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Sem chances

Sem chances

Valdinei tinha 20 anos quando seu corpo franzino foi encontrado com sete marcas de tiros, numa banca de areia no Rio Paraibuna, na altura do Bairro Industrial, na Zona Norte. A morte do rapaz foi noticiada num canto de página. Era só mais uma nas estatísticas que não paravam de crescer. Assassinatos de jovens negros não despertavam interesse. Enquanto se matavam entre si a sociedade ignorava. Mas o que jornal não sabia, nem teve vontade de apurar era que, naquele dia, Valdinei fora pai pela primeira vez.

Dez horas antes de morrer, Juliana, uma adolescente que ele conheceu numa festa funk, havia dado à luz uma menina. O nome escolhido para a neném foi Edilaine, uma homenagem a Edilson e Elaine, pais de Valdinei mortos em uma tragédia familiar. O rapaz foi criado pela avó depois que o pai fora preso por assassinar sua mãe, quando tinha pouco mais de um ano. A violência doméstica é algo comum em ambientes regados a álcool, drogas e falta de dinheiro.

Valdinei sempre pareceu ser um bom menino enquanto estava crescendo. Não sonhava em ser advogado, engenheiro, médico ou outra carreira que necessitasse de diploma universitário. Como os outros garotos da rua, queria ser jogador de futebol. Mas, quando fez 14 anos, a vontade de ter algo maior do que aquilo que sua avó podia comprar, fê-lo desvirtuar do caminho. Na hierarquia do tráfico só não foi dono de “boca”.

Astuto, mudava de função rapidamente. Agora, tinha a responsabilidade de guardar a droga e distribuí-la. Naquele dia, que seria o seu derradeiro, depois que deixou mulher e filha na maternidade, Valdinei voltava para casa a fim de fazer seu último “corre”.

Com o dinheiro do serviço, compraria um berço para o bebê e mudaria de vida. Almejava ser honesto, arrumar trabalho e ser o pai que nunca tivera. Estava cansado da vida louca no crime! Todavia, no meio do caminho, foi interceptado, na subida do morro, por dois homens ocupantes de uma motocicleta. A dupla pertencia a um grupo rival que há tempos cobiçava o ponto de venda de cocaína. Aquele que estava na garupa da moto sacou um revólver da cintura e fez vários disparos na direção de Valdinei.

Quando o primeiro tiro rasgou sua pele e atravessou sua região torácica, ele sentiu um gosto amargo na boca e um frio absoluto invadir sua carne. O rosto de sua filha surgiu na sua frente antes de seus olhos se fecharem. Seu corpo foi recolhido e jogado no porta-malas do carro que dava cobertura aos motoqueiros. Na calada da noite, seu cadáver foi desovado às margens do Paraibuna, que, junto com as capivaras, testemunhou o crime, uma vez que, na rua onde os disparos foram efetuados, o medo fazia dos moradores cegos, surdos e mudos. Valdinei não teve chance de ser pai, de se redimir, nem de ser manchete de jornal. Edilaine perdeu sua chance de ter pai.

Marcos Araújo

Clara, como assim?

Clara, como assim?

Clara tinha oito anos quando ganhou um bambolê de presente de sua mãe. A menina, que encantada ficou, nunca mais parou de rodar e rebolar. Cintura, pescoço, braços e pernas. Seu corpo inteiro rodava e rebolava. Clara cresceu, rodando e rebolando sem parar. Procurou uma escola de circo. Pronto! Encontrou um jeito adulto de manter seu bambolear. Passou a se apresentar em festas e eventos. Que vida bacana! “Essa era uma forma de me sustentar, rodar e rebolar!”, pensava ela com alegria.

Sempre com um quê de moderninha e queridinha. Clara era livre. Daquelas a bradar: corpo meu, minha lei! Cansada das imposições da cultura da beleza, deixou crescer pelos no sovaco. Uma rala penugem, que quase não chamava atenção. Estava feliz consigo mesma! Sentia-se libertada. Depilação nunca mais!

