Category Archives: Elena Duarte

Liberdade de ser.

Aterrissagem 

Aterrissagem 

Da janela ela acompanhava o entardecer pintando cores e luzes no horizonte.

Viu um lindo colchão de nuvens gorduchas se formando logo abaixo do avião. Se elevando junto ao horizonte, outras nuvens, essas mais pontudas, formavam um relevo semelhante a uma cordilheira de altas montanhas. Entre a cordilheira e o colchão de nuvens ela viu surgir um lindo lago suspenso que refletia as montanhas e as luzes daquele sol que corria para se esconder depois de um longo dia de trabalho. O avião faz uma leve curva, inclinando sua janela sobre a imensidão azulada de nuvens. O lago então virou mar, as nuvens se fizeram grandes ondas e ela ficou ali, navegando ao balanço daquelas vagas aéreas, tentando imaginar como seriam as pessoas que moravam nos altos castelos que apontavam sobre aquelas montanhas no horizonte depois do vasto oceano. O avião faz mais uma curva e mergulha oceano adentro. Ela prende a respiração para não se afogar nas águas profundas, fecha os olhos e se deixa submergir ao encontro de grandes baleias, lindas arraias e muitos peixes coloridos.

Segundos depois o avião pousa na pista, o piloto repete a mensagem de sempre — dando boas-vindas à terra firme. Ela abre lentamente os olhos, solta o ar que havia prendido, toma novo fôlego… e dá boas-vindas à realidade.

Elena Duarte

Causa mortis

Causa mortis

Primeiro veio a dor no peito. Sem explicação, sem aviso, uma pressão aguda, dor de faca cortando a fina pele da vida.

Depois veio a falta de ar e a tosse. Nada parecia passar pela sua garganta. Palavras não conseguiam atravessar as fronteiras da traqueia. Ficavam presas em um grito surdo dentro do pulmão.

Resolveu que já era hora de procurar um médico. Depois de muitos exames, veio a conversa desconcertante.

– Você está saudável!

– Como assim, doutor? E tudo isso que eu estou sentido?

O doutor parecia incomodado com a resposta que daria em seguida.

– A medicina tradicional não explica. Seus exames não apresentaram nenhuma alteração.

Saiu da sala sem saber o que fazer. Procurou outros médicos, de várias especialidades, e nenhum deles parecia ter a resposta para seus sintomas.

Até que um dia a dor no coração ficou mais aguda, a falta de ar nos pulmões mais densa, e sua vida se foi.

O legista, que já estava cansado de ver casos como aquele chegando dia após dia para sua avaliação, escreveu entediado no atestado de óbito:

Causa mortis: coração entupido por emoções reprimidas e pulmão sufocado por palavras não ditas.

Elena Duarte

Começar de novo

Começar de novo

Todo dia era um novo começo! Era disso que ela gostava! De começar! Mas não gostava da sensação de terminar algo. Tinha um quê de despedida e ela não gostava de despedidas. Por isso começou a evitar terminar qualquer coisa que começava.

Primeiro decidiu que não queria se despedir das personagens das histórias que lia, então não terminava os livros. Se despedir de um filme, ou novela então, impensável!! Ficavam pela metade e ela seguia criando infinidades de novas situações para jamais deixar terminar a trama em sua mente.

Depois começou a ficar com indigestão de terminar o prato do almoço, a caixa de bombons, o sorvete da tarde de domingo. Como acostumar com o ultimo gostinho de algo que foi tão bom?!

Aí percebeu que não conseguia terminar uma conversa, um telefonema. Passou a levantar e ir embora quando sentia que o papo estava acabando. No telefone, simplesmente desligava. Os amigos começaram a achar que ela estava estranha, ou que a ligação havia caído.

Começou a ficar obsessiva com começos. Começar era muito bom, parar antes do fim era o êxtase. E sua vida começou a acumular coisas inacabadas. Balas pela metade, contas meio pagas, palavras meio ditas, sonos interrompidos.

Até que um dia se pegou não querendo terminar um suspiro com medo de perder a poesia daquele começo de fim de tarde.

Prendeu o ar.

Parou o tempo.

Elena Duarte