Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Mofo

Mofo

Alô, boa tarde. Não, tudo bem não tá não. Tô ligando pra registrar uma reclamação. Sim, por gentileza. É que eu contratei um depósito de vocês pra deixar guardados alguns itens dos quais eu não ia precisar no fim de ano, mas cheguei agora pra buscar e eles estão em péssimo estado de conservação. Como assim pergunto eu. Me disseram que a sala era à prova de umidade, mas tá tudo mofado. O senhor tá me chamando de mentirosa? Impossível porque não é o senhor que tá vendo a colônia de fungo cobrindo tudo. Tem bolor nas peles, nos pelos. O senhor sabe o que é bolor, não sabe? Pois é. E um deles está com a parte de cima inteira molhada! Pode até não entrar água, mas vocês não tomam providência com a que sai, né? É lágrima, é óbvio. Como assim pele e pelo de quê? Dos meus amigos. Quem não tá entendendo sou eu. Tô falando dos amigos que eu deixei depositados enquanto passava umas semanas sozinha. Tem uns dois parentes também, mas esses são o de menos, já tavam um pouco deteriorados mesmo. Mas eu contrato um serviço pra poder ficar uns diazinhos sem dar atenção e vocês deixam mofar minhas amizades?

Táscia Souza

Noites de Natal

Noites de Natal

Seu nome verdadeiro (mas isso só descobrimos bem depois) era Natanael. Todos, sem exceção, até então o chamavam de Natal. Passava sempre no mesmo horário, perto da meia-noite, carregando um saco de polipropileno cheio que parecia desproporcionalmente grande para o corpo magro. Não era um saco vermelho. Era um saco de ráfia branca encardido, quase tanto quanto o rosto encovado, um pouco menos que os dentes que tinham sobrado na boca. Às vezes oferecia rosas que alguma floricultura descartara ao fechar as portas no entardecer; alguns clientes compravam, a maioria não. Noutras trocava um pedido de desculpas e um muito obrigado por uma moeda ou um resto de petisco, e saía no prejuízo pelo tanto que valia, sem ser devidamente recompensada, aquela boa educação. Na maior parte das noites, porém, limitava-se a recolher das mesas postas na calçada — e a fazer tilintar no fundo do saco — as latas vazias deixadas para trás. Não era para vender para a reciclagem, contou-nos um dia, enquanto nos dividíamos entre a pouca atenção e a muita cerveja. Era para construir o robô gigante que o filho tinha pedido havia mais de um ano e que ele prometera, com olhos molhados e um sorriso de todos os dentes restantes, conseguir.

Ali, naqueles bares do Centro, toda noite era de Natal.

Táscia Souza

Closet

Closet

Melhores amigas compartilhavam o guarda-roupa; a minha e eu, o dicionário. Se queríamos parecer diferentes, ou mais bonitas, ou mais interessantes, ou se sentíssemos um ímpeto profundo de impressionar alguém, corríamos até o armário alheio, às vezes pedindo, outras nem isso, e tomávamos emprestadas palavras. Adjetivos eram nossas peças favoritas, mas os dela costumavam ser mais largos, fluidos, diáfanos. Na adolescência eu pegava um qualificativo seu — por exemplo, incandescente, um de seus preferidos — e com ele fazia os olhares de todos os garotos da sala se perderem na curva que o tremeluzir da pronúncia deixava entrever na minha boca. Os meus, porém, tendiam a ser mais curtos, justos, cingidos, tão apertados que beiravam o desconforto. Cru era um desses que ela apanhava sempre, a letra tornando-se mais marcante ao rabiscá-lo num bilhete sedutor. 

A primeira vez que me vesti para um homem foi com um indômito retirado de seu caderno. A primeira vez que ela se despiu para um foi ao dizer, com uma oração minha, que nenhuma nudez provoca tanto desejo quanto a própria palavra nua. 

Táscia Souza