Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Achados e perdidos

Achados e perdidos

Todos os dias alguém aparecia à procura de algo. E o velho senhor recolhia tudo. Brinquedos esquecidos na caixa de areia da praça do bairro. Molhos de chaves deixadas desavisadamente no balcão da padaria. Carteiras caídas dos bolsos de passageiros dos ônibus lotados. Documentos encontrados nas sarjetas.

Mas as prateleiras da pequena repartição também estavam abarrotadas de coisas que ninguém procurava. Desejos não realizados. Esperanças frustradas. Amores desfeitos. Sonhos vencidos. Corações despedaçados. Identidades perdidas — não essas de papel plastificado, com um número a ser decorado, mas aquelas feitas de pensamentos e lembranças — de quem, num repente, não sabia mais quem era.

Táscia Souza

Código penal

Código penal

O artigo era o 157. A pena, reclusão de quatro a dez anos, além de multa. Foi por isso que foi enquadrada.

No começo o crime não era esse. Ela apenas ouvia histórias dos outros na mesa de bar e furtava-as para si, sem alarde. Se tivesse sido pega por isso, de acordo com o artigo 155, a punição teria sido outra. Um ano de reclusão; quatro, no máximo, se o furto tivesse sido qualificado, depois da meia-noite, quando o grau etílico do contador embotasse a percepção das palavras que saíam de sua boca para os ouvidos ladrões à espreita.

Aquilo que passou a fazer com o tempo, porém, não era furto. Era roubo. Era se apossar da história alheia mediante grave ameaça ou violência. Era escrevê-la para, uma vez publicada, ver reduzido o outro à impossibilidade de resistência.

Táscia Souza

Legítima defesa

Legítima defesa

Ele era engenheiro. O que significava que tivera aulas de cálculo o suficiente para saber determinar a trajetória parabólica de um projétil lançado da beira de um penhasco sobre um terreno plano e horizontal, contanto que lhe informassem as dezenas de metros percorridos pelo projétil desde o instante de seu lançamento e a altura máxima acima do terreno atingida por ele.

O outro dado necessário para a operação — em qual distância acima do topo do despenhadeiro estava o projétil quando foi lançado — ele tinha: um metro e oito centímetros, exatamente a altura dos braços do filho mais novo ligeiramente elevados na direção dos ombros e colocados diante dos olhos, a segurar a escopeta que o pai fazia questão de manter. Dizia: pra gente se defender.

O filho se defendeu. Dele.

Táscia Souza