Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

Sem Natal

Sem Natal

Haviam sido tantos os aborrecimentos ao longo dos anos, tantas as frustrações, tantas as brigas de família, que ele decidiu cortar o Natal de sua vida. Primeiro soltou as renas, depois encostou o trenó bem no fundo da garagem, antes de doar as roupas para a caridade — em algum lugar do mundo elas certamente aqueceriam quem sentia frio — e aparar a barba bem rente à pele, para que ninguém o reconhecesse.

Saiu pelo mundo de férias, à procura de um mar gelado e um sol quente, porque de dezembros nevados já estava farto. Quando os encontrou, mal se deu tempo de providenciar uma hospedagem. Apenas se estirou numa cadeira de praia esquecida, óculos escuros nos olhos, pensando que aquele momento sem Natal era o melhor que poderia querer.

Na areia branca, porém, sob os coqueiros, pedaços de cartas garranchosas e incompletas endereçadas a si haviam sido largadas pelos meninos que vendiam toda sorte de produtos aos turistas: na certa porque sabiam ser inútil terminar de escrevê-las; na certa porque já haviam aprendido que desejar muito não bastava para que pedidos fossem atendidos; na certa porque tinham certeza de que ele se aposentara há tempos, antes mesmo de se aposentar.

Táscia Souza

Cumpra-se.

Cumpra-se.

Na repartição pública, depois de cinco horas de espera, cinco funcionários públicos entregaram-lhe cinco formulários diferentes, um para cada item que ele precisava providenciar para que o dia planejado, dali a cinco dias, acontecesse:

— Este é para ser preenchido e levado até a Companhia de Polícia Militar, para que deem sua autorização e garantam o policiamento.

— Este é para ser preenchido e levado até o Batalhão do Corpo de Bombeiros, para que deem sua autorização e garantam o protocolo de risco mínimo.

— Este é para ser preenchido e levado até o Departamento Municipal de Limpeza Urbana, para que deem sua autorização e garantam o recolhimento de resíduos.

— Este é para ser preenchido e levado até a Sociedade Pró-Melhoramentos do Bairro, para que deem sua autorização e garantam o interesse da comunidade na realização do dia planejado.

— Este é para ser preenchido e levado até o Setor de Informação da Prefeitura, para que eles encaminhem às secretarias municipais responsáveis, que deverão dar sua autorização e garantir que o dia planejado possa efetivamente ser realizado.

Havia, contudo, dois outros formulários (eram mais papéis do que dias para providenciá-los), cujas letras miúdas ninguém se deu ao trabalho de lhe explicar — até porque, na repartição pública, provavelmente ninguém saberia. Um, percebeu, passando a lupa no texto quase indecifrável, deveria ser preenchido e levado até a Associação de Santos Meteorológicos, para que dessem sua autorização e cada qual garantisse aquilo que lhe competia: São Pedro que não choveria, Santa Bárbara que não interferiria e Santa Clara que, a despeito de todas as previsões das Repartições Públicas do Tempo, em algum momento, o céu se abriria em azul e raios de sol.  

O outro era um contrato, que deveria ser assinado e ter firma reconhecida no Cartório dos Momentos Certos e Oportunos, assegurando que, quando o dia planejado deixasse de ser futuro e se tornasse presente, ele de fato seria um presente para todos os que estivessem presentes ali. Era um contrato de alto risco. Era um desses contratos que, caso descumprido, incorreria em multa de milhares de frustrações acrescidas de centenas de tristezas.

Quando a fiscalização chegou, no dia planejado, os fiscais folhearam os formulários preenchidos e carimbados, verificaram a assinatura trêmula de receio ao fim do contrato, observaram os sorrisos presentes dos presentes. E foram embora satisfeitos, deixando o dia planejado seguir: sob o policiamento, sob os riscos mínimos, sob os resíduos a serem recolhidos, sob todos os interesses, sob as autorizações, sob o céu azul.

Táscia Souza

Cirurgia preventiva

Cirurgia preventiva

Eu li muito sobre cirurgias preventivas. Sei como cada uma delas podia ter salvado a vida das mulheres da minha família. Se minha avó tivesse feito uma ooforectomia a tempo, minha mãe não ficaria órfã tão cedo. E se minha tia tivesse passado por uma mastectomia antes do câncer, e não depois, ela teria poupado meses de sofrimento. A senhora é mulher, doutora, a senhora também sabe. É por isso que eu tenho certeza. Quero que a senhora extirpe o corpo estriado dorsal do meu diencéfalo. Meu coração pode continuar batendo, mas me recuso a morrer agonizando. De amor, não.

Táscia Souza