Category Archives: Hupokhondriakós

Semana Santa

Semana Santa

Desde o mês anterior fazia contas. Somava luz, água, aluguel, descontava alimentação, transporte, uma eventual saída com os amigos e comparava aos valores dos ovos de Páscoa para os sobrinhos. Tudo muito caro, demais, mas criança pequena não tem culpa disso e não vai pagar ficando sem os ovos. Época mais esperada pelos sobrinhos.

Esperando a impressão de alguns arquivos no balcão do xerox, a senhora ao lado pediu ajuda para uma leitura. Estou sem óculos, foi o que disse, mas parecia desconhecer as letras. Com a frase lida no comprovante, identificou: meu dízimo, tenho que tirar uma cópia, pra mostrar, né?

O número era de 1/10 do salário mínimo, multiplicado pela quantidade de fiéis na igreja por menor que fosse, descontados os que recebiam menos e somados os que talvez pagassem mais, comparando aos valores do mercado, concluiu: os sobrinhos do pastor teriam caganeira.

Gustavo Burla

Abismo

Abismo

Bem antes, tinha essa rachadura no teto, você lembra? No apartamento antigo. Reta. Horizontal. Ortogonal à lateral da janela. Eu a vi pela primeira vez à noite, deitada na cama, antes de apagar a luz do abajur, e apertei seu braço numa breve aflição. Não tem perigo, você disse. Provavelmente é só na pintura. No máximo na massa corrida. Acreditei porque você me explicou que o problema é com as rachaduras diagonais, daquelas que vão da parte superior esquerda até a inferior direita (é assim mesmo ou tanto faz?), quando, mesmo por uma pequena fresta, a gente consegue ver o que há no vizinho, do lado de lá, assim como ele consegue nos ver. 

Fiquei obcecada por rachaduras diagonais. Um trincado no copo de vidro americano, transversal à borda, me dava a impressão de que fosse vazar não o café para o lado de fora, mas meus lábios para o lado de dentro, sugados pelo buraco negro com o qual a bebida quente se parecia toda vez que eu a olhava no contraluz. No asfalto recém-pavimentado da nossa rua antes de pedra, quando a chuva abriu a primeira cratera comprida que ia do nosso portão até a entrada da garagem do prédio cem metros à frente, no passeio contrário, os demais moradores reclamaram do serviço mal-feito e do descaso da prefeitura. Calada, meu cuidado era tentar passar o mais distante possível da abertura, embora meus olhos afoitos teimassem em se espichar ali para baixo, para o oposto do mundo, na tentativa de enxergar o fim de tudo, mas com medo de que o fim me enxergasse também.

Foi por isso que entrei em desespero quando a ranhura apareceu nesse pedaço de pele acima da boca, escavando um sulco quase imperceptível da lateral esquerda da columela (tive que pesquisar o nome dessa parte do nariz, senão não conseguiria explicar a você) até o cantinho dos lábios. Você disse que era impressão minha. Todas as pessoas para quem mostrei, fingindo não notar, disseram o mesmo porque: ah, você é nova demais para se preocupar com o tempo. Mas não é uma linha, você percebe? Não é expressão de nada. É uma maldita de uma rachadura diagonal que logo vai abrir uma fissura da largura de um punho pelo meu rosto inteiro, como essa que eu acabei de fazer no espelho. Só que, por ela, tudo o que vou ver do outro lado da minha cabeça é vazio. 

Táscia Souza

Ember van ä hűtöben!

Ember van ä hűtöben!

Sistema de reabilitação prisional para presos perigosos. Depois de décadas conversando com assistentes sociais, psicólogos, agentes penitenciários, instrutores de atividades físicas e manuais e professores de diversas áreas, contava os dias para poder sair novamente, recuperado.

Estudava e lia bastante, queria voltar um novo homem para o mundo livre, fazia até exercícios para aprender novas línguas no computador da prisão.

Na véspera da saída, entre as sugestões aleatórias construídas pelo programa da aula de húngaro (foram tantos anos de reclusão que lhe restaram húngaro e klingon), leu a frase que traduziu como um sinal: tem uma pessoa na geladeira!

Gustavo Burla