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Com todos os ites que se possam imaginar.

Rosário

Rosário

Cada Ave Maria é uma rosa ofertada, com devoção, à Nossa Senhora, dizia o padre, todos os anos. Se assim era, Domingos perdera a noção de quantos buquês oferecera à Virgem Mãe. Não que o artesão soubesse rezar. Algumas palavras da oração tinham pronúncia difícil e, por qualquer razão que ele não compreendia, os cabelos cada vez mais brancos em contraste com os sulcos cada vez mais fundos no rosto negro tornavam o esforço de lembrar um pouco mais duro. Mas era de seu capinzal-rosário que havia saído cada conta-de-lágrima única que, presa à linha que ele cuidadosamente tecia, servia para que os fiéis que chegavam todo mês de maio, em romaria, repetissem suas rezas. 

Fora assim até o fogo destruir o capinzal. Desde então, sem perder a fé, Domingos colhe do rosto, com uma pinça diante do espelho, as contas molhadas dos futuros terços.

Táscia Souza

Allium cepa

Allium cepa

Os olhos vermelhos e inchados a encararam úmidos através do espelho. Inspira — um esforço. Expira — uma tortura. Verbos ruidosos. Doloridos. Arfantes.

Dez glóbulos sublinguais e você vai ver que imediatamente começará a respirar melhor, fora a recomendação. Parecia mágica, mas era quase um truque. Como a cebola faz com que os olhos e o nariz ardam e escorram, é usada para tratar as condições que causam no organismo os mesmos sintomas: gripes, resfriados, rinites, sinusites, conjuntivites alérgicas, sim, mas também dores surpreendentes e invisíveis, como aquelas que faziam sofrer membros fantasmas após a amputação. 

Foi em busca desse último alívio que, arrancando o próprio reflexo da frente, abriu o armário do banheiro, agarrou o frasco de vidro e entornou na tampa as pequenas bolinhas brancas. Talvez aquela também fosse a cura para corações extirpados e amores ausentes: dissolvê-los feito açúcar sob a língua.

Táscia Souza

 

Sobrevida

Sobrevida

É porque a gente tem toda essa vida que ninguém conhece. E toda essa morte também. Saio do meu apartamento que, por ter final 06, fica no extremo do corredor e passo pelas cinco portas restantes sem que alguém por trás delas saiba que os pés que caminham ali, os tênis rangendo no piso frio, já chafurdaram no próprio sangue. Entro no elevador, que pode estar ocupado ou não, e faço — raras vezes — contato visual ou não com algum vizinho de um andar qualquer acima ou abaixo e, mesmo quando nossos olhos se encontram por um milissegundo, ele não sabe só de responder ao meu breve sorriso de bom-dia o porquê de ter um molar faltando do lado esquerdo da arcada inferior ou um pequeno trincado no canino superior direito. Cumprimento o porteiro e agradeço o recado de que o carteiro passou e aviso que pego a correspondência na volta, tudo sem que ele suponha que o nome no envelope, com meu endereço de final 06, não é o meu. Que é o nome de alguém que anda rangendo os passos pelos corredores, que entra em elevadores, que sorri bons-dias de dentes quebrados ou ausentes, que recebe correspondências, que chafurda no próprio sangue ou na própria merda, mas que há muito já deixou de existir.

Táscia Souza