Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Caminho das águas

Caminho das águas

A biblioteca não catalogava os livros por áreas, separando volumes nacionais de estrangeiros ou prosa de poesia. Também não catalogava por títulos. Nem pelos sobrenomes dos autores, dispostos em ordem alfabética.

Aquela biblioteca catalogava livros por lágrimas. Numa estante se encontravam os que não provocavam choro algum (a não ser que fosse de raiva pelo tempo perdido). Em outra, do lado oposto, estavam dispostos aqueles que faziam derramar corredeiras entrecortadas de soluços. Entre as duas, uma progressão aritmética de prateleiras, páginas e prantos.

Mas havia ainda o lugar de destaque, bem no meio do salão principal, espécie de púlpito no qual a bibliotecária expunha a recomendação da vez: a última história que tivesse feito escorrer uma única gota, lenta e cheia, por seu rosto, ao mesmo tempo que lhe arrancasse um sorriso.

Táscia Souza

Fauna

Fauna

Quando a moça que engolia sapos e o rapaz acostumado a ouvir cobras e lagartos se conheceram, pensaram que jamais seriam capazes de dividir um jantar ou uma conversa. As refeições dela eram todas anfíbias, dos pequenos girinos cotidianos até grandes cururus profissionais, pessoais, emocionais, daqueles que inflam na boca e secretam veneno garganta abaixo. Já ele sequer comia, indigesto demais das coisas reptilianas que escutava, desde diminutas osgas domésticas até enormes serpentes que rastejavam pelo canal auditivo, enrolavam-se ao redor de seus pensamentos e apertavam, até sufocar.

Mas então eles se encontraram. E ela sentiu um gosto suave na língua, seguido de um frio gostoso no estômago, ao passo que ele experimentou o som melódico que entrava nos ouvidos com o prazer de quem percebe o silêncio. Dali em diante os diálogos passaram a ser passarinhos e o alimento, borboletas. 

Táscia Souza

Ponto de referência

Ponto de referência

para Márcia e Lúcio

Ele conhecia as cidades pelas quais passava por seus botecos preferidos. Em Três Moinhos, o Moinho d’Água, que servia a mais famosa porção de angu frito, feito com fubá da roça, da região. Em Santo Antônio da Saudade, o Saudade Danada, de cuja cachaça dourada sentia exatamente o que o nome do estabelecimento previa. Em Caldas Quentes, lembrava que queimara a língua duplamente com a mistura de aguardente com caldo de feijão.

Numa viagem, porém, o carro achou de estragar bem na entrada de um vilarejo onde não havia um botequim sequer. Restaurante tinha. Apesar do tamanho diminuto da vila, havia até um gastrobar, como estava na moda nos grandes centros. Mas boteco, que era o que interessava, não. Nenhuma mesa ostentando uma marca popular de cerveja, nenhuma estufa com carne ou batata assada, nenhum comerciante atrás do balcão com um palito de dentes na boca e a caneta atrás da orelha.

Frustrado, enquanto aguardava o único mecânico do lugar sair da missa para avaliar seu veículo, entrou na igreja, lotada, bem no meio da comunhão. O conserto não demorou muito, mas a estadia rápida ficou marcada pela melhor porção de hóstia com vinho de padre que experimentou.

Táscia Souza