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Com todos os ites que se possam imaginar.

Sete ondas

Sete ondas

Estava escrito no manual de prosperidade que ela decorara ao longo de dezembro: “quando pula as sete ondas no mar, você invoca os poderes de Iemanjá para abrir caminhos para o próximo ano”. Foi com isso em mente que ela própria abriu caminho entre a rebentação e se posicionou, com a água um pouco acima da cintura, de frente para o horizonte, à espera do septeto que transformaria sua vida a partir da meia-noite. 

Na primeira, que suavemente levantou seus pés do fundo, pediu saúde, para si e para a família. Na segunda, um pouco mais alta — o que considerou uma sorte, se o tamanho da onda pudesse ser diretamente proporcional à realização do desejo —, invocou a promoção tão desejada no emprego. Terceira, quarta e quinta, porém, vieram tão rápidas que mal teve tempo de almejar paciência, sabedoria e uns quilos a menos antes que a sexta chegasse e ela suplicasse que a Rainha do Mar lhe enviasse toda a energia possível para encontrar um grande amor.

A energia veio, de fato, com força, quebrando em cima dela e a arrastando, não sem antes virá-la do avesso, até a faixa de areia. 

Ao contrário do plano, foi a sétima onda que a pulou, uma marola de espuma, enquanto o único desejo restante foi levantar com alguma dignidade dali.

Táscia Souza

Sem Natal

Sem Natal

Haviam sido tantos os aborrecimentos ao longo dos anos, tantas as frustrações, tantas as brigas de família, que ele decidiu cortar o Natal de sua vida. Primeiro soltou as renas, depois encostou o trenó bem no fundo da garagem, antes de doar as roupas para a caridade — em algum lugar do mundo elas certamente aqueceriam quem sentia frio — e aparar a barba bem rente à pele, para que ninguém o reconhecesse.

Saiu pelo mundo de férias, à procura de um mar gelado e um sol quente, porque de dezembros nevados já estava farto. Quando os encontrou, mal se deu tempo de providenciar uma hospedagem. Apenas se estirou numa cadeira de praia esquecida, óculos escuros nos olhos, pensando que aquele momento sem Natal era o melhor que poderia querer.

Na areia branca, porém, sob os coqueiros, pedaços de cartas garranchosas e incompletas endereçadas a si haviam sido largadas pelos meninos que vendiam toda sorte de produtos aos turistas: na certa porque sabiam ser inútil terminar de escrevê-las; na certa porque já haviam aprendido que desejar muito não bastava para que pedidos fossem atendidos; na certa porque tinham certeza de que ele se aposentara há tempos, antes mesmo de se aposentar.

Táscia Souza

Cumpra-se.

Cumpra-se.

Na repartição pública, depois de cinco horas de espera, cinco funcionários públicos entregaram-lhe cinco formulários diferentes, um para cada item que ele precisava providenciar para que o dia planejado, dali a cinco dias, acontecesse:

— Este é para ser preenchido e levado até a Companhia de Polícia Militar, para que deem sua autorização e garantam o policiamento.

— Este é para ser preenchido e levado até o Batalhão do Corpo de Bombeiros, para que deem sua autorização e garantam o protocolo de risco mínimo.

— Este é para ser preenchido e levado até o Departamento Municipal de Limpeza Urbana, para que deem sua autorização e garantam o recolhimento de resíduos.

— Este é para ser preenchido e levado até a Sociedade Pró-Melhoramentos do Bairro, para que deem sua autorização e garantam o interesse da comunidade na realização do dia planejado.

— Este é para ser preenchido e levado até o Setor de Informação da Prefeitura, para que eles encaminhem às secretarias municipais responsáveis, que deverão dar sua autorização e garantir que o dia planejado possa efetivamente ser realizado.

Havia, contudo, dois outros formulários (eram mais papéis do que dias para providenciá-los), cujas letras miúdas ninguém se deu ao trabalho de lhe explicar — até porque, na repartição pública, provavelmente ninguém saberia. Um, percebeu, passando a lupa no texto quase indecifrável, deveria ser preenchido e levado até a Associação de Santos Meteorológicos, para que dessem sua autorização e cada qual garantisse aquilo que lhe competia: São Pedro que não choveria, Santa Bárbara que não interferiria e Santa Clara que, a despeito de todas as previsões das Repartições Públicas do Tempo, em algum momento, o céu se abriria em azul e raios de sol.  

O outro era um contrato, que deveria ser assinado e ter firma reconhecida no Cartório dos Momentos Certos e Oportunos, assegurando que, quando o dia planejado deixasse de ser futuro e se tornasse presente, ele de fato seria um presente para todos os que estivessem presentes ali. Era um contrato de alto risco. Era um desses contratos que, caso descumprido, incorreria em multa de milhares de frustrações acrescidas de centenas de tristezas.

Quando a fiscalização chegou, no dia planejado, os fiscais folhearam os formulários preenchidos e carimbados, verificaram a assinatura trêmula de receio ao fim do contrato, observaram os sorrisos presentes dos presentes. E foram embora satisfeitos, deixando o dia planejado seguir: sob o policiamento, sob os riscos mínimos, sob os resíduos a serem recolhidos, sob todos os interesses, sob as autorizações, sob o céu azul.

Táscia Souza