Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

32 dentes

32 dentes

Passo a língua devagar pelos dentes e… ah, merda, um bráquete do meu aparelho se soltou. Parece quieto no canto dele, que é sobre o quarto dente superior de trás para a frente do lado esquerdo da minha boca (sim, específico nesse tanto), com a diferença de que não está exatamente quieto, mas se move ligeiramente ao contato da minha língua. Ou da ponta do indicador que levo até lá para confirmar o desastre. 

Não é grande coisa. Tudo bem que estive no consultório da dentista há menos de duas semanas e não pretendia voltar até o meio do próximo mês, mas é só um bráquete. E é no quarto dente superior de trás para a frente etc., o que não compromete as correções que mais precisam ser feitas, bem no meio do sorriso, onde os dentes parecem não se mover para o lugar certo de jeito nenhum. Mas… ah, merda! A língua sente outros dois bráquetes balançarem, dessa vez na arcada inferior, como se fizessem uma pequena dança de provocação. Levo o dedo até lá e, plaft, uma pequena coisinha branca pula e cai bem no meio da minha mão.

Ah… merda, merda, merda! A coisinha branca não é um bráquete de safira ultracaro do meu aparelho estético, mas um dente. Um dente que desde antes de eu completar dez anos chama-se permanente e que, portanto, deveria respeitar essa premissa e permanecer intacto no lugar do outro menorzinho que caiu na infância e que ele ocupou. Olho para o dente na palma da mão e busco pelo potinho de guardar dentes, o potinho curioso e bizarro em que minha mãe guardava meus dentes de leite e que agora se materializa ali, sobre a pia, de frente para o espelho no qual eu avalio o estrago e assisto mais dentes pularem da boca para a mão e da mão para o pote. “Estou sonhando”, sonho no sonho, e sei que estou sonhando mesmo, porque potes de dentes não se materializam feito mágica em pias reais e porque vira e mexe sonho com meus dentes cometendo suicídio. Minha mãe sempre diz que sonhar que se está perdendo os dentes é mau presságio e significa morte, mas tanta gente já está morrendo — já são quase 115 mil mortos! — e estou longe de ter tantos dentes assim, então não podem me culpar por isso, não é? “Ei, a culpa continua sendo do desgoverno que vocês elegeram e não dos meus dentes de sonho, tá?!”. Mas cada vez mais dentes caídos estão lá, e cada vez mais sangue está lá, e cada vez mais culpa está lá, e eu sacolejo a primeira pessoa que encontro no sonho, implorando, com a boca cheia de gaze e sangue e lágrima e ranho e nenhum dente: “me acorda, me acorda, me acorda, pelamordedeus, me acorda!”. 

Antes que o tapa da pessoa estale no meu rosto para me tirar do surto, eu acordo. Acordo e arfo. Acordo e vejo que não há pessoa nenhuma, porque quem quer que estivesse ali provavelmente já está acordado faz tempo. Acordo e suspiro de alívio. Acordo e passo a língua devagar pelos dentes, conferindo se estão mesmo todos na boca, e… ah, merda!

Um bráquete do meu aparelho se soltou.

Táscia Souza

Sonora para reportagem imaginária engavetada

Sonora para reportagem imaginária engavetada

Emanuel, 23 anos, estudante de engenharia mecânica e consertador de relógios

A maioria desses relógios era do meu vô Elias. Mas alguns fui eu mesmo que comprei. Desde que eu vim morar aqui, na casa deles, dele e da minha minha vó, né?, ele me ensinou a consertar relógios. Era minha brincadeira predileta. Enquanto meus colegas sonhavam com um Lego no Natal, ainda que nenhuma família aqui da rua tivesse dinheiro pra comprar, eu brincava de encaixar pecinhas de engrenagem. Algumas minúsculas. Enquanto o pessoal do bairro se reunia pra brincar de pique-esconde, meu passeio preferido era ir à feira de domingo, naquela parte que parece um mercado de pulgas, sabe?, acompanhar meu vô à procura de relógios antigos que a gente pudesse consertar. Desmontar e remontar. Usar peças descartadas em outros relógios também descartados, fazendo com que eles fossem capazes de marcar o tempo de novo. 

Agora que ele morreu dessa tal de síndrome respiratória aguda, os relógios estão parados, porque ainda não consegui encontrar um ponteiro específico pra horas que passam tão rápido por dias todos iguais.

Táscia Souza

Vinagre branco

Vinagre branco

Querido amor desencontrado,

faz quase cento e vinte dias que deixamos de nos conhecer. Na próxima sexta-feira você deveria fazer um jantar especial, com a lasanha de berinjela cuja receita sua avó deixou de herança e o vinho italiano que encomendou pela Internet, e me pediria em casamento no meio da segunda garfada. Eu engasgaria e tossiria e espirraria um pouco de vinho na sua toalha de mesa branca e seria obrigada a levantar os braços até desobstruir as vias áreas, morta de vergonha enquanto você sofreria de pavor. Depois do susto, porém, eu te lembraria, passando nervosa um pano encharcado de vinagre branco para limpar a mancha de vinho antes que secasse, de que só estaríamos juntos há quatro meses, desde aquele 17 de março que estava marcado para ser o primeiro dia do resto das nossas vidas. E você perguntaria, sorrindo, qual é a medida de tempo que calcula o amor.

Acontece, meu querido estranho, que há exatos quatro meses eu não tomei um táxi apressada e tampouco você bateu o ponto de fim de expediente com os cinco minutos de atraso necessários para esbarrar em mim no passeio em frente. Desde então, uma vez a cada quinze dias me arrisco na vizinhança, indo até a farmácia da esquina para comprar uma cartela do analgésico que nunca é suficiente nestes tempos de dor. Talvez, numa dessas incursões, eu tenha passado por você saindo da padaria onde nunca chegamos a tomar aquele café, mas que você faz questão de continuar frequentando em sua única visita semanal ao escritório para resolver pendências impossíveis de sanar a distância. Ambos de máscara e preocupados em manter o espaço mínimo de um metro e meio de outros transeuntes, não notamos um ao outro, porque não é possível reconhecer quem nunca se viu.

Com todo o amor que poderia ter havido,

Eu

Táscia Souza