Category Archives: Segunda opinião

Cena

Cena

O barulho de pensamentos alheios se mesclava com a voz do homem imponente que pediu olhos fechados para o brinde. Ela mantinha os olhos fechados à força, mas não conseguiria por muito tempo. Abriu. Olhos arregalados, de criança que espera presente, mas, por dentro, adulto que acorda no meio da noite, pesadelo.

Era curiosidade em ver os olhos fechados dos outros, de ver se havia, como os dela, olhos também abertos. Era profundo, desespero. Sentimento de vulnerabilidade, exposição, perigo.

Olhos abertos, eram só os seus. O homem imponente parecia muito imponente, mesmo com os olhos fechados. Os outros demais rostos, vestidos serenos, cada um deles começou um círculo vicioso que rodava dentro da cabeça dela, que, de tanto questionar “o que eles estão pensando?”, começou a ouvir murmúrios de dor, em um lamurio barulhento e desorganizado.

Seus dedos magros suavam os dedos gordos que entrelaçavam os seus e ela ficou com medo de que eles percebessem seus olhos abertos, suas mãos suadas, seus pensamentos negros. Fechou os olhos querendo fazer-se parte, fazer-se presente, fazer-se demais. Fazia tanta força para manter seus olhos fechados que não percebeu que o discurso havia acabado, que os muitos olhos estavam abertos agora e só os seus permaneciam fechados.

Os semblantes antes serenos estavam agora assustados. Preocupação era a nova máscara dos rostos. “O que será que ela esta pensando?”, eles se perguntavam. E os dedos gordos soltaram seus dedos magros, suados. E tocando o vazio, ela abriu seus olhos, despreparada. Era o começo do jantar.

Tassiana Frank

Indo

Indo

— E aí, tudo bom?

— Ah, tudo indo né…

— Continue indo então, quem sabe um dia chegue lá.

— Não vai me perguntar por que não está tudo bom?

— Não tenho interesse, estava apenas sendo educado.

Passou a responder sempre que estava tudo bem, mesmo sem estar.

Daniel Furlan

Teatrinho

Teatrinho

Um pequeno espaço na entrada de uma casa antiga é o palco.

No palco: cadeira, bolsa, baú.

No baú: livros, cartões de visita, panfletos, maletinha.

Na maletinha: ingressos, dinheiro, bloco, caneta.

O papel: bilheteira. Personagem principal.

As falas: Boa noite, Tudo bem?, Quinze reais a meia, trinta a inteira, Por nada, Bom espetáculo. Há muito espaço para improviso.

Os figurinos variam tanto quanto os parceiros de cena.

Meia hora de apresentação.

8h35. Fim do espetáculo.

No mesmo horário começa outro, mas é só o complemento.

Louise Nascimento