Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Epidemia

Epidemia

para Gabi

Ela via o vento. Era mais do que observar o balanço dos galhos e das folhas das árvores, ou contemplar o tremular das roupas coloridas nos varais vizinhos, ou assistir a poeira desenhar espirais no chão de pedras num balé de cascalho e areia, ou se impressionar com a forma como os vestidos das outras moças levitavam ou se enrolavam em suas coxas, para delírio dos garotos do campo de futebol da praça. Ela o enxergava, a ele, pelas frestas da veneziana fechada, o que significa que não mirava os sintomas, mas diretamente a causa: o próprio ar transformado numa massa que vinha feito brisa, para em seguida se mover de maneira mais e mais ameaçadora, invadindo com assobios os vãos dos basculantes e das portas.

Foi assim que soube que o surto que tanto a amedrontava nos livros chegara ao vilarejo. Bastava um vento — aquele vento — pelas costas e o atingido era contaminado pela nova doença, um ataque poético que, violento, fazia a vítima gritar versos e atirar rimas a quem passasse. Um a um foram caindo todos os habitantes do povoado: o goleiro do time da molecada queimado pela bola que sua própria língua tornou sol; a jovem do vestido mais bonito derrubada pelas estrofes enrodilhadas às pernas; o padre confuso substituindo a homilia de domingo por um soneto. Até a benzedeira octogenária, acostumada a livrar o arraial de quaisquer males, de maus-olhados a espinhelas caídas, quebrantou-se ao vento virado da inspiração.

Foi com pavor, portanto, que a moça avistou o exato instante em que a ventania, depois de varrer todas as casas e todos os terreiros, deixando um rastro de caos e poesia, virou-se para a veneziana atrás da qual ela via tudo. A agressividade do vendaval sacudiu a estrutura de madeira e vidro, ensurdecendo-a. O ar frio penetrou pelas gretas das ripas, apossando-se de suas narinas, sua garganta, e fazendo-a sufocar e tossir e cuspir as primeiras sílabas métricas que indicavam o contágio. Quase sem forças, apanhou uma caneta na gaveta e se pôs a grafá-las, furiosamente, nos braços, nas pernas e no peito.

Quando o turbilhão conseguiu arrancar as dobradiças e escancarar a janela, tragou-a céu afora, noite adentro. Quem viu seu corpo flutuar no ar, envolto pela camisola branca, disse que parecia uma folha de papel.

Táscia Souza

Sinal

Sinal

A mulher colecionava sinos. Mais do que sinos, na verdade: colecionava vontades de tocá-los. Por isso comprava-os. Por isso pedia-os de presente. Por isso invadia campanários de igrejas em cidades do interior. Por isso um dia, numa pequena estação de uma vila qualquer, dependurou-se na sineta do relógio e obrigou todos os passageiros a correr antes da hora para dentro do trem.

Foi abordada pelos guardas, é claro. Questionada. Interrogada. Qual o objetivo de criar o caos numa pequena estação de uma vila qualquer? Com vergonha de confessar o ímpeto, justificou apenas que fizera um bem aos passageiros: era melhor ter um trem para dentro do qual correr do que não ter.

Táscia Souza

 

O filho

O filho

Meses antes haviam começado os enjoos. À mesma hora, toda manhã, quando se sentava na ponta do sofá, perto da porta da varanda, para ler. As letras se embaralhavam e vinha a vertigem, quase sempre seguida de uma azia que queimava do ponto mais baixo do tórax até a garganta, provocada por cada frase mais extensa da prosa da vez. 

Não chegou, porém, a fazer nenhum exame. Não foi preciso. Teve certeza da gestação quando veio o desejo. Forte. Súbito. Incontrolável. Uma vontade insana de comer poesia. Era madrugada. Afora alguns bares resistentes e farmácias necessárias, a cidade dormia. Mais de meio milhão de habitantes e nenhuma livraria ou biblioteca 24 horas aberta.

No apartamento vazio, vasculhou armários e estantes, geladeira e despensa, sem encontrar sequer um Neruda ou Drummond que tivesse sobrado, congelado, vencido, esquecido. Cozinho eu mesma então, pensou, mas a fome era tanta que só fez lambuzar os dedos de grafite e de tinta, lambendo o que ficava nas pontas, por baixo das unhas, sal das palmas que suavam, dos olhos que suavam por dentro e pingavam na página pautada de um velho caderno.

Grávida de desejo insatisfeito, pariu verso. 

Táscia Souza