Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Cartomancia

Cartomancia

Alguém que lesse cartas. Era o que ela procurava. Sentia-se confusa, sem saber que direção tomar, como se estivesse no meio de uma floresta, totalmente perdida. Ou no meio de um deserto de areia, sem árvores para esconder os caminhos, mas também, em contrapartida, sem caminho nenhum para escolher, apenas a mesma paisagem por todos os lados. Tão confusa que os pensamentos só conseguiam descrever a sensação com esse tipo de clichê.

Andava consultando diariamente o horóscopo do jornal, achando-se meio boba, é claro, principalmente — o que era óbvio — porque não conseguia encontrar resposta alguma. Também tentara encomendar um mapa astral pela internet e pegara emprestado o cartão de crédito da mãe (sem pedir permissão, mas era um empréstimo!) para pagar de três vezes sem juros. Quando o desenho intrincado e a explicação chegaram por e-mail, contudo, mesmo que se esforçasse para compreender, não pareciam resolver muito o problema imediato. Por isso precisava de alguém que lesse cartas. As cartas revelariam seu futuro.

Ficou surpresa quando contou a ideia ao melhor amigo e ele disse que lia. Você? lê cartas?, surpreendeu-se tanto que a voz colocou duas interrogações na mesma frase. Ele deu de ombros e apenas abriu a mochila. Em vez do baralho que ela ansiava com expectativa tirou um pedaço de papel dobrado, um pouco amassado, jeito de ter passado horas nas mãos indecisas do cartomante.

“Querida Ana…”, começou.

Ela mesma aprendeu a ler cartas depois. As que ele escrevia.

Táscia Souza

Dilúvio

Dilúvio

Desde criança, tinha medo do vazio. Medo que ninguém entendia que era medo; que foi confundido, vezes sem conta, por travessura de menina, como quando encheu todos os copos da casa com água até a boca, ou quando rabiscou as paredes recém-pintadas, ou quando acionou um após outro todos os brinquedos musicais que havia em seu quarto só para preencher o silêncio.

Essa menina é tão criativa!, diziam os professores na escola, quando cresceu um pouco, diante das redações que ocupavam cada pedacinho da folha branca. Não era. Mas a folha representava uma ameaça e era o temor, não as ideias, aquilo que a fazia escrever e escrever e escrever até que suas frases infestassem cada espaço.

Adulta, no dia em que se viu sem palavras, choveu sobre o papel.

Táscia Souza