Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Sem voz

Sem voz

Você se lembra exatamente do dia em que perdeu a voz. Não pode dizê-lo, obviamente, porque a perdeu. Gostaria de gritar para que todos ouvissem: Perdi a voz no dia 5 de fevereiro de 97 e, embora fosse verão, estava frio. Mas não pode, porque perdeu a voz. E, se não há voz, não existe eu nesta história. Só você.

Tudo bem, você pode existir mesmo sem voz. Pode se lembrar em silêncio. E se lembra. Foi no dia 5 de fevereiro de 97 e, embora fosse verão, estava frio. Muito. Talvez porque só fosse verão na sua cabeça ainda acostumada aos horários de outra parte do mundo. Você atravessara o oceano, cruzara os dois trópicos, mas ainda se prendia às percepções que aprendera na infância como um menino que se agarra ao cobertor para não sair da cama. Fevereiro é verão para você e nenhum frio do universo conseguiria convencê-lo do contrário. Ou a largar o velho cobertor do costume que protege do desconhecido.

Acontece que, naquele 5 de fevereiro, no seu verão imaginário-emocional, a coberta foi arrancada e até nevava. Você nunca tinha visto neve e, por isso, olhava boquiaberto. Aquele deveria ter sido um primeiro sinal, o fato de você não ter conseguido falar nada, nem um sussurro, nem um suspiro, somente um olhar embasbacado. Deveria, mas não foi. Naquele momento, ao contrário, pensando apenas em por que diabos está nevando enquanto aqui ainda é verão, veja você, você sequer percebeu a voz congelando e o eu derretendo na mesma proporção.

Era manhã e aquela neve parecia durar uma noite e um dia. Você caminhou por aquelas ruas pela primeira vez, suas primeiras ruas, a caminho da casa que, você esperava, logo fosse chamar de casa, e viu os primeiros carros e ouviu as primeiras buzinas e sentiu as primeiras — muitas — pessoas caminharem apressadas, e nem eram bem pessoas, só um amontoado sem rosto de blusas, casacos, luvas, gorros, cachecóis. E, como essas pessoas não falaram com você (sinal número dois), você não sentiu necessidade de falar também.

Quando teve fome, parou, apontou, pegou, comeu, pagou o preço que estava escrito na plaqueta no balcão e sequer respondeu ao bom-dia, boa-tarde, boa-noite (sabia lá você que horas eram naquele dia tão escuro!) que tampouco alguém te deu. Talvez essas pessoas de nylon e lã não tenham voz, você pensou, na maior ironia de todas, mesmo que você ainda não soubesse disso.

Muitas foram as vezes que você tentou se recordar do que aconteceu em seguida. Tem consciência de que andou mais um pouco, de que sentiu cansaço, um pouco de solidão, um leve desespero porque a tal casa não chegava nunca, uma vontade insana de entrar num dos carros amarelos que eram muitos e que deveriam parar, mas que também não paravam nunca, mesmo que você quase tenha deslocado seu braço de tanto gesticular para eles. Mas, tudo certo, a cidade era diferente, os carros provavelmente não tinham sido treinados para compreender a linguagem dos gestos. Você não gritou, não bufou, não xingou putaquepariuquefriodaporra, não percebeu que esse era o sinal número três. Você sabe disso hoje, mas não soube quando você ainda tinha chances de ser um eu.

Assim, como não era mais eu, só um você manipulável, marionete do destino, deixou que a multidão de lã e nylon te arrastasse escadas abaixo, metrô acima, trilhos e trilhos e trilhos à frente. Você não sabia onde saltar, porém, e aquela voz que saía dos alto-falantes a cada estação não falava nenhuma língua que você conhecesse. A língua daquele alto-falante arrancou definitivamente a sua.

