Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

O homem do chapéu

O homem do chapéu

Todos os dias eu o via, à mesma hora. Eu sabia pelo toque do sino da igreja. Contava as badaladas enquanto me escondia atrás da janela fechada, apenas espiando seus sapatos pela fresta da veneziana. Mas às vezes eu não resistia e a abria um pouco só para tentar enxergar seus olhos encobertos pela sombra do chapéu. No dia em que o sino não tocou, perdi a hora. E só escancarei a janela a tempo de ver o chapéu caído do chão. 

Tempo. Estranho como mesmo agora, sabendo de tudo, o emprego dessa palavra ainda soa levianamente natural. Tempo!, foi o que gritou um dos meninos da praça, inventando uma regra que até eu sabia inexistente no futebol para parar o jogo e apanhar o adereço de feltro. Ele o viu ao mesmo tempo que eu: o chapéu repentinamente sem dono, sem olhos sombreados, sem corpo metido num terno de linho cinzento. Meus braços se arrepiaram e eu soube ali, naquele instante, que não fora só o jogo que tinha parado. O que tinha estancado era o próprio tempo.

Em Santo Antônio da Saudade, contudo, minha cisma virou coisa de gente sem nada para fazer. Aquela lá vivia espiando o homem por trás da janela, suspirando por ele. Mulher sem homem é assim mesmo, sobe pra cabeça. Ela deve tá é possuída, o padre tem que tomar uma providência. Olhavam-me por entre as cortinas como se, em mim, a carência da mágica casamenteira do padroeiro da cidade exacerbasse o sentimento que a segunda parte de seu nome evocava. Isso é falta, sentenciavam intransitivos, silenciando indiretamente o objeto da ânsia que imaginavam borbulhar no meu baixo ventre, nostalgia de algo que nunca tive.

É claro que, em meio às fofocas, para os outros a vida continuou passando. Ou fingindo passar. Ninguém percebia a igualdade medíocre de todos os dias, no seu dorme-e-acorda, come-e-descome, entra-e-sai, seja do que for. O sino da igreja continuava calado desde o sumiço do homem do chapéu e nem isso alguém percebia, mesmo o padre de todas as providências. Porque as badaladas que ditavam o ritmo monótono de suas vidas amenas tocavam dentro de suas próprias cabeças. 

Não sei quanto se passou. Não foram dias nem anos, porque não havia porque contá-los se pareciam idênticos. Sei só do impulso que me impeliu a abrir a porta — eu, que passara uma vida mal abrindo a janela, a não ser no fatídico momento — e correr em direção à igreja. A solução era o sino, eu sabia. É preciso consertar o sino!

Descalça, de camisola, galguei os degraus até a torre e me dependurei na corda. Nem me dei conta de que não havia badalo. Só balancei, balancei, balancei, na expectativa de que o som inexistente — aquele som que, eu percebia então, também só tocava dentro da minha cabeça — trouxesse de volta o homem. E, com ele, meu próprio tempo perdido. 

Quando ele finalmente veio, meu corpo, ao contrário do chapéu, fez barulho ao cair. 

Táscia Souza

Caminho das águas

Caminho das águas

A biblioteca não catalogava os livros por áreas, separando volumes nacionais de estrangeiros ou prosa de poesia. Também não catalogava por títulos. Nem pelos sobrenomes dos autores, dispostos em ordem alfabética.

Aquela biblioteca catalogava livros por lágrimas. Numa estante se encontravam os que não provocavam choro algum (a não ser que fosse de raiva pelo tempo perdido). Em outra, do lado oposto, estavam dispostos aqueles que faziam derramar corredeiras entrecortadas de soluços. Entre as duas, uma progressão aritmética de prateleiras, páginas e prantos.

Mas havia ainda o lugar de destaque, bem no meio do salão principal, espécie de púlpito no qual a bibliotecária expunha a recomendação da vez: a última história que tivesse feito escorrer uma única gota, lenta e cheia, por seu rosto, ao mesmo tempo que lhe arrancasse um sorriso.

Táscia Souza

Fauna

Fauna

Quando a moça que engolia sapos e o rapaz acostumado a ouvir cobras e lagartos se conheceram, pensaram que jamais seriam capazes de dividir um jantar ou uma conversa. As refeições dela eram todas anfíbias, dos pequenos girinos cotidianos até grandes cururus profissionais, pessoais, emocionais, daqueles que inflam na boca e secretam veneno garganta abaixo. Já ele sequer comia, indigesto demais das coisas reptilianas que escutava, desde diminutas osgas domésticas até enormes serpentes que rastejavam pelo canal auditivo, enrolavam-se ao redor de seus pensamentos e apertavam, até sufocar.

Mas então eles se encontraram. E ela sentiu um gosto suave na língua, seguido de um frio gostoso no estômago, ao passo que ele experimentou o som melódico que entrava nos ouvidos com o prazer de quem percebe o silêncio. Dali em diante os diálogos passaram a ser passarinhos e o alimento, borboletas. 

Táscia Souza