Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Sinal

Sinal

A mulher colecionava sinos. Mais do que sinos, na verdade: colecionava vontades de tocá-los. Por isso comprava-os. Por isso pedia-os de presente. Por isso invadia campanários de igrejas em cidades do interior. Por isso um dia, numa pequena estação de uma vila qualquer, dependurou-se na sineta do relógio e obrigou todos os passageiros a correr antes da hora para dentro do trem.

Foi abordada pelos guardas, é claro. Questionada. Interrogada. Qual o objetivo de criar o caos numa pequena estação de uma vila qualquer? Com vergonha de confessar o ímpeto, justificou apenas que fizera um bem aos passageiros: era melhor ter um trem para dentro do qual correr do que não ter.

Táscia Souza

 

O filho

O filho

Meses antes haviam começado os enjoos. À mesma hora, toda manhã, quando se sentava na ponta do sofá, perto da porta da varanda, para ler. As letras se embaralhavam e vinha a vertigem, quase sempre seguida de uma azia que queimava do ponto mais baixo do tórax até a garganta, provocada por cada frase mais extensa da prosa da vez. 

Não chegou, porém, a fazer nenhum exame. Não foi preciso. Teve certeza da gestação quando veio o desejo. Forte. Súbito. Incontrolável. Uma vontade insana de comer poesia. Era madrugada. Afora alguns bares resistentes e farmácias necessárias, a cidade dormia. Mais de meio milhão de habitantes e nenhuma livraria ou biblioteca 24 horas aberta.

No apartamento vazio, vasculhou armários e estantes, geladeira e despensa, sem encontrar sequer um Neruda ou Drummond que tivesse sobrado, congelado, vencido, esquecido. Cozinho eu mesma então, pensou, mas a fome era tanta que só fez lambuzar os dedos de grafite e de tinta, lambendo o que ficava nas pontas, por baixo das unhas, sal das palmas que suavam, dos olhos que suavam por dentro e pingavam na página pautada de um velho caderno.

Grávida de desejo insatisfeito, pariu verso. 

Táscia Souza

Com defeito

Com defeito

Jackson. Era esse o nome de seu personal entertainer, estrangeirismo cuja tradução podia ser resumida como “um dos camelôs que vendia, diariamente, filmes piratas na Rua Augusta”. Jackson era refinado. Jackson não comercializava só o acervo de indicados ao Oscar, mas conhecia os exibidos pelo festival Varilux e tinha metade deles entre seus produtos. Sem falar que fora Jackson quem lhe recomendara, num dia em que ela levara de presente para ele uma dezena de cópias já assistidas que não fazia questão de guardar, um documentário nacional sobre Cora Coralina. 

Não foi sem razão, portanto, que ela ficou estupefata quando notou que o DVD de Bohemian Rhapsody que recém-adquirira de Jackson tinha legendas em russo e coreano. Mesmo que ela soubesse alguma das duas línguas, as subscrições se sobrepunham, até se tornarem uma massa indistinta de cirílico e hangul. Confiava em Jackson e na qualidade de seu trabalho. Acreditava, sobretudo, em sua honestidade. Como podia, logo ele, ter-lhe vendido uma cópia tão incompreensível?, perguntou-se, sem nem perceber que a dublagem era em português. 

Táscia Souza