Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Engolido

Engolido

O fato de ela chorar muito — de dor, de tristeza, de raiva, de desespero, de emoção, de alegria — costumava incomodar as pessoas. Na infância, perguntavam por que estava chorando se o machucado no joelho nem doera (e ela, por sua vez, questionava-se como é que podiam supor isso se não estavam na sua pele esfolada). Na adolescência, diziam que precisava ser forte e que não podia demonstrar fraqueza (como se fosse esse, e não lágrima, o nome daquilo que escorria de seus olhos). Na juventude, debochavam dizendo que ela chorava por tudo (como se isso diminuísse, por si só, a intensidade de seus sentimentos).

Quando decidiu que ninguém mais a veria chorar, passou a esconder. Num velho armário de casa, cuja chave só ela tinha, começou a guardar os produtos daqueles prantos sofreados. Pequenos frascos foram enchendo as prateleiras, cada uma etiquetada com o estado correspondente: dor, tristeza, raiva, desespero, emoção, alegria. Vidrinhos e mais vidrinhos de lágrimas, datados e rotulados com cada instante em que, em vez de derramá-las, colhia-as com o conta-gotas e as depositava ali.

Adulta, no dia em que teve o coração partido, por um segundo pensou que não seria capaz de conter; que nenhuma garrafa, por mais litros que armazenasse, teria o tamanho suficiente para proteger da vista alheia o quanto queria chorar. Lembrou-se então dos adultos, todos na idade que ela acabara de atingir, ordenando-lhe, quando pequena, que engolisse o choro. Destrancou o armário secreto, então, e bebeu-os, um por um.

Táscia Souza

Sonhos

Sonhos

Aos cinco anos, seu sonho era que os primos maiores a deixassem participar pra valer do pique-esconde.

Aos dez, era ser um dos Power Rangers e não apenas a princesa na brincadeira.

Aos quinze, era passar em primeiro lugar no vestibular, que faria dali a dois anos.

Aos vinte, era se formar logo na faculdade e começar a trabalhar num ótimo emprego.

Aos vinte e cinco, era ganhar um salário alto e ser bem-sucedida na carreira

Aos trinta, era voltar a ser café com leite.

Táscia Souza

Ao pé do ouvido

Ao pé do ouvido

Ela soltou um suspiro audível quando o sentiu entrar na cavidade úmida, a ponta macia roçando um ponto de sensibilidade aflorada bem lá no fundo. Os pelos da nuca se arrepiaram enquanto seus dedos o apertaram mais, intensificando o movimento. O vai e vem rodopiante, que a fazia fechar os olhos e encostar a testa no azulejo, durou alguns minutos, até que, com um último gemido, retirou-o de si e atirou a haste azul, agora com o algodão branco um pouco sujo de cera, na lixeira.

Táscia Souza