Engolido

O fato de ela chorar muito — de dor, de tristeza, de raiva, de desespero, de emoção, de alegria — costumava incomodar as pessoas. Na infância, perguntavam por que estava chorando se o machucado no joelho nem doera (e ela, por sua vez, questionava-se como é que podiam supor isso se não estavam na sua pele esfolada). Na adolescência, diziam que precisava ser forte e que não podia demonstrar fraqueza (como se fosse esse, e não lágrima, o nome daquilo que escorria de seus olhos). Na juventude, debochavam dizendo que ela chorava por tudo (como se isso diminuísse, por si só, a intensidade de seus sentimentos).

Quando decidiu que ninguém mais a veria chorar, passou a esconder. Num velho armário de casa, cuja chave só ela tinha, começou a guardar os produtos daqueles prantos sofreados. Pequenos frascos foram enchendo as prateleiras, cada uma etiquetada com o estado correspondente: dor, tristeza, raiva, desespero, emoção, alegria. Vidrinhos e mais vidrinhos de lágrimas, datados e rotulados com cada instante em que, em vez de derramá-las, colhia-as com o conta-gotas e as depositava ali.

Adulta, no dia em que teve o coração partido, por um segundo pensou que não seria capaz de conter; que nenhuma garrafa, por mais litros que armazenasse, teria o tamanho suficiente para proteger da vista alheia o quanto queria chorar. Lembrou-se então dos adultos, todos na idade que ela acabara de atingir, ordenando-lhe, quando pequena, que engolisse o choro. Destrancou o armário secreto, então, e bebeu-os, um por um.

Táscia Souza

Velhório

Velhório

A primeira a antecipar em lamento o abandono na velhice foi a avó. O neto disse que cuidaria dela quando precisasse, fosse em casa ou num asilo, que visitaria diariamente. Ela seguiu a vida tranquila. E longa.

Depois veio a tia, solteira, entendendo o que lhe aguardava. De novo ele se prontificou a acompanhá-la em carinho e carências.

Outra tia, com filhos morando longe, anos depois também pressentiu o que lhe poderia ocorrer e novamente foi ele quem se prontificou.

Assim seguiu a vida, por anos, prometendo às queridas, de todos os graus, cuidar delas na velhice.

Quis o destino que um infarto na flor dos 42 anos o levasse antes. Em torno do corpo, um coro de velhas chorava como viúvas do futuro promissor.

Gustavo Burla