Category Archives: Marcos Araújo

Pássaro sem pouso

Pássaro sem pouso

O repórter deixou a redação com a incumbência de trazer para o jornal uma reportagem sobre moradores de rua.  O editor havia recebido uma denúncia. Na rua tal, num bairro de classe média, os residentes não sabiam mais o que fazer para afastar aqueles novos vizinhos tão indigestos. 

Pardos, maltrapilhos, mal cheirosos, às vezes desbocados, eles emporcalhavam a via pública. Maculavam o endereço nobre. Uma mulher, que não suportava mais abrir a janela e se deparar com barracas de papelão, vasilhames espalhados e cobertores pendurados em muros alheios, já havia batido de porta em porta, reivindicando a cada morador da rua (estes sim eram de verdade os donos do lugar e não os outros, os moradores de rua) que não dessem o que comer àquele bando de desocupados (na verdade ela os chamava de vagabundos, mas, para manter a classe diante dos vizinhos, achava chique usar eufemismos). 

“Sem comida pra eles é claro que vão embora”, raciocinava a mulher, que, de tão seca, esquecera que solidariedade é um compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas. 

Ao chegar ao local, o jornalista teve receio. Seria hostilizado pelos moradores de rua? Escondeu seu relógio e celular no bolso da calça. Pensou em abordar os mendigos, oferecendo dinheiro para afastar qualquer possibilidade de ataque. Sentiu vergonha de pensar assim. “Cadê minha humanidade?”, advertiu-se. 

Mas não foi preciso tática  especial. O gelo foi quebrado por meio de um assovio. Do banco da pracinha, um mendigo, de sorriso quase vazio, chamou o repórter. Contou que, depois de receber o que comer, solidariamente, de alguns moradores, arrumava seus pertences, que não eram muitos, e passava o dia na praça. Quando estava muito frio ou chovendo, ele se mudava para debaixo de uma marquise. 

Ele já não se lembrava mais há quantos anos vivia nas ruas. A memória era falha, mas disse que viera da roça. “Minha família nunca teve casa própria. Éramos muito pobres. Por isso, não tenho para onde voltar”, relatou. Ele ainda contou que já estivera em abrigos da Prefeitura, mas não gostou. “Eles proíbem a gente de passear e eu adoro passear”, ressaltou, lembrando que não era escravo das horas. “Mas um pássaro sem pouso e desapegado”. O jornalista voltou ao jornal e, no lugar da reportagem, entregou ao seu editor uma poesia sobre a liberdade!

Marcos Araújo

O crime da meia kendall

O crime da meia kendall

Ela acendeu um Derby. Sob a luz da lâmpada de vapor de sódio, dava para ver que usava bustiê prata, short rosa e salto alto vermelho. Não era bonita, nem feia. Para o gasto, como dizem os seres estúpidos. Ela tinha o suficiente para despertar a cobiça dos homens e a maledicência das mulheres. A presença dela naquela esquina era quase mística. Não tinha vergonha de exercer a profissão conhecida como a mais antiga do mundo. Estava na vida, porque, além da dela, tinha outra boca para alimentar em casa: uma filha de cinco anos. 

Ao longo de sua parca existência não teve oportunidade de aprender outro ofício. Mas estava apaixonada. Seis meses de cliente fixo até surgir a proposta de tirá-la do meretrício. Casamento! O rapaz não possuía bens, porém era dotado de ciúme que beirava a violência. 

Quando a madrugada se rompia, ela não suspeitava do destino que lhe seria imposto. Só pensava em completar a féria. Ao começar outro cigarro, alguém chegou…

A jovem não teve tempo de pedir clemência. Ao amanhecer, seu corpo foi localizado em um terreno aberto, debaixo da carroceria de um caminhão. De acordo com a Polícia Militar, o lugar era utilizado como ponto de prostituição e de uso de drogas. Foi atingida por golpes de pedra na cabeça. Misericórdia! Seu rosto perdeu as feições. Ao lado do cadáver, camisinhas usadas. Há a hipótese de que ela tenha sido vítima de violência sexual. O short estava na altura dos joelhos. Além da possível motivação passional para o crime, a polícia ventilou à imprensa uma possível dívida de drogas. 

Um detalhe chamou a atenção de jornalistas que cobriram o crime: a jovem usava uma meia-calça, que deixava suas pernas ainda mais belas. Nunca se soube a verdadeira identidade do autor de tal atrocidade, apesar das especulações. Sendo a vítima uma pobre diaba, o inquérito ficou engavetado e conhecido como o misterioso crime da meia kendall, imortalizando-a.

Marcos Araújo

Catarse

Catarse

Ele vivia deprimido. O sono só vinha à base de antidepressivos, depois de, resistentemente, apagar a tela luminosa. Até que se deu conta de que desperdiçava tempo demais na internet. Sem reparar como havia acontecido, tinha se afastado da família e dos amigos. Uma lástima!

Percebeu que há muito tempo não sentia o ardor do sol sobre a pele, a brisa ao andar de bicicleta, a alegria de bater papo na calçada de casa até tarde da noite, a boa companhia de um livro. Havia se perdido!

Tomou consciência de que aquela vida on-line jogada na sua cara e na das outras pessoas era rasa demais. Exposição de futilidades, ostentações e arrogâncias. Decidiu-se: excluiu sua conta do Facebook.

Desde então os emojis viraram emoções reais. Os likes, abraços apertados. Cada post, afeto a ser partilhado.

Reencontrou-se! Fluoxetina, Paroxetina, Citalopram, Escitalopram e Sertralin. Todos desceram pela privada! O sono voltou a chegar, mansinho, a cada página virada.

Marcos Araújo