Táscia Souza

Congresso Internacional das Paixões Impossíveis

Congresso Internacional das Paixões Impossíveis

No Congresso Internacional das Paixões Impossíveis, pesquisadores de diversas áreas se reuniram para apresentar suas teorias sobre o tema:

o matemático afirmou que é um número complexo, sendo que, na fórmula a + bi, a e b são pessoas reais, mas b, multiplicado pelo sentimento irrealizável como a raiz quadrada de -1, passa a ser o elo imaginário da relação;

o cosmólogo argumentou ser o multiverso, o conjunto de universos paralelos que os apaixonados criam em suas idealizações a fim de possibilitar a concretização de sua história para além da realidade física onde ela não se realiza, dimensões que passam a abarcar a totalidade de seu espaço, de seus corpos, de sua energia;

o músico chamou de anacruse, as notas que precedem o primeiro tempo forte do compasso inicial de uma melodia, o sentimento que toca antes do próprio tempo;

o escritor, por sua vez, calou-se, por considerar desnecessária qualquer poesia. 

Táscia Souza

O homem do chapéu

O homem do chapéu

Todos os dias eu o via, à mesma hora. Eu sabia pelo toque do sino da igreja. Contava as badaladas enquanto me escondia atrás da janela fechada, apenas espiando seus sapatos pela fresta da veneziana. Mas às vezes eu não resistia e a abria um pouco só para tentar enxergar seus olhos encobertos pela sombra do chapéu. No dia em que o sino não tocou, perdi a hora. E só escancarei a janela a tempo de ver o chapéu caído do chão. 

Tempo. Estranho como mesmo agora, sabendo de tudo, o emprego dessa palavra ainda soa levianamente natural. Tempo!, foi o que gritou um dos meninos da praça, inventando uma regra que até eu sabia inexistente no futebol para parar o jogo e apanhar o adereço de feltro. Ele o viu ao mesmo tempo que eu: o chapéu repentinamente sem dono, sem olhos sombreados, sem corpo metido num terno de linho cinzento. Meus braços se arrepiaram e eu soube ali, naquele instante, que não fora só o jogo que tinha parado. O que tinha estancado era o próprio tempo.

Em Santo Antônio da Saudade, contudo, minha cisma virou coisa de gente sem nada para fazer. Aquela lá vivia espiando o homem por trás da janela, suspirando por ele. Mulher sem homem é assim mesmo, sobe pra cabeça. Ela deve tá é possuída, o padre tem que tomar uma providência. Olhavam-me por entre as cortinas como se, em mim, a carência da mágica casamenteira do padroeiro da cidade exacerbasse o sentimento que a segunda parte de seu nome evocava. Isso é falta, sentenciavam intransitivos, silenciando indiretamente o objeto da ânsia que imaginavam borbulhar no meu baixo ventre, nostalgia de algo que nunca tive.

É claro que, em meio às fofocas, para os outros a vida continuou passando. Ou fingindo passar. Ninguém percebia a igualdade medíocre de todos os dias, no seu dorme-e-acorda, come-e-descome, entra-e-sai, seja do que for. O sino da igreja continuava calado desde o sumiço do homem do chapéu e nem isso alguém percebia, mesmo o padre de todas as providências. Porque as badaladas que ditavam o ritmo monótono de suas vidas amenas tocavam dentro de suas próprias cabeças. 

Não sei quanto se passou. Não foram dias nem anos, porque não havia porque contá-los se pareciam idênticos. Sei só do impulso que me impeliu a abrir a porta — eu, que passara uma vida mal abrindo a janela, a não ser no fatídico momento — e correr em direção à igreja. A solução era o sino, eu sabia. É preciso consertar o sino!

Descalça, de camisola, galguei os degraus até a torre e me dependurei na corda. Nem me dei conta de que não havia badalo. Só balancei, balancei, balancei, na expectativa de que o som inexistente — aquele som que, eu percebia então, também só tocava dentro da minha cabeça — trouxesse de volta o homem. E, com ele, meu próprio tempo perdido. 

Quando ele finalmente veio, meu corpo, ao contrário do chapéu, fez barulho ao cair. 

Táscia Souza