Category Archives: Marcos Araújo

Inabalável

Inabalável

Apresentou um largo sorriso assim que embarcou no ônibus da linha 605, destino Milho Branco, Zona Norte. Do lado de fora uma chuva desabava sobre a cidade fria, triste, feia em cores gris. Uma fila de veículos perdia-se de vista na Rua Bernardo Mascarenhas. Efeito da grande precipitação e da cancela da via férrea que havia liberado o fluxo segundos antes. Trem e chuva são sinônimos de caos na Manchester mineira.

Tinha lá seus sessenta e tantos anos. O rosto marrom meio encardido era cheio de vincos, cada qual com uma história, às vezes triste, às vezes alegre. A testa era comprida. Minguados fios brancos ainda lhe restavam na cabeça.

Como era de se esperar, teve que ficar de pé. A condução estava lotada. Jovens desatentos plugados em universos digitais ignoraram sua presença. Foi-se o tempo das gentilezas! Como não havia muitas alternativas, aconchegou-se no cantinho perto do motorista. Boa noite disse ao condutor. Não tive como escapar desse aguaceiro, mas daqui a pouco chego à minha casinha e pego aquela sopa de entulho da patroa. Essa vida é sofrida, mas é boa!

Calado, o motorista apenas lançou um olhar negligente em direção ao seu interlocutor. Fiquei mais de quatro horas hoje esperando para realizar um exame, continuou sua narrativa sem perceber o desinteresse de quem estava a sua volta. Debaixo da jaqueta de tecido sintético de cor azul-marinho, sentia calafrios na pele enrugada sob a camisa de malha de mangas compridas encharcada. Estava febril, mas não queria entregar os pontos. Aprendeu a ser forte como um touro desde menino. Essa era uma das imposições que a vida lhe dera.

No hospital a moça disse que hoje não era dia de atendimento de especialidades e que não dava nem pra marcar um exame. O homem que conduzia o ônibus continuava sem querer saber da conversa. Vou ter que voltar amanhã e começar tudinho de novo. Sair cedo de casa pra tentar ser um dos primeiros da fila. Quero realizar esse exame logo. Imagina só, estou sentindo dor e ainda nem sei o que é. O motorista silencioso seguia seu caminho.

Os jovens viajavam por meio dos fones de ouvido sem perceber que o futuro de cada um podia estar ali, escancarado, gritado, sinalizando que o tempo é imperdoável e não faz concessões! Ignorando ser ignorado, sem perder o sorriso, disse pela segunda vez:

— Essa vida é sofrida, mas é boa!

Marcos Araújo

 

Humanos direitos

Humanos direitos

A Classe D estava encucada porque não conhecia os tais direitos humanos. Tinha uma vaga ideia. Sabia que serviam para que todas as pessoas fossem iguais perante à lei. Todavia, não entendia o que isso significava. Eram conceitos vagos para quem estava acostumada a matar um leão por dia, depois voltar para casa e descansar o esqueleto em cama de duro colchão. A Classe D ficava mais confusa ainda, porque, ultimamente, só escutava dizer que direitos humanos eram para proteger bandido. Na busca a fim de desvanecer suas dúvidas, ela foi procurar a ajuda de quem estava mais perto.

Classe D – Olá, Classe C! Tudo bem? Você pode me explicar o que são os direitos humanos?

Classe C – Olha, pelo que sei, é um grupo de gente à toa que adora gritar quando malandro apanha de polícia! Eles fazem muito barulho por nada. Quando a gente diz: “Se tá com pena, então leva pra casa”, eles enfiam o rabinho entre as pernas!

Classe D – Engraçado! Eu achava que eles serviam pra proteger gente que nem a gente!!!!!!

Classe C – Alto lá, meu caro amigo! Gente como a gente não. Só gente como você!

Classe D – Ué, mas você é humano também!!!!!

Classe C – Sim, mas agora já tenho apartamento próprio do Minha Casa Minha Vida. Meu filho entrou na universidade pela cota da escola pública e há muito tempo não preciso de esmola como Bolsa Família! Consegui prosperar e mais pra frente vou fazer minha primeira viagem de avião. Não é demais!?

Classe D – Puxa!!!! Você deve ser invejado. Será que algum dia também consigo?

Classe C – Veja bem, Classe D! Isso não é pro bico de todo mundo! Não pense que sou reacionária. Meu conselho é pra você ficar quietinha no seu canto! Não incomode ninguém e esquece esse troço de direitos humanos. Isso é coisa de baderneiro, viu? É só você aparecer de quatro em quatro anos e ganhar aquele abraço ou um aperto de mão sincero e tudo acaba bem! Não coloque caraminholas na cabeça!

Classe D – Ah tá!!!

Moral da história: antes ele do que eu; quem não chora não mama; em terra de cego quem tem olho é rei; o mundo é dos espertos; Deus não dá asas à cobra; diz com quem você anda que te direi quem você é; quem avisa amigo é; pau que nasce torto morre torto; para quem sabe ler, pingo é letra; Deus dá o frio conforme o cobertor; a corda sempre arrebenta do lado mais fraco; para quem é, bacalhau basta; manda quem pode, obedece quem tem juízo; em boca fechada não entra mosca e, por último, o que os olhos não veem, o coração não sente!

Marcos Araújo