Category Archives: Mariana Virgílio

Se tirar o que define sobra o coração.

Ano novo, remédios novos

Ano novo, remédios novos

Desde que descobriu a passagem de ano como um momento de pedir boas vibrações para o que se inicia, decidiu também pedir a cura para a suas doenças.

Aos 15 anos pediu para a dor de amor, que a afetou quando seu par escolheu outra dama para o baile de debutantes.

Aos 16, suas borboletas no estômago se transformaram em gastrite, e foi por ela que a menina pulou as sete ondinhas no mar.

Aos 17, pediu pelas dores de cabeça, causadas por golpes muito pesados, disfarçados de palavras que ela mal sabia pronunciar.

Na virada para os 18, arriscou-se mais, e pediu a cura para a doença chamada “falta de esperança”.

— E tem cura isso?

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7.

Espero que sim, pensou.

Mariana Virgílio

Ordem natural das coisas

Ordem natural das coisas

Sofria de um problema, antecipação. Mandava um currículo para vaga de emprego e logo depois chorava já pensando na demissão. No primeiro encontro romântico já fazia planos para o casamento. E quando o namorado lhe mandou a mensagem: “Precisamos conversar”, rapidamente mudou o status para solteira.

Tanto a família quanto seu psicólogo não entendiam de onde surgia essa antecipação das coisas. Aconselhavam de todas as maneiras possíveis, mas nada adiantava. Foi durante um café com a avó que esta descobriu o motivo: na hora de se servir, a menina colocava o açúcar antes do café.

Mariana Virgílio

Nervosismo sim

Nervosismo sim

– Se joga – ele sussurrava.

Toda vez acontecia isso. Ela travava de tal maneira que não conseguia controlar as ações de seu corpo. A perna bambeava, a mão suava, a barriga doía e a boca tremia.

– Impossível Maria – dizia seu diretor. – Trinta anos que você faz teatro e em toda estreia acontece isso com você.

Nunca deixara de fazer uma peça, nem nunca causou um atraso. Quando tocava o terceiro sinal, fazia tudo perfeito. Mas as duas horas que antecediam este momento eram marcadas por puro nervosismo.

De tanto o diretor brigar, procurou um analista. E apelou até para certos artifícios da medicina tradicional.

Resolveu. Nunca mais se sentiu nervosa.

Mas também nunca mais subiu em um palco.

Com a falta de ansiedade, faltou também o encanto. E o compromisso. Atrasou-se, cansou-se, errou e levou bronca. O nervosismo transferiu-se para as duas horas que antecediam seu momento de dormir.

Mariana Virgílio