Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Allium cepa

Allium cepa

Os olhos vermelhos e inchados a encararam úmidos através do espelho. Inspira — um esforço. Expira — uma tortura. Verbos ruidosos. Doloridos. Arfantes.

Dez glóbulos sublinguais e você vai ver que imediatamente começará a respirar melhor, fora a recomendação. Parecia mágica, mas era quase um truque. Como a cebola faz com que os olhos e o nariz ardam e escorram, é usada para tratar as condições que causam no organismo os mesmos sintomas: gripes, resfriados, rinites, sinusites, conjuntivites alérgicas, sim, mas também dores surpreendentes e invisíveis, como aquelas que faziam sofrer membros fantasmas após a amputação. 

Foi em busca desse último alívio que, arrancando o próprio reflexo da frente, abriu o armário do banheiro, agarrou o frasco de vidro e entornou na tampa as pequenas bolinhas brancas. Talvez aquela também fosse a cura para corações extirpados e amores ausentes: dissolvê-los feito açúcar sob a língua.

Táscia Souza

 

Sobrevida

Sobrevida

É porque a gente tem toda essa vida que ninguém conhece. E toda essa morte também. Saio do meu apartamento que, por ter final 06, fica no extremo do corredor e passo pelas cinco portas restantes sem que alguém por trás delas saiba que os pés que caminham ali, os tênis rangendo no piso frio, já chafurdaram no próprio sangue. Entro no elevador, que pode estar ocupado ou não, e faço — raras vezes — contato visual ou não com algum vizinho de um andar qualquer acima ou abaixo e, mesmo quando nossos olhos se encontram por um milissegundo, ele não sabe só de responder ao meu breve sorriso de bom-dia o porquê de ter um molar faltando do lado esquerdo da arcada inferior ou um pequeno trincado no canino superior direito. Cumprimento o porteiro e agradeço o recado de que o carteiro passou e aviso que pego a correspondência na volta, tudo sem que ele suponha que o nome no envelope, com meu endereço de final 06, não é o meu. Que é o nome de alguém que anda rangendo os passos pelos corredores, que entra em elevadores, que sorri bons-dias de dentes quebrados ou ausentes, que recebe correspondências, que chafurda no próprio sangue ou na própria merda, mas que há muito já deixou de existir.

Táscia Souza 

Abismo

Abismo

Bem antes, tinha essa rachadura no teto, você lembra? No apartamento antigo. Reta. Horizontal. Ortogonal à lateral da janela. Eu a vi pela primeira vez à noite, deitada na cama, antes de apagar a luz do abajur, e apertei seu braço numa breve aflição. Não tem perigo, você disse. Provavelmente é só na pintura. No máximo na massa corrida. Acreditei porque você me explicou que o problema é com as rachaduras diagonais, daquelas que vão da parte superior esquerda até a inferior direita (é assim mesmo ou tanto faz?), quando, mesmo por uma pequena fresta, a gente consegue ver o que há no vizinho, do lado de lá, assim como ele consegue nos ver. 

Fiquei obcecada por rachaduras diagonais. Um trincado no copo de vidro americano, transversal à borda, me dava a impressão de que fosse vazar não o café para o lado de fora, mas meus lábios para o lado de dentro, sugados pelo buraco negro com o qual a bebida quente se parecia toda vez que eu a olhava no contraluz. No asfalto recém-pavimentado da nossa rua antes de pedra, quando a chuva abriu a primeira cratera comprida que ia do nosso portão até a entrada da garagem do prédio cem metros à frente, no passeio contrário, os demais moradores reclamaram do serviço mal-feito e do descaso da prefeitura. Calada, meu cuidado era tentar passar o mais distante possível da abertura, embora meus olhos afoitos teimassem em se espichar ali para baixo, para o oposto do mundo, na tentativa de enxergar o fim de tudo, mas com medo de que o fim me enxergasse também.

Foi por isso que entrei em desespero quando a ranhura apareceu nesse pedaço de pele acima da boca, escavando um sulco quase imperceptível da lateral esquerda da columela (tive que pesquisar o nome dessa parte do nariz, senão não conseguiria explicar a você) até o cantinho dos lábios. Você disse que era impressão minha. Todas as pessoas para quem mostrei, fingindo não notar, disseram o mesmo porque: ah, você é nova demais para se preocupar com o tempo. Mas não é uma linha, você percebe? Não é expressão de nada. É uma maldita de uma rachadura diagonal que logo vai abrir uma fissura da largura de um punho pelo meu rosto inteiro, como essa que eu acabei de fazer no espelho. Só que, por ela, tudo o que vou ver do outro lado da minha cabeça é vazio. 

Táscia Souza