Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Suspiros

Suspiros

Quando o sono chegava, mesmo sem avisar antes, tinha aquele instante de cochilo que era o melhor momento do dia. Mais que isso. Ou menos que isso: não era o cochilo, mas o instante que precede o cochilo e sucede a vigília. O átimo da respiração mais profunda que ainda não acordou quem vai porque não sabe que foi. E quando respira — pelo volume, som ou relaxamento —, volta. O melhor momento do dia era o instante parado no ar.

Aprendeu a sentir, esperando sorrateiro, desdenhando quase, a chegada do acontecimento. O coração oscilava ente a sístole e a diástole, com muita força e pouco tempo, uma pausa a bombear. Vinha — ou ia — na leitura, no filme, na aula, com o corpo esticado no sofá e ouvindo música. Na cama, desde cedo nos feriados. Até no banho, mas arriscado insistir.

Insistia, o dia todo insistia, onde pudesse e estivesse insistia, cada vez mais tinha aqueles suspiros ou a suspensão de tudo. Vinha de um momento e iniciava outro. Sucessivamente por todos os tempos do mundo, em eternas pequenas mortes.

Gustavo Burla

Me adota aí!

Me adota aí!

Seguindo o bem-sucedido exemplo da campanha de adoção desenvolvida pelo canil municipal, a  biblioteca da cidade também decidiu fazer sua parte em prol de encontrar novas prateleiras para escritores abandonados. Nas redes sociais, uma série de postagens foi feita com o retratinho de cada autor, acompanhado de um chamado: 

“Oi, eu sou a Jane! Sou uma menina inglesa e tenho só 246 aninhos. Assim como minhas personagens, procuro uma casa pra chamar de minha. Me adota?”.

Ou então:

“Oi, eu sou o Joaquim Maria! Tenho quase dois séculos e escrevo livros de porte médio, mas conteúdo elevadíssimo. Sou muito irônico! Me leva pra sua estante?”.

No rol de pobrezinhos à espera de uma leitura, há escritores para todos os gostos: astutos criadores de romances policiais para vigiar sua casa, bravos elaboradores de contos de terror para amedrontar os pensamentos invasores, carinhosos e fofinhos autores de histórias de amor para você nunca mais se sentir só.

Vamos ser amigos?

Táscia Souza

Sommelier de fim do mundo

Sommelier de fim do mundo

Até hoje não experimentei nada como a safra de 2000. Uma produção tradicional, feita com toda a expertise finicultora medieval europeia, uma profecia envelhecida durante centenas de anos… Teve sabor diferenciado, convenhamos, com os pânicos acentuados pela leve gaseificação natural trazida pela perspectiva do bug do milênio. 

Mas isso não significa que a safra de 2012 tenha sido ruim, viu? De modo algum. Apesar de ter sido uma crença escatalógica mais jovem, com algumas centenas de anos menos, foi bem arrojada, demonstrando o potencial dos produtores mesoamericanos na concepção do apocalipse.

Essa safra 20/21 é que não tem condições, né? Colheita muito precoce, pouquíssimo tempo de maturação e de fermentação, muita dificuldade de arejamento, de colocar para respirar… Esse conjunto de características faz com que cada gole desse fim do mundo desça rascante e deixe um sabor muito acre na língua, que perdura por muitos meses, quiçá anos. Não recomendo.

Táscia Souza