Category Archives: Segunda opinião

Surto

Surto

Tomou uma taça de vinho antes de deitar. Pensou que o álcool iria ajudá-lo a dormir fácil. Ledo engano! Há dias que seu sono era parco. Sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos. A maioria deles atravessava sua mente por causa do trabalho na firma de contabilidade. Os problemas se multiplicavam feito números e seus colegas de serviço haviam se tornado pessoas tristes, que tinham abandonado seus sonhos antigos sem colocar outros no lugar. Faltavam-lhes ideais. 

Mas com ele não seria assim. Ele brigava. Ele bradava, internamente, para não sucumbir. Tinha que haver um motivo maior, uma causa a acreditar, um desejo a se concretizar. Por isso ficava aceso, enquanto as horas atropelavam a madrugada. 

Depois de mais uma noite mal dormida, levantou-se, trocou de roupa como se aquele fosse mais um dia. Pela fresta da janela, o sol entrava manso. Tomou uma xícara de café preto com três gotas de adoçante. Pegou as chaves, abriu a porta, mas não conseguiu sair. Algo segurava seus pés, que não conseguiam ultrapassar o limite entre a porta e o corredor. A cada tentativa de sair, mais pressão ele sentia. Como se alguém muito forte o estivesse agarrando por trás. Ficou assustado. O que era aquilo,  meu Deus? Que sensação era aquela? Seria um espírito maligno, pensou. 

Haveria presenças sobrenaturais naquele apartamento que se manifestavam, justamente, naquela hora. No dia em que decidira dar um basta e mandar, às favas, aquela vida ordinária. Ele estava parado na porta, imóvel, querendo sair, mas não conseguia. De repente, a porta do vizinho, de frente da sua, se abriu. E o homem que ele mal conhecia também ficou agarrado na saída. O outro morador tentou romper a força que o segurava também, mas as tentativas foram em vão. O vizinho começou a gritar, e era possível ouvir gritos dos outros apartamentos. A ficha dele então caiu: o mundo inteiro estava preso dentro de casa. Ele entrou num surto. 

Ficaria para sempre encerrado ali? E a sua caminhada na beira do rio, que tanto gostava? E o sorriso da moça do escritório ao lado do seu? O cheiro da pipoca da carrocinha da esquina? O teatro a que gostava de ir no fim de semana? A gelada com os amigos de vez em quando? O almoço de domingo com os pais? E se nada disso mais existir? E se a vida não voltar ao que antes era? E se ele não puder respirar? E se? Se?… Ele acorda num sobressalto. Estava encharcado de suor. Olha em volta. Era seu quarto. Seu coração desacelera. Ele fica aliviado e volta a ter esperança de que tudo vai passar. É apenas uma questão de tempo para que o mundo recomece e, quem sabe, desta vez, para melhor!

Marcos Araújo

Ciúme em tempos pandêmicos

Ciúme em tempos pandêmicos

Ela andava terrível nos últimos tempos…

Cansada, enjoada, sentindo-se contrariada, rebelde.

Fazia um misto de revolta e luta por independência.

Por sua independência.

Às vezes simplesmente ignorava as ordens cerebrais.

Outras vezes as cumpria, mas com falhas, deixando sempre algo escapar.

Quando se concentrava bem, até que fazia direitinho tudo o que tinha que fazer.

Fato é que ela pagava o preço por tanto trabalho.

Eram mais de 12 horas de labor por dia.

Na secura do ar ou no úmido da água.

Digitando, digitando, digitando…

Lavando, lavando, lavando…

E quando ela parava, não parava de verdade – tinha sempre um algo mais.

E se era solicitada a fazer aquilo que lhe dava tanto prazer… nada.

Seca. Entressafra.

Recusava-se a colocar as escritas da mente no branco da tela do computador.

Foi quando um amigo deu aquela cutucada e matou a charada:

– Desenha! A mão deve estar com ciúme do teclado!

E ela desenhou as letras com lápis, numa folha de papel.

E a paz se fez novamente.

Gilze Bara

A casa de vidro

A casa de vidro

Desde criança eu tenho tara por ver como é a casa dos outros. Reparar mesmo, olhos fixos, curiosos. Cresci numa cidade do interior, dava pra fazer isso com facilidade, num passeio prosaico pra brincar na pracinha. Cresci assim e a cidade também. Mudei de cidade, os prédios eram maiores, foi ficando mais difícil. Demorei, mas me acostumei. Até esqueci (cheguei a acreditar).

Até que a pandemia chegou. E com ela a lives, as aulas à distância, a vida pela tela. Disruptivamente tudo voltou, com requintes, como aquele velho amigo que a gente não vê faz tempo, mas que sabe tudo da gente. Parece que o tempo não passou. A janela agora é uma tela. Transparência. 

Outro dia mesmo participava de uma reunião on-line. Poderia ter saído, tinha trabalho a fazer e a coisa não estava produtiva. Não mesmo. Mas um dos participantes tinha uma casa linda. Pé direito alto, muita luz, vidros largos com esquadrias de madeira. Piso de tábua corrida, móveis minimalistas. Sofá delicioso. Fiquei imaginando quem era essa pessoa, com essa casa. Será que ele escolheu tudo? 

A sua interlocutora escolheu um enquadramento ruim. Vergonha? Ou será que tinha mais gente lá atrás. Um filho, vendo TV? Só dava pra ver aquela quina de uma sala, cheia de cartazes numa parede, do outro lado, outra parede, amarela. Não gostei. Por que alguém pinta uma parede de amarelo?

A loira de cabelos tingidos, a terceira participante, tinha dois quadros em preto e branco atrás. Fotos de uma grande cidade, talvez Nova Iorque. Quadros da Tok&Stok. Não havia livros. A fala seguiu o mesmo rumo: sem grandes interesses. Insossa. 

Tive uma epifania. Santa Clarice Lispector. Será que a vida anda chata demais em casa? Ou será que eu tô vendo agora como é, de fato. A pandemia muda tudo, eu ouço por aí. Muda mesmo. O mundo não tem volta depois que a gente vê a casa das pessoas. Tem cura pra isso? 

Evandro Medeiros