Category Archives: Segunda opinião

Acróstico

Acróstico

Bronco
Ordinário
Laranja
Sinistro
Opróbrio
Nefasto
Abrutalhado
Repugnante
Odioso

Palavras retiradas do dicionário pelo moço arrependido, para nomear aquele que agora considerava inominável. Já não conseguia pronunciá-lo e começou a renegá-lo!! Bradava aos conhecidos que não era “vaca de presépio”. Passara a madrugada à procura de sinônimos. Olhos de insônia, arregalados, medrosos!!! Sentia-se cego também, pois havia percebido que nunca prestara, de fato, a atenção nos sinais que estavam ao seu redor.  Muitos tentaram lhe avisar, mas ele preferiu tapar os ouvidos. Muitos lhe falaram sobre a necessidade de estudar, pesquisar, analisar, comparar, mas ele só pensou que já sabia o bastante. Agora descobria que, se tivesse lido o suficiente anteriormente e conhecesse mais sinônimos, talvez não estivesse mergulhado em meio a

Contrição
Úlcera
Lamentação
Penitência
Arrependimento

Marcos Araújo

Autópsia

Autópsia

O turno havia começado e nesse dia, em especial, a encomenda parecia grande. Era hora da autópsia. Muitos criticavam seu emprego, mas ninguém sabia o quanto ele adorava cada parte. Exigia muita concentração, pois, assim que desse o primeiro corte, seria transportado para uma nova história.

Começou pelo cérebro, já em avançado estágio de decomposição (desconfiou que o processo tivera início ainda em vida, devido ao grande uso). Nele, além das poucas lembranças que restavam, estavam as fórmulas que criou no trabalho e as frases memoráveis, já patenteadas e em grande sucesso.

Na boca, ainda restava o gosto do último beijo, misturado com o cheiro forte de vinho, café e cigarro. Dos quatro cheiros, não foi possível distinguir qual o havia matado primeiro.

O coração permanecia bonito. Como algo bem cuidado em vida (ou pouco usado) e ainda quente, resquícios de um uso recente.

Mas era no estômago que teve a maior surpresa: ali, misturado com a ansiedade e nervosismos dos dias ruins, estavam, ainda vivas, as borboletas do primeiro e último amor.

Mariana Virgílio

Bizarro

Bizarro

Veja só, em uma certa-feira, nos idos da minha adulta-juventude, voltava eu do trabalho à casa, levado pelos meus pés espremidos nesses sapatos desnecessários e desconfortáveis, inaptos para médias e longas distâncias — por tanto, eu era levado pelos meus pés e pela minha teimosia contumaz; o ponto de ônibus era justamente em frente ao escritório. 

Já quando eu alcançava a Rua Paracambi, desaguou uma óbvia chuva de verão (não notada pela improdutividade no ato de contemplar o firmamento). De impulso, recorri em um salto a um bar que se abrigou ao meu lado. As nuvens não indicavam tanta pressa. 

Observado, porque a camisa azul-gelo destaca o corpo sob as gotas e sob o pano, me sentei com projetada confiança e solicitei a cerveja mais em conta, dentre às maltadas; falei ao telefone como se esperasse alguém, a segunda pseudoligação foi interrompida pela voz e violão, que por sua vez sugeriu a segunda cerveja. A segunda música eu não conhecia, mas, se não estou enganado, o cantor a antecedeu dizendo que era uma releitura de Seja Você, gravada por Pitty.

Heitor Luique

Texto elaborado na oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.