Certa vez, ao se apresentar, quando levantava os braços para rodar e rebolar, ouviu: “porca!”, gritou incomodado um misógino barbudo da plateia ao ver os pelos na axila de Clara. “Sua mãe não te ensinou a fazer sua higiene não?”, berrou uma preconceituosa. “Que falta de vergonha uma mulher com sovaco cabeludo!”, escandalizou- se uma conservadora. “Tá querendo ser homem?”, inquiriu um machista.

Assustada com tanta agressividade, cabisbaixa recolheu seu bambolê e parou de rodar e rebolar. Arrasada, não sabia como juntar seus cacos. Ficou despedaçada!. Deixou de sair de casa. Porém, quanto mais o tempo passava, mais aumentava a vontade de rodar e rebolar. Depois de muita insistência, Clara se permitiu voltar a se apresentar, rodar e rebolar. A plateia era formada, na maioria, por meninas.

Vocês deveriam saber que vocês são lindas do jeito que vocês são!, disse Clara antes de começar a rodar e rebolar. Naquele instante, ela entendeu que jamais deixaria de rodar e rebolar. A partir dali, cada apresentação sua seria para dizer aos outros que cada um pode ser o que quiser e ser feliz da maneira que desejar. Ela seguiria pela vida a rodar e rebolar, rodar e rebolar, rodar e rebolar…

Marcos Araújo

Paçoca

Paçoca

Ele vivia na rua há quase doze anos. Já tinha perdido suas referências familiares se é que algum dia as tivera. Estava com 38 anos. Cara encovada, pele enrugada, esperança quebrada. Lembrava que havia sido pai, mas só viu a menina uma única vez. Era uma lembrança vaga, que já não valia a pena. Mas apresentava um sorriso no olhar, quando, quase raramente, a memória insistia em lembrar-se da criança. Era o que lhe restava de humanidade. Costumava, nos últimos tempos, ter seu canto debaixo do viaduto Ramirez Gonzalez, na Zona Norte.

Estava acostumado a sobreviver com pouco. Um pedaço de pão, tão duro às vezes que era necessário roê-lo. Para tanto, usava cinco dentes que lhe sobravam na boca e ainda era preciso ter cuidado para não atiçar algum nervo exposto. A dor infernal, quando aparecia, era curada com cachaça, cuja garrafa, nunca vazia, estava sempre colada ao corpo. Havia sempre um trago pras horas de maior fome, quando batia o desespero! Depois o delírio! Para se deitar, um bom papelão retirado do lixo de supermercado. Era como forrava sua cama de cimento.

Sua companhia de todas as horas era uma cadelinha. Paçoca foi o nome escolhido para a parceira. Fiel, a cachorra deixava acesa no interior daquele homem ainda algo de sensibilidade. Ela mantinha o coração dele aquecido da frieza do mundo. Uma vez quiseram levá-lo para um abrigo, mas sem Paçoca. Não aceitavam animais. Preferiu então ficar na rua.

Para ganhar trocado, ele percorria as ruas puxando carrocinha à cata de material que pudesse ser vendido no ferro velho. A maioria das pessoas não sabe que lixo tem valor! Nessa sua busca, percebeu que, há muito, sua presença não era notada. Olhares alheios evitavam cruzar com os dele. Sou o homem invisível!, costumava pensar.

Certo dia, ao passar em frente a uma casa. Surpresa! Uma senhora pediu para que ele esperasse.

— Que tristeza de situação! Deve estar com muita fome! — concluiu a mulher.

Ela entrou como se fosse buscar algo para alimentá-lo. Ele vislumbrou que, depois de muitos dias, iria comer comida de verdade. Sua boca se encheu de água. Ao retornar, a senhora entregou um saco de punhado de ração.

— Sua cachorrinha está muito magra! Você precisa dar a ela o que comer todos os dias! — disse a moradora da casa em tom de advertência.

Apesar da ternura que sentia por Paçoca, naquele instante, ao ter sua fome ignorada, sua existência desinteressada, o homem experimentou, junto com a sensação de barriga vazia, a mais terrível dor de sua invisibilidade. Desta vez, foi ele que quis desviar seu olhar!

Marcos Araújo