Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Música interrompida

Música interrompida

É por causa do meu nome que não sou musicista. Não por qualquer problema leve de processamento auditivo que na infância me impedisse de diferenciar F de V (esse, na verdade, era meu irmão) e muito menos Dó de Si (embora dó de mim nunca tenha estado em falta). Também não porque meus dedos não se abriam o suficiente para saltar entre teclas longínquas no piano ou executar acordes que nem precisavam ser tão mirabolantes assim no braço do violão. Tampouco por não conseguir cantar minimamente afinada, sempre deixando, em vez disso, a voz vagar ali pelos semitons. Nem por não entender como essa palavrinha tão pequena, esse monossilábico tom, pode classificar, ao mesmo tempo, cores, sons e, às vezes, até pessoas, cheias de suas próprias cores e sons. 

É exclusivamente por causa do meu nome. 

Ou, mais precisamente, por essa primeira letrinha na palavra mais importante da minha certidão de nascimento (e que não é, obviamente, a conjugação em terceira pessoa do singular do verbo nascer, porque se nascer fosse de fato importante a gente não morreria). É por causa do meu nome e de sua primeira letra, esta que me deixou tantas vezes por último em tantas listas, como no dia do teste para o conservatório municipal, quando todas as crianças foram entrando e eu fiquei sozinha numa sala vazia, sem minha mãe nem ninguém, à espera, pelo que pareceram horas e horas e horas de prováveis dez intermináveis minutos. 

Quando a professora de música enfim chamou meu nome, pronunciando aquela primeira letra com o estalo de língua característico, eu já chorava em silêncio. 

Táscia Souza

Batidinhas

Batidinhas

Ela ainda era menina quando descobriu que partezinhas de seu coração batiam em todos os lugares. Se corresse muito durante a brincadeira — como naquele momento em que deixava o esconderijo sob a cama e desabalava-se desesperada para bater as mãos no pique, tentando salvar-se antes de ser pega —, sentia o pedaço maior esmurrar mais forte o peito, enquanto uma outra porção deslocava-se até a garganta e se punha a palpitar ali, em pleno pescoço, quase arrebentando a pele mais frágil. Às vezes, se ficasse tempo demais ao sol, ou no mar, ou sem comer, ou uma combinação de todas essas três coisas (o que era mais comum naqueles dias de férias e praia), bastava chegar a noite para que uma fatiazinha de coração latejasse nas laterais da testa, bem nas têmporas, cujo nome ela só conheceria bem depois de conhecer a dor. Se topasse com o dedinho do pé na quina da mesa da cozinha, despertava o fragmento de coração que morava ali, na região mais baixa de seu corpo. E se pousasse o fura-bolo direito sobre o pulso esquerdo, os dois bocadinhos saltitavam juntos, um por dentro da veia azulada do braço e o outro bem na pontinha do dedo. 

Eram tantas lasquinhas de pulsação que percebia, a cada dia uma descoberta, que ela achava que era isso que os adultos queriam dizer quando falavam de coração partido. 

Táscia Souza

Receita de bolo no estômago

Receita de bolo no estômago

Ingredientes:

  • 3 xícaras (chá) de ansiedade
  • 200 g de apreensão em temperatura ambiente
  • 2 xícaras (chá) de sensação de solidão
  • 4 dúvidas (separe as claras)
  • 1 xícara (chá) de leite derramado
  • 1 lata chutada com água, sal e tudo
  • 1 pitada de drama
  • 1 colher (sopa) de paranoia para fermentar

Modo de preparo:

  • Preaqueça o cérebro a 210º C (temperatura média), até os pensamentos começarem a borbulhar.
  • Unte duas forminhas redondas, com o diâmetro de seus olhos, espalhando com os dedos uma camada fina e uniforme de água e sal. 
  • Corte um disco de papel de Kleenex e pressione com os dedos para colar o papel na superfície untada. 
  • Na boca, misture a ansiedade com o drama. Reserve, sem falar nada. 
  • No peito, bata a apreensão até que triplique de volume (se conseguir, acelere os batimentos cardíacos; isso deixará a massa mais firme). Aumente mais a velocidade das batidas e adicione a sensação de solidão aos poucos. Bata por cerca de 5 minutos até seu rosto ficar com uma aparência pálida. 
  • Junte as dúvidas, uma a uma, batendo os dentes de nervoso para misturar entre cada adição. Diminua a velocidade do raciocínio lógico e adicione a mistura reservada de apreensão e drama, alternando com o leite derramado. A cada adição, pense o suficiente apenas para misturar, mas sem chegar a conclusões demais. Por último, misture a paranoia delicadamente para fermentar. 
  • Engula a massa com dificuldade, sentindo-a apertar a garganta. Deixe o embrulho descer até o estômago preaquecido e asse, em gastrite, por 30 minutos. Diminua a temperatura para 180º C (temperatura baixa) e deixe assar por mais 50 minutos (é importante diminuir a temperatura da gastrite para evitar que se crie uma úlcera por fora e não cozinhe no centro). 
  • Sirva quente. 

Táscia Souza