Category Archives: Marcos Araújo

Pai de quarentena

Pai de quarentena

– Pai, estou com fome.
– Lave seu rosto.
– Já tomou o seu café da manhã?
– Pai, me empresta o celular?
– Hoje, quero ver um filme de comédia!
– Já está na hora da aula on-line?
– Ainda não.
– E o dever de casa?
– Você me ajuda?
– Pai, estou com fome.
– Já arrumou sua cama?
– Vem almoçar.
– Pai, me empresta o celular?
– Só depois que escovar os dentes.
– Pai, quero falar com a vovó.
– Pai, estou com fome.
– Mas você acabou de almoçar!
– Pai, me empresta o celular?
– Liga o computador. Já está na hora da aula.
– Pai, brinca comigo?
– Vamos jogar adedanha?
– A-de-da-nha!!!!!!!
– F
– Fiona
– Flora
– Florianópolis
– Finlândia
– Ferrari
– Fusquinha
– Figo
– Framboesa
– “Faça a coisa certa”
– “Fala sério, mãe!”
– Foca
– Filhote
– Isso não vale!
– Pai, estou com fome.
– Não gosto de café com leite!
– Pai, vamos brincar?
– De novo? Deixa para amanhã!
– Pai, me empresta o celular?
– Descarregou.
– Pai, enche o pneu da minha bicicleta
– Amanhã.
– Pai, estou com fome.
– Já?
– Não gosto de novela.
– Pai, me empresta o celular?
– Está na hora de dormir.
– Ah, pai!!!
– Posso deixar a luz acesa?
– Pra quê?
– Vou ler um pouco!
– Beijo?
– Smack!!!
-Te amo!
– Também!
– Zzzzzzzz
– Bom dia!
– Pai, estou com fome.

Marcos Araújo

Acróstico

Acróstico

Bronco
Ordinário
Laranja
Sinistro
Opróbrio
Nefasto
Abrutalhado
Repugnante
Odioso

Palavras retiradas do dicionário pelo moço arrependido, para nomear aquele que agora considerava inominável. Já não conseguia pronunciá-lo e começou a renegá-lo!! Bradava aos conhecidos que não era “vaca de presépio”. Passara a madrugada à procura de sinônimos. Olhos de insônia, arregalados, medrosos!!! Sentia-se cego também, pois havia percebido que nunca prestara, de fato, a atenção nos sinais que estavam ao seu redor.  Muitos tentaram lhe avisar, mas ele preferiu tapar os ouvidos. Muitos lhe falaram sobre a necessidade de estudar, pesquisar, analisar, comparar, mas ele só pensou que já sabia o bastante. Agora descobria que, se tivesse lido o suficiente anteriormente e conhecesse mais sinônimos, talvez não estivesse mergulhado em meio a

Contrição
Úlcera
Lamentação
Penitência
Arrependimento

Marcos Araújo

Depois que conheci Marina Colasanti

Depois que conheci Marina Colasanti

Habituamo-nos ao não, à cara fechada dos colegas de trabalho, às humilhações e aos sapos que nos fazem regurgitar de tanto engoli-los. Assim, aumenta nosso medo da exposição e deixamos morrer o que há de criativo em nós.

Habituamo-nos aos sonhos não realizados, substituídos, esquecidos, e somos obrigados a lidar no dia a dia com as nossas frustrações e as dos outros.

Habituamo-nos à  infelicidade, sim, porque ser feliz, às vezes, é mais difícil. Habituamo-nos a nos propor uma meta. Esforçamo-nos para cumpri-la e, quando chega a hora de gozar da satisfação de tê-la cumprido, já não serve mais, porque existe outra a alcançar imposta pela fabricação de desejos da sociedade capitalista.

Habituamo-nos à fila quilométrica das agências bancárias e à  superlotação do transporte público. Dessa maneira, habituamo-nos à falta de gentileza, à  delicadeza perdida e à humanidade que, cada vez mais, nos escapa.

Habituamo-nos ao trânsito engarrafado, à  buzina indesejada e à fumaça dos carburadores. Assim, deixamos de sentir a poluição, esquecendo-nos de que o monóxido de carbono prejudica nosso sistema respiratório e cardiovascular.

Habituamo-nos ao garoto vendendo bala no semáforo, a fechar o vidro quando ele se aproxima e, assim, fazemos de conta que nossa infância não vem sendo roubada.

Habituamo-nos ao mendigo pedindo comida na rua e a ignorar sua presença, porque assim fica mais fácil suportar nossa falta de solidariedade.

Habituamo-nos à ostentação e à superficialidade das amizades nas redes sociais, que crescem, proporcionalmente, a cada oferta de like sem perceber que, ao mesmo tempo, recrudesce nossa sensação de solidão.

Habituamo-nos, nós sabemos, mas não devíamos. Habituamo-nos para doer menos nossas feridas, mas não devíamos. Habituamo-nos a baixar a cabeça, mas não devíamos. A comer depressa sem saborear o alimento, mas não devíamos. A enxergar a vida passar tão rápido, mas não devíamos. A não dar um beijo ou um abraço, mas não devíamos. A não dizer eu te amo, mas não devíamos. A não resistir, mesmo que fosse preciso. Habituamo-nos, mas não devíamos.

Marcos Araújo