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Com todos os ites que se possam imaginar.

Petricor

Petricor

Nunca imaginara que existia um nome para isso, mas lá estava: palavra recém-descoberta, colorida, líquido que corre na veia dos deuses e cai na pedra, um significado inteiro para seu aroma preferido, aquele que sobe do solo depois da chuva.

Foi exatamente o cheiro que sentiu quando a gota escorreu do olho e pingou no peito.

Táscia Souza

 

 

 

Teoria

Teoria

Há um piscar de olhos em que tudo muda. Em termos puramente científicos, o olho humano pisca muito mais rapidamente do que o transcorrer de um segundo e é perfeitamente possível piscar várias vezes em um único sessenta avo de minuto. Tendo a achar graça, mas é fato que calcularam — talvez na falta do que fazer com o próprio tempo — que, em média, o olho humano leva de trezentos a quatrocentos milissegundos para piscar uma vez, o que equivale a cerca de três a quatro décimos de segundo.

Nada disso me interessa, a não ser a constatação de que entre o cerrar de pálpebras e seu reabrir, ventos varrem uma cidade, tempestades desabam do céu, paisagens se transformam em pó, universos inteiros desaparecem e ressurgem na forma de outros mundos, outras realidades, outros pensamentos. Transubstanciação de matéria em desordem, como aquela que os matemáticos incluem no rol das extremas sensibilidades às menores perturbações, em que pequenas alterações na situação inicial provocam modificações dramáticas na evolução do sistema.

Traduzindo: cílios superiores e inferiores se roçam, inteiros asas de borboleta e, num repente, da pequena energia desse movimento, tem-se o Caos.

Táscia Souza

Engolido

Engolido

O fato de ela chorar muito — de dor, de tristeza, de raiva, de desespero, de emoção, de alegria — costumava incomodar as pessoas. Na infância, perguntavam por que estava chorando se o machucado no joelho nem doera (e ela, por sua vez, questionava-se como é que podiam supor isso se não estavam na sua pele esfolada). Na adolescência, diziam que precisava ser forte e que não podia demonstrar fraqueza (como se fosse esse, e não lágrima, o nome daquilo que escorria de seus olhos). Na juventude, debochavam dizendo que ela chorava por tudo (como se isso diminuísse, por si só, a intensidade de seus sentimentos).

Quando decidiu que ninguém mais a veria chorar, passou a esconder. Num velho armário de casa, cuja chave só ela tinha, começou a guardar os produtos daqueles prantos sofreados. Pequenos frascos foram enchendo as prateleiras, cada uma etiquetada com o estado correspondente: dor, tristeza, raiva, desespero, emoção, alegria. Vidrinhos e mais vidrinhos de lágrimas, datados e rotulados com cada instante em que, em vez de derramá-las, colhia-as com o conta-gotas e as depositava ali.

Adulta, no dia em que teve o coração partido, por um segundo pensou que não seria capaz de conter; que nenhuma garrafa, por mais litros que armazenasse, teria o tamanho suficiente para proteger da vista alheia o quanto queria chorar. Lembrou-se então dos adultos, todos na idade que ela acabara de atingir, ordenando-lhe, quando pequena, que engolisse o choro. Destrancou o armário secreto, então, e bebeu-os, um por um.

Táscia Souza