Category Archives: Mariana Virgílio

Se tirar o que define sobra o coração.

Diagnóstico: infância

Diagnóstico: infância

No verão ela e a irmã tinham a brincadeira preferida: piscina. Mas dentro da piscina tinha algo especial, elas eram sereias. Como era a mais nova, a irmã mais velha se encarregava de montar o plano. Eram sereias que precisavam desbravar o fundo mar. Tinham grandes desafios, descobriam grandes mistérios. Porém, como era a mais nova, a irmã pedia que ficasse na porta da caverna, cuidando da entrada, enquanto ela desbravava o local. Graça nenhuma ficar parada na ponta da caverna. Chorando, gritava a mãe:

– Manhêêêêêê, ela não quer me deixar entrar na caverna.

A mãe olhava a piscina de plástico rasa, com as duas irmãs que quase se encostavam. Sem caverna. Sem fundo do mar.

– Que que isso? Que besteira, chorando por algo que nem existe.

Não adiantava insistir. A mãe não entendia, já havia se curado da doença chamada infância.

Mariana Virgílio

 

Hospital

Hospital

A primeira vez que entrou no hospital foi quando nasceu, coisa que sua memória não tinha registrado. Depois, passou toda a infância observando aquele prédio bonito que ficava no alto do morro e a juventude acompanhando os parentes que lá iam quando tinham algo de que se queixar: estava presente nas dores nas costas da mãe, levou a irmã em todas as suas crises de enxaqueca e a tia em todos os porres pós-churrasco. Era a acompanhante profissional. 

Lá, enquanto esperava, descobria primeiro quem nasceu e quem morreu, ouvia as histórias paralelas dos corredores e as brigas de família que terminavam com algum deles deitado ali, na sala de observação perto dela.

Quando chegou a hora de escolher sua profissão não teve dúvidas: virou escritora. E toda semana sentava-se na recepção para conhecer novas histórias.

Mariana Virgílio

 

Autópsia

Autópsia

O turno havia começado e nesse dia, em especial, a encomenda parecia grande. Era hora da autópsia. Muitos criticavam seu emprego, mas ninguém sabia o quanto ele adorava cada parte. Exigia muita concentração, pois, assim que desse o primeiro corte, seria transportado para uma nova história.

Começou pelo cérebro, já em avançado estágio de decomposição (desconfiou que o processo tivera início ainda em vida, devido ao grande uso). Nele, além das poucas lembranças que restavam, estavam as fórmulas que criou no trabalho e as frases memoráveis, já patenteadas e em grande sucesso.

Na boca, ainda restava o gosto do último beijo, misturado com o cheiro forte de vinho, café e cigarro. Dos quatro cheiros, não foi possível distinguir qual o havia matado primeiro.

O coração permanecia bonito. Como algo bem cuidado em vida (ou pouco usado) e ainda quente, resquícios de um uso recente.

Mas era no estômago que teve a maior surpresa: ali, misturado com a ansiedade e nervosismos dos dias ruins, estavam, ainda vivas, as borboletas do primeiro e último amor.

Mariana Virgílio