Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Retrocesso

Retrocesso

Vínhamos progredindo. Era o pior cenário desde a redemocratização e o fascismo bafejava bem na nossa cara, mas havia um avanço perceptível que fazia crer que, se uma parte da humanidade evolui, toda ela o faz também. Com a pandemia, o desastre. E não apenas o escancaramento da nossa brutal desigualdade, mas aquele pequeno bilhete junto à máscara de tecido: “Após lavada, passar com ferro bem quente para ser usada novamente”. Aquele verbo ali. Aquele calor capaz de matar vírus, mas também de derreter a evolução. Agora que tudo voltou ao normal — e com tudo digo até a brutal desigualdade e o fascismo bafejante —, as pessoas de bem estão lá fora, sem as máscaras, mas exibindo suas roupas cuidadosamente desamarrotadas. Depois de tudo, não dava pelo menos para termos abolido o ferro de passar?

Táscia Souza

Juizado de Pequenos Medos

Juizado de Pequenos Medos

Naquele tempo a gente ia acumulando um grande arquivo. Um arquivo kafkiano. Um arquivo escuro, quente e que sufocava quem precisasse entrar e quem dele não conseguisse sair. Um arquivo desorganizado que se estendia de um edifício a outro e a outro e a outro. Um arquivo de processos começados e nunca concluídos. Um arquivo de causas e casos empilhados por corredores estreitos. Labirintíticos. Intermináveis. Um arquivo sinuoso que desembocava em órgãos inesperados — não escritórios ou secretarias de tribunais, mas cérebros, estômagos, fígados.

Nas estantes do arquivo, nas prateleiras, nas pastas, nas células, a gente amontoava cada um dos nossos mais ínfimos desesperos.

Táscia Souza

Saudade

Saudade

Como é que pode? Como é que pode algo que não se enxerga, que não se toca, que não bate asas, que não tem pernas, que não tem patas, que não se move sozinho, que não se arrasta sobre as superfícies, que não tem células — que não tem nem uma única célula! —, que é só um amontoado de materiais que configuram existências anteriores à consciência, por eras e eras e eras, como é que pode algo assim provocar esse estrago, essa dor, esse mergulhar no próprio subterrâneo, essa asfixia dentro dos próprios pulmões, essa falta de fôlego, esse buscar o ar sem encontrar, esse afogamento nos próprios fluidos, esse afundar-se em lágrimas e ranho, como é que pode invadir nossa vida de uma hora para outra e tomar tudo, e pairar sobre as ruas, e contaminar o cotidiano, e sorrateiramente atingir nossas casas, e penetrar nosso isolamento, e se esgueirar pelas frestas do nosso esconderijo, e romper nossas máscaras, e se apoderar dos nossos órgãos, cada um deles, até que nosso corpo inteiro seja seu refém? Como é que pode algo vindo de lá do outro lado do mundo, algo que nem um ser vivo é, algo que é só uma palavra trazida por colonizadores numa armada de caravelas e naus, que é só um verbete numa língua que se impôs à força sobre todas as línguas que falávamos antes, machucar tanto assim?

Táscia Souza