Category Archives: Hupokhondriakós

Closet

Closet

Melhores amigas compartilhavam o guarda-roupa; a minha e eu, o dicionário. Se queríamos parecer diferentes, ou mais bonitas, ou mais interessantes, ou se sentíssemos um ímpeto profundo de impressionar alguém, corríamos até o armário alheio, às vezes pedindo, outras nem isso, e tomávamos emprestadas palavras. Adjetivos eram nossas peças favoritas, mas os dela costumavam ser mais largos, fluidos, diáfanos. Na adolescência eu pegava um qualificativo seu — por exemplo, incandescente, um de seus preferidos — e com ele fazia os olhares de todos os garotos da sala se perderem na curva que o tremeluzir da pronúncia deixava entrever na minha boca. Os meus, porém, tendiam a ser mais curtos, justos, cingidos, tão apertados que beiravam o desconforto. Cru era um desses que ela apanhava sempre, a letra tornando-se mais marcante ao rabiscá-lo num bilhete sedutor. 

A primeira vez que me vesti para um homem foi com um indômito retirado de seu caderno. A primeira vez que ela se despiu para um foi ao dizer, com uma oração minha, que nenhuma nudez provoca tanto desejo quanto a própria palavra nua. 

Táscia Souza

Moço do estacionamento

Moço do estacionamento

Chegava para trabalhar no meio da tarde, com tudo deserto, quase ninguém pela faculdade. Um ou outro chegava para a secretaria ou para a cantina, ninguém da administração, menos ainda da docência ou da discência. Circulava por cada espaço conferindo as vagas vazias que circundavam o prédio da universidade: uma entrada e uma saída.

O sol começava a se esconder e vinha o frio, por vezes uma névoa, quase sempre alunos e professores em carros e ônibus. Cada qual no seu tempo, fosse para estudar, orientar, pedir desconto ou frequentar aula. E ele ali, no estacionamento, vigiando os carros que ocupavam as vagas.

Quando o sinal batia para o fim, estava na última curva do estacionamento. Todos os carros que saíam acenavam para ele, sem saber o nome ou desde que horas ele estava ali. Todos. Todos mesmo. Cumprimentava todo mundo. Depois daquilo poderia ficar a noite toda ali esperando pelo dia seguinte, mas ia para casa e sonhava em voltar para trabalhar.

Gustavo Burla

II Congresso Internacional das Paixões Impossíveis

II Congresso Internacional das Paixões Impossíveis

Título do painel: A contribuição das ciências humanas, exatas e biológicas no desvendar da abstração matemático-genético-sociológica da paixão

Resumo: O presente estudo busca comprovar a exatidão fisiológica do fenômeno antropocêntrico do sentimento apaixonado, baseando-se na pesquisa empírica do autor, confrontado com a impossibilidade de sua realização. A análise se debruça sobre a bioquímica de Maria — aprofundando-se na quentura de sua pele, na maciez de seus cabelos e no castanho escuro de seus olhos —, bem como sobre a idealização de sua personalidade, até a ruptura em lágrimas sobre a carta de despedida que ela deixou.

Palavras-chave: morrer; de; amor.

Táscia Souza