Category Archives: Mariana Virgílio

Se tirar o que define sobra o coração.

Hospital

Hospital

A primeira vez que entrou no hospital foi quando nasceu, coisa que sua memória não tinha registrado. Depois, passou toda a infância observando aquele prédio bonito que ficava no alto do morro e a juventude acompanhando os parentes que lá iam quando tinham algo de que se queixar: estava presente nas dores nas costas da mãe, levou a irmã em todas as suas crises de enxaqueca e a tia em todos os porres pós-churrasco. Era a acompanhante profissional. 

Lá, enquanto esperava, descobria primeiro quem nasceu e quem morreu, ouvia as histórias paralelas dos corredores e as brigas de família que terminavam com algum deles deitado ali, na sala de observação perto dela.

Quando chegou a hora de escolher sua profissão não teve dúvidas: virou escritora. E toda semana sentava-se na recepção para conhecer novas histórias.

Mariana Virgílio

 

Autópsia

Autópsia

O turno havia começado e nesse dia, em especial, a encomenda parecia grande. Era hora da autópsia. Muitos criticavam seu emprego, mas ninguém sabia o quanto ele adorava cada parte. Exigia muita concentração, pois, assim que desse o primeiro corte, seria transportado para uma nova história.

Começou pelo cérebro, já em avançado estágio de decomposição (desconfiou que o processo tivera início ainda em vida, devido ao grande uso). Nele, além das poucas lembranças que restavam, estavam as fórmulas que criou no trabalho e as frases memoráveis, já patenteadas e em grande sucesso.

Na boca, ainda restava o gosto do último beijo, misturado com o cheiro forte de vinho, café e cigarro. Dos quatro cheiros, não foi possível distinguir qual o havia matado primeiro.

O coração permanecia bonito. Como algo bem cuidado em vida (ou pouco usado) e ainda quente, resquícios de um uso recente.

Mas era no estômago que teve a maior surpresa: ali, misturado com a ansiedade e nervosismos dos dias ruins, estavam, ainda vivas, as borboletas do primeiro e último amor.

Mariana Virgílio

Ano novo, remédios novos

Ano novo, remédios novos

Desde que descobriu a passagem de ano como um momento de pedir boas vibrações para o que se inicia, decidiu também pedir a cura para a suas doenças.

Aos 15 anos pediu para a dor de amor, que a afetou quando seu par escolheu outra dama para o baile de debutantes.

Aos 16, suas borboletas no estômago se transformaram em gastrite, e foi por ela que a menina pulou as sete ondinhas no mar.

Aos 17, pediu pelas dores de cabeça, causadas por golpes muito pesados, disfarçados de palavras que ela mal sabia pronunciar.

Na virada para os 18, arriscou-se mais, e pediu a cura para a doença chamada “falta de esperança”.

— E tem cura isso?

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7.

Espero que sim, pensou.

Mariana Virgílio