Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Ímãs sem geladeira

Ímãs sem geladeira

A carne estava pela hora da morte, mas não era a peça de um quilo e meio de picanha bovina, um luxo que cometera e que custara boa parte de seu salário, o que mais lhe causava preocupação. 

Claro, a carne também, duplamente, porque, se estragasse, adeus dinheiro e adeus churrasco de um ano do filho, para o qual já tinha anunciado que convidaria toda a vizinhança, independente de pandemia.

Para isso, porém, já tinha pensado numa solução e deixado reservados no mercadinho da esquina uma caixa de isopor e um pacote de gelo, que lhe custariam mais uma partezinha não prevista do salário, mas o impediriam de perdê-lo quase inteiro.

O problema maior, quando o refrigerador começou a dar sinais de que ia pifar, era outro. Onde, afinal, colocaria seus ímãs de geladeira? 

Táscia Souza

Lágrima de estimação

Lágrima de estimação

Outras crianças tinham um cachorro. Ou um gatinho. O menino tinha uma lágrima. Era fiel companheira e estava sempre ao seu lado, ali à vista, no cantinho externo do olho direito, pronta para (es)correr e protegê-lo se preciso fosse. Não era o latido de um cão o que lhe anunciava o perigo, mas ela, que parecia crescer, eriçada, quando ele se sentia assustado; ou com dor; ou simplesmente um pouco triste. E se às vezes deixava que a levassem para passear, envolta em gaze ou algodão ou mesmo acarinhada na ponta do dedo de alguém, ela voltava depois, leal, espontânea, pronta para cair se ele um dia caísse também. 

Táscia Souza

Homófonos

Homófonos

No caderno de receitas, ela tinha o hábito de anotar o tempo de cosimento dos pratos, e a grafia estava certa. Meia hora para alinhavar os ingredientes. Uma hora e meia para drapear massas. Vinte minutos para embeber molhos, reduzindo-os feito tecido, para que uma pitada de sal se encaixasse com perfeição num dente de alho ou num grão já moído de pimenta-caiena. Quinze minutos para forrar louças. Na gaveta sob a pia, junto com talheres e conchas e escumadeiras, havia até uma agulha e um rolo de barbante, para dar ponto (literalmente mesmo) a cada preparo.

Já no quarto de costura, ela cozia, a máquina vermelha que fora da avó vertendo não roupas, mas temperos destinados a dar sabor ao próprio corpo.

Táscia Souza