Category Archives: Segunda opinião

Paçoca

Paçoca

Ele vivia na rua há quase doze anos. Já tinha perdido suas referências familiares se é que algum dia as tivera. Estava com 38 anos. Cara encovada, pele enrugada, esperança quebrada. Lembrava que havia sido pai, mas só viu a menina uma única vez. Era uma lembrança vaga, que já não valia a pena. Mas apresentava um sorriso no olhar, quando, quase raramente, a memória insistia em lembrar-se da criança. Era o que lhe restava de humanidade. Costumava, nos últimos tempos, ter seu canto debaixo do viaduto Ramirez Gonzalez, na Zona Norte.

Estava acostumado a sobreviver com pouco. Um pedaço de pão, tão duro às vezes que era necessário roê-lo. Para tanto, usava cinco dentes que lhe sobravam na boca e ainda era preciso ter cuidado para não atiçar algum nervo exposto. A dor infernal, quando aparecia, era curada com cachaça, cuja garrafa, nunca vazia, estava sempre colada ao corpo. Havia sempre um trago pras horas de maior fome, quando batia o desespero! Depois o delírio! Para se deitar, um bom papelão retirado do lixo de supermercado. Era como forrava sua cama de cimento.

Sua companhia de todas as horas era uma cadelinha. Paçoca foi o nome escolhido para a parceira. Fiel, a cachorra deixava acesa no interior daquele homem ainda algo de sensibilidade. Ela mantinha o coração dele aquecido da frieza do mundo. Uma vez quiseram levá-lo para um abrigo, mas sem Paçoca. Não aceitavam animais. Preferiu então ficar na rua.

Para ganhar trocado, ele percorria as ruas puxando carrocinha à cata de material que pudesse ser vendido no ferro velho. A maioria das pessoas não sabe que lixo tem valor! Nessa sua busca, percebeu que, há muito, sua presença não era notada. Olhares alheios evitavam cruzar com os dele. Sou o homem invisível!, costumava pensar.

Certo dia, ao passar em frente a uma casa. Surpresa! Uma senhora pediu para que ele esperasse.

— Que tristeza de situação! Deve estar com muita fome! — concluiu a mulher.

Ela entrou como se fosse buscar algo para alimentá-lo. Ele vislumbrou que, depois de muitos dias, iria comer comida de verdade. Sua boca se encheu de água. Ao retornar, a senhora entregou um saco de punhado de ração.

— Sua cachorrinha está muito magra! Você precisa dar a ela o que comer todos os dias! — disse a moradora da casa em tom de advertência.

Apesar da ternura que sentia por Paçoca, naquele instante, ao ter sua fome ignorada, sua existência desinteressada, o homem experimentou, junto com a sensação de barriga vazia, a mais terrível dor de sua invisibilidade. Desta vez, foi ele que quis desviar seu olhar!

Marcos Araújo

Fardo

Fardo

O sinal estava fechado quando, através da janela do carro, percebi a pequena figura em uniforme escolar que vinha cambaleando pela calçada. Passo após passo, as pernas da menininha oscilavam sob o peso de uma sacola de tecido desproporcional ao seu tamanho. Pendurada no ombro esquerdo, a bolsa dava ao andar da pequena um aspecto desengonçado que apenas a pouca idade era capaz de tornar adorável. Logo atrás a mãe vinha carregando a mochila e a lancheira, atenta a cada movimento da filha.

A insistência em carregar a sacola que se arrastava pelo chão, em contraponto com o aparente desapego que a criança destinava ao restante do material escolar, demonstrava que ali dentro guardava-se algo especial. Um segredo ou um pequeno tesouro. Curiosa, apertei os olhos e tentei desvendar as palavras bordadas no tecido azul: “Sacola literária”.

Livros, era esse o tesouro que tombava o corpo da menina. Com um movimento involuntário, virei o pescoço e encarei o meu próprio ombro, constantemente dolorido. Percebi no andar da pequena o mesmo andar coxo que eu mesma traçava pela vida. Ora a perna esquerda, ora a direita, sempre se torcendo sob a carga de palavras que eu colhia pelo caminho. Séculos de literatura pesando o corpo.

Mas como aquela criança de andar torto e ainda assim determinado, eu me agarrava à bagagem, cada dia mais pesada, com desejo insaciável. Nos passos vacilantes o prazer de uma nova letra adquirida.

Raíssa Varandas

Hipocondríaca

Hipocondríaca

Era considerada hipocondríaca pela família, porém não entendia o porquê. Afinal, se algo não vai bem no corpo, o melhor é verificar logo o que acontece e acabar com o sofrimento. Era amiga dos médicos, das secretárias deles. Tinha um laboratório favorito devido ao café da manhã que era servido após a coleta de sangue.

Certo dia, recebeu uma carta do plano de saúde — estava gastando demais e agora a modalidade seria a coparticipação. Mas não se abalou. Trabalhava para isso, para empregar seu dinheiro no que fosse necessário. Só não contava com as críticas familiares agora somadas às dos amigos e do marido. Era necessário parar. A frequência aos médicos envergonhava quem a conhecia.

Constrangida, guardou para si suas dores, seus refluxos e suas enxaquecas. Nem o incompreendido hipotireoidismo ficou livre. Não fez mais exames de sangue. As altas taxas de tireoide deviam ser reflexo de sua imaginação. Tanto desfez de si mesma que morreu.

Chegando ao além, foi inquirida:

— O que a trouxe, minha irmã?

— Hipocondria não tratada.

— Curioso… Nunca vimos alguém chegar até aqui por esse motivo.

— Mas assim foi.

— Perfeito. Temos um trabalho para você. Siga até a próxima sala à direita.

— Ótimo! Trabalharei com comunicação, continuando o que fazia lá embaixo?

— Não… Trabalhará em um hospital.

— Ah sim… E em qual setor?

— Diagnóstico.

Paloma Destro