Category Archives: Marcos Araújo

Paçoca

Paçoca

Ele vivia na rua há quase doze anos. Já tinha perdido suas referências familiares se é que algum dia as tivera. Estava com 38 anos. Cara encovada, pele enrugada, esperança quebrada. Lembrava que havia sido pai, mas só viu a menina uma única vez. Era uma lembrança vaga, que já não valia a pena. Mas apresentava um sorriso no olhar, quando, quase raramente, a memória insistia em lembrar-se da criança. Era o que lhe restava de humanidade. Costumava, nos últimos tempos, ter seu canto debaixo do viaduto Ramirez Gonzalez, na Zona Norte.

Estava acostumado a sobreviver com pouco. Um pedaço de pão, tão duro às vezes que era necessário roê-lo. Para tanto, usava cinco dentes que lhe sobravam na boca e ainda era preciso ter cuidado para não atiçar algum nervo exposto. A dor infernal, quando aparecia, era curada com cachaça, cuja garrafa, nunca vazia, estava sempre colada ao corpo. Havia sempre um trago pras horas de maior fome, quando batia o desespero! Depois o delírio! Para se deitar, um bom papelão retirado do lixo de supermercado. Era como forrava sua cama de cimento.

Sua companhia de todas as horas era uma cadelinha. Paçoca foi o nome escolhido para a parceira. Fiel, a cachorra deixava acesa no interior daquele homem ainda algo de sensibilidade. Ela mantinha o coração dele aquecido da frieza do mundo. Uma vez quiseram levá-lo para um abrigo, mas sem Paçoca. Não aceitavam animais. Preferiu então ficar na rua.

Para ganhar trocado, ele percorria as ruas puxando carrocinha à cata de material que pudesse ser vendido no ferro velho. A maioria das pessoas não sabe que lixo tem valor! Nessa sua busca, percebeu que, há muito, sua presença não era notada. Olhares alheios evitavam cruzar com os dele. Sou o homem invisível!, costumava pensar.

Certo dia, ao passar em frente a uma casa. Surpresa! Uma senhora pediu para que ele esperasse.

— Que tristeza de situação! Deve estar com muita fome! — concluiu a mulher.

Ela entrou como se fosse buscar algo para alimentá-lo. Ele vislumbrou que, depois de muitos dias, iria comer comida de verdade. Sua boca se encheu de água. Ao retornar, a senhora entregou um saco de punhado de ração.

— Sua cachorrinha está muito magra! Você precisa dar a ela o que comer todos os dias! — disse a moradora da casa em tom de advertência.

Apesar da ternura que sentia por Paçoca, naquele instante, ao ter sua fome ignorada, sua existência desinteressada, o homem experimentou, junto com a sensação de barriga vazia, a mais terrível dor de sua invisibilidade. Desta vez, foi ele que quis desviar seu olhar!

Marcos Araújo

Inabalável

Inabalável

Apresentou um largo sorriso assim que embarcou no ônibus da linha 605, destino Milho Branco, Zona Norte. Do lado de fora uma chuva desabava sobre a cidade fria, triste, feia em cores gris. Uma fila de veículos perdia-se de vista na Rua Bernardo Mascarenhas. Efeito da grande precipitação e da cancela da via férrea que havia liberado o fluxo segundos antes. Trem e chuva são sinônimos de caos na Manchester mineira.

Tinha lá seus sessenta e tantos anos. O rosto marrom meio encardido era cheio de vincos, cada qual com uma história, às vezes triste, às vezes alegre. A testa era comprida. Minguados fios brancos ainda lhe restavam na cabeça.

Como era de se esperar, teve que ficar de pé. A condução estava lotada. Jovens desatentos plugados em universos digitais ignoraram sua presença. Foi-se o tempo das gentilezas! Como não havia muitas alternativas, aconchegou-se no cantinho perto do motorista. Boa noite disse ao condutor. Não tive como escapar desse aguaceiro, mas daqui a pouco chego à minha casinha e pego aquela sopa de entulho da patroa. Essa vida é sofrida, mas é boa!

