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Com todos os ites que se possam imaginar.

Corda Mi

Corda Mi

Sorrio. Primeiro para a moça de cujo nome não me lembro, mas em cuja festa de aniversário vim parar. Desejo felicidades e sorrio. Sou apresentada a seus amigos e sorrio. Aceito o copo de cerveja já meio quente, meio mijo que alguém desconhecido me estende e só rio, porque a outra opção não existe.

No pequeno palco do bar alguém canta e penso em dizer ao violonista que a corda Mi está perceptivelmente desafinada. Em vez disso, espero o fim da canção para imitar os outros e bater as palmas de minhas mãos repetidamente uma contra a outra, três vezes, quatro, cinco, o suficiente para ser educada e o homem da corda Mi desafinada, agradecido, sorrir para mim.

Táscia Souza

Texto elaborado juntamente com os participantes da oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.

Ouvido absoluto

Ouvido absoluto

Era um fenômeno auditivo raro, explicara o otorrinolaringologista, marcado pela habilidade de uma pessoa identificar ou recriar uma dada nota musical, mesmo sem ter um tom de referência. Fosse uma condição congênita, poderia ter sido um pianista de renome, o primeiro violoncelista de uma orquestra, um exímio violonista. Mas não. Surgira depois de uma infecção qualquer que exigira antibióticos mais fortes do que o esperado e deixara, como sequela, a estranha capacidade de escutar o mundo ao redor — e, o que às vezes era mais doloroso, reproduzi-lo — como um concerto caótico.

Embora talvez fosse tarde para convertê-lo em música, havia, porém, algo de poético no novo dom. Notara a estranheza da aptidão durante a convalescência, quando tudo o que restava era o telefone. A cada vez que ela dizia alô, o leve arquejo que só ele identificava soava em Lá como se ela antes não estivesse ali. Compadecia-se ao perceber em Dó, ainda que ela tentasse disfarçar, um sussurro de tristeza surgida não se sabia de onde. Ou se divertia quando a flagrava se espreguiçar em Ré no primeiro telefonema da manhã, o tom do suspiro denunciando que, ainda deitada, ela se esticava indolente sob o lençol, numa marcha tão lenta que quase era passo atrás.

A melhor sinfonia, contudo, aconteceu ao receber alta do médico. Saindo do consultório, ligou feliz para perguntar se ela gostaria de visitá-lo e a voz ecoou em Si que sim.

Táscia Souza

Conspiração Quantum

Conspiração Quantum

A situação preocupava a comunidade científica. Era velada, sussurrada pelos corredores dos centros de pesquisa, cochichada nos intervalos das conferências, e assim mesmo interdita, o que só tornava os acontecimentos ainda mais inquietantes. Embora as conclusões não fossem fruto de fundamentos teóricos e metodológicos de investigação, tampouco de estratégias de processamento de análise de dados, eram enigmaticamente — e talvez exatamente por isso — perturbadoras.

Alguém — ou alguma organização — pelo globo assassinava físicos.

O primeiro a morrer fora um pesquisador de epitaxia por feixe molecular, que se dedicava ao aprimoramento tecnológico de dispositivos optoeletrônicos. Fora encontrado já frio em seu laboratório, olhos arregalados de pavor, mas a perda de um professor seminanônimo de uma universidade obscura da América Latina, a princípio, não importou. A partir dele, contudo, teve início uma sequência: astrofísicos, doutores em mecânica relativística, teóricos do caos. Norte-americanos, asiáticos, europeus. Professores de ensino médio. Ganhadores do Nobel. 

Uma conspiração.

Serviços de inteligência do mundo inteiro foram acionados, sigilosamente, para não alarmar a mídia nem a população. Suspeitava-se de alguma organização terrorista, conjecturava-se sobre uma possível contaminação nanonuclear, temia-se a possibilidade de que aquilo fosse o princípio de uma guerra subatômica. Não passavam de hipóteses sem chance de verificação, sem prova ou contraprova. Polícias secretas não resolveram. Governos nacionais não resolveram. Os maiores cérebros da ciência do planeta não resolveram. 

À beira de um colapso e a despeito do temor de um atentado, a Iupap (sigla para International Union of Pure and Applied Physics) convocou seus membros para um congresso clandestino e emergencial, no qual lançaram mão da expertise do único especialista em problemas aparentemente insolucionáveis que ainda não havia sido consultado: um coach. Renomado internacionalmente, sua proposta era submeter a plateia de cientistas a um alinhamento quântico, liberando, segundo ele, crenças limitantes, através da plasticidade mental e hipnose quântica conversacional. A cada vez que as palavras quântico ou quântica eram pronunciadas pelo guru contemporâneo, no entanto, mais um prodígio da ciência presente no plenário caía morto.  

Uma chacina. De proporções quânticas. 

Táscia Souza