Category Archives: Hupokhondriakós

Chega de banana podre!

Chega de banana podre!

Você já deve ter ouvido alguém dizer que a banana espera você virar as costas pra amadurecer e passa do ponto antes de você olhar de novo. Era assim antes de a genética dar conta do recado. As novas bananas nascem com pinos vermelhos, clonados dos perus de Natal, que afloram quando elas estão no ponto certo.

“E se eu não estiver olhando na hora em que o pino saltar? Deu na mesma!”

O cruzamento de espécies envolve também o tomate, aquele do timer de cozinha. A Pomodoro Banana avisa quando está boa. É investimento certo contra o desperdício.

O Ministério da Ciência e Tecnologia adverte: bananas com casca escura e manchas brancas que avisam “Tô pronta!” fazem parte da experiência fracassada com galinhas d’Angola e podem ciscar pela cozinha.

Gustavo Burla

Fermentação

Fermentação

Toda manhã ia cedo pra padaria fazer pão. Quando o dono chegava, o forno já estava assando. Ele abria a porta pra sair o cheiro e os clientes entrarem.

Naquela noite não conseguia pregar o olho, a filha estava no botequim. Sempre chegava cedo. 23h era cedo pra ela, não pra ele. Chegou pouco depois, com alguns goles a mais e vontade de conversar, volume elevado.

Mandou a moça de volta pro bar, precisava de silêncio pra dormir.

Gustavo Burla

Cem sem

Cem sem

Estudo do Laboratório das Desigualdades Mundiais, divulgado nesta segunda-feira, concluiu que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, entre cem nações analisadas. De acordo com o levantamento, os 10% mais ricos no país, com renda média anual de R$ 253,9 mil, abocanham 58,6% do total, sendo que o 1% mais rico, com renda média anual de cerca de R$ 1,2 milhão, fica com 26,6% dos ganhos nacionais. Enquanto isso, metade da população tem de se contentar com menos de 1% das riquezas do país.

Metade da população mais o José, que não se contenta com nada, porque, sem lenço, sem documento, sem sobrenome, sem certidão, sem registro, sem CPF, sem passaporte, sem chance de voar de avião, sem compreender como um avião voa, sem carteira, sem emprego, sem trabalho, sem salário, sem dinheiro, sem crédito na praça, sem praça onde dormir, sem direitos, sem benefício, sem auxílio, sem bolsa, sem aposentadoria, sem estudo, sem escola, sem oportunidade, sem almoço, sem jantar, sem café, sem leite, sem pão, sem marmita, sem comida alguma, sem dentes, sem sal, sem saco, sem fôlego, sem apêndice, sem baço, sem um pedaço do fígado, sem um rim, sem plano odontológico, sem plano de saúde, sem saúde nos planos, sem saúvas, sem nem saber o que são saúvas, sem ter lido Macunaíma, sem livros, sem papel, sem caneta, sem lápis, sem borracha, sem pena, sem saber ler, sem escrever o próprio nome, sem escrever o nome que seja, sem roupas, sem sapatos, sem chinelos, sem agasalhos, sem coberta, sem lençol, sem colchão, sem transporte, sem destino, sem saber aonde ir, sem casa, sem banheiro, sem papel (nem esse), sem esgoto tratado, sem água encanada, sem água potável, sem sombra, sem água fresca, sem aguardente, sem terra, sem teto, sem chão, sem família, sem parentes, sem filhos, sem mulher, sem pais, sem paz, sem amigos, sem dignidade, sem cabelos, sem memória, sem infância, sem passado, sem futuro, sem perspectiva, sem fé, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, sem nunca ter ouvido falar de Drummond, sem voto, sem voz, sem vez, sem história, sem sentido, não tem nada com que se contentar.

Táscia Souza