Calado, o motorista apenas lançou um olhar negligente em direção ao seu interlocutor. Fiquei mais de quatro horas hoje esperando para realizar um exame, continuou sua narrativa sem perceber o desinteresse de quem estava a sua volta. Debaixo da jaqueta de tecido sintético de cor azul-marinho, sentia calafrios na pele enrugada sob a camisa de malha de mangas compridas encharcada. Estava febril, mas não queria entregar os pontos. Aprendeu a ser forte como um touro desde menino. Essa era uma das imposições que a vida lhe dera.

No hospital a moça disse que hoje não era dia de atendimento de especialidades e que não dava nem pra marcar um exame. O homem que conduzia o ônibus continuava sem querer saber da conversa. Vou ter que voltar amanhã e começar tudinho de novo. Sair cedo de casa pra tentar ser um dos primeiros da fila. Quero realizar esse exame logo. Imagina só, estou sentindo dor e ainda nem sei o que é. O motorista silencioso seguia seu caminho.

Os jovens viajavam por meio dos fones de ouvido sem perceber que o futuro de cada um podia estar ali, escancarado, gritado, sinalizando que o tempo é imperdoável e não faz concessões! Ignorando ser ignorado, sem perder o sorriso, disse pela segunda vez:

— Essa vida é sofrida, mas é boa!

Marcos Araújo

 

Humanos direitos

Humanos direitos

A Classe D estava encucada porque não conhecia os tais direitos humanos. Tinha uma vaga ideia. Sabia que serviam para que todas as pessoas fossem iguais perante à lei. Todavia, não entendia o que isso significava. Eram conceitos vagos para quem estava acostumada a matar um leão por dia, depois voltar para casa e descansar o esqueleto em cama de duro colchão. A Classe D ficava mais confusa ainda, porque, ultimamente, só escutava dizer que direitos humanos eram para proteger bandido. Na busca a fim de desvanecer suas dúvidas, ela foi procurar a ajuda de quem estava mais perto.

Classe D – Olá, Classe C! Tudo bem? Você pode me explicar o que são os direitos humanos?

Classe C – Olha, pelo que sei, é um grupo de gente à toa que adora gritar quando malandro apanha de polícia! Eles fazem muito barulho por nada. Quando a gente diz: “Se tá com pena, então leva pra casa”, eles enfiam o rabinho entre as pernas!

Classe D – Engraçado! Eu achava que eles serviam pra proteger gente que nem a gente!!!!!!

Classe C – Alto lá, meu caro amigo! Gente como a gente não. Só gente como você!

Classe D – Ué, mas você é humano também!!!!!

Classe C – Sim, mas agora já tenho apartamento próprio do Minha Casa Minha Vida. Meu filho entrou na universidade pela cota da escola pública e há muito tempo não preciso de esmola como Bolsa Família! Consegui prosperar e mais pra frente vou fazer minha primeira viagem de avião. Não é demais!?

Classe D – Puxa!!!! Você deve ser invejado. Será que algum dia também consigo?

Classe C – Veja bem, Classe D! Isso não é pro bico de todo mundo! Não pense que sou reacionária. Meu conselho é pra você ficar quietinha no seu canto! Não incomode ninguém e esquece esse troço de direitos humanos. Isso é coisa de baderneiro, viu? É só você aparecer de quatro em quatro anos e ganhar aquele abraço ou um aperto de mão sincero e tudo acaba bem! Não coloque caraminholas na cabeça!

Classe D – Ah tá!!!

Moral da história: antes ele do que eu; quem não chora não mama; em terra de cego quem tem olho é rei; o mundo é dos espertos; Deus não dá asas à cobra; diz com quem você anda que te direi quem você é; quem avisa amigo é; pau que nasce torto morre torto; para quem sabe ler, pingo é letra; Deus dá o frio conforme o cobertor; a corda sempre arrebenta do lado mais fraco; para quem é, bacalhau basta; manda quem pode, obedece quem tem juízo; em boca fechada não entra mosca e, por último, o que os olhos não veem, o coração não sente!

Marcos Araújo