Category Archives: Segunda opinião

Sol

Sol

Chegou tímido, mas feliz. Afinal, chamaram por ele. Por lá ficou, sorrindo e alegre, durante dois dias. No terceiro, ouviu alguém dizer que já estava demais.

– Que calor é esse, gente! Podia cair uma boa de uma chuva!

Ficou triste, mas não se abateu. As críticas ficaram mais ferozes.

– As represas estão secando, precisamos de chuva!

Assim ele fez, apesar de não se sentir culpado. Saiu de cena, passou a bola, chamou São Pedro. Choveu, choveu, choveu. Chamaram por ele de novo. Veio feliz e sorridente.

No dia seguinte, porém, já estavam reclamando. Desistiu. Foi fazer terapia.

– Como era o relacionamento com seus pais na infância?

Ele não lembrava. Finalmente percebeu que, por não ter lembranças de quando era criança, tinha dificuldades em lidar com a infantilidade do ser humano. Voltou confiante. Afinal, chovia há duas semanas.

Mal trabalhou por 10 horas e contabilizou 11 vezes seguidas em que alguém reclamou do calor. Nem os vendedores de picolé aliviaram, pois seus carrinhos não davam mais conta de gelar a tempo.

Fez as malas, saiu de férias para espairecer.

Choveu durante três anos.

Paloma Destro

Sem chances

Sem chances

Valdinei tinha 20 anos quando seu corpo franzino foi encontrado com sete marcas de tiros, numa banca de areia no Rio Paraibuna, na altura do Bairro Industrial, na Zona Norte. A morte do rapaz foi noticiada num canto de página. Era só mais uma nas estatísticas que não paravam de crescer. Assassinatos de jovens negros não despertavam interesse. Enquanto se matavam entre si a sociedade ignorava. Mas o que jornal não sabia, nem teve vontade de apurar era que, naquele dia, Valdinei fora pai pela primeira vez.

Dez horas antes de morrer, Juliana, uma adolescente que ele conheceu numa festa funk, havia dado à luz uma menina. O nome escolhido para a neném foi Edilaine, uma homenagem a Edilson e Elaine, pais de Valdinei mortos em uma tragédia familiar. O rapaz foi criado pela avó depois que o pai fora preso por assassinar sua mãe, quando tinha pouco mais de um ano. A violência doméstica é algo comum em ambientes regados a álcool, drogas e falta de dinheiro.

Valdinei sempre pareceu ser um bom menino enquanto estava crescendo. Não sonhava em ser advogado, engenheiro, médico ou outra carreira que necessitasse de diploma universitário. Como os outros garotos da rua, queria ser jogador de futebol. Mas, quando fez 14 anos, a vontade de ter algo maior do que aquilo que sua avó podia comprar, fê-lo desvirtuar do caminho. Na hierarquia do tráfico só não foi dono de “boca”.

Astuto, mudava de função rapidamente. Agora, tinha a responsabilidade de guardar a droga e distribuí-la. Naquele dia, que seria o seu derradeiro, depois que deixou mulher e filha na maternidade, Valdinei voltava para casa a fim de fazer seu último “corre”.

Com o dinheiro do serviço, compraria um berço para o bebê e mudaria de vida. Almejava ser honesto, arrumar trabalho e ser o pai que nunca tivera. Estava cansado da vida louca no crime! Todavia, no meio do caminho, foi interceptado, na subida do morro, por dois homens ocupantes de uma motocicleta. A dupla pertencia a um grupo rival que há tempos cobiçava o ponto de venda de cocaína. Aquele que estava na garupa da moto sacou um revólver da cintura e fez vários disparos na direção de Valdinei.

Quando o primeiro tiro rasgou sua pele e atravessou sua região torácica, ele sentiu um gosto amargo na boca e um frio absoluto invadir sua carne. O rosto de sua filha surgiu na sua frente antes de seus olhos se fecharem. Seu corpo foi recolhido e jogado no porta-malas do carro que dava cobertura aos motoqueiros. Na calada da noite, seu cadáver foi desovado às margens do Paraibuna, que, junto com as capivaras, testemunhou o crime, uma vez que, na rua onde os disparos foram efetuados, o medo fazia dos moradores cegos, surdos e mudos. Valdinei não teve chance de ser pai, de se redimir, nem de ser manchete de jornal. Edilaine perdeu sua chance de ter pai.

Marcos Araújo

Médicos e diagnósticos

Médicos e diagnósticos

Clínico Geral

— Doutor, o que eu tenho?

— É só uma virose.

Era mesmo. Aids.

Clínico Geral 2

— Doutor, o que eu tenho?

— É só uma virose.

Era dengue.

Clínico Geral 3

— Doutor, o que eu tenho?

— Acho que é dengue. Vamos fazer um exame para confirmar.

Era virose.

Gastroenterologista

— Doutor, o que eu tenho?

— É apenas uma acidez.

Começou a tratar melhor as pessoas. Uma pena a dor estomacal não ter passado.

Ortopedista

— Doutor, o que eu tenho?

— Um problema postural.

Azar para o Facebook, que perdeu posts diários sobre uma rotina desinteressante.

Neurologista

— Doutor, o que eu tenho?

— Enxaqueca.

Nada foi feito. Passou a se acostumar com a dor.

Daniel Furlan