Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Violação

Violação

O primeiro incômodo não fora bem com a palavra em si, que, aos cinco anos, você nem sabia o que significava. O problema fora com a forma como sua colega de pré-escola a pronunciava, rodopiando ao seu redor, como um xingamento. O som daquela palavra estranha, sussurrada a cada vez que a outra menina se aproximava do seu ouvido, atingia sua audição como um tiro de escopeta. De vez em quando, a garotinha ainda a enunciava com a hostilidade do aumentativo, o que tornava o termo parecido com o líquido que sua mãe usava para limpar o esmalte descascado das unhas, só que diferente, com uma fantasmagoria inicial, um buuu ameaçador. Um susto.

Foi só algum tempo depois que, sem ter contado a ninguém sobre o episódio, você descobriu sozinha o significado da expressão. Deu-se conta também de que não havia nada de realmente ameaçador em nomear aquilo que se encontrava no meio das próprias pernas, embora, ao longo da vida, fosse perceber que as diferentes maneiras como era encarada por causa daquilo a colocavam em perigo. Como aquele ao qual — e você só constata isso agora — sua antiga colega, que você passou anos detestando, poderia ter sido exposta. Afinal, por que uma criança de cinco anos saberia usar aquela palavra específica, com aumentativo e tudo, para ferir se não tivesse sido ferida por (causa d’) ela também?

Foi necessário muito esforço para que, já adulta, você conseguisse dizê-la com naturalidade. Para que conseguisse até cantar, numa marcha pelos direitos das mulheres, que ninguém tinha o poder de controlar aquela parte de seu corpo, só você. No entanto, a cada vez que você via aquelas três sílabas grafadas num papel ou digitadas numa tela qualquer, a mesma velha sensação de violência a dominava. Talvez fosse aquela letra U ali, que as pessoas insistiam em colocar no lugar errado. Substituir o O pelo U, como também era hábito fazer com o verbo correlato, era mais que uma opção ortográfica. Para você, era uma agressão. Era transformar o que deveria ser um elo num urro.

Táscia Souza

Petricor

Petricor

Nunca imaginara que existia um nome para isso, mas lá estava: palavra recém-descoberta, colorida, líquido que corre na veia dos deuses e cai na pedra, um significado inteiro para seu aroma preferido, aquele que sobe do solo depois da chuva.

Foi exatamente o cheiro que sentiu quando a gota escorreu do olho e pingou no peito.

Táscia Souza

 

 

 

Teoria

Teoria

Há um piscar de olhos em que tudo muda. Em termos puramente científicos, o olho humano pisca muito mais rapidamente do que o transcorrer de um segundo e é perfeitamente possível piscar várias vezes em um único sessenta avo de minuto. Tendo a achar graça, mas é fato que calcularam — talvez na falta do que fazer com o próprio tempo — que, em média, o olho humano leva de trezentos a quatrocentos milissegundos para piscar uma vez, o que equivale a cerca de três a quatro décimos de segundo.

Nada disso me interessa, a não ser a constatação de que entre o cerrar de pálpebras e seu reabrir, ventos varrem uma cidade, tempestades desabam do céu, paisagens se transformam em pó, universos inteiros desaparecem e ressurgem na forma de outros mundos, outras realidades, outros pensamentos. Transubstanciação de matéria em desordem, como aquela que os matemáticos incluem no rol das extremas sensibilidades às menores perturbações, em que pequenas alterações na situação inicial provocam modificações dramáticas na evolução do sistema.

Traduzindo: cílios superiores e inferiores se roçam, inteiros asas de borboleta e, num repente, da pequena energia desse movimento, tem-se o Caos.

Táscia Souza