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Doente por tudo aquilo que sempre se torna pessoal.

Lacônico retrospecto

Lacônico retrospecto

Foi numa mesa de bar que a proposta surgiu, prescrita de maneira decisiva. Gostariam de um terceiro integrante para a lida. Aceitou aquele bilhete premiado. Partiu leve, sem qualquer bagagem. E se descobriu realmente pertencente àquele maquinário desconhecido e repleto de possibilidades.

O trem pode ter começado devagarzinho, vagamente. No entanto, ele vai sempre acelerar. É a ordem natural da vida. Cabe a você aproveitar o prazer do cansaço da viagem e o êxtase em descobrir conhecimentos e emoções diferentes, inimagináveis. Também deve apreciar os sacolejos e o mal estar do percurso, afinal os trilhos são feitos de pedras.

Parar o trem quando se quer ou acha ser preciso não são opções. Não deve ser uma escolha de uma pessoa só. Outros contam com as futuras chegadas e o intercâmbio de ideias. O coletivo ainda fala mais alto que as linhas individuais de ação. Apesar de ter acumulado bagagens, experiências, expectativas e mais planos de viagens, o sentimento de recuo, ou melhor, a necessidade de uma manobra drástica torna-se cada vez mais palpável e sinalizadora.

Ou você desce de numa estação quando tudo está parado, pronto para chorosas despedidas. Ou pula.

É um rompimento digno de nascimento o salto para o desconhecido, quando se deixa um mundo de possibilidades pra trás em prol de uma terra segura e estática. Às vezes queremos o simples. Às vezes ansiamos pelo leve. Cansa só esperar. Se já é difícil aguardar para quem não faz nada ou fica esperando na janela vendo o trem passar, imagina pra quem é atuante, chora e solta suor pela causa.

Pensar e refletir não vão adiantar de nada, tem horas que a racionalidade não explica porque o vagão deveria descarrilhar, mas não o fez, nem a razão de haver um desmoronamento quando todo o arrimo era tão seguro. Então, a coragem, a propulsão, o salto e o voo irrompem da mesma maneira como a explosão de uma montanha para se criar novos caminhos.

O que fica depois, não se sabe ainda. Um dia as palavras retornam para narrar, porque atualmente a aterrissagem está praticamente prolongada no tempo.

José Eduardo Brum

Alguma vitória

Alguma vitória

O pedaço de pau foi batido três vezes em cima da bancada. Meu formigamento da língua perdeu a relevância. Nem grosso, nem fino, nem completamente torto ou reto, era dourado e branco. Apontava para dois homens que conversavam intimamente:

– Dá pra parar? – o dono do bar olhava para mim, como se eu fosse o único expectador. – Eles já se beijaram duas vezes aqui. Isso não é lugar.

Pedi outra dose de cachaça. Quanto mais bebesse, quem sabe, menos transpareceria o que sou:

– Aquele dali também é. – o pau sentenciou outro fanfarrão. – Ele apanha direto na rua.

Queria ter perguntado se ele realmente bateria ou batera naqueles homens. No lugar, virei meu copo. O formigamento atingiu o corpo todo.

Do meu lado, um garoto de cabelos cacheados, brinco no nariz, piercings na orelha, usando um conjunto de bermuda e camiseta, que mais parecia um vestido, pediu uma bebida quente. Sorriu e pechinchou para ganhar mais pagando menos:

– Vai ter show hoje? – o dono do bar deixava-se seduzir. – Não sabia que você tinha um gato tatuado na panturrilha.

Nitidamente, outro pau apontava para o andrógino. Me concentrei na música. Tocava Elton, num ritmo agitado. Todos balançavam, felizes, rindo e bebendo. Pelo menos, a vitória musical nós alcançamos.

José Eduardo Brum

Rompida

Rompida

Foram três chamados até perceber. Boa de ouvido, achou que viessem do lava jato ao lado. Não imaginava que o próprio quarto tinha virado um:

– Senhora, me ajuda. Segure aqui. Firma com o pano aqui pra não espirrar muito. – era irônico. O jato chegara a atingir a janela na outra extremidade, teto, cama, aparelhos eletrônicos. O seu anjo da guarda deveria ser fashion e estudioso, pois nem os livros, nem o guarda-roupa foram golpeados.

A contragosto, tomou o lugar do bombeiro hidráulico que foi até o 18º andar para desligar registro. Seu apartamento era 501. Espirrando como cascata, inundando quarto, corredor, sala, banheiro, a água não era pura, carregava detritos de tijolo que marcavam as paredes, o chão e ela mesma. Sem ver, achava que a pele era arranhada por onde o fluido escorria.

De repente, percebeu que a máquina de quebrar parede permanecia ligada à tomada, uma ilha de ferro quente, envolta em água nervosa. Moveu-se para desligar e voltou. Tinha medo do choque. Largou o lugar de novo e retornou rapidamente. A pressão, sem as mãos e o pano, faziam com que o volume se espalhasse mais.

Então, abstraiu do perigo que não era abstrato. Imaginava-se recebendo uma descarga, o corpo rodopiando, os cabelos em fumaças, a inanição. Fechou os olhos. A adrenalina era boa apesar do risco de morte. Pelo menos, ganharia páginas de jornal. A família iria criar uma memória afetiva de lembrança. Não mais prazos, não mais correrias, não mais obrigação. Apenas o breu.

Foram três chamados até abrir os olhos. Desligada de ouvido, achou que viessem de Deus, de São Pedro ou do anjo da guarda. Rapidamente, largou os braços e panos:

– Senhora, quem vai te ajudar a secar isso tudo? – o bombeiro hidráulico reparecera. – Tenho outro compromisso. Vai dar um trabalhão puxar essa água toda.

Com gosto, ela vazou dali.

José Eduardo